Mostrando postagens com marcador Cérebro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cérebro. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Mente vazia



Sempre li sobre o “branco” que eventualmente acomete a mente criativa do escritor de modo que ele nada consegue escrever em certas ocasiões. Alguns costumam chamar essa síndrome de “pavor do papel em branco” ou crise de ideias originais. Não sou escritor, não tenho pretensão de me igualar a essas mentes privilegiadas, mas também estou passando por um período de seca, não consigo extrair nada de novo de meu cérebro e colocar em palavras. Normalmente consigo escrever num ritmo de tal sorte que costumo ter “em estoque” cerca de dez ou doze textos prontos para serem publicados. Esse modus operandi visa garantir que em períodos moderados de seca eu possa publicar alguma coisa até que me venham as ideias novamente.  Pois é, alguns dias se passaram desde que esgotei meu estoque de textos e nada que se aproveite surgiu ainda. Parece que estou com a mente oca, passo os dias assistindo as Olimpíadas e nada me ocorre. Devo dizer que meus melhores textos sempre vêm de um estímulo qualquer através da leitura, normalmente de livros. Até isso está me faltando, nada leio há dias, os livros estão se acumulando e não encontro vontade de abri-los, assim, acabo olhando para as paredes com a mente vazia. Meu cérebro está totalmente em branco e não vejo saída, quem souber de alguma fórmula que consiga ativar mentes congeladas, por favor, me socorra, me tire deste constrangedor limbo literário, não vejo luz alguma no fim do túnel. JAIR, Floripa, 09/08/12. 

terça-feira, 29 de maio de 2012

Cérebro e mente


Descartes, matemático, físico e pensador francês, em suas obras instituiu o conceito que mente e cérebro são coisas separadas, constituídos de matérias distintas e regidos por leis distintas. Sendo o cérebro uma espécie de hardware, um disco rígido que contém toda a memória e os circuitos que permitem processar os sinais externos e transformá-los em ações ou outros pensamentos, e regido pelas leis da física. Já a mente seria algo etéreo que não ocupa espaço nem obedece as leis da física. Ou seja, algo não tocável, algo impossível de ser contactado pela ciência ou algo que possa ser localizado no cérebro. E essas “leis” da separação entre cérebro e mente vigiram por quatrocentos anos enquanto a ciência, pacificamente, aceitou o conceito proposto por Descartes.
Já no século dezenove, a medicina mapeou toscamente o cérebro e determinou categoricamente que ele era composto por “zonas” funcionais e que estas correspondiam rigidamente a partes, órgãos ou membros do corpo, esse conceito foi chamado de localizacionismo. Assim, se houvesse lesão na zona correspondente à mão direita, por exemplo, esta deixava de funcionar. Ainda mais, definiu-se que o cérebro era uma “caixa preta” que não se regenera, sendo que depois que completa seu crescimento aos seis anos de idade, torna-se uno e acabado de forma a não sofrer transformações e adições, e passando a perder massa depois dos quarenta anos.
Corroborando o que já se aventara no século dezenove, no início do século vinte, o neuroanatomista e prêmio Nobel Santiago Ramón y Cajal aderiu à tese que o cérebro, ao contrário, de tecidos e órgãos, era incapaz de se regenerar. Dado a proeminência de quem falava ficou patente que essa era uma verdade incontestável. Sabia-se que milhões de neurônios morrem à medida que envelhecemos, enquanto outros órgãos constroem novos tecidos a partir de células tronco, e que essas células não eram encontráveis no cérebro. Segundo supunha-se, a explicação para essa ausência de células tronco se devia ao fato que o cérebro era ultra especializado e extremamente complexo de forma que perdeu a capacidade de produzir células de reposição. Supunham os cientistas que um “neurônio novo” não poderia assumir a função de outro já degradado em razão deste ter milhões de conexões com seus pares e constituir uma “peça” especializada que levou anos para se formar, daí ser impossível substituí-la, a “peça nova” ficaria sem função, algo assim como substituir um cientista falecido por uma criança sem qualquer noção. Ramón afirmou que num cérebro adulto as vias nervosas são fixas, concluídas e imutáveis. Os neurônios que morrem não podem ser substituídos e nada se regenera.
Só que em 1965, cientistas do MIT (Massachussetts Institute of Technology) descobriram células troncos nos cérebros de ratos. Chamaram sua descoberta de células tronco neuronais. Em 1980, ornitólogo Fernando Nottebohm, notou que certas aves canoras mudavam ou melhoravam seu repertório de cantos a cada primavera, e isso era intrigante. Feito a dissecação dos cérebros dessas aves ele notou que haviam adquirido novas células neuronais responsáveis pelo canto. Daí, outros cientistas, considerando que cérebros são cérebros, independente se são de aves ou de humanos, puseram-se a examinar cérebros de primatas e, como era esperado, encontraram as células-tronco neuronais já encontradas em ratos.
Com a continuação das pesquisas foram encontradas células-tronco neuronais ativas no bulbo olfativo, no septo e medula espinhal humanas. Essas descobertas estabeleceram que, ao contrário do que se admitia antes, o cérebro é plástico, ele tem capacidade de recuperação e reposição de massa perdida. A plasticidade substituiu, portanto, a rigidez até então admitida. Dissecações de cadáveres humanos recentes mostraram neurônios novos mesmo em doentes terminais de idade avançada. Era a prova definitiva que o cérebro tem capacidade de reposição de massa perdida.
Estudos mais recentes também derrubaram o localizacionismo, quando o cérebro perde alguma parte por acidente ou doença, outra zona, geralmente localizada nas proximidades, assume a função da área perdida. Existe um caso excepcional de uma mulher de Falls Church, Virginia, EUA, que nasceu só com a metade direita do cérebro e esta “assumiu” as funções do lóbulo esquerdo de forma que Michelle, esse é seu nome verdadeiro, hoje com quarenta anos, é uma pessoa quase normal com relação à inteligência, capacidade de ganhar a vida com seu trabalho e atividades do dia-a-dia, conseguiu até formar-se num curso superior.
Além dessas constatações, a ciência descobriu que nosso cérebro também se modifica a partir do uso, quanto mais o usamos mais ligações se constroem entre os neurônios. Isso quer dizer que, mesmo adultos e até idosos, têm seus cérebros modificados pela utilização. Nossa cultura modifica o cérebro tanto quanto este modifica a cultura. Homens de tempos anteriores à era industrial que não conheciam carros, aviões, foguetes espaciais e informática tinham um cérebro muito diferente (fisicamente) do nosso que somos obrigados a lidar com essas informações virtualmente novas. Em consequências dessas descobertas fica, portanto, abolido para sempre o conceito cartesiano da separação entre cérebro e mente. JAIR, Floripa, 26/05/12.     

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Sandices humanas





Se observarmos a natureza – e não precisa nem ser através de olhares científicos – uma coisa que salta aos olhos é a diversidade de formas dos corpos dos animais (óbvio demais) e a relação da forma com a classificação do animal dentro do reino. Assim, mamíferos quase sempre têm quatro membros, insetos sempre têm seis membros, aves sempre têm duas pernas, por exemplo. Claro, não só o número de membros relaciona-se com o animal do qual falamos, outras características anatômicas também são notáveis: mamíferos não têm asas exceto os morcegos; peixes não têm sangue quente exceto os atuns, e por aí vai.
Dentre os mamíferos, aquele que mais nos chama atenção e que mais nos preocupa é o Homo sapiens, por razões mais que naturais. Esse complexo bicho – não mais complexo que o rato ou o ornitorrinco – é classificado segundo Lineu como: Domínio - Eucarionte - Os eucariotas são os organismos vivos unicelulares ou pluricelulares constituídos por células dotadas de núcleo, distinguindo-se dos procariotas, cujas células são desprovidas de um núcleo bem diferenciado; Reino – Animal – Também chamado Animália, o reino animal é composto por seres vivos pluricelulares, heterotróficos, cujas células formam tecidos biológicos, com capacidade de responder ao ambiente que os envolve ou, por outras palavras, pelos animais; Filo – Cordato; Classe – Mamífero; Ordem – primata; Família – Homideo; Gênero – Homo; Espécie – Homo sapiens. Havendo quem ainda classifique o bípede falante como uma subespécie, sapiens sapiens, o que não é muito sapiens por parte de quem assim pensa, pois para existir um duplo sapiens deveria existir um sapiens simples diferente de nós, o que não acontece. Somos os únicos sapiens que se conhece.
Pois bem, aqui está esse primo chegado de primatas arbóreos como o chimpanzé, o orangotango e o gorila, todo refestelado andando sobre duas pernas e tendo os membros superiores livres para praticar suas artes. E, justamente, essas artes as quais pratica é o que o diferenciam de seus parentes peludos, pois se olharmos nossa constituição genética temos menos de meio por cento de diferença com os chimpanzés. Não somos tão especiais assim, tivemos apenas a sorte de sermos providos com mãos hábeis ao invés de pernas anteriores, e isso nos tornou arrogantes e metidos.
Mas, o que realmente nos torna especiais, é pensar que somos especiais, é fácil imaginar que se moscas se acham especiais lá naquele cérebro tão diminuto quanto desconhecido pelo homem, elas são especiais ao modo delas. Quem pode contestar isso? As moscas – ou a lesmas, ou as bactérias – têm tanto direito de nos julgar quanto nós o temos de julgá-las. Será que as formigas não riem de nós – riso de formiga, é claro – achando que somos tronchos, vagos e bestunsófilos sísmicos? Lembrando que bestunsófilo é termo formigal que tem significado claro para elas, mas é completamente intraduzível para qualquer idioma humano. Já, sísmico, é isso que entendemos mesmo: causador de abalos. É só lembramos que quando pisamos num formigueiro deve haver abalo bem significativo na escala Endopterigota delas. Inferindo ainda que essa escala usada pelas formigas pode medir magnitudes de 01 a 100.000 endos, sendo o menor índice, 01 o abalo causado por uma pisada de besouro e 100.000 a pisada de um elefante, ficando a pisada do homem entre os cinco e dez mil endos.
Então vaga o bicho homem, arrogante, pelos espaços disponíveis do Planeta, “se achando”. Julgando-se o ápice da criação, criando em sua mente privilegiada até um Ente Supremo que a tudo criou e tudo controla e que, na sua sabedoria primordial, trouxe á luz um ser a Sua imagem e semelhança. Da para acreditar em tamanha presunção?
Pois é, esse ser “especial” criado a semelhança do Criador, pensa que é melhor que a formiga a qual esmaga sem piedade com seus pés maldosos. Esse ser que é um animal como qualquer outro e não é especial no sentido de ter privilégios. A marcha da natureza, - isso os cientistas já provaram – faz com que de tempos em tempos sejam eliminados da face da Terra, seres incompetentes ou que não se adequaram com perfeição a novos ambientes ou novos climas. Comprovadamente a natureza já se livrou sete vezes dos menos adaptados. Se o Homo sapiens for realmente sapiens e tiver um cagagésimo de humildade lhe será fácil verificar que está em rota de colisão direta com sua própria extinção. Se a arrogância do homem não lhe tolher a capacidade de julgamento e não turvar sua visão, ele será capaz de enxergar um futuro próximo do Planeta, onde ainda existirão milhares de espécies animais em pleno gozo de suas existências profícuas, sem qualquer ser humano até onde a vista puder alcançar. Poderá ver algo como o paraíso na Terra, onde animais e vegetais interagem e uns servem de alimento aos outros em troca de insumos que os comensais dejetam para os comidos.
Se a natureza fosse uma grande e complexa orquestra, poderíamos atribuir a cada membro, vegetal, mineral ou animal, uma função dentro dessa orquestra, menos para o homem. O homem seria a nota dissonante dentro da harmonia dessa imensa organização. Agora podemos perguntar: Porque esse animal racional e falante não se enquadra? Por que é o único ser que “rema contra a maré” por assim dizer? Parece que esse animal bípede não se acostumou devidamente com seu cérebro grande e criativo de concepção ainda recente. É razoável supor que depois que o cérebro humano se desenvolveu e deu ao seu portador esse imenso poder, essa capacidade tão grande quanto desconhecida de criar e deduzir coisas, o homem ainda não tenha “se acostumado” a usá-lo devidamente, não saiba controlá-lo para obter dele eficiência e trabalho produtivo de longo prazo. Algo assim como colocar um carro de fórmula um na mão de um neófito que mal sabe dirigir. É de se esperar que nada de bom saia dessa combinação: amador & máquina potente. Daí, podemos inferir que se não nos destruirmos nos próximos milênios e consigamos sobreviver apesar de nossa bisonha manipulação do cérebro “fórmula um” que temos, teremos, enfim, lucidez para perceber nossos erros e nos redimirmos. Só então, como o astronauta David do filme “2001 Uma odisséia no espaço”, renasceremos (como espécie e não como indivíduos) em nós mesmos e viveremos em paz e harmonia com a natureza. JAIR, Natal, 29/03/12.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Sobre emoções

Para falar de emoções quero usar como gancho o trecho abaixo publicado no blogue http://seteramos.blogspot.com de autoria de meu amigo Barcellos: “Homens são lógicos e racionais. Mulheres são emotivas e passionais. É claro que esta visão é extremista e polarizada demais. A maioria de nós - homens e mulheres - se situa em algum ponto intermediário entre esses dois extremos. E deslizamos para um lado ou para outro conforme as circunstâncias, sobre as quais raramente temos um controle efetivo”.
Na verdade, emoções nos são tão necessárias como comer ou dormir, nossa saúde mental depende delas. Há que se levar em conta que no curso da evolução humana a emoção do medo, por exemplo, foi fundamental para a sobrevivência, o homem que temia perigos insuperáveis como enfrentar um animal mais forte, rápido e bem armado de garras, era o que sobrevivia e deixava descendentes. Os homens por demais imprudentes que se colocaram a mercê de eventos perigosos que lhes tiraram a vida, dificilmente tiveram oportunidade de passar seus genes adiante. Embora se possa dizer que esses arrojados foram mais felizes em conseguir comida, também foram os primeiros a serem devorados pelas feras. Somos herdeiros de homens comedidos e racionais, mas que colocaram a emoção medo a serviço da perpetuação da espécie.
Os autores Sandra Aamodt e Sam Wang, do livro “Seja bem-vindo ao seu cérebro”, dizem que “a maioria das pessoas acha que emoções prejudicam a capacidade de fazer opções sensatas – mas isso não é verdade”. Afirmam, baseados em estudos do cérebro em condições monitoradas, que as emoções surgem em resposta a eventos que impressionam a mente e mantém o cérebro concentrado no que for importante para reagir, desde ameaça à integridade física até oportunidades sociais. As emoções nos forçam a moldar nosso comportamento aos fatos de modo a obtermos maximização de resultados, seja para nos defendermos ou para aproveitarmos uma oportunidade adequada.
E aqui fica uma observação do que ocorre com a tão comentada racionalidade que, aparentemente, deveria comandar nossas ações mais eficientes. Na vida real, geralmente não podemos emitir julgamentos acertados com base apenas na lógica, pois, o mais das vezes não dispomos de todos os dados da equação para decidirmos a melhor maneira de fazer ou de se comportar. Assim, seria favas contadas mudar de profissão, por exemplo, se soubéssemos que no futuro nossa decisão nos traria aquilo que desejamos em matéria de salário e satisfação pessoal. Num caso de perigo funciona assim: corra para se salvar, mesmo que depois descubra que a “ameaça” era apenas um galho com aparência estranha. Pois, na maioria dos casos, só podemos contar com nossa intuição e não com dados concretos e confiáveis, o galho era um bicho terrível, lembra?
De certa maneira, podemos recordar de nossa última viagem ao exterior muito melhor do que comemos no desjejum de hoje, a menos que nossa primeira refeição tenha sido algo inusitado como lagosta acompanhada de caviar beluga, ou tenhamos comido gafanhotos assados, por exemplo. Emoções fortes tendem a marcar nossa memória de maneira acentuada. As emoções salientam o efeito da experiência e fazem com que os fatos sejam consolidados na memória. A excitação mental que a emoção causa pode “marcar” áreas cerebrais de modo a formar armazenamento de longo prazo de detalhes importantes de um evento especialmente emotivo, em detrimento de detalhes periféricos não ligados ao caso.
Particularmente, não sou bom contador de piadas, me falta aquele “time” que torna o desfecho da anedota risível ou gargalhativo. Mas, consigo lembrar de muitas piadas – muitas centenas talvez – com o exato contexto em que foram contadas e quem as contou. Lembro até piadas que ouvi quando era criança de dez ou onze anos, e “vejo” na minha memória o momento e local que gargalhei ou ri de um bom desfecho. Por que essas lembranças tão vívidas? Emoção. Embora o humor não seja algo que se defina com facilidade, é fácil reconhecer situações risíveis, ou seja, se é engraçado para nós, rimos e pronto, não há uma chave de liga e desliga do humor, ele se impõe por si só.
Através do humor as pessoas se sentem bem, parece que ativa áreas de recompensa no cérebro que reagem a outros tipos de prazer como comer ou fazer sexo. Na verdade a gargalhada pode ser uma antiga reação dos hominídeos para indicar que aquilo que aparentava perigo era inócuo, então a gargalhada representava o prazer de estar vivo e saudável.
Portanto, as recompensas (emoções) do humor não são apenas de bem estar consigo mesmo. Quem faz os outros rirem está contribuindo para interação social e permitindo àqueles que riem desestressem. Portanto se nos divertimos com coisas que outros não acham engraçadas, provavelmente viveremos mais e melhor que os ranzinzas e resmungões. Então, quaisquer que sejam as emoções, elas sempre estarão contribuído para nossa qualidade de vida. JAIR, Floripa, 07/01/12
.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Sobre gêneros

“Homens são de Marte, mulheres são de Vênus”, livro que pretende colocar homens e mulheres em campos opostos, é apenas um dos títulos a disposição do público que enfatiza a diferença de gêneros entre humanos. Para sermos politicamente corretos devemos considerar homens e mulheres iguais então? Nem pensar! O mundo está repleto de homens afetuosos e românticos (Vênus) e de mulheres agressivas (Marte) mas, no que toca a inteligência, não há qualquer diferença entre os gêneros. É claro que existem diferenças biológicas bem acentuadas entre homens e mulheres, por exemplo: os hormônios influenciam diferentes partes cerebrais de modo que o hormônio masculino (testosterona) e o feminino (estrogênio) atuam nos cérebros dos bebês em formação e também nos adultos. Daí, o formato dos cérebros de mulheres e homens diferirem em consequência desse “tratamento” hormonal diferenciado, embora as diferenças sejam só observáveis por cientistas treinados. O cérebro feminino apresenta maior número de conexões, enquanto o masculino é ligeiramente maior.
Considerando as diferenças de formato não é de se estranhar que os comportamentos difiram também. Contudo, a maioria das diferenças é cultural, instituída pela sociedade. Existe uma sociedade no Laos na qual a família escolhe um dos meninos para ser criado como menina. A ele é dado tratamento como se menina fosse; desde o berço até a adolescência suas roupas, preocupações, gestual e atividades são escolhidas de forma que se torne uma menina de direito, embora seu aparelhamento genético desminta esse gênero, ou seja, são meninos de facto. A esses meninos escolhidos é permitido somente frequentar classes de aula de garotas e até banheiros femininos. Como a sociedade na qual vivem não discrimina esses meninos-meninas, eles se sentem bem confortáveis, e não abdicam de sua “feminilidade” adquirida mesmo depois de adultos e conscientes de que foram obrigados a assumir aquela identidade. Consta que a porcentagem de homossexuais entre eles é a mesma que entre a população de homens “normais”, ou seja, de homens que foram criados como tal.
Como costumamos dizer, nossa sociedade é machista e, desse modo, as instituições foram criadas, na sua maioria, valorizando o trabalho e as atividades masculinas em detrimento das mulheres. Nas religiões, sejam cristãs ou não, as funções de guias (pastores, rabinos, mulás, padres etc) são masculinas, e não há qualquer indicação que isso tende a mudar em médio prazo. Até a década de setenta alimentava-se, nos EUA, a crença que mulheres eram menos dotadas musicalmente, dizia-se que elas não podiam tocar músicas clássicas nas orquestras. Dessa forma, as melhores orquestras eram essencialmente masculinas. No rastro do movimento feminista surgiu pressão para que os maestros e diretores de orquestra passassem a fazer testes com os candidatos músicos ocultos por biombos, para que pudessem ser ouvidos, mas não identificados. Resultado: vinte anos depois as grandes orquestras americanas têm um número igual de mulheres e homens nos seus plantéis, e nem por isso a qualidade de seus concertos caiu. Na Europa, como não existe esse teste cego, mais de oitenta por cento dos músicos das orquestras são homens, e muitos músicos continuam acreditando que as mulheres não tocam tão bem quanto os varões.
Existe o mito que homens são melhores que as mulheres em matemática, visto que é maior o número de homens que têm excelente desempenho em testes. Mas é verdade também que o número de homens com desempenho muito ruim é maior, ou seja, se quisermos dizer que os homens são melhores, temos que admitir que também são piores. Empatou, certo? A diferença crucial entre os gêneros é o que o desempenho dos homens é mais variado que o das mulheres.
Por último gostaria de dizer, homens e mulheres são iguais em direitos, deveres e inteligência e, fundamentalmente diferentes naquilo que interessa para a perpetuação da espécie: sexo. Já imaginou se mulheres fossem indistinguíveis de homens na aparência? Quem gostaria de fazer sexo com um “aparentemente” homem? Só homossexuais talvez, mas daí a continuidade da raça humana estaria garantida? Viva a diferença! JAIR, Floripa, 07/01/12.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Caixa preta

Numa flagrante contradição, alguns cientistas costumam afirmar que o cérebro humano é mais complexo que o universo, como se fosse possível o conjunto maior ser mais simples que seu conteúdo. Fazendo uma analogia barata: um automóvel é tão ou mais complexo que seu mais complicado componente. Não dá para ser diferente. De qualquer forma, mesmo não sendo mais intrincado e ignoto que o universo que nos contém, o cérebro que foi definido como “carne pensante”, é uma máquina que fascina a todos e que ainda não conseguiu ter suas funções plenamente desvendadas.
Então vejamos, o conhecimento sobre esse componente essencial da maioria dos seres do reino animal está sendo acumulado ao longo de centenas de anos. Na medida em que a tecnologia vai se desenvolvendo, é comum as pessoas compararem o cérebro ao que há de mais “avançado” no campo das invenções e descobertas, assim, ele já foi comparado às máquinas a vapor quando estas estavam no auge; a centrais telefônicas e até a motores a explosão interna. Hoje, como não podia ser diferente, o cérebro é comparado a um computador. Mas quanto dessa comparação pode ser verdade?
A aproximação mais evidente que se faz é dizer que a massa cinzenta que compõe nosso cérebro seria o hardware e as experiências e os saberes acumulados seriam o software. Nada mais lógico para que tem necessidade de “enquadrar” o cérebro em algo que conhece e do qual faz uma avaliação positiva. Contudo, ainda que comparado com o que há de mais adiantado tecnologicamente em nosso Planeta, a comparação torna-se essencialmente anódina se levarmos em conta que computadores são projetados - e não poderia ser de outra forma – como uma linha de montagem: as ações seguem uma linha lógica, não há errância, isto é, o computar não divaga, não percorre atalhos e não toma decisões “erradas”. Já o maravilhoso cérebro funciona mais como uma caótica cidade grande com seu tráfego, suas pessoas indo e vindo e todas as implicações boas ou más da interação entre tudo que se move e todos os “obstáculos” que impedem ou dificultam o livre fluxo. Têm que se levar em conta que no cérebro, como na cidade grande, nem tudo dá certo o tempo todo. Imaginar que o cérebro sempre faz a coisa certa é uma estultice que o próprio cérebro produz, e, talvez, aí resida o grande óbice porque não conseguimos desvendar todos os mistérios dessa extraordinária caixa preta biológica.
Agora vem minha opinião. Como quem nos comanda; quem dá as cartas em todas nossas ações e escolhas; quem conduz nossa civilização, é o cérebro, a ele poderia ser atribuído o poder de não se “desvendar” não se expor em todos os seus mistérios. Digamos que o cérebro se auto preserva ao não permitir que tenhamos pleno conhecimento de como funciona. O mecanismo de defesa desse órgão é, justamente, não delegar ao homem o poder do conhecimento, algo assim como: você só poderá saber até onde eu permitir. O homem é prisioneiro de seu cérebro egoísta, não lhe é dada a faculdade de conhecê-lo em profundidade.
Essa possibilidade me faz lembrar o conto de Arthur C. Clark, “Os nove bilhões de nomes de Deus”, no qual ele conta a história de cientistas contratados por excêntricos monges tibetanos para fazer uso de um super computador para analisar todas as possibilidades de permutações de letras e chegar aos definitivos nove bilhões de nomes de Deus. Quando todos os nomes forem encontrados, o mundo acabará, pois o propósito do Universo terá sido alcançado. Assim, antecipando-se à criatividade do genial Clark, nosso cérebro faz tudo para não ser desvendado, pois se um dia isso acontecer, o propósito do Universo terá sido atingido e não mais haverá motivo para continuarmos existindo, será o fim da humanidade. O cérebro nos terá, mais uma vez, vencido então. JAIR, Floripa, 05/01/12.

sábado, 20 de agosto de 2011

Viagens



Parece que viajar, vencer distâncias, conhecer paragens novas, povos diferentes, outros costumes, descobrir coisas inusitadas, curiosas e estimulantes sempre fez parte do currículo do Homo sapiens. Desde as migrações iniciais as quais deram origem a novas povoações que acabaram ocupando a superfície habitável do Planeta, até as grandes navegações que, de certa forma, no sentido inverso, reintegraram aqueles povos que estavam separados por mares e extensões de terra antes intransponíveis, todos esses deslocamentos comprovam e suprem a irrevogável ânsia dos humanos de descobrir o que há além da linha do horizonte.
O formidável desenvolvimento dos meios de transporte e as inumeráveis agências de viagens que atraem o homem moderno em férias são afirmações que essa necessidade de deslocamento não cessou no atual estádio da civilização. O homem tornou-se gregário, mas mantém os olhos curiosos no quintal do vizinho, gasta suas férias instruindo-se com o que há de diferente além do seu jardim.
Contudo, ainda que navegar seja preciso, a verdadeira viagem se faz para dentro de nós mesmos, nossa imaginação nos permite viajar além fronteiras muito remotas, sem qualquer restrição de horário, distância, clima, disponibilidade de meios ou idade. A viagem real, da qual sempre retornamos com saldo positivo, é a que empreendemos para nosso interior, onde não precisamos de bilhetes, não há limitações geográficas nem alfândegas e podemos chegar desde o âmago do átomo até as galáxias mais distantes. Podemos ver e misturar todas as cores, sons e cheiros imagináveis ou não, púrpura, limão, lilás, ouro, laranja, carmim, escarlate, violeta, prata com os pios dos pássaros, marulho do mar, assoviar do vento e o silêncio da noite. Aroma suave da lavanda, cheiro ácido do limão, odor suave de folhas verdes e de terra molhada, e todas as fragrâncias extravagantes de lugares exóticos. Ou passear por lugares que fisicamente não existem, visitar pessoas ou tempos irreais e impalpáveis. Até entrar em lugares imaginários, que talvez não tenham tido oportunidade de existir, mas que são tão reais como nós mesmos quando lá estamos. Também, num viés metafísico e lúdico, encontrar a própria alma e passar por baixo do arco-íris. Viajar com a mente é uma experiência transcendental, não é à toa que indivíduos que fazem uso de substâncias químicas (drogas) para alcançar um estado alterado de consciência costumam dizer que estão “viajando”.
A poderosa mente humana é o melhor instrumento para sair das limitações de nossas, o mais das vezes mesquinhas vidas materiais, transpor a mediocridade do mundo que nos cerca e adentrar o universo mágico onde tudo é possível, não há julgamentos e a liberdade é muito mais que apenas uma palavra no dicionário. Podemos ver o universo, num átimo, ser criado do nada; presenciar, há quatro bilhões de anos, a vida surgindo no Planeta; sofrer quando os magníficos dinossauros se extinguiram depois que a Terra foi atingida por um asteróide; acompanhar a evolução de primatas que, após milhões de anos, acabaram dando origem o Homo sapiens; sobrevoar florestas úmidas, desertos inóspitos, terras perdidas, pântanos insalubres, mares revoltos e geleiras implacáveis; mergulhar no oceano profundo cheio de seres esquivos e misteriosos; poderemos trilhar a rota da seda e interagir com comerciantes de grande parte do oriente e da Europa; conviver com civilizações antigas na África, na Europa, na Ásia e na América; assistir a construção de pirâmides no Egito e a destruição de Herculano e Pompéia na Itália; cidades, como Roma e Cartago sendo erigidas na nossa presença; desembarcar nas praias da Austrália junto com detentores da cultura mais antiga do Planeta; ver religiões sendo criadas na Galiléia, no oriente e no ocidente; descobrir as nascentes do Nilo e do Amazonas, visitar continentes e ilhas distantes e conhecer povos e animais estranhos; tomar conhecimento da História e conviver com homens e mulheres importantes, cujas ideias influirão no rumo dos acontecimentos humanos; inteirar-nos das mazelas e dificuldades da vida de pessoas comuns em todo o Planeta; conversar com Platão, Aristóteles, Demócrito, Schopenhauer, Kant e Sartre; privar com Dante e Camões no ato de suas criações monumentais; temer guerras, massacres, pestes e catástrofes que dizimaram milhões; desembarcar com os soldados na Normandia e assistir estarrecidos a morte de milhares de jovens imbuídos de ideais; acompanhar conquistas da ciência e exultar com descobertas da medicina; aprender a refletir, emocionar-nos, fantasiar e cogitar imagens vivas de coisas que nunca vimos e de lugares que nunca estivemos; conceber utopias, sonhar sonhos impossíveis, construir castelos inverossímeis, imaginar mundos irreais; viajar rumo ao futuro voltar ou passado e deleitar-nos com o presente; abrir mente para ideias novas e conceitos originais; viver com intensidade e desfrutar tudo, dilatando, encolhendo ou até congelando o tempo de modo a aproveitar mais os prazeres e relegar ao ostracismo as misérias e sofrimentos.
Nossos neurônios são os bilhetes de entrada para o mais alucinante e formidável dos mundos, ninguém jamais deixou de sonhar e viver vidas paralelas que facilitam a convivência com esse mundo quase sempre hostil e implacável que nos cerca. O único espaço maior que o universo é o interior de nossa caixa craniana. JAIR, Floripa, 14/08/11.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A inteligência



Pode parecer uma pergunta um tanto estranha de se fazer, mas, se quisermos entender nossa história evolutiva, temos que perguntar por que somos inteligentes? Por que somos tão criativos e bem sucedidos no mundo prático?
A resposta pode parecer tão óbvia quanto enigmática: porque isso faz de nós um animal tecnologicamente bem-sucedido. É claro, nosso domínio da tecnologia nos torna um animal destacado dos demais, nos coloca num patamar acima dos outros seres do Planeta. Mas esse é um argumento oblíquo, não responde o porquê de nossa inteligência superior. Também é igualmente fácil argumentar que somos tecnologicamente bem sucedidos porque somos inteligentes. A questão crucial que temos de responder em termos evolutivos é a seguinte: foi a vantagem indiscutível da sofisticada tecnologia a força propulsora primordial que criou o inteligente cérebro humano? Ou nós somos as potências tecnológicas de nosso Planeta devido a uma consequência fortuita da necessidade de sermos inteligentes por outras razões menos conhecidas? Em outras palavras, desejamos saber se os dons intelectuais que capacitam o homem moderno a lançar uma trapizonga espacial para fora do sistema solar, ou a escrever uma sinfonia para cantar esse fato, eram necessários, mesmo que apenas de forma embrionária, no dia-a-dia dos nossos antepassados caçadores-coletores? São indagações quase filosóficas que nos remetem ao dilema do ovo e a galinha e quem nasceu primeiro.
Exatamente como o conceito de que o homem ocupa o centro do universo permaneceu incontestável durante séculos – até que Copérnico e depois Darwin apareceram e afastaram essa visão antropocêntrica da criação - assim também nossa superior inteligência tem sido aceita como tão evidentemente elevada na evolução humana que poucas pessoas se importam seriamente em perguntar: por quê? A resposta afinal pode não ser tão declaradamente óbvia como poderia parecer: pode ser que durante nossa evolução tenhamos sido obrigados a aguçar nossa astúcia, não tanto a fim de superar desafios tecnológicos encontrados no mundo prático, mas de preferência para manejar as complexidades de uma vida social particularmente intrincada, relacionar-se com seus semelhantes era e ainda é muito mais complicado que desenvolver tecnologias ou resolver problemas matemáticos. A opção (ou necessidade) de viver em aglomerados humanos cada vez maiores pode ter exercido pressão para nosso cérebro se desenvolver em tamanho relativo, formato e ligações múltiplas entre neurônios. Portanto, o domínio da tecnologia pode ter sido resultante desse cérebro desenvolvido à custa de pressão social.
Basicamente, temos cérebros em nossa cabeça, quer sejamos humanos, macacos, ratos ou lagartos, para podermos criar nossa versão de “mundo real”, ou seja, aquele mundo que nos interessa. É razoável supor que no “mundo real” de um rato não exista a quinta sinfonia de Beethoven, por exemplo, ratos não estão preocupados com música por certo. Os animais, nas diferentes partes do espectro evolutivo, têm estilos de vida que são menos ou mais complicados. Se sua vida é muito simples como a de um sapo, por exemplo, então é possível prosseguir, dia-a-dia, com um mínimo de informações sobre o mundo exterior. Observando que o “mundo exterior” de uns pode não ser o mesmo de outros. Entretanto, caso se trate de um cão selvagem africano, o mundo que se pode criar dentro de sua cabeça deve ser muito mais rico (ter mais informações, em outras palavras) do aquele da cabeça de um sapo: isso ocorre devido a um apurado sentido de visão, audição e olfato e uma noção de comunidade em que deve cooperar com a matilha para a sobrevivência de todos; o que parece longe da atividade solitária de ficar sentado a beira de uma poça d’água atacando com a língua comprida os insetos que passam! Logo, não causa espanto que um cão selvagem tenha na sua cabeça uma quantidade maior de neurônios e uma complexidade maior de sinapses do que de um sapo; é compulsório que assim seja, caso contrário ele não seria um cão.
Então senhores, nossa complexidade cerebral com seus milhares de ligações entre os bilhões de neurônios; e sua relação entre tamanho e massa corporal, que nos distingue dos demais seres, é a marca registrada que nos faz Homo sapiens, e desenvolveu-se a partir de nossas interrelações sociais que pressionaram o cérebro no sentido de evoluir para além de um cérebro de primata. Sem essas pressões sociais seríamos apenas ratos, quem sabe? Ou seja, nosso “mundo real” (nossas interações sociais) é tão mais complexo e tão mais exigente, (assim como o do cão selvagem o é em relação ao do sapo) que não tínhamos opção a não ser nos tornarmos inteligentes ou desaparecermos para sempre. Infere-se que somos inteligentes porque necessitamos sê-lo e, em consequência, isto nos tornou o que somos: homens, mais precisamente, Homo sapiens. JAIR, Floripa, 13/06/11.