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sexta-feira, 22 de abril de 2011

Sobre violência


Um tema contumaz e que absorve a mente de sociólogos, antropólogos e outros pensadores é a origem da violência humana. O Homo sapiens é um animal e a maioria dos animais interage ao mundo que o cerca através de comportamentos instintivos, é de se esperar que nós nos comportemos desse modo também. Contudo, o Homo é um animal que aprende, ele vem ao mundo equipado com poucas respostas instintivas: sugar, chorar, comer, sorrir, andar e fugir do perigo podem ser as únicas coisas que ele faz por instinto, tudo o mais é aprendido, tudo o mais é produto da cultura. Cultura feita pelo homem e que o modela à sua feição também.

Os comportamentos da sociedade com relação a sua estrutura política, econômica, religiosa, de costumes e cíveis, são inoculados através da cultura, ninguém exibe uma mensagem genética que determina sua conduta com relação ao casamento monogâmico ou que acate regime democrático, ou que seja cristão, por exemplo. Essas regras vêm da cultura. Todos nós viemos ao mundo com um potencial para viver milhares de estilos de vida, mas vivemos um só, que é imposto pelas tradições culturais do ambiente no qual nascemos.

A maiúscula variedade de formas comportamentais, incluindo crenças religiosas, regras sociais, estilos de vestuários e linguagem, dão mostras de nossa versatilidade extremada, de nossa flexibilidade e complexidade culturais. Não existem regras universais acatadas por todas as pessoas do Planeta. Mesmo proibições de assassinato e incesto, comportamentos desviantes condenados pela maioria das sociedades, são desrespeitados em algumas delas. O Homo sapiens é produto da seleção natural, mas o que o diferencia dos outros animais é que seu comportamento é moldado pela cultura que ele próprio criou.

Com esse background robusto é estultice relacionar a violência humana, especialmente as guerras, com a agressiva exibição de caninos ameaçadores de um babuíno alfa desafiado, ou as marradas de antilocabras machos disputando a atenção do harém de fêmeas no cio, por exemplo. Os administradores e militares nacionais que projetam os conflitos inter nações não estão engajados na agressão, mas na política, e os indivíduos nos campos de batalha assemelham-se mais a cordeiros obedecendo ao efeito manada, e não a predadores excitados no encalço de presa fugidia. Não há qualquer dúvida que de ambos os lados a matança é levada a efeito numa atmosfera carregada de emoções fortes e raiva inexplicável, mas pensemos em quanta doutrinação e despersonalização do “outro” foi necessária para motivar esses guerreiros. A atitude “faca na boca” de soldados especiais como green berets e seals, é conseguida através de duríssimo treinamento e doutrinação que poucos militares conseguem superar, em geral os soldados “normais” matam para não morrer, sendo que a maioria não mata, apenas dá tiros a esmo e abriga-se para não ser atingida.

O ser humano não é programado para combater ou para matar, nem mesmo para caçar; sua habilidade para fazer essas coisas é uma aquisição cultural, aprendida dos mais velhos que aprenderam de seus ancestrais que, em última análise, comportavam-se assim em consequência de pressões da sociedade de onde nasceram. É irônico que a maravilhosa capacidade cultural, capacidade de elevar-se acima dos outros animais quanto ao relacionamento social, seja o instrumento que erige barreiras entre as pessoas. Crenças religiosas e ideologias diferentes são, numa intensidade vergonhosa para a raça humana, causas de ódio que gera guerras e conflitos.

Mais ainda, terrível é constatar o efeito divisor da linguagem. Nenhuma outra criatura tem a capacidade que o Homo tem para a articulação racional de sons que traduzem pensamentos abstratos, na verdade a linguagem falada é o fundamento sem qual não existiria a cultura, e sem esta não existiria o próprio homem civilizado. Sem a linguagem as convenções sociais complexas e a tecnologia sofisticada não existiriam, seríamos primatas vivendo da coleta de alimentos reunidos em aldeamentos primitivos ainda. A linguagem é o veículo que aproxima as pessoas, mas também divide a humanidade em grupos, às vezes, inconciliáveis, pois a barreira dos idiomas impede uma comunicação entre agregações diferentes. É razoável inferir que se todos falassem a mesma língua haveria menos conflitos.

A natureza do homem é mais complexa do que supõe nossa tendência a rotular as coisas. O Homo sapiens não carrega nas costas o fardo de um passado selvagem; o ser humano não é um “macaco assassino” como sugerem alguns antropólogos. E também não somos inatamente pacíficos. A seleção natural nos fez criaturas de comportamento flexível como nenhum outro ser da natureza, semelhamos a páginas em branco prontas a serem pejadas de conteúdo. Somos seres altamente sociais que não conseguiríamos sobrevir sem outros animais de nossa espécie ao redor.

Aqueles que acreditam que o homem é naturalmente agressivo, estão apenas fornecendo uma desculpa conveniente para a violência e para a guerra organizada. Na prática, essa desculpa aumenta a possibilidade de matanças e genocídios ocorrerem, se acreditamos que os homens são inatamente orientados para o conflito estamos endossando atitudes nesse sentido, estamos justificando o injustificável, estamos glorificando o niilismo. Guerras, conflitos e violência em geral são criações humanas e, como tais, passíveis de serem repensadas numa civilização que tenha como escopo sua perpetuação neste planetinha azul. Se o Homo for realmente sapiens deve pensar sobre isso. JAIR, Floripa, 19/04/11.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

VIOLÊNCIA GRATUITA


Aos que assistiram e aos que não assistiram: Alguns autores, como Glauber Rocha por exemplo, fazem questão de se colocar acima dos espectadores dizendo implicitamente com suas obras: "Sou inteligente, vejo mundo desta maneira e vocês que são burros que se danem. Não tenho obrigação de lhes dar explicações, nem me preocupo com suas opiniões". Como arte não se define, aos artistas tudo é permitido e a nós, mortais, só nos resta aceitar ou não, aplaudir ou não. Ficar falando sobre a obra do artista é imortalizá-lo. (Falem bem ou falem mal, mas falem de mim!). Todos que comentamos fazemos o jogo dele, do autor. Por isso, o filme “Violência gratuita” (2007), remake da obra do próprio autor, Michael Haneke, entra no rol dos filmes que vieram para polemizar e acrescentar milhares de palavras ao currículo de Heneke, sem que os espectadores saiam da sala de cinema contentes com o que viram. O filme, como o nome em português explicita, trata do comportamento violento praticado por uma dupla de psicopatas que, valendo-se de desculpa fútil, adentram a casa de veraneio de uma família em férias, torturam e matam usando linguagem e gestos educados o tempo todo. Acrescente-se que o visual da dupla é o mais clean possível: bermudas, camisetas, luvas e tênis imaculadamente brancos, penteados e bem barbeados, em completo desacordo com estereótipos hollywoodianos de vilões, estes, geralmente mal encarados, mal vestidos, feios etc. Sintonizados com o atual momento da criminalidade humana mundial, os psicopatas do filme não apresentam justificativas para tamanha brutalidade. Pelo contrário, em determinada cena, eles fazem chacota dos motivos comumente apresentados pela sociedade para tentar justificar a violência de seus componentes. Brincam com as frases como ”eu sou assim porque fui abusado quando criança” ou “sou assim porque meu pai é alcoólatra e minha mãe prostituta” e assim por diante. E mais: com naturalidade cínica, tentam vender a idéia de que só estão sendo violentos porque foram obrigados a isso pela “falta de maneiras” das próprias vítimas. Algo assim: “Você não foi educado, não pediu ‘por favor’; fui obrigado a te matar”. Foi um dos piores filme que assisti nos últimos vinte anos, salvando as interpretações impecáveis de todo o elenco. Parece que a ideia de Haneke é mostrar que a platéia é cúmplice da violência, sente um desejo insano por sangue. Essa visão demonstra que atualmente, na pós modernidade, a agressividade se tornou um complemento da sociedade em sua brutalidade real do dia-a-dia e na forma crua como é retratada nas mídias, principalmente nos filmes. Só isso. No mais, não aconselho ninguém assisti-lo, passem longe do local ou do canal que estiver sendo exibido. O filme é uma violência gratuita à inteligência e sensibilidade do espectador. JAIR, Floripa, 12/10/09.