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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O Mocinho

NOTA: Faço uma interrupção na série “Sandices”, para homenagear Celso Alves do Santos, colega de infância que foi assassinado há exatos quarenta anos.
Corria a alta década de cinquenta já mais próxima dos anos sessenta. Na velha cidade de Palmeira éramos jovens ingênuos, saudáveis e buliçosos que cursávamos o ginasial e, nos domingos, o programa obrigatório era assistir filmes no Cine Teatro Municipal, único cinema da cidade. Aos domingos a seção recomendada para crianças e adolescentes iniciava às treze horas, e por motivo que desconheço era chamada de “matinée”, se pronunciava matinê e contrariava o vernáculo francês porque matinée é algo que deve acontecer de manhã e não a tarde como ocorria na “Cidade Clima”.
Como vetor cultural o advento do Cinema tornou-se veículo inestimável. Os habitantes da cidade que já tinham visto filmes eram poucos, então não havia “massa crítica” suficiente para contrapor opiniões, declarar preferências, discutir o trabalho deste ou daquele ator, apaixonar-se por esta ou aquela atriz. O cinema, formador de opinião como se diria hoje, assegurava para os cidadãos de Palmeira a inserção no mundo oliudiano. Gary Cooper, James Stewart, Rock Hudson, Clark Gable e outros bonitões faziam os corações das moçoilas do velho burgo baterem em compasso acelerado. Já as preferências da piazada recaíam nas bem fornidas, Libertad Lamarque, Vivian Leigth, Zaza Gabor e Elisabeth Taylor, quando se tratava das divas. Quanto aos atores, as preferências se dirigiam àqueles que faziam papel de “mocinho” nos faroestes. Eu, particularmente, gostava mesmo era da Ingrid Bergman, o nariz dela era espetacular. Pois bem, a seção de matinê era extremamente concorrida pela moçada, porque representava o mais das vezes a única oportunidade da garotada ver seus ídolos que apareciam nas revistas em quadrinho, que eram a coqueluche daqueles tempos.
Revistas em quadrinhos, guardadas as diferenças, eram nossas janelas abertas ao mundo fascinante dos heróis do velho oeste, heróis que perseguiam e trocavam tiros com bandidos perversos que roubavam diligências e atacavam mocinhas ingênuas e vulneráveis. Não é exagero dizer que todos os garotos daquela época liam e cultuavam as revistas que eram conhecidas como Gibis e agora são chamadas de HQs. Mas, se todos gostavam, existia um dos adolescentes que gostava mais que todos, o Celso. Ele, Celso, por ser alto e magro era conhecido como Celso “Vareta”, e literalmente adorava gibis de bandido e mocinho, tinha centenas dessas revistas, em perfeitas condições guardadas em baú na sua casa.
Celso costumava trocar seus gibis já lidos por outros que não havia lido, para isso, levava um monte deles para a matinê e na frente do prédio do cinema fazia seus escambos. Por suas revistas sempre muito novas só aceitava outras também em ótimas condições, não havia choro. Dado que suas HQs eram cobiçadas, os outros gibizeiros tomavam cuidado para não amassar ou danificar seus Gibis para poderem trocar com Celso aos domingos.
Pois bem, todos nós os adolescentes fomos crescendo e nossos interesses foram naturalmente se modificando, se adaptando, amadurecendo por assim dizer. Menos o Celso. Ele, apesar de já não ser um menino ingênuo, continuou cheio de sonhos de mocinhos e bandidos, continuou dedicando-se cada vez mais aqueles hobbies que envolviam seus gibis, filmes de bang-bang e tudo que se referisse a revólveres, rifles, bandidos, xerifes, cavalgadas nas pradarias e perseguições com tiroteios. Celso sentia-se um “mocinho” em tempo integral, e seus sonhos ultrapassavam as fronteiras virtuais de nossa cidade e voavam nas lonjuras do velho oeste. Sua vida sempre coerente com esse sonho.
Tão homem da lei sentia-se Celso, que ao se tornar adulto fez teste para polícia militar sendo admitido com a maior nota de sua turma. Formou-se soldado e foi designado para trabalhar em Palmeira. Era um militar exemplar orgulhoso da farda e meticuloso no trabalho, levava a sério suas funções e se comportava como xerife que sempre quisera ser. Respeitado pela população e provavelmente temido por quem não andasse na linha, Celso estava feliz. Por alguns anos atuou com competência fazendo diligências e uma ou outra prisão de malfeitores, Palmeira nunca foi reduto de grandes bandidos, de facínoras periculosos, de forma que os pequenos meliantes eram os únicos que Celso, juntamente com seus companheiros, vez ou outra capturava.
Tudo levado em conta, o “mocinho” Celso Vareta tornara-se o baluarte fardado, perigoso e presente para todo criminoso ou potencial meliante que por Palmeira aparecesse, a cidade estava devidamente protegida com a presença dele em armas e pronto para usá-las. Corria o ano de 1972 e Celso encontra-se em casa de férias junto a sua esposa.
Mas, uma sequência de eventos impensável para aquela região acabou tirando o sossego da cidade e a vida do querido Bat Masterson tupiniquim. Aconteceu um roubo com violência numa localidade vizinha, Queimadas, perpetrado por dois perigosos bandidos oriundos de Curitiba. Bandidos com longas fichas criminais – depois se soube – que atiraram e feriram inocentes e fugiram em direção às matas circundantes a Palmeira. A minguada força policial da cidade, composta apenas de um cabo e três soldados, desacostumada a lidar com casos dessa natureza se viu meio encurralada e incapaz, de modo que pediu para que Celso, juntamente com o soldado Padilha, fosse atender a ocorrência.
Celso, empolgado com possibilidade de prender os facinorosos assaltantes precisou de poucos minutos para fardar-se, municiar seu revólver 38, alojar mais munição e algemas no cinto do uniforme e apresentar-se na delegacia onde já o esperava a viatura com o outro policial igualmente pronto para o enfrentamento se este houvesse. Era 20 de fevereiro de 1972, dia quente de formoso céu azul com algumas nuvens. Nosso Wyatt Earp, consciente do momento histórico de sua vida, assumira responsabilidade de abordar os bandidos sob qualquer circunstância. Falta de coragem não era uma qualidade que lhe podia ser atribuída. Sentia-se como em direção ao OK Currall para enfrentar os assaltantes, nada lhe impediria de se sair bem, esse era o momento que havia esperado por toda a vida.
Ao chegaram ao local onde por informações sabiam estar os bandidos homiziados, Celso se adiantou vagarosamente, revólver em punho, e negaceando, colocou-se em posição onde avistava os procurados e deu-lhes voz de prisão. Os dois meliantes voltaram-se para ele com armas em punho e dispararam incontinenti, Celso respondeu aos tiros com presteza e resolução, mas não era seu dia de sorte, quatro balaços mortais lhe atingiram órgãos vitais e caiu já morto na relva verde. Padilha ainda tentou enfrentar os bandidos, mas estes adentraram correndo a mata e sumiram.
Assim, um herói de nossa cidade caiu em cumprimento do dever e em condições que ele sempre buscara, enfrentando bandidos armados e desalmados. Foi-se o Celso Alves dos Santos, o “xerife” Vareta, e seu enterro foi um dos mais concorridos do burgo, mais de duas mil pessoas. Lamentável que Palmeira, de memória curta, até hoje não nomeou rua com seu nome. JAIR, Floripa, 16/02/12.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Identificação forense



A história forense registra que, para identificação de pessoas, seja para reconhecimento de paternidade, estabelecer identidade de perpetradores de crimes, identificar cadáveres ou para outros propósitos, sempre se valeu de indícios e provas indiretas que determinam ou apontam o agente ou objeto do evento. Ou seja, no caso de paternidade, por exemplo, os tipos sanguíneos dos pais determinam os dos filhos, de modo que é prova cabal de exclusão se o sangue do filho não combinar com os supostos genitores. Neste caso, se há coincidência tipológica, não prova nada. O mesmo vale para a cena de um crime, haverá exclusão dependendo do tipo de sangue, sem, contudo, constituir prova em caso de coincidência. Assim, identificação de pessoas ausentes por tipagem sanguínea é uma técnica bastante limitada, a investigação forense se vê em maus lençóis se dispuser apenas desse recurso.
Então, em 1883 o médico holandês Arthur Kollman observou que os desenhos datiloscópicos em cada ser humano já estão definitivamente formados ainda dentro da barriga da mãe, a partir do sexto mês de gestação, e são individuais de cada pessoa. O princípio da imutabilidade, por sua vez, diz que este desenho formado não se altera ao longo dos anos, salvo algumas alterações quase sempre temporárias que podem ocorrer devido a agentes externos, como queimaduras, cortes ou doenças de pele, como a lepra. Já o princípio da variabilidade garante que os desenhos das digitais são únicos tanto entre pessoas como entre os dedos do mesmo indivíduo, sendo que jamais serão encontrados dois dedos com desenhos idênticos. Essa característica permitiu o nascimento da datiloscopia, ciência forense que se aplica à identificação de indivíduos pelas marcas que a oleosidade de seus dedos imprime numa superfície qualquer. Há que se notar que em grande parte do Planeta, onde existem populações expressivas de analfabetos, essa técnica é extensamente usada na vida diária como única forma de “assinatura” por parte dos que não sabem ler.
Técnica amplamente usada em muitos países, a datiloscopia depende de um banco de impressões digitais armazenadas de modo a ser consultado quando se necessita fazer comparações. Na falta de arquivo ou ausência de marcas no local do crime, essa técnica é totalmente inútil. No Brasil, embora a datiloscopia faça parte do currículo dos peritos policiais, não existem arquivos nacionais nem estaduais dos quais a polícia possa se valer para comparações. Os peritos estão limitados a retirar as impressões digitais de um suspeito e comparar com as encontradas no local do crime. Se não houver suspeito não haverá como proceder. Nunca na história deste país houve qualquer condenação em tribunal baseada em impressões digitais. Talvez isso explique o pouco cuidado que polícia brasileira exibe ao manusear armas encontradas em cenas de crimes. Só que a ciência forense felizmente pode se valer de outra técnica, mais apurada e melhor.
A partir do início da década de noventa a ciência forense passou a utilizar cada vez mais uma técnica conhecida como “Impressões digitais genéticas”, a qual não é digital na acepção do termo, ela se baseia em vestígios orgânicos que as pessoas deixam: fluidos corporais como suor, sangue, saliva, urina, sêmen e até restos de pele ou cabelos. Nada muito estranho, já que todo ser humano possui um conjunto de genes único, ou, no mínimo, ligeiramente diferente do conjunto de qualquer outra pessoa do Planeta.
Assim, dá para se imaginar que seria muito simples usar métodos que proporcionassem uma rápida comparação entre DNAs, mas a coisa não era tão fácil. Contudo, em 1980, a ciência tomou conhecimento que nem todo DNA contém informações genéticas, parece que existe uma quantidade enorme de DNA que não possui códigos genéticos que comandem alguma função ou órgão corporal, a esse material os cientistas passaram a chamar de “lixo genético”, supondo que ele estava ali por que nosso corpo não sabia como eliminá-lo, embora essa tese seja apenas provisória. Só que o cientista da Universidade de Leicester, Alec Jeffreys e sua equipe, descobriram que esse material continha uma vasta quantidade de sequências repetitivas que podiam ser facilmente identificadas em cada indivíduo. Jeffreys chamou esses blocos de “minissatélites” e criou um método de retirá-los de qualquer amostra corporal e analisá-los de modo isolado, método chamado “eletroforese”. As porções de matéria orgânica necessárias para efetuar a eletroforese são insignificantes, então, não havendo contaminação das amostras, qualquer respirar sobre uma superfície de vidro, por exemplo, constitui uma boa fonte de material a ser interpretado. Depois, Jeffreys descobriu que os “minissatélites” contém sequências que sempre são compostas de 50% dos genes de cada genitor, daí, identificar paternidade, tornou-se corriqueiro e aceito pela justiça de quase todos os países.
Como é quase impossível que, involuntariamente, não deixemos “rastros” genéticos por onde passamos na forma de suor, saliva e restos de peles e cabelos, a ciência forense passou a ter um instrumento particularmente eficiente na identificação de pessoas. Os EUA, que já possuem o maior banco de impressões digitais do Planeta, agora estão compondo um banco de DNA que ficará disponível para todas as polícias e órgãos públicos envolvidos com identificação de indivíduos. Enquanto isso, num país abençoado por Deus abaixo do equador, nem impressões digitais constituem instrumento útil para qualquer finalidade forense. Aliás, alguém já viu, por exemplo, identificação de analfabetos por suas impressões obrigatórias em seus documentos? Eu nunca vi, nem ouvi falar. JAIR, Floripa, 20/07/11.