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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Mente vazia



Sempre li sobre o “branco” que eventualmente acomete a mente criativa do escritor de modo que ele nada consegue escrever em certas ocasiões. Alguns costumam chamar essa síndrome de “pavor do papel em branco” ou crise de ideias originais. Não sou escritor, não tenho pretensão de me igualar a essas mentes privilegiadas, mas também estou passando por um período de seca, não consigo extrair nada de novo de meu cérebro e colocar em palavras. Normalmente consigo escrever num ritmo de tal sorte que costumo ter “em estoque” cerca de dez ou doze textos prontos para serem publicados. Esse modus operandi visa garantir que em períodos moderados de seca eu possa publicar alguma coisa até que me venham as ideias novamente.  Pois é, alguns dias se passaram desde que esgotei meu estoque de textos e nada que se aproveite surgiu ainda. Parece que estou com a mente oca, passo os dias assistindo as Olimpíadas e nada me ocorre. Devo dizer que meus melhores textos sempre vêm de um estímulo qualquer através da leitura, normalmente de livros. Até isso está me faltando, nada leio há dias, os livros estão se acumulando e não encontro vontade de abri-los, assim, acabo olhando para as paredes com a mente vazia. Meu cérebro está totalmente em branco e não vejo saída, quem souber de alguma fórmula que consiga ativar mentes congeladas, por favor, me socorra, me tire deste constrangedor limbo literário, não vejo luz alguma no fim do túnel. JAIR, Floripa, 09/08/12. 

terça-feira, 29 de maio de 2012

Cérebro e mente


Descartes, matemático, físico e pensador francês, em suas obras instituiu o conceito que mente e cérebro são coisas separadas, constituídos de matérias distintas e regidos por leis distintas. Sendo o cérebro uma espécie de hardware, um disco rígido que contém toda a memória e os circuitos que permitem processar os sinais externos e transformá-los em ações ou outros pensamentos, e regido pelas leis da física. Já a mente seria algo etéreo que não ocupa espaço nem obedece as leis da física. Ou seja, algo não tocável, algo impossível de ser contactado pela ciência ou algo que possa ser localizado no cérebro. E essas “leis” da separação entre cérebro e mente vigiram por quatrocentos anos enquanto a ciência, pacificamente, aceitou o conceito proposto por Descartes.
Já no século dezenove, a medicina mapeou toscamente o cérebro e determinou categoricamente que ele era composto por “zonas” funcionais e que estas correspondiam rigidamente a partes, órgãos ou membros do corpo, esse conceito foi chamado de localizacionismo. Assim, se houvesse lesão na zona correspondente à mão direita, por exemplo, esta deixava de funcionar. Ainda mais, definiu-se que o cérebro era uma “caixa preta” que não se regenera, sendo que depois que completa seu crescimento aos seis anos de idade, torna-se uno e acabado de forma a não sofrer transformações e adições, e passando a perder massa depois dos quarenta anos.
Corroborando o que já se aventara no século dezenove, no início do século vinte, o neuroanatomista e prêmio Nobel Santiago Ramón y Cajal aderiu à tese que o cérebro, ao contrário, de tecidos e órgãos, era incapaz de se regenerar. Dado a proeminência de quem falava ficou patente que essa era uma verdade incontestável. Sabia-se que milhões de neurônios morrem à medida que envelhecemos, enquanto outros órgãos constroem novos tecidos a partir de células tronco, e que essas células não eram encontráveis no cérebro. Segundo supunha-se, a explicação para essa ausência de células tronco se devia ao fato que o cérebro era ultra especializado e extremamente complexo de forma que perdeu a capacidade de produzir células de reposição. Supunham os cientistas que um “neurônio novo” não poderia assumir a função de outro já degradado em razão deste ter milhões de conexões com seus pares e constituir uma “peça” especializada que levou anos para se formar, daí ser impossível substituí-la, a “peça nova” ficaria sem função, algo assim como substituir um cientista falecido por uma criança sem qualquer noção. Ramón afirmou que num cérebro adulto as vias nervosas são fixas, concluídas e imutáveis. Os neurônios que morrem não podem ser substituídos e nada se regenera.
Só que em 1965, cientistas do MIT (Massachussetts Institute of Technology) descobriram células troncos nos cérebros de ratos. Chamaram sua descoberta de células tronco neuronais. Em 1980, ornitólogo Fernando Nottebohm, notou que certas aves canoras mudavam ou melhoravam seu repertório de cantos a cada primavera, e isso era intrigante. Feito a dissecação dos cérebros dessas aves ele notou que haviam adquirido novas células neuronais responsáveis pelo canto. Daí, outros cientistas, considerando que cérebros são cérebros, independente se são de aves ou de humanos, puseram-se a examinar cérebros de primatas e, como era esperado, encontraram as células-tronco neuronais já encontradas em ratos.
Com a continuação das pesquisas foram encontradas células-tronco neuronais ativas no bulbo olfativo, no septo e medula espinhal humanas. Essas descobertas estabeleceram que, ao contrário do que se admitia antes, o cérebro é plástico, ele tem capacidade de recuperação e reposição de massa perdida. A plasticidade substituiu, portanto, a rigidez até então admitida. Dissecações de cadáveres humanos recentes mostraram neurônios novos mesmo em doentes terminais de idade avançada. Era a prova definitiva que o cérebro tem capacidade de reposição de massa perdida.
Estudos mais recentes também derrubaram o localizacionismo, quando o cérebro perde alguma parte por acidente ou doença, outra zona, geralmente localizada nas proximidades, assume a função da área perdida. Existe um caso excepcional de uma mulher de Falls Church, Virginia, EUA, que nasceu só com a metade direita do cérebro e esta “assumiu” as funções do lóbulo esquerdo de forma que Michelle, esse é seu nome verdadeiro, hoje com quarenta anos, é uma pessoa quase normal com relação à inteligência, capacidade de ganhar a vida com seu trabalho e atividades do dia-a-dia, conseguiu até formar-se num curso superior.
Além dessas constatações, a ciência descobriu que nosso cérebro também se modifica a partir do uso, quanto mais o usamos mais ligações se constroem entre os neurônios. Isso quer dizer que, mesmo adultos e até idosos, têm seus cérebros modificados pela utilização. Nossa cultura modifica o cérebro tanto quanto este modifica a cultura. Homens de tempos anteriores à era industrial que não conheciam carros, aviões, foguetes espaciais e informática tinham um cérebro muito diferente (fisicamente) do nosso que somos obrigados a lidar com essas informações virtualmente novas. Em consequências dessas descobertas fica, portanto, abolido para sempre o conceito cartesiano da separação entre cérebro e mente. JAIR, Floripa, 26/05/12.