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terça-feira, 5 de junho de 2012

Voando por nada


Há mais de quarenta anos em 1971, mês de junho, eu trabalhava no Serviço de Busca e Salvamento da FAB, sediado na Base Aérea Cumbica em Guarulhos – SP. O esquadrão foi designado para deslocar três aviões Albatroz para a Bolívia a fim de empreender busca de aeronave civil que havia desaparecido nas proximidades de Santa Cruz de La Sierra no oriente daquele país.
Lembrando que a Bolívia, ressaltado o fato que não tem litoral, é quase uma réplica da geografia sul-americana, tem a região andina montanhosa, parte da região amazônica no leste e uma nesga da região platina que se estende para a Argentina. O oriente divide-se, uma porção setentrional, atravessada pelos rios Mamoré, Guaporé e Beni que fazem parte da bacia amazônica que, em alguns pontos, se semelha ao pantanal mato-grossense por seus alagadiços. É nessa região que se encontra Santa Cruz de La Sierra e onde, supostamente, uma aeronave da Corporação Minera de Bolivia (COMIBOL) havia desaparecido depois de ter decolado de Cochabamba com dois diretores daquela companhia. Adite-se que os dois passageiros a bordo do bimotor Model 5 Twin Bonanza estavam de posse de oito milhões de dólares pertencentes à COMIBOL oriundos de um pagamento feito por uma mineradora estrangeira, e que esse dinheiro deveria ser depositado num banco em Santa Cruz.
Pois bem, chegamos com três Albatroz no dia 23 de junho de manhã, de acordo com minhas anotações, e começamos imediatamente a fazer as buscas na região amazônica boliviana. Seguindo o que tenho anotado em minha caderneta de voo, ficamos na busca até dia 16 de julho e voamos (soma das horas dos três aviões) em torno de quatrocentas e cinquenta horas na busca. No fim da missão quando toda a área havia sido coberta, ainda que o Bonanza não tenha sido encontrado, embora todos os dias surgissem dicas “quentes” que habitantes de tal ou qual departamento o tinham visto cair em chamas ou explodir no ar, como acontece em quase todos os acidentes aéreos relatados por pessoas que nada sabem de aviação, havíamos avistado oito aviões sinistrados em vários lugares selvagens e remotos da área de florestas permeada de pântanos.
O curioso a respeito dos relatos que fazíamos sobre os avistamentos é que só um ou dois eram de conhecimento das autoridades aeronáuticas do país. Havíamos “encontrado” aeronaves de queda aparentemente recente como um DC-3 quase inteiro em um pântano e um bimotor pequeno destruído não identificado numa campina. Por outro lado, havia três ou quatro aviões caídos há bastante tempo de forma que se tornaram inidentificáveis. Mais curioso de tudo, encontramos uma aeronave visivelmente pousada em uma área pantanosa há muito tempo, ela não apresentava danos aparentes e devia ter sido abandonada pelo aviador que a conduzira até ali. Estava bastante deteriorada pelo tempo, mas ainda se podia ver uma cruz na fuselagem, era um Messerschmitt Bf 109, com as cores da Luftwaffe do tempo da segunda guerra mundial.
É claro que as autoridades juraram desconhecer a existência desse avião e qualquer relação com ele. Mas não é estultice lembrar que Ernst Röhm, chefe das SA nazistas que foi assassinado pela camarilha da cúpula hitleriana em 1934 naquela que foi chamada “noite das facas longas” (30 de junho de 1934), esteve na Bolívia como assessor militar no início dos anos trinta e que deixou representantes militares naquele país até 1943 quando o país declarou guerra à Alemanha, sem, entretanto, enviar tropas à Europa ou apoiar materialmente os aliados. Contudo, há indícios que continuou fornecendo prata (mineral estratégico) aos alemães pelo método de triangulação até o fim da guerra - triangulação é quando um fornecedor finge exportar para comprador que serve apenas de “laranja”, repassando o produto para o consumidor final, este método é muito usado ainda hoje com relação ao petróleo, o Irã (boicotado pelos EUA) finge exportar para algum país do Oriente Médio, mas o produto acaba nos tanques dos automóveis americanos. Então, encontrar um Messerschmitt pousado num pântano boliviano pode não parecer tão estranho assim.
Terminadas as buscas infrutíferas, todos fomos agraciados com condecorações pela Força Aérea Boliviana, voltamos para o Brasil em meados de julho e não se falou mais do assunto. Um belo dia, em 1976, lendo um jornal de São Paulo, encontrei no meio daquelas notícias sem qualquer destaque nas páginas centrais, uma que me chamou atenção. Tratava-se do depoimento de um aviador civil que estava retornando à Bolívia porque tinha saudades da família a qual abandonara compulsoriamente em 1971. Motivo do abandono: o avião que ele pilotava havia sido seqüestrado por dois diretores da COMIBOL, em 1971, que o forçaram a levá-lo para o México via Peru, Colômbia, Venezuela, Panamá e Nicarágua. Dizia ele que depois da decolagem de Cochabamba, os dois passageiros obrigaram-no a simular pelo radio que se dirigia a Santa Cruz quando na verdade estava indo para o Peru, e do Peru continuaram até o México nos dias que se seguiram. Contou também que pelo “traslado” havia recebido uma quantidade de dólares não informada e que foi obrigado a permanecer clandestinamente no México sob o risco de ser morto. Os dois passageiros venderam a aeronave para traficantes e foram para Cuba mais tarde. Daí, sabendo que não mais corria perigo, ele saiu do México e se dirigiu à Bolívia.
Há que se notar que em 1971, a Bolívia, que nunca fora estável politicamente, havia sofrido um golpe militar liderado pelo general Hugo Banzer o qual derrubou o também general, só que de esquerda, Juan José Torres que teve um curto mandato. Parece que os diretores da COMIBOL que fugiram com a grana eram alinhados com Torres e aproveitaram a confusão reinante nas instituições para bandearem-se para os braços de Fidel, fato bastante comum naqueles tempos.
Diante dessa notícia, nossa busca pelo Bonanza, depois de cinco anos estava finalizada, havíamos voado mais de quatrocentas e cinquenta horas na busca de uma aeronave que se encontrava no México, havíamos voado por nada. JAIR, Floripa, 30/05/12. 

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

A Selva



Na década de setenta em virtude de meu trabalho no Serviço de Busca e Salvamento da FAB, era parte obrigatória do currículo fazer cursos de sobrevivência no mar e selva, porque as operações do chamado Esquadrão Pelicano presumiam possíveis acidentes nesses ambientes e as tripulações deveriam estar aptas a enfrentar as condições desfavoráveis que se apresentassem. Pode parecer que tais cursos eram algo radical ou extremamente desgastante, mas não eram nada disso. Bastava seguir os manuais, manter a calma, lembrar das instruções, adaptar-se ao desconforto e ser resistente à fome, frio, calor e ao cansaço, que tudo acabava bem.
Não pretendo descrever as sensações terríveis de três dias no mar em um bote de borracha, disputando espaço com cinco outros companheiros, comendo jujubas, bebendo meio copo por dia de água destilada do mar, e dormindo sentado, molhado da cabeça aos pés; nem tampouco dez dias de calor desgastante na floresta amazônica, dormindo em barraca improvisada a partir de pára-quedas, comendo o que pudesse caçar, pescar e colher, sendo devorado vivo por insetos e receoso de ficar doente sem qualquer recurso médico próximo. Não é meu escopo contar as alegrias e descobrimentos que essas provas me proporcionaram, quero contar apenas sobre a mata, a selva. A maravilhosa floresta úmida que cobre a região norte do país, a Hiléia amazônica.
A floresta tropical é exótica sob muitos aspectos. Para habitantes de centros urbanos talvez a primeira coisa que chame atenção seja o silêncio. O silêncio é uma força por si só, quase hipnótica, desorienta, chegamos a ouvir nosso próprio coração. Mas tem algo de solene, tem algo que nos remete à meditação, à abstenção de falar, à contemplação como se diante de algum ente transcendental. Podemos nos surpreender, mesmerizados, nos vendo compelidos a seguir com o olhar uma enorme borboleta azul metálica na sombra do dossel, ficamos fascinados pelas suas brilhantes asas de um azul imaginário, quando, de repente, percebemos que nossos passos não fazem nenhum ruído, pisamos em algodão por assim dizer. O chão não é o mesmo chão que conhecemos, é um macio tapete marrom que exala um forte cheiro de decomposição. As árvores parecem estar quietas há séculos. Paradas, solenes, majestáticas e dominantes, nós lhes somos indiferentes. Das castanheiras só podemos imaginar suas copas que chegam alcançar até sessenta metros de altura, a floresta, mais baixa, nos impede de vê-las. Se existe brisa, esta deve estar “lá fora”, aqui no interior o repouso é absoluto. Alguns troncos robustos lembram colunas de catedrais antigas. Orquídeas e bromélias de cores e formas variadas decoram árvores e troncos semi apodrecidos. Nem mesmo o sol exterior adentra aquele ambiente mágico, o próprio ar parece esverdeado e exala cheiro acre adocicado. A luz da manhã é estranha e difusa, como a iluminação do interior de uma igreja medieval cuja única claridade passa filtrada através de vitrais, mas tudo de uma beleza inverossímel. O verdor do ar é tão denso que parece palpável, achamos que pode ser espremido entre os dedos. A vida animal da floresta existe em profusão no alto das árvores centenárias, onde os pássaros se alimentam, namoram, constroem seus ninhos e se reproduzem; e os macacos guaribas negros como carvão vivem em suas comunidades agitadas e de relações sociais complexas. Os insetos existem aos milhões, mas são silenciosos, quando você é picado nem percebe de onde surgiu o atacante.
A noite na selva se transforma, agora é um mundo assombrado, impressivo e intimidante. Depois do por do sol, o silêncio é substituído por sons surpreendentes: o uivo do macaco, o som cavo dos sapos, a batida de martelo das pererecas, o voo rápido dos morcegos e assobios, trilos, tinidos e farfalhadas. Surgem insetos ardilosos com mandíbulas que perfuram a roupa e a pele, morcegos ousados que tentam pousar na nossa cabeça sabe lá com que intenções. Numa clareira havia cupinzeiros que brilhavam com uma luz fantasmagórica e mortiça. Os vaga-lumes conferiam à escuridão da selva um ar sobrenatural. Em algumas manhãs víamos pegadas de onça na areia da praia, já que nossa barraca estava às margens do rio Morená, no Parque Nacional do Xingu.
Para quem não “assume” a floresta como meio de sobrevivência, esta é atroz, não perdoa o ingênuo ou hedonista. Ela é um organismo vivo que respira, dorme e cresce, engole inocentes, almoça incautos e janta ineptos. Mas não precisamos temê-la, basta compreendê-la e respeitá-la. Desde muito cedo fui criado pescando em riachos, no rio Iguaçu e andando por trilhas de florestas ombrófilas e da mata atlântica da região do Paraná onde nasci, portanto, sempre tive contacto íntimo com as selvas e elas me atraem, de forma que ao me deparar com a floresta amazônica, foi só uma questão de adaptação à magnitude e às peculiaridades da mais extraordinária mata do Planeta. Lá as árvores e os rios são muito maiores, os insetos e outros animais são mais numerosos e teoricamente mais agressivos, mas, em compensação, os recursos para sobrevivência são mais abundantes, melhores e de fácil obtenção. Não é estultice afirmar que, adaptando-se àquele ambiente, é possível viver sem maiores angústias e sofrimentos uma longa vida naquela floresta, pois os meios existem, é só saber como tomá-los emprestados. Meu lado silvícola como descendente de índios Kaingangues prevaleceu e me senti como que voltando às minhas raízes, em nenhum momento me vi desafiado ou intimidado pela selva. Posso garantir que foi a mais fecunda e marcante experiência que já passei na vida. JAIR, Floripa, 06/10/11.