quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O Cenote

Turistas nadando no Cenote Ik-Kil
Próximo à cidade em que vim ao mundo, Palmeira, existe um enorme formação rochosa de arenito que, onde aflorou, deu origem a Vila Velha, monumentos rochosos naturais esculpidos por água e ventos; e, onde não é visível, permite a existência de rios subterrâneos que, eventualmente, formam cavernas, uma das quais descobri juntamente com meu primo Joel e já a descrevi neste blogue. Pois bem, os rios subterrâneos tendem a corroer o arenito formando a ditas cavernas e, em alguns casos, o teto desmorona dando forma a buracos redondos que lá chamamos de furnas. Bem próximo a Vila Velha existem três furnas, sendo a mais impressionante um poço circular de oitenta metros de diâmetro com mais de cem metros de profundidade e cinquenta metros de água.
Na península de Yucatán acontece algo semelhante, mas em escala centenas de vezes maior e mais espetacular. A península de Yucatán é uma planície calcária e não possui córregos ou rios de superfície. Contudo, por ser calcária – e o calcário é rocha menos resistente que o arenito – há uma profusão de rios subterrâneos. Mais do que no Paraná os rios da península formam cavernas em maior número e estas, também em maior número, tendem a desmoronar formando poços arredondados e profundos, lá chamados cenotes. Esses cenotes – mais de oitocentos - estão espalhados por toda a península, mas o mais importante chama-se cenote sagrado de Chichén Itzá e está localizado junto ao sítio arqueológico maya Chichén Itzá que numa tradução livre quer dizer "boca do poço do Itza".
Os mayas consideravam que o cenote sagrado era uma das três entradas para o paraíso dos mortos. Eles acreditavam que podiam se comunicar com os deuses e ancestrais, oferecendo sacrifícios no cenote. Os Mayas costumavam rezar por colheitas abundantes, chuvas boas e fortuna. Depois do “descobrimento” até padres coletavam água do cenote que eles julgavam ser sagrado, para eles a água era benta. Os sacerdotes mayas lançavam oferendas em forma de cerâmica, peças de ouro e prata e, eventualmente, prisioneiros sacrificados ao cenote.
Porque a água dos cenotes é altamente alcalina costuma preservar até objetos perecíveis. Objetos de madeira, por exemplo, que em outro meio teriam desaparecido, foram encontrados em boas condições naquela água. A possível existência de valiosos tesouros no fundo do cenote sagrado aguçou a ganância de exploradores desde que se descobriu Chichén Itzá. Assim, em 1904, Edward Herbert Thompson, vice-cônsul dos EUA no México, comprou a área de Chichén Itzá com o único intuito de prospectar o fundo do cenote sagrado em busca de tesouros mayas. Para isso usou um sistema de roldanas acionado por motor a vapor que incluía uma série de grande baldes numa corrente, os quais, como uma draga, iam retirando a lama do fundo e vertendo-a numa depressão próxima. Em seguida pesquisava-se a lama que acabou oferecendo uma grande variedade de objetos de madeira, incluindo armas, cetros, ídolos, ferramentas e jóias. Jade foi a maior categoria de objetos encontrados seguido de têxteis. A presença de jade, ouro, cobre no cenote oferece uma prova da importância das Chichén Itzá como um centro cultural. Nenhuma dessas matérias-primas é nativa do Yucatán, supondo que pessoas (outros mayas) viajaram para Chichén Itzá de outros lugares da América Central, a fim de adorar os deuses. Pedra, cerâmica, ossos humanos e conchas também foram encontrados no cenote. Arqueólogos descobriram que muitos objetos mostram evidências de serem intencionalmente danificados antes de serem jogados no cenote, denotando uma ritualidade não muito clara do porquê dessa atitude.
A maioria das principais descobertas do cenote feitas sob a supervisão de Edward Herbert Thompson ele vendeu. Oitenta por cento do resultado dessa busca de Thompson pode ser encontrado no Museu Peabody da Universidade de Harvard, os restantes vinte por cento foram vendidos para o governo mexicano e se encontram no Museu Maya na Cidade do México.
Em 1909, Thompson decidiu mergulhar no cenote para explorar o fundo. Apesar da pouca visibilidade ele encontrou uma camada de cinco metros de lama que continha vários objetos de ouro. Em 1961, William Folan, um diretor de campo para o Instituto Nacional de Antropologia e Historia (INAH), ajudou a lançar outra expedição ao cenote.
Algumas das suas descobertas notáveis incluíram um osso com inscrições e uma faca de obsidiana com cabo de ouro, revestida numa bainha de madeira com mosaico de jade e turquesa. Em 1967, Román Piña Chán fez outra expedição. Ele tentou dois novos métodos que muitas pessoas tinham sugerido por um longo tempo: o esvaziamento da água do cenote e clarificação da água. Ambos os métodos foram apenas parcialmente bem sucedidos. Apenas cerca de quatro metros de água puderam ser removidos, o cenote é alimentado por rio subterrâneo que impede seu esvaziamento total. Também a água foi clarificada por apenas um curto período de tempo.
Depois dessas incursões não muito produtivas, o governo mexicano proibiu quaisquer prospecções no local e o definiu como patrimônio histórico nacional. Tive oportunidade de visitar o Cenote Ik-kil que está liberado para natação para os turistas. Para isso, foi construída uma “rampa” em forma de túnel em espiral que dá acesso ao espelho d’áqua a quase trinta metros de profundidade. Atualmente, mergulhadores especializados em cavernas costumam explorar outros cenotes do Yucatán onde têm encontrado ossos de animais pré históricos e algumas ossadas humanas eventualmente, mas nunca tesouros. JAIR, Floripa, 07/10/12.

domingo, 7 de outubro de 2012

Os Mayas



Agora em 2012 os Mayas, mais uma vez, viraram notícia por causa de seu calendário que, supostamente, marca o fim dos tempos para o dia 21 de dezembro. Objeto de milhares de conjeturas fantásticas, grande produção de oliúde e saites aos borbotões, o calendário realmente existe e o original se encontra num museu em Londres, cópia dele está no Museu Maya na cidade do México.
Estive passeando no México, na península de Yucatán, e tive oportunidade de ir até Chichén Itzá, local onde se situa a chamada “cidade Maya” que tem a famosa pirâmide e vários outros monumentos construídos com fins rituais religiosos nos anos mil de nossa era.
Os Mayas eram um povo que construiu uma civilização na região de florestas tropicais onde hoje é a Guatemala, Honduras e Península de Yucatán no México. Este povo desenvolveu sua fantástica cultura, aparentemente autóctone, a partir de 900 anos antes de Cristo que durou até em torno do ano 1200 de nossa era quando as camadas mais pobres do povo revoltaram-se destituindo e matando a nobreza numa espécie de “revolução francesa” que deu feição de anarquismo à organização que restou. Em seguida, outros povos invadiram a região e destruíram sua estrutura social. Só restando a partir daí aldeias isoladas sem qualquer vínculo com a antiga civilização a não ser a língua e as habilidades artesanais.
O fato é que, apesar de historiadores e outros estudiosos referirem a um “império Maya”, há indícios que eles nunca chegaram a formar um império unificado, uma nação com um comando central e estrutura administrativa que permitisse a existência de um exército coeso que pudesse defender com eficácia “suas fronteiras”. Parece que essa falha favoreceu a invasão das terras pelos Toltecas que eram guerreiros mais organizados. Como é fácil de perceber pelas ruínas dos monumentos que restaram, as cidades não eram necessariamente locais de residência do povo, elas abrigavam o núcleo do poder religioso e das decisões políticas da civilização. O povão morava fora dos muros das cidades e a eles cabia obedecer e pagar impostos. O poder imperial – uma junta de sacerdotes e gente de sangue azul - era considerado um representante dos deuses no Planeta Terra. A zona urbana – local onde se localiza a pirâmide - era habitada apenas pelos nobres (família real), sacerdotes (responsáveis pelos cultos e saberes), chefes militares e administradores do império (cobradores de impostos). Vê-se que o Plano Piloto de Brasília teve uma fonte antiga onde beber. Os camponeses, artesãos e trabalhadores urbanos que formavam a base da sociedade, não tinham privilégios só lhes cabia apoiar os nobres. Qualquer semelhança com os decadentes impérios europeus do século dezenove, talvez seja mera coincidência, mas os efeitos maléficos que essa estratificação social causou à organização não o é.
A agricultura era a base da economia, principalmente o cultivo de milho, feijão e batatas. E eles desenvolveram técnicas de irrigação que eram muito avançadas para a época. Praticavam o comércio de mercadorias com povos vizinhos e no interior do império e para isso construíram “estradas” que são perfeitamente detectáveis ainda. Tive oportunidade de ver uma delas.
Ergueram pirâmides, templos e palácios, demonstrando um grande avanço arquitetônico. O artesanato também se destacou: fiação de tecidos, uso de tintas em tecidos e roupas.
Desenvolveram escrita pictorial na qual os símbolos, a exemplo de nosso alfabeto, representavam os sons como as letras os representam para nós. Tanto articulado era o idioma escrito, que hoje é possível representar nosso alfabeto com os hieróglifos mayas. Isto é, pode-se “escrever” nossas palavras com os símbolos deles sem qualquer prejuízo para a compreensão. Como a língua maya está viva, não é difícil comparar suas representações fonéticas com os sons que usamos, há símbolos para todas as nossas letras.
Transposição dos hieróglifos mayas para nosso alfabeto.
Na matemática usavam sistema trinário – três dígitos: zero, um e cinco. Antes que alguém ache três dígitos uma aberração, é só lembrar que os computadores só usam dois: zero e um. Curiosamente, já conheciam o zero antes do mundo ocidental. Com esses três dígitos construíram um calendário funcional quase perpétuo que hoje é objeto de vasta especulação. Seus descendentes que vivem na região do Yucatán conseguem transpor qualquer data atual do nosso gregoriano calendário, para calendário deles. Essa habilidade, que não é difícil de entender depois que nos explicam como funciona o sistema trinário, falcuta-lhes amealhar alguns pesos dos turistas pela confecção de amuletos pingentes de prata com quaisquer datas que interesse ao turista.
Na arquitetura, não precisa dizer, suas pirâmides, embora semelhantes às egípcias em escala menor, são de esmerado acabamento e pejadas de inscrições e formas geométricas que lhes conferem um valor artístico invejável. Como os mayas não dispunham de metal duro para lavrar as pedras calcárias que usaram na confecção de seus monumentos, pirâmides e templos, fizeram uso de obsidiana, uma rocha vulcânica extremamente dura. O problema é que não existe obsidiana no Yucatán, então, deduz-se, eles a importavam de regiões longínquas como América Central. Lamentavelmente alguns monumentos foram explodidos pelos exploradores em busca de ouro, o qual inexistia.
Hoje o sítio Chichén Itzá é uma das sete maravilhas do mundo, tombado como patrimônio histórico da humanidade, assim como o é o Cristo Redentor do Rio de Janeiro. JAIR, Floripa, 07/10/12. 

domingo, 2 de setembro de 2012

O ET


Se esses ufólogos alienados quiserem um exemplo sólido que somos visitados por extraterrestres de vez em quando, ou que eles estão entre nós, vale dar uma olhadela na vida de Nikola Tesla, nascido na atual Croácia, mas que ao tempo de seu nascimento ainda era Sérvia. Até o detalhe de sua vinda ao mundo (10/07/1856) quando ele chegou à Terra exatamente à meia noite durante uma violenta tempestade elétrica, e de sua morte solitária e estranha, sua vida foi repleta de genialidade e comportamentos heterodoxos. 
Adulto, Tesla era olhado mais ou menos como um mago, misterioso e avesso à proximidade com outras pessoas, mas, estranhamente, gostava de anunciar suas descobertas e invenções como num circo, com espalhafato e cobertura da imprensa. A maioria de suas invenções foi e ainda é futurista, tanto no design quanto ao fim que se destina, inclui desde tele transportes, raios mortais e naves de guerra antigravidade até a corrente alternada de amplo uso até hoje. Mas na sua trajetória fulminante, Tesla criou um inimigo poderoso e vingativo quando provou que sua corrente alternada era melhor e mais barata e segura para ser transportada a longas distâncias, em comparação com a corrente contínua de Thomas Alva Edison. Tesla ganhou a parada por que tinha apoio de George Westinghouse. Mas seu comportamento exótico ia mais longe, ele falava de coisas tão estranhas que os investidores as rejeitavam incontinenti – especialmente por que a desordem obsessivo-compulsiva da qual sofria o levava a sempre dar três voltas no quarteirão, dobrar as roupas três vezes e fazer tudo multiplicado por três. Sem possuir carisma, num tempo que inexistia marketing pessoal, ele perdeu as patentes de muitas de suas criações, entre elas a do rádio – patente perdida para o italiano Guglielmo Marconi. Num ato de justiça histórica, contudo, a patente do rádio, em 1943, acabou sendo reconhecida como de Tesla novamente.
Numa atitude muito parecida com o ET do Spielberg, Tesla passou os últimos anos de sua vida vivendo recluso em um hotel de Nova Iorque e tentando usar suas ondas de rádio para lançar sinais para o sistema solar, convencido de que transmissões estavam sendo enviadas para a Terra a partir do espaço. Morreu (07/01/1943) em seu quarto de hotel aos 86 anos, sozinho, falido e seu corpo parecia um saco de ossos. Supõe-se que havia deixado de se alimentar a semanas.
Há quem (ufólogos naturalmente, pois estes já existiam naquele tempo) suspeite que sua preocupação em ouvir os sons vindos do espaço, ou aquilo que muitos viam como desperdício de seu gênio, fosse uma tentativa de retornar ao tempo (ou planeta) do qual viera. Em todo caso, o FBI confiscou a maioria de suas anotações e as mantém até hoje classificadas como material ultra secreto, um prato cheio para os ufólogos de plantão. JAIR, Floripa, 27/08/12. 

domingo, 26 de agosto de 2012

O ícone


Segundo o Huaiss, ícone pode ser: pessoa ou coisa emblemática, isto é, essa coisa ou pessoa ao ser mencionada não precisa de explicação, ela é a explicação. Assim, temos ícones na história, nas artes, nos negócios e em todas as atividades humanas. Mas eu quero falar de um ícone do cinema que representa a mulher sexy por excelência: Marilyn Monroe.
Marilyn Monroe recebeu o nome de Norma Jeane Mortenson, ao nascer em Los Angeles em 01 de junho de 1926. A mãe dela, Gladys Pearl Monroe trabalhava na edição de filmes dos estúdios RKO e o pai pode ter sido um dos três homens que ela se relacionava naquela época. Marilyn viveu em orfanatos e lares adotivos até se casar aos dezesseis anos. Em 1945, um fotógrafo do exército que fazia umas tomadas de mulheres que participavam da campanha da guerra viu-a trabalhando numa fábrica de pára-quedas e percebeu seu potencial como modelo. Ele teve um caso com ela e a encaminhou a uma agência de modelos. Seu êxito na profissão levou-a naturalmente a um teste para atriz e à assinatura de contrato com a Twentieth Century Fox, em 1946, pelo salário semanal de 125 dólares. Marilyn fez uma série de pontas em filmes até 1953, quando recebeu um papel de certa relevância. No mesmo ano, Hugh Hefner comprou uma foto de Marilyn nua, feita quando ela era modelo principiante, e a publicou na então sua nova revista Playboy. Marilyn virou celebridade e tornou-se ícone da mulher sexy, rótulo que parecia ter sido criado para ela. Casou-se com o grande jogador de beisebol Joe DiMaggio o qual, mesmo depois que ela morreu disse que jamais deixou de amá-la e até o fim de seus dias levava todo mês uma flor ao seu túmulo. Marilyn também casou-se com o dramaturgo e escritor Arthur Miller e frequentava com grande sucesso roda de intelectuais amigos de seu marido. Ao contrário do que alguns maledicentes insinuam, Miller, do alto de sua inteligência e fama, afirmava categoricamente que Marilyn era extremamente inteligente, o que lhe faltava era escolaridade, havia freqüentado apenas quatro anos de bancos escolares em decorrência das errâncias de sua sofrida infância.
Sempre a procura de um afeto inatingível que não tivera na infância, ela buscou consolo em comprimidos, no álcool e relacionamentos eventuais, passando a ser inconstante no trabalho e incapaz de manter relacionamentos sérios com os poucos homens que se esforçavam tremendamente para amá-la e serem amados. Apesar disso tudo, seu sucesso como atriz havia decolado e ela tornara-se famosa, rica e imitada por outras atrizes e por mulheres do mundo todo.
Em 1962, quando tinha 36 anos e continuava mais linda que nunca, Marilyn foi encontrada em seu apartamento, morta por uma overdose de Nembutal e hidrato de cloral, ambos barbitúricos vendidos sob receita médica. No seu obituário a morte consta como suicídio. Mas devido a supostas ligações dela com John F. Kennedy e Robert Kennedy; a inconsistências dos indícios encontrados no local da morte; e o desaparecimento das gravações de seus telefonemas, foram aventadas várias hipóteses de assassinato. O imaginário popular mundial ficou excitado com a possibilidade do relacionamento do presidente Kennedy com ela a partir do “Happy Birth Day” que ela cantou de modo extremamente provocante para ele na Casa Branca. No mais, perdeu-se um ícone e nasceu um mito. JAIR, Floripa, 26/08/12. 

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Justiça


Ao organizar-se em sociedades o Homo sapiens foi compelido a criar regras mínimas que permitissem uma convivência sem muito atrito entre seus membros. Claro, essas regras incluem punir aqueles que violarem as próprias regras. Ou seja, leis são instrumentos que sociedade usa para manter os homens ancorados no patamar que se convencionou ser “bom para todos”, quem viola as leis paga o preço, ou deve pagar o preço.
Pois bem, há leis lenientes oriundas de sociedades ditas civilizadas e outras nem tão frouxas aplicadas em sociedades mais “primitivas”. Na China, casos de corrupção normalmente são punidas com a morte do culpado e a bala usada na execução deve ser paga pela família. Em outras sociedades como a do Brasil, por exemplo, pune-se apenas gente pobre, aos ricos falcuta-lhes não sentar no banco dos réus, e quando sentam por algum descuido, suas sentenças são anormalmente brandas e cumpridas em liberdade, nada a estranhar numa sociedade onde “todos são iguais perante a lei”, mas alguns são mais iguais que outros. Ainda mais, quando o culpado for apenado com mais de trinta anos não deve se preocupar, pois pelo Código de Execuções Penais, não se pode permanecer mais de trinta anos atrás das grades. Assim, cabo Bruno, ex policial condenado a 117 anos pela acusação de assassinato de mais de cinquenta pessoas, saiu da cadeia por “bom comportamento” depois de cumprir apenas 27 anos.
Bem, não há muito o que falar de um país em andam soltos pelas ruas: Paulo Maluf, Jader Barbalho, Luiz Estevão, Jorgina de Freitas e outros cidadãos exemplares por aí. Mas o que falar de um país europeu, Noruega, supostamente com arcabouço jurídico, leis e costumes de primeiro mundo? Supostamente, por se tratar de uma democracia, uma sociedade que valoriza a vida? Pois é, Anders Behring Breivik, assassino confesso de 77 inocentes foi condenado a 21 anos de prisão. Vinte e um anos!!! Isso dá menos de cem dias por vida tirada! É incrível, mas no ano de 2033 Anders poderá estar livre com toda sua empáfia e convencimento, pronto para por em prática aquilo que chamou de justiçamento e mortes perfeitamente justificáveis. Parabéns ao aparelho judiciário da Noruega, pelo visto a justiça de lá não deixa nada a desejar a esta do Patropi. JAIR, Floripa, 24/08/12. 

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Especiarias



Lembro do tempo da escola fundamental quando, nas aulas de história do Brasil, as professoras se referiam ao “comércio com as Índias” que teria impulsionado as grandes navegações portuguesas que resultaram nos grandes descobrimentos. Vasco da Gama teria chegado às Índias contornando o Cabo da Boa esperança e navegado pelo oceano Índico até a “terra das especiarias”.
Bem, tudo facilmente assimilado até certo ponto, mas, quando surgia a palavra especiarias a coisa empacava, meio que os textos se tornavam herméticos, as professoras mal sabiam o que eram as tais especiarias e se limitavam a dizer que eram cravo, canela e pimenta do reino. Ora, esses conhecidos temperos eram usados em doses parcimoniosas na culinária daquela época; eram obtidos no comércio local, embora nem sempre muito baratos, mas não havia como entender que tais complementos pudessem ser objeto de caríssimas, longas e complicadas viagens através do mundo para obtê-los. A mim parecia que ninguém tinha conhecimento ou capacidade para explicar essa engenharia comercial que resultou nas mudanças que formaram o mundo no qual vivíamos.
Especiarias? Temperos culinários movendo o mundo? O que é isso? Vivi com essas indagações incrustadas no cérebro por anos a fio. A coisa ainda ficava mais interessante quando a gente percebia que a palavra especiaria só era usada nos livros de história, não havia registro em outros lugares a não ser em dicionários. Ninguém dizia: “Vai ali na venda do seu Zé comprar duzentas gramas de especiaria para o almoço”; Não havia referências como: “Aqui se vendem especiarias”, ou “Grande liquidação de especiarias”. Guardadas as diferenças especiaria era como “de onde vêm os bebês”. Todo mundo sabia, mas ninguém dizia. Limitavam-se a cegonhas e outros que tais.
Pois, passados muitos anos, quando já nem mais me lembrava do termo, lendo um livro sobre a história do sal, encontro lá as melhores explicações sobre as tais especiarias. Pimenta do reino, canela, cravo, noz moscada e macis (óleo que se extrai da noz moscada) eram os substitutos do sal na conservação da carne. O sal era artigo de luxo, caro e raro, portanto, numa época que inexistia geladeira, as especiarias serviam como conservantes naturais das carnes a serem consumidas dias após o abate. Contudo, o grande óbice para seu consumo é que eram cultivadas “nas Índias”, na verdade Indonésia, Singapura e adjacências, não exatamente na Índia atual. Daí, foram empreendidas as grandes navegações depois que os turcos conquistaram Constantinopla e passaram a controlar o comércio por terra. Os portugueses foram os primeiros a aportar em Calicute, mas em seguida holandeses, franceses e ingleses formaram frotas próprias para a busca incansável e milionária dos temperos que permitiram europeus comerem carne conservada ao invés de pútrida como vinham fazendo a séculos.
Os condimentos referidos não eram usados porque adicionavam sabor especial à carne e seus derivados, e sim porque possuem óleos essenciais que tem efeito biocida impedindo a proliferação de bactérias que deterioram o alimento. Por exemplo, o óleo de cravo, produzido por um processo de extração, é constituído basicamente, por eugenol (70 a 80%). O eugenol é um composto aromático com efeito anestésico e anticéptico comprovado cientificamente.
Então aí está, temperos, condimentos ou especiarias tiveram influência crucial na história da humanidade, não dá para subestimar o poder de coisas aparentemente tão banais. JAIR, Floripa, 17/08/12. 

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A árvore da vida


O filme “A árvore da vida” é dirigido por Terrence Malick, o mesmo diretor de “Além da linha vermelha” e, por coincidência ou não, Sean Penn que fazia o papel do sargento Edward neste filme sobre a segunda guerra, também trabalha na árvore da vida. Além de Penn, Brad Pitt é protagonista ao lado de Jessica Chastain.
O filme é instigante, eu diria que não é para amadores, vale a pena ser assistido mais de uma vez por aqueles que não captarem a essência da historia que é meio fragmentada e não obedece uma linha rígida de tempo.
A história começa nos anos cinquenta na cidade Waco no Texas e foca uma família comum conservadora americana. Deve-se lembrar que o Texas é um estado conservador tanto político como religioso, do chamado “Bible belt south”, de onde saíram os Bushs que governaram os EUA e fizeram guerra durante seus mandatos e onde o eleitorado é republicano de raiz. Vale lembrar também que o conservacionismo texano prega o criacionismo como se ciência fosse nas suas escolas primárias, então não é nenhuma surpresa que o filme tenha justamente uma família conservadora típica como protagonista da história.
Bem, a família conservadora de Brad e Jessica (Sr. e Sra. O’Brien) é composta pelos pais e três filhos meninos. O senhor O’Brien, embora amoroso, cria os filhos com extrema rigidez, cobra deles comportamento e postura quase de seminaristas religiosos. Seus gestos e maneiras de se dirigir a ele e outras pessoas têm que ser observados com rigor absoluto, qualquer deslize é passível de punição. Os filhos se submetem, mas o mais velho, Jack, costuma se rebelar em horas que não está sendo observado. Em alguns momentos dá a impressão que filho odeia o pai. A mãe é passiva, abnegada, amorosa e suporta com estoicismo e sofrimento a tensão em servir de amortecedor das exigências do marido em relação aos filhos.
O drama que vive a família gira em torno da morte do filho mais novo em condições que não aparecem no filme, mas que afetam profundamente o pai, os irmãos e principalmente a mãe que jamais se recupera da perda. Jack, protagonizado por Sean Penn quando mais velho, fala muito pouco, aliás, há pouquíssimos diálogos no filme, o diretor embasa a estória em imagens quase fantásticas com ênfase na água, seja em cachoeiras, em forma de gelo, cenas submarinas, rios e chuva, muita chuva. Para contar a estória o diretor mostra a formação do universo desde o big bang até o aparecimento da civilização moderna, passando por cenas com dinossauros. Há quase vinte minutos só de cenas da criação do mundo sem nenhum diálogo, mas com música de fundo magistral. Vale a pena curtir essa parte fundamental do filme sem pensar em nada só ver, só observar. Como eu disse no início, é instigante. JAIR, Floripa, 14/08/12.