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domingo, 15 de abril de 2012

Marte



O planeta Marte é, de longe, o mais popular de nosso sistema solar. Talvez isso se deva ao fato de que ele é um dos mais próximos à Terra e que pode ser visualizado por aparelhos óticos de baixa potência. Por outro lado, sua popularidade também pode ser atribuída ao equívoco que resultou na crença infundada que na sua superfície existiam “canais”. Essa suposição começou com as observações do astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli (1835-1910). Ao telescópio, ele observou uma série de supostas linhas finas que aparentemente uniam áreas escuras na superfície do planeta, como canais naturais que unem regiões alagadas. Schiaparelli as chamou de canali. Mas o termo foi traduzido para o inglês channel, que significa canal artificial. Na verdade o italiano queria referir-se a canais naturais como esses que são escavados pelas águas pluviais.
Incorporada ao imaginário ocidental essa interpretação errônea, criou-se a ilusão que em Marte poderia haver vida inteligente com todas as possíveis consequências que tal fato acarretaria. Marte transformou-se no planeta por excelência para abrigar seres verdes hostis providos de antenas, dispostos a pousar na Terra com suas naves de tecnologia avançada e transformar os terráqueos em escravos ou eliminá-los. Embalados pela aceitação quase passiva de existência desses “homenzinhos verdes”, vários escritores imaginativos criaram estórias de ficção nas quais éramos visitados por marcianos. Um desses escritores foi o inglês H. G. Wells, que em 1898, lançou “Guerra dos mundos”, livro que se tornou um clássico, gerou inúmeras imitações e serviu de inspiração a mestres como Orson Welles e Steven Spielberg.
Numa tranqüila noite de 1938, dia das bruxas (31 de outubro), um dos mais sensacionais programas de rádio já criados, em que o diretor Orson Welles simulou a invasão da Terra por conquistadores marcianos. Em pouco tempo, vários boletins fictícios - inseridos como notícia de última hora na programação normal - convenceram cerca de seis milhões de ouvintes, em todo o país, que as explosões ouvidas como ruído de fundo eram dos motores de foguetes partindo para a guerra de conquista. Estima-se que milhões de pessoas ficaram seriamente assustadas e muitos milhares entraram em completo pânico, gritando nas ruas, rezando ou procurando vedar as casas contra os gases das armas invasoras. Um marco na arte do suspense, o programa de Welles não fez mais que explorar a grande expectativa que as pessoas alimentam de encontrar vida em outros mundos, principalmente em Marte.
Com o avançar de novas descobertas a respeito de como a vida se sustenta no planeta Terra, a suposição que haveria vida inteligente em Marte arrefeceu, mas continuou existindo uma fímbria de esperança que um dia o homem pisaria naquele planeta de descobriria em definitivo a existência ou não de vida marciana. Quando os russos lançaram o Sputnik em 1957, e, em plena guerra fria, pegaram os americanos de calças curtas e fizeram com que estes acordassem para a “corrida espacial” a qual culminou com várias visitas à Lua e promessa de chegada do homem em Marte nos anos oitenta. Ficou só nas promessas, as explorações espaciais são muito caras e tornam viável apenas lançamentos de naves não tripuladas a outros planetas.
Do ponto de vista dos pesquisadores humanos, Marte continua sendo o mais interessante e promissor com respeito à possível existência de vida, ainda que microscópica. Sua atmosfera é suficientemente densa para lhe conferir um clima. Tal qual a Terra, Marte possui calotas polares que aumentam e diminuem de acordo com as estações. Essas características sugerem que Marte poderia ser habitado por seres, animais ou vegetais, nos moldes como os conhecemos no nosso planeta.
Contudo, além dessas especulações o mais das vezes ociosas, observações feitas no final dos anos 90 pela Mars Global Surveyor confirmaram a suspeita de que Marte, ao contrário da Terra, não possui um campo magnético digno de nota, aumentando potencialmente ameaça a qualquer tipo de vida pela exposição à radiação cósmica que pode alcançar a superfície do planeta em doses maciças. Cientistas também especulam a possibilidade de que a falta de proteção devido ao diminuto campo magnético ajudou o vento solar dissipar grande parte da atmosfera de Marte no curso de bilhões de anos.
Trocentas outras missões não tripuladas foram enviadas ao Planeta Vermelho com intuito não só de estudar sua atmosfera e constituição do solo, como também possíveis resquícios orgânicos de vida que teria existido em Marte em época distante quando suas condições, supõe-se, eram mais favoráveis à vida. Em fevereiro de 2005 foi anunciada a descoberta, pela Mars Express, de evidências de um baita mar congelado logo abaixo da superfície do planeta, ligeiramente ao norte do equador, com uma extensão assustadora de novecentos quilômetros. A importância da descoberta é que esta é a primeira evidência da existência de água longe dos pólos do planeta. Outra descoberta de monta é de uma superfície circular de gelo, de 35 quilômetros de comprimento e 2 quilômetros de profundidade, localizada no fundo de uma cratera, numa grande planície próxima ao pólo norte do planeta. Estas são as notícias mais importantes de todos os tempos com relação à existência de condições que permitiriam a eclosão de vida em Marte. No mais tudo é especulação ainda.
Pois é, o planeta vermelho, em oposição ao nosso vilipendiado planetinha azul, está próximo o suficiente para ser assediado por nossas sondas e longe demais para ser xeretado por nossos astronautas. Ainda mais, embora nessa matéria ainda caibam sonhos como “colônias marcianas” a serem habitadas por gerações de intrépidos pioneiros humanos, nosso nível tecnológico atual ainda não consegue resolver os maiúsculos problemas que surgiriam numa empreitada dessa natureza. Por enquanto, poetas e outros sonhadores podem continuar entoando a música “Marcianita” gravada por Sérgio Murilo nos anos setenta:
Esperada, marcianita,
Asseguram os homens de ciência
Que em dez anos mais, tu e eu
Estaremos bem juntinhos,
E nos cantos escuros do céu falaremos de amor...”

Dez anos, porque o otimismo daquele tempo supunha que em uma década estaríamos pisando no solo avermelhado daquele planeta. Sonhos! JAIR. Floripa, 20/03/12.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Sandices planetais



Obviamente o chamado sistema solar, composto pela estrela de quinta grandeza, Sol, circundado por bolotas denominadas Planetas, é conhecido e incontestado até por pessoas comuns, de modo geral não há nada de excepcional nele que possa gerar polêmica. Contudo, poucos de nós temos uma noção mais acurada de seu funcionamento. Um ponto de partida conveniente para estudar outros corpos celestes, principalmente planetas, é nosso planetinha azul, por razões óbvias. Enquanto não houver viagens interplanetárias, os astrônomos não têm como recolher amostras da superfície ou da atmosfera de outros corpos celestes, ou registrar as vibrações que se processam no interior de suas massas. Podem apenas, certamente frustrados, olhar sem tocar, ficam dependentes de dados conduzidos através do espaço por ondas de luz ou de rádio – informações o mais das vezes vagas e enganosas. E devem, acima de tudo, admitir que os planetas estudados são iguais ou muito parecidos com o nosso. Por exemplo, todos os corpos celestes se atraem mutuamente pela gravidade, então por que uns não “caem” sobre os outros? Por que a Lua não cai sobre a Terra? Ou: Por que todos os planetas são aparentemente esféricos, ou quase isso? Por que não existem planetas quadrados?
A rigor, a resposta porque os corpos celestes não caem uns sobre os outros e porque são redondos é a mesma: por causa da gravidade. Então vamos aos fatos. Newton não descobriu a gravidade observando a queda de uma maçã nem sendo atingido por ela conforme reza a lenda popular. As observações relativas à gravidade e à queda dos corpos haviam sido amplamente estudadas, mas se aplicavam somente à superfície da Terra, pois não havia como extrapolá-las para o desconhecido espaço cósmico. Não se fazia ideia da gravitação como força universal, afetando todos os objetos, inclusive corpos celestes. Parecia óbvio que a gravidade não podia ser aplicada a corpos que flutuavam no éter, porque eles não caíam sobre a Terra. Newton usou sua genialidade para incluir a Lua nas suas leis da gravitação e dizer por que ela não caía.
Observou por experiência que um objeto atirado horizontalmente segue trajetória tanto menos curva quanto maior for sua velocidade. Essa experiência é fácil de reproduzir, basta observarmos que um tiro dado na horizontal tem maior alcance se tiver maior velocidade. O tempo que bala leva para cair no chão é o mesmo que se nós a soltarmos livremente da mesma altura. No programa “MythBusters”, Caçadores de Mitos em português, os cientistas apresentadores provaram de forma cabal que isso é verdade. A gravidade atua com a mesma força (9,81m/s²) tanto no projétil disparado pela arma, quando no largado livremente, de modo que ambos caem no mesmo tempo. Pois bem, o jovem Isaac raciocinou que a elevada velocidade da Lua, algo em torno de 3700 quilômetros por hora, fosse suficiente para fazê-la seguir sua conhecida trajetória, a despeito da tendência a cair, como se comportam todos os objetos. E levando um pouco mais adiante seu raciocínio, baseando-se nas propriedades matemáticas das elipses de Kepler, admitiu que, quando aumenta a distância da Terra, a força da gravidade diminui proporcional ao quadrado da distância. Foi uma sacada genial!
O carinha (Newton) não foi exatamente feliz ao aplicar tal ideia à Lua, mas, quando conseguiu melhorar a estimativa do tamanho da Terra, sua matemática provou que ele estava certo. Na verdade a Lua se movia com a exata velocidade para que a gravidade da Terra, atenuada pela distância, a mantivesse em órbita, sem fazê-la cair na superfície e tampouco perder-se no infinito do cosmo. Essa sacada de Newton foi um dos maiores feitos na história do pensamento humano. Fizera uso da conhecida força que faz as coisas caírem sobre a Terra, para explicar porque a Lua não caía. Não é à toa que seu trabalho lhe valeu o grau de “Sir” concedido pela rainha da Inglaterra.
Já sobre a forma arredondada ou redonda da Terra, e, em consequência de todos os outros astros também, assim me expressei em outra ocasião: “A forma arredondada do planeta se deve à gravidade, essa força atua sobre toda a superfície igualmente de forma que a esfera é a forma geométrica que melhor distribui a massa que está sob o efeito da gravidade. E o achatamento se deve a gravidade do sol e da lua que “puxam” a massa terrestre nos trópicos e pela força centrífuga gerada pela rotação, que tenta expelir a massa na região do equador onde o momento angular é maior”.
Mas Sir Newton havia tirado o gênio da garrafa, a estrutura do sistema solar começou a adquirir a forma como a conhecemos, livre daquela baboseira de esferas concêntricas, órbitas do Sol em torno da Terra e quetais. Todos os integrantes do sistema se moviam conforme leis universais da gravitação, cuja ação pode ser reproduzida numa só frase: “Os corpos se atraem com uma força que varia diretamente com produto de suas massas e inversamente com o quadrado da distância entre eles”. Agora, por que a lei de Newton funciona, não se sabe. O que se pode afirmar com segurança é que o Universo é feito de tal forma que a lei de Newton fornece um resumo excelente dos movimentos observados.
Portanto, o sistema solar e todo o universo conhecido estão em movimento constante regulado pela lei da gravitação universal, então não há porque perguntarmos por que a Lua não cai, ou porque os planetas não são quadrados, são esferas. Esferas perfeitas não, o nome correto é esferóide oblato que, em linguagem de gente, quer dizer uma esfera ligeiramente achatada.
Assim, neste cantinho da Via Láctea, neste sistema que deve ser replicação de milhares de outros existentes no Universo, os planetas quase esféricos giram em tono de um a estrela sempre do mesmo jeitão, por cauda da lei enunciada por Newton, nada muito estranho ou minimamente polêmico. E planetas outros que existirem em outros sistemas, em outras galáxias, certamente estarão obedecendo as mesmas regras dos nossos, isso podem ter certeza, não pode existir regras diferentes para o mesmo fenômeno. JAIR, Floripa, 06/03/12.

terça-feira, 20 de março de 2012

Anéis de Saturno

Embora as sondas espaciais Voyager 1 e 2, que sobrevoaram os planetas em novembro de 1980 e em agosto de 1981 tenham constatado a existência de anéis que circundam Júpiter e Urano, desde sempre, são os anéis de Saturno que chamam mais atenção dos astrônomos e fazem a imaginação das pessoas comuns criar asas. Aliás, os anéis de Júpiter e Urano são tão transparentes, tão espectrais que só com instrumentos especiais podem ser detectados, já os de Saturno, com um pequeno telescópio de espelho de oito polegadas é possível bisbilhotá-los.
Na verdade, os anéis desse planeta são mais conhecidos que a atmosfera e outras características suas. Durante os primórdios da astronomia telescópica conjeturou-se muito se os anéis eram contínuos ou constituídos de vários corpos separados e as ilustrações da época registram como se fossem apenas três. A dúvida foi sanada quando, através de radios telescópios, mediram-se as velocidades das bordas interna e externa dos anéis. Se os anéis fossem contínuos, girariam em torno do planeta como rodas, e suas bordas externas teriam maior velocidade que as internas, como acontece com uma roda de carro, por exemplo. Mas observou-se que ocorre ao contrário, a borda interna, mais próxima de Saturno, gira mais depressa que a externa. Como se deve esperar de corpos separados, os corpos mais próximos do astro o qual circundam devem mover-se mais rápido para vencer uma gravidade maior. Lei da gravitação universal de Newton: “Os corpos se atraem com uma força que varia diretamente com produto de suas massas e inversamente com o quadrado da distância entre eles”. Portanto, cada “faixa” de anel gira com a velocidade que um satélite giraria naquela distância.
Essa descoberta provou que os anéis são constituídos por corpos independentes e órbitas e velocidades próprias; mas não permitiu concluir qual seu tamanho nem de que material são feitos. Mas a medida que Saturno gira em torno do Sol na sua órbita de vinte e nove anos, os anéis parecem mudar lentamente de posição.Quando olhados de perfil, os anéis somem totalmente, indicando que são extremamente finos. Fora esses famosos corpos, Saturno ainda possui cinquenta e três satélites conhecidos e batizados, mas, suspeita-se que existem pelo menos nove outros ainda não batizados.
Em 2004, a sonda Cassini-Huygens alcança Saturno. Transformando-se no primeiro veículo espacial a orbitar aquele planeta distante e em aproximar-se de seus anéis. A missão foi programada para concluir no final do ano 2009 quando a Cassini ficou sem energia e perdeu-se no espaço. A sonda clicou e transmitiu para a Terra, as primeiras fotos em “close” do planeta e seus anéis. Na verdade, close é apenas uma expressão, porque no momento em que as imagens foram feitas, a câmera da sonda estava a uma distância de quase mil quilômetros, na verdade precisamente 998,045 quilômetros do planeta. Ao contrário do que se supunha, os anéis são milhares, uns próximos dos outros, mas longe o suficiente para não colidirem. Numa comparação grosseira, pode-se dizer que os anéis semelham-se a um disco LP, daqueles bolachões de 33 rotações em desuso atualmente.
O cuidadoso estudo da luz do Sol refletida nos anéis leva à conclusão que são feitos de partículas desde não maiores do que grãos de areia até o tamanho de um ovo da gansa, mas de superfície áspera, como se esta fosse recoberta de cristais microscópios de gelo. Pelas fotos e pela reflexão de ondas de rádio, concluiu-se que os anéis não têm mais que alguns centímetros de espessura, e que as partículas que o formam não representam mais que cinco por cento do volume dos mesmos. Ou seja, os anéis são noventa e cinco por cento espaço vazio, coisa impressionante.
Já, a origem desses diáfanos, mas impressionantes, anéis ainda está no campo das conjeturas, ou dos chutes se preferirem. Entre os astrônomos há uma linha que cogita ver neles restos de matéria que jamais chegou a aglomerar-se e formar um corpo sólido, um satélite. Outros acham que são restos de algum corpo – cometa, satélite ou asteróide – que se desintegrou ao passar de “raspão” por Saturno, sendo que os detritos resultantes entraram em órbita em torno do equador do planeta. Em qualquer os casos os anéis são alguma coisa resultante de outra diferente.
Contudo, qualquer que seja a formação e qualquer que seja a origem desses anéis, uma coisa é certa: são espetaculares e conferem uma identidade própria a Saturno. E, sobretudo, dado que podem ser “restos” que marcam uma tragédia anterior, quase compulsoriamente, nos remetem à lembrança o inverso do adágio famoso: Os dedos se foram, mas os anéis permanecem. JAIR, Floripa, 10/03/12.