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domingo, 25 de setembro de 2011

O Vulcão

Silva Jardim

Os vulcões são fenômenos sismológicos naturais, geralmente de ações violentas e dramáticas, que estão relacionados com o movimento das placas tectônicas do Planeta. Atualmente existem cerca de 800 vulcões ativos conhecidos, mas milhares outros estão extintos definitivamente, ou não entram em atividade a muitos anos de modo que não se conhece sua periodicidade ou se podem ser considerados inativos para sempre. O Yellowstone National Park, localizado no Wyoming, Montana e Idaho, nos EUA, é um caso típico: sabe-se que o parque está situado numa hiper, super, mega cratera de vulcão que já entrou em erupção 9 vezes nos últimos 600 milhões de anos, mas não se tem certeza se está extinto ou não. De qualquer forma, a história da Terra e da vida sobre ela está intimamente relacionada com as atividades telúricas que incluem os vulcões, além de terremotos, tsunamis, ciclones, furacões e outros cataclismos.
Estando ligados à evolução do Planeta não significa que os vulcões estejam ligados à história do homem propriamente, ou seja, na maioria dos casos, nunca se tornaram “sujeitos da história”, no entanto, alguns por se situarem em locais onde as pessoas acabaram se estabelecendo para morar, influíram marcadamente no progresso da civilização humana.
Os casos mais conhecidos da relação dos vulcões com cidades e homens, entre outros, são: A erupção do Monte Pelée de 1902, na Martinica, uma das mais devastadoras de que se tem conhecimento, tendo causado a morte de quase 30.000 pessoas e a destruição total da cidade de Saint-Pierre, situada no sopé da montanha; O Krakatoa, no dia 27 de Agosto de 1883, a ilha de mesmo nome, localizada no estreito de Sunda, entre as ilhas de Sumatra e Java, na Indonésia, desapareceu quando o vulcão de mesmo nome - supostamente extinto - entrou em erupção. É considerada a erupção vulcânica mais violenta que o homem moderno já testemunhou. As erupções e explosões duraram 22 horas e o saldo foi de mais de 37 mil mortos. Sua explosão atirou pedras a aproximadamente 27 km de altitude e o som da grande última explosão foi ouvida a cinco mil quilômetros; O Kilauea vulcão localizado no Parque Nacional de Vulcões do Havaí, nos Estados Unidos, é considerado o vulcão mais ativo do mundo e tanto destrói edificações, florestas e estradas, como constrói novos “terrenos” de lava úbere as quais serão ocupados em seguida; Por último, o Vesúvio, que no dia 24 de agosto de ano 79 de nossa era, entrou em erupção de forma catastrófica lançando pedras e cinzas, sepultando as cidades de Pompéia e Herculano situadas nas suas faldas.
Plínio, o velho, historiador romano, morreu na erupção, mas seu sobrinho também chamado Plínio, descreveu a ação destrutiva do Vesúvio a qual soterrou as duas cidades com o que os geólogos e vulcanólogos atuais chamam de fluxo piroclástico. A avalanche de cinzas e detritos em alta temperatura alcançou as cidades de modo formidável, cobrindo tudo com uma camada de 15 metros de espessura, matando todas as pessoas que não fugiram e conservando os móveis, utensílios, casas e locais de trabalho e lazer tal como se encontravam naquele momento. Pompéia e Herculano permaneciam como que dentro de uma cápsula do tempo quando foram “descobertas” por arqueólogos e se tornaram inestimáveis objetos de estudos dos usos e costumes romanos, bem como atrações turísticas importantes para a Itália e o mundo. Até os cadáveres das pessoas deixaram impressões ocas no interior da cinza solidificada como cimento, de modo que os espaços preenchidos com gesso reproduziram o corpo dos indivíduos no momento da morte. As figuras tridimensionais assim produzidas são algo meio bizarro, mas de grande apelo turístico.
Pois esse mesmo Vesúvio de tão marcada fama e tão destacado fautor de catástrofes foi causador de uma morte que, de certa forma, influenciou indiretamente na história da República brasileira.
Antônio da Silva Jardim, nascido em agosto de 1860 na Vila de Capivari, no estado do Rio de Janeiro foi um advogado, jornalista e ativista político brasileiro, que teve atuação importante nos movimentos abolicionistas e republicanos no país. Em 1891 candidatou-se a deputado federal e foi derrotado. Embora republicano convicto, idealista e determinado resolveu, então, retirar-se temporariamente da política e viajar para o exterior para descansar, clarear as ideias e repensar o seu futuro e o do Brasil.
Aos 31 anos de idade, visitou Pompéia e, curioso por conhecer o vulcão Vesúvio, mesmo tendo sido avisado de que ele poderia entrar em erupção a qualquer momento, escorregou, caiu e foi tragado por uma fenda que se abriu na cratera da montanha – deixando o motivo dessa morte envolvido em mistério, pois a imprensa da época insinuou que ele poderia ter suicidado por desilusão política.
Contudo, a morte de Silva Jardim teria sido um acidente, segundo seu amigo e guia na malfadada excursão, Joaquim Carneiro de Mendonça, testemunha do fato. Em homenagem ao jornalista morto, foi determinado que o município fluminense de Capivari passaria a ter o atual nome de Silva Jardim. Sem contar que em inúmeras cidades do país existem praças, ruas e avenidas com o nome do desditado político.
Assim, um vulcão lá na Europa distante, teria influenciado os rumos da República brasileira ao ceifar a vida de um ativista político que era uma esperança importante por seus pronunciamentos e atitudes diante dos novos desafios que a nação enfrentava. Embora no Patropi estejamos a salvo desses formidáveis fenômenos, o Vesúvio adentrou - e talvez alterou - nossa história para sempre. JAIR, Floripa, 21/09/11.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Inquisição no Brasil

Ao contrário do que a historia oficial, provavelmente influenciada pela igreja católica, diz, no Brasil houve inquisição sim. Mesmo aqui não tendo sido instituído um tribunal permanente como aconteceu nos países dominados pela Espanha, os rastros de suas visitações, perseguições, denúncias, inquéritos, prisões, processos e julgamentos pairaram sobre a cabeça dos “hereges” até o século dezenove.

A Inquisição no Brasil tem origem na inquisição portuguesa, a qual estava vinculada à Inquisição Ibérica. Essa tardia inquisição brasileira embora utilizando os mesmos métodos brutais da inquisição medieval, não está vinculada àquela. Na Península Ibérica quem instituiu a inquisição foram os reis e não o Papa. Sua maior motivação foi o “problema converso”, ou seja, os cristãos novos, judeus convertidos.

Por muitos séculos, durante a ocupação moura, cristãos, mouros e judeus conviviam pacificamente e misturavam-se muito bem na Península, não havia hostilidade maior entre eles, que entre vizinhos comuns. Depois da chamada reconquista, quando os espanhóis expulsaram os mouros em 1478, os reis católicos Fernando e Isabel, instituíram finalmente a Inquisição. O tristemente famoso Tomás de Torquemada é fruto dessa hedionda decisão dos reis católicos.

Mas, por muito tempo antes, a maior preocupação dos reis espanhóis era o avanço econômico, intelectual e político dos judeus, que por serem letrados competiam em prestígio com o clero e, por casamentos, se imiscuíam na nobreza. No século quatorze, ainda que não existisse o termo pogrom (palavra russa para matança programada de judeus), eram comuns as perseguições antijudaicas na Espanha, sendo que em 1391 realizou-se o maior massacre. A partir desse ano surgiram os cristãos-novos (convertidos voluntários ao catolicismo para escapar da morte). Teoricamente a conversão garantia o status dos ex-judeus, ou seja, o convertido poderia manter suas posições econômicas e políticas. Contudo, tanto o clero como os que se sentiam incomodados, passaram a chamar pejorativamente os conversos de “marranos” (porcos). Pelos estatutos da “pureza de sangue”, quem se habilitasse para cargos públicos ou vida acadêmica tinha que provar não ter nenhum ascendente mouro ou judeu. No Brasil, a exigência se estendia a inexistência de sangre negro ou indígena. Pelo visto, Hitler dispunha de fontes copiosas de onde beber sua ideologia insana.

Entretanto, a maior razão para o funcionamento dos tribunais inquisitoriais era de ordem econômica, os bens dos acusados sempre eram confiscados. E não esqueçamos que, ser acusado era prova de culpa. Com os lucros da inquisição os reis católicos conseguiam armar seus exércitos e manter a pompa tão necessária à nobreza. Então, sobrou para os mouros e judeus a escolha definitiva entre o batismo e o exílio. Por isso, milhares de judeus juntaram seus bens e atravessaram a fronteira para Portugal. O rei português, Don Manuel, o Venturoso, obrigou-os à conversão. Menos mal, já que em Portugal consideravam a conversão apenas pro forma, sem efeito prático a não ser cumprir os ritos católicos. Contudo, a exemplo dos reis espanhóis, os monarcas portugueses começaram a vislumbrar uma fonte de renda atrativa nos conversos. Mesmo porque, estes, no mais das vezes, só se “convertiam” para evitar punição e impostos que cairiam sobre os não conversos, na vida em família continuavam praticando seus rituais judaicos como se nada houvesse mudado.

Com as descobertas portuguesas, especialmente das terras que viriam a se chamar Brasil mais tarde, os conversos viram uma oportunidade de afastar-se de Portugal para um lugar onde, talvez, as garras inquisicionais não os alcançassem. Assim, desde as primeiras levas de colonos e exilados que aqui aportaram, existia uma boa porção de marranos “mesclando” aqueles aventureiros audazes. Seja porque o poder português exercia sua preocupação com a pureza da raça com excesso de zelo, ou porque os cofres dos reis sempre estavam necessitando de mais numerário, a Inquisição atravessou o Atlântico e veio buscar hereges nas Terrea Brasilis. O sossego dos marranos não tardou em acabar. O Brasil já não era um porto seguro para almas que não estavam em plena sintonia com os ritos cristãos, ou que eram conduzidas por corpos que detinham bens possíveis de serem confiscados pela igreja.

Assim, uma vez instalada a Inquisição no Reino, sobrou para as Colônias, em especial para o Brasil. O primeiro Visitador do Santo Ofício, como eram chamados os inquisidores, do país foi Heitor Furtado de Mendonça que aqui chegou (no Recife) em 21 de setembro de 1593 a bordo do navio São Miguel.

Todos deviam prestar-lhe recepção e respeito perante a pompa da comitiva na sua passagem pelas ruas de Olinda. A presença do Visitador deveria ser ostensiva, todos deviam jurar-lhe fidelidade e ajuda, sob pena de excomunhão.

Devidamente estabelecido nas melhores acomodações possíveis, o inquisidor reuniu na igreja todos os habitantes: homens e mulheres, cristãos-novos e cristãos-velhos, nativos, emigrados, escravos e libertos.

Os éditos de fé afixados nos locais mais visíveis listavam as heresias e apostasias, as práticas judaizantes, maometanas ou luteranas, a sodomia, a molícia (vagabundagem), as bestialidades, as bruxarias, as superstições e a leitura de livros proibidos.

A história registra que a primeira vítima brasileira da inquisição foi Brites Fernandes, cuja única heresia a lhe ser imputada era ser filha de Branca Dias e Diogo Fernandes, já falecidos, mas que, quando vivos praticavam ritos judaizantes, segundo se ouviu falar. É de se notar que Brites gozava de boa situação financeira, visto que seus pais haviam sido donos de engenho de açúcar e lhe deixaram bens e dinheiro como herança. Depois de acusada, Brites foi conduzida a Portugal, onde foi efetivamente torturada e condenada. Apesar de ter escapado da morte na fogueira, perdeu todos os bens que tinha e viveu até 1604 mendigando nas ruas de Lisboa, vestida com sambenito, espécie de bata de cores berrantes a que eram obrigados a vestir os condenados por heresia.

Depois da primeira visitação ao Brasil, vieram outras que mandaram para a fogueira ou para a prisão inúmeros hereges. Lembrando que a Colônia era o reino da exclusão. Aqui desaguavam todos os excluídos como ladrões, degredados, hereges, ciganos, prostitutas, feiticeiras, cristãos-novos fugidos da perseguição inquisional e aventureiros de toda espécie, de modo que o Visitador encontrou um terreno fértil onde plantar sua horta de “justiça divina” para purificar a cristandade através dos métodos mais impiedosos imagináveis. JAIR, Floripa, 10/11/10.


domingo, 3 de outubro de 2010

Surrealismo eleitoral

Surrealismo, movimento iniciado em 1924 por André Brenton, escritor francês, nega o racionalismo das coisas de modo a desprezar construções lógicas, que sejam produto de um encadeamento cartesiano, por assim dizer. A coerência e o racional desprezados, constrói-se algo onírico que não obedece a regras conhecidas. Os artistas ligados ao surrealismo, além de rejeitarem os valores ditados pelo status quo, criam obras repletas de humor, sonhos, utopias, deformações e informações contrárias a lógica. Na pintura o movimento teve sua expressão máxima nas obras de Salvador Dali e Juan Miró.

No Brasil, parece que os melhores e mais criativos e ativos agentes dessa escola estão alojados no poder, seja no Executivo, Legislativo ou Judiciário. Leis que “não pegam”, como a que multa pedestres que cruzam ruas fora da faixa de segurança, são inúmeras.

Mas agora, parece que atingimos a perfeição. Se você é brasileiro e maior de idade, está OBRIGADO a ter Título de Eleitor. Se você deixar de tirá-lo, será considerado um cidadão de segunda classe, não pode fazer concurso público, tirar passaporte, cadastrar-se para um empréstimo em instituições públicas, mas, principalmente, não poderá eleger os representantes políticos que, através de mandato, representarão sua vontade. Certo? Errado! Título de Eleitor é perfeitamente dispensável para votar! Pode enfiar seu Título no bolso, com a mesma cédula identidade que nem obrigatória é se você tiver outros documentos com foto, você pode votar cara pálida!

Gostaria de saber a opinião dos portugueses, vítimas de nossas piadas politicamente incorretas, sobre esse tão perfeito quanto inusitado Surrealismo estatal do Brasil Varonil. Às vezes me acho um covardão, não entendo porque não arrumo as malas e me mudo definitivamente para o Paraguai. JAIR, Floripa, 03/10/10.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Outra Utopia


Desenho mostrando como seria o Falanstério do Saí.




O Falanstério do Saí
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A Revolução francesa, ainda que tenha se tornado o referencial máximo de mudanças sociais na história da humanidade, pecou, segundo visão posterior, por ter derrubado a antiga e deletéria monarquia e mantido os mesmos nobres, burgueses e clérigos que a serviam. Ou seja, mudaram-se os mandantes, mas preservou-se a estrutura que lhes dava suporte, tanto é que os Bonapartes ascenderam à nobreza e passaram a ser os novos imperadores, e a tão sonhada “égalité” foi para o vinagre.
Parece que os ideais da Revolução permaneceram latentes naqueles que estavam desiludidos com o resultado da luta de 1789, até que, quase um século depois, em 1871, deu-se o movimento que ficou conhecido com “Comuna de Paris”. As propostas da Comuna encerravam uma concepção messiânica de política tão radical que foram criticadas e denominadas até por Marx e Engels de socialismo utópico. Mas, antes disso, sonhadores que não haviam nascido quando se deu a Revolução, talvez por ouvir dizer, entendiam que a Utopia era possível e construíam castelos no ar sempre que a oportunidade aparecia. Assim foi possível surgir o “Falanstério do Saí”. Do Huaiss: Falanstérioorganização comunitária concebida como uma realização plena da natureza humana, por meio do encontro entre princípios socialistas, como a propriedade dos meios de produção, e prescrições comportamentais, que incluem a plena liberdade sexual. Segundo o autor do neologismo, Fourier, falanstério significa a junção das palavras “falange” e “monastério”, porquanto as pessoas que nele habitassem seriam organizadas em falanges. Agora vejamos como essa Utopia nasceu.
O desencanto com os caminhos que a Revolução Francesa havia tomado estimulou os idealistas que viam a Utopia como uma saída. Por razões desconhecidas, quase sempre, os sonhadores elegiam o Novo Mundo como um Shangri-lá, um local ideal para experiências até então nunca tentadas, uma espécie de laboratório antropológico. Ouso inferir que o isolamento de tais locais, além de impedir interferências de outras comunidades, permitia que, se a experiência malograsse, não houvesse testemunhas.
Saint-Simon, Owen e Fourier foram os principais formuladores do pensamento utópico e apresentaram ao mundo fórmulas de liberdade e harmonia, inventando mundos novos nos quais propunham relações completamente opostas às que vigiam então. A essa inovação social deu-se o nome de Fourierismo.
A experiência fourierista deve-se ao Dr. Benoit Jules Mure. Ele nasceu em Lyon em 1809, prematuro, de sete meses, e atacado de tuberculose acabou sobrevivendo somente com metade de um pulmão. Sempre fraco por causa da doença, foi salvo de uma morte prematura pelo conde Sebastien Des Guidi, introdutor da homeopatia em Lyon. A recuperação da saúde levou-o a uma mudança radical no seu modus vivendi, tornou-se messiânico, achava que devia propalar a nova medicina e ajudar os menos favorecidos. Para isso, estudou a nova ciência, diplomou-se em Montpellier e passou a exercer a homeopatia como uma missão. Por todos os lugares onde passou, França, Itália, Inglaterra, Brasil, Egito, procurou eleger a homeopatia como a melhor terapia, e, também, consolidar, através da assistência aos pobres, a crença naquela ciência como uma alternativa aos métodos ortodoxos e, segundo ele, pouco eficientes, da medicina tradicional.
Em 1842, Benoit, juntamente com 217 franceses, embarcou no porto de Brest rumo ao Brasil, e à Utopia. Seu destino era a península do rio Saí em frente à Ilha de São Francisco do Sul, aqui em Santa Catarina. Na parte continental do Município de São Francisco do Sul, encontra-se o Distrito do Saí, o qual é composto das localidades de Torno dos Pintos, Estaleiro e Vila da Glória. Ali, supostamente longe dos vícios das metrópoles européias, pretendiam criar um mundo novo, inspirados nas idéias de Charles Fourier, principalmente naquelas que diziam respeito às relações do homem com o trabalho. Por meio de um sistema econômico baseado na livre associação, tentariam implantar um sistema coletivista e de liberdade individual, respeitando as diferenças e habilidades individuais, doutrina completamente diferente da comunista, por exemplo. Algo assim viria acontecer com a implantação do anarquismo na Colônia Cecília em Palmeira, no Paraná em 1890, a qual foi objeto de outro texto meu.
Com base na concepção fourierista Benoit idealizou o “falanstério”, ou seja, uma habitação coletiva que abrigaria um mundo no qual a harmonia garantiria o bem-estar, a justiça e a liberdade entre seus habitantes. É, sonhar não para impostos! Os índios brasileiros constroem “falanstérios” não por questões ideológicas, e sim por motivos práticos, o local fica mais aquecido e a proximidade dos parentes lhes garante segurança e divisão igualitária da comida, quase sempre escassa.
Imposição matemática aplicada à organização social: Cada falange seria composta de 1.620 pessoas, 810 homens e 810 mulheres, e divididas em séries. Por sua vez, as séries seriam divididas em grupos, segundo o número e tipos de trabalhos a realizar e as “atrações passionais” dos falansterianos. Entendendo-se por “atrações passionais” a empatia dos trabalhadores entre si, e a aptidão de cada um para o trabalho.

Quando chegou ao Brasil, Benoit tinha trinta e dois anos, e o Falanstério que construiu era constituído de vastas oficinas, salas de refeição, bar e, num futuro próximo, livrarias, museus, gabinetes de física e um teatro. A cozinha seria comum a todos, bem com o a adega, o armazém e o celeiro. E como era um nefelibata ad hoc, homeopatia e utopia caminhavam juntas nos seus planos. Uma escola para formação de homeopatas complementava seu projeto. Haja onirismo!

Contudo, mais uma vez o egocentrismo, a ambição desmedida e a falta de coesão social, destruíram o sonho de outro utopista em tempo integral. Um ano depois estava desestruturado o Falanstério e grande parte dos franceses se dispersou pelo mundo. A empresa fracassou, porém algumas famílias, como os Ledoux, Reinert e Duvoisin, permaneceram no Distrito, mesclando-se com a população da região. Plagiando alguém que disse que de boas intenções o inferno está cheio, digo: De boas intenções e utopias o inferno está cheio. As ruínas no Saí atestam até o hoje a incapacidade do homem de viver em coletividades que não possuam regras bem definidas que tolham suas idiossincrasias e não tenham uma autoridade que a todos represente, e imponha decisões quando houver choques de interesses. JAIR, Floripa, 21/07/10.

quarta-feira, 3 de março de 2010

MUMISMÁTICA - 2


DINHEIRO DIFERENTE
Cédula de dez mil réis emitida em 1926. Consta que a jovem que serviu de modelo para a efígie era "protegida" de um prócer da República. Seja verdade ou não, o fato é a bonita modelo se imortalizou numa série de notas fabricadas pela American Bank Note Company.

DINHEIRO -
Em economia, meio de troca convencional, na forma de moedas ou cédulas, usado na compra de bens, serviços, força de trabalho, divisas estrangeiras ou nas transações financeiras, emitido e controlado pelo governo de cada país, que é o único que pode emiti-lo e fixar seu valor.
Na minha extensa e intensa convivência com o mundo numismático, tive oportunidade de conhecer os apaixonados (como eu) e estranhos cultores do dinheiro, bem como as mais esdrúxulas moedas e notas deste país. Não por acaso, nas minhas buscas e pesquisas acabei encontrando em Manaus três notas que, a rigor, não deveriam circular como dinheiro, mas na prática o faziam sem pudor. Durante o Ciclo da Borracha, as empresas que exploravam o látex da Amazônia legal, quando necessitavam de dinheiro para investimento, recorriam a um banco com toda probabilidade de ser fictício chamado: "London and Brazilian Bank Limited". Esse banco emprestava dinheiro às empresas mediante a emissão de apólices que o estado do Amazonas se comprometia em pagar. Quando da emissão, os empresários pagavam seus fornecedores e a mão-de-obra com as células e estas circulavam livremente entre a população envolvida de modo que eram dinheiro de fato, embora seja discutível se o eram de jure. Ribeirinhos, seringueiros, fornecedores de víveres, barqueiros e toda gente que vivia em função da borracha usava esse dinheiro não respaldado pelo poder federal. Vejamos as estampas abaixo.

Cédula emitida em 1904, no valor de uma libra, quatorze shillings e seis pence. Não me perguntem como se fazia a conversão para milréis nessa época. Havia garantia que o estado do Amazonas honraria o valor de face mais cinco por cento em seis meses.


Cédula também de 1904 só que de valor, duas libras, oito shillings e quatro pence. A estampagem de todas as notas é de "Western Bank Note Company Chicago" e, apesar do papel ser ruim, a impressão é excelente.




As informações contidas nas células são bilingues, inglês à esquerda e português à direita. A garantia diz, (sic): "dinheiro esterlino, relativos aos juros de cinco por cento durante seis mezes vencidos no mesmo dia sobre o capital não resgatado desta do emprestimo esterlino de 1902, e amortização de um trigesimo do capital originario nos termos da dita apolice e acordo nela mencionado. Este cupom é negociavel em todas as sucursais do London and Brazilian Bank, Limited" Esta cédula emitida em 1906 é de cinco libras, onze shillings e oito pence.
É isso aí, JAIR, Floripa, 05/02/10.

terça-feira, 2 de março de 2010

NUMISMÁTICA - 1

MEU HOBBY


Desde quase quarenta anos atrás me dedico à numismática. O Houaiss registra: NUMISMÁTICA - Ciência que tem por objeto de estudo as moedas e as medalhas. Entendendo-se moeda no sentido lato = dinheiro, abrangendo moedas metálicas e notas de papel ou de qualquer outro material que os tempos modernos determinem. É um mundo extremamente fascinante e envolvente, e quem a ele se dedica adentra a história, a geografia, a economia e a organização política dos países. A história do dinheiro é própria história da civilização; os limites geográficos dos países determinam o tipo do dinheiro adotado; a economia e a moeda são irmãs siamesas; e a política muda a cara das notas e moedas na medida em que os governantes e os regimes mudam.
Minha coleção, hoje bem avultada, refere-se somente a notas de valor nominal UM, de todos os tempos e todos os países. Claro que é um projeto não apenas de uma vida, e sim de gerações. Quando eu me for, se meu filhos ou netos quiserem continuar a colecionar terão um campo enorme à frente. E que bons ventos os conduzam.
Bem, hoje não vou falar sobre minha coleção ou sobre coleções, quero apenas apresentar algumas notas brasileiras que, por saírem das configurações normais, pelo valor facial ou pela impressão são curiosas, ou quase isso. Abaixo algumas notas de meu acervo que selecionei e vou dizer alguma coisa sobre elas:


Nos tempos d'antanho (ô palavrinha danada de demodê, que, aliás, também é ultrapassada), mais precisamente durante o Império do Brasil com "S", o Real era a moeda corrente, "réis" era o plural de Real, e o dinheiro tinha tanto valor que o poder podia se dar ao luxo de mandar imprimir notas de quinhentos réis, em 1874 e 1880. Para termos idéia do que isso significa, é como se hoje existissem notas de cinquenta centavos. Estas são cédulas com a efígie do Imperador fabricadas pela American Bank Note Company, maior fabricante de dinheiro do mundo por muitos anos. No século dezenove e início do século vinte era comum a ABNC fabricar notas até para a China e Rússia.


A República, que ainda era "dos Estados Unidos do Brazil" (assim mesmo com "Z") em 1893 e 1901 também emitiu notas de quinhentos réis. Como não havia inflação, era viável emissão de notas de baixo valor.


Na década de vinte o Brasil resolveu fazer experiência com impressão de dinheiro, através da Casa da Moeda do Rio de Janeiro. As notas acima são representativas dessa malograda tentativa de nacionalizar a fabricação do meio circulante. Papel de péssima qualidade, quase papel de jornal, desenho simples e impressão sofrível, notas fáceis de serem falsificadas. Os falsários comemoraram o período favorável ao ofício, tanto dinheiro foi contrafeito nos recônditos da criminalidade que o poder constituído resolveu recolher-se a sua humildade e voltar a American Bank Note. Tenho uma nota falsa dessa época.


Em 1905 a empresa italiana Cartiere P. Miliani - Fabriere, fabricou notas de excelente qualidade para o Brasil. Desenho primoroso, impressão de primeira e resistente papel de arroz tornavam essas notas muitos pontos melhores que as da American Bank Note, mas, por alguma injunção desconhecida, nunca mais foram importadas. A efígie que aparece na marca d'água oval é do Barão do Rio Branco. Mais de um século depois, esta que aparece na foto está em estado de nova.


Getúlio havia empalmado o poder com a revolução de 1930, e os partidários gaúchos não resistindo a tentação, em 1931, emitiram "bonus" com a efigie do ditador que, na prática, representavam duas coisas: Era dinheiro regional que valia para todos os efeitos; e homenageava o homem forte do país. Foram confeccionadas pela Lithographia da Livraria Globo de Porto alegre e não perdiam em qualidade para o dinheiro circulante da época. A Livraria Globo era sediada na rua da Praia até este século.


Nota de Cem mil réis de 1942 onde aparece pela primeira vez Alberto Santos Dumont. O curioso desta emissão é que no mesmo ano o padrão "milréis" foi substituído pelo padrão Cruzeiro, e a homenagem ao grande brasileiro tornou-se pífia. Além dessa homenagem ao pai da aviação esta nota foi fabricada, curiosamente, por Waterlow & Sons Limited, de Londres, concorrente inglesa da American Bank Note Co. de Nova Iorque. Apesar da qualidade do papel e da impressão, parece que a experiência não deu certo porque a American voltou a fabricar notas para nossa República novamente.
Penso em postar mais textos que registrem informações sobre notas de outros países.
JAIR, Floripa, 03/02/10.