segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O Unicórnio

Em Palmeira, cidade interiorana situada no segundo planalto do Paraná, a paisagem é um misto de campos gerais, constituídos de vegetação gramínea com pequenos arbustos esparsos, e matas ombrófilas de transição, uma mistureba de mata atlântica e mata de zona temperada cheias de araucárias. A flora é belíssima e muito rica em imbuias, cedros, variedades de canelas e, sobranceiras as demais árvores, as araucárias. Crianças criadas sem medo de animais e livres de ambientes onde há violência, era comum os piás de minha época embrenharem-se nos matos em busca de pinhões os quais comíamos às vezes no próprio local, ou na época certa colhíamos gabirobas muito doces e pitangas deliciosas.

Férias escolares coincidentes com os verões eram uma dádiva para nós naqueles tempos, davam-nos oportunidade de pescar lambaris nos riachos ao tempo que explorávamos as matas circundantes. Diga-se, matas fechadas, misteriosas com nomes meio estranhos como, Mata do Manhoso, Furadinho, Vaca Morta e outras. Pois bem, estava meu tio Beto, meu primo Joel e eu em uma dessas excursões no interior da mata mais densa, grande e inexplorada do pedaço quando, numa clareira ensolarada, nos deparamos com um animal que, até então, apenas tínhamos visto em revistas e livros de historinhas infantis: um Unicórnio. Parece que meu tio ficou extático, meio assustado e apreensivo com a aparição, meu primo e eu não reagimos assim, nos pareceu bastante natural que uma floresta daquele porte abrigasse a criatura a qual estávamos vendo. Porque não? Unicórnios podiam ser tão raros em alguns lugares que as pessoas os tinham como lendas e até escrevessem história fantásticas sobre isso, mas para nossa imaginação infantil não havia razão para não existirem ali onde podíamos vê-los. O animal, ao contrário das representações fantasiosas dos livros que os mostravam sempre brancos, pareceria um pônei, era baio com um chifre cônico em espiral no meio da testa, parecia tranquilo e não se assustou com nossa presença. Apenas levantou um pouco a cabeça, moveu as orelhas, deu uma olhada e continuou pastando como se nada houvesse acontecido.

Pois é, a partir daquele dia, o cavalinho engraçado que já habitava nossas imaginações e as histórias que líamos, passou a ser o amigo secreto que vez ou outra visitávamos na mata. Era uma experiência inusitada que não partilhávamos com outros piás, não nos interessava dividir aquela amizade com outros. Penso que procedíamos assim mais por egoísmo e um sentimento de exclusividade que, aliás, era comum na maneira que a gente fazia nos casos em que encontrávamos alguma coisa nova interessante. Por exemplo, se nas andanças deparávamos com um pé de guabiroba particularmente produtivo ou com frutos mais saborosos, fazíamos questão de não dividir a descoberta com os guris nossos conhecidos. Meu tio, visivelmente incomodado com a descoberta, nunca a comentou com ninguém, acho que não queria ter que explicar aos amigos e companheiros coisas que sequer entendia, até hoje, quando se menciona o fato na sua presença ele desconversa ou se zanga e nada fala. E nós continuamos a curtir o equino durante o verão todo, passamos a levar folhas de alface, algumas cenouras e repolhos, iguarias que ele adorava, e o bicho tornou-se nosso companheiro de caminhadas, pois nos acompanhava mata a dentro quando íamos visitá-lo. Havia uma coisa que ele jamais fazia, nunca saía da mata. Quando nos retirávamos depois de ter passado a tarde toda na sua companhia, o dócil equino nos acompanhava até o limiar da floresta onde começava o campo, dali seguíamos sozinhos e ele voltava para o interior do mato. Nunca soube se na área existiam outros de sua espécie, nunca nos foi dada a oportunidade de encontrar algum. De resto, não sei se por ingenuidade ou por qualquer outro motivo, não achávamos estranho que o cavalinho fosse um ser único, sem família, parecia natural que estivesse sozinho no mundo.

A decisão de não divulgar a morada do animal gerou, a meu ver, duas consequências distintas, preservou a privacidade necessária que ele precisava para sobreviver, mas, a longo prazo, privou-nos da possibilidade de comprovar junto à história e ao mundo, sua existência. Equivale dizer que hoje, quando conto o evento, as pessoas se recusam a acreditar, acham que estou criando fantasias. Quisera eu ter imaginação tão fértil a ponto de criar uma estória tão extraordinária, acho que se assim fosse seria escritor de histórias fantásticas e ganharia muito dinheiro com isso.

Então, passaram-se as férias como sempre e as aulas voltaram, não havia tempo para visitar o cavalinho baio com chifres, nova oportunidade só nas próximas férias de meio do ano. O semestre, assim como veio passou batido em meio nossa expectativa de voltar à mata onde o Unicórnio vivia. Era primeiro de julho de 1958, lembro muito bem, tão logo as aulas acabaram, com algumas verduras e duas ou três bananas lá fomos nós para o local onde o animal costumeiramente pastava. Chegando à clareira, para nossa decepção nada encontramos, e pela altura da grama parecia que há muito tempo herbívoro algum ali pastara. Sinceramente, nunca havia me passado pela mente, mesmo que por um instante sequer, a possibilidade de que o animalzinho sumisse da mata, mudasse para outro local ou viesse a morrer talvez. Fizemos um busca “pente fino” pelos arredores, mas nunca mais o vimos, o Unicórnio volatizara-se, ficamos meio zangados e tristes por tê-lo abandonado aquele tempo todo, achávamos que ele mudou por que seus amigos não mais o visitaram. Hoje vejo a coisa um pouco diferente, se o cavalinho não houvesse sumido de lá, acabaria sendo descoberto por outras pessoas, talvez adultos sem imaginação e gananciosos, talvez gente mal intencionada, talvez caçadores ávidos por raridades. Para o bem dele, tenho certeza, mudou-se para algum local onde jamais foi encontrado e viveu feliz até a velhice com alguma fêmea de sua espécie. Por que penso assim? Porque hoje, conversando com minha prima Patrícia, que por acaso gostava de trilhar aquelas matas, ela me contou que também encontrou um Unicórnio, só que branco e fêmea. Já que o “meu” era macho, fico feliz em imaginar que ambos se encontraram, acasalaram, tiveram filhos e viveram muitos anos nas matas onde jamais foram vistos por outros olhos humanos. Seus descendentes talvez ainda vivam no que resta daquelas florestas. Outra explicação possível é que o unicórnio tenha perdido o chifre por acidente e acasalado com alguma égua selvagem daquelas que existiram por lá na época. E viveram felizes para sempre. JAIR, Matinhos, 02/01/11.


sábado, 8 de janeiro de 2011

Gentileza


O Homo sapiens não optou por viver em comunidades, em aglomerar-se em aldeias e cidades por mero diletantismo, a necessidade o compulsou. O homem é um ser social porque isolado ele não sobreviveria, os grupos representam segurança, a força da união de muitos seres é maior que a soma de cada força individual. Então, a despeito das diferenças desagregadoras que geram atritos, às vezes fatais, a convivência traz tantas vantagens que é inimaginável pensar no homem isolado de seus semelhantes.

Contudo, a opção – se é que não foi uma imposição natural – pela vida em grupo teve que ser adaptada às idiossincrasias dos seres que compõe esses agrupamentos. As primeiras organizações sentiram que regras deviam pautar as relações individuais sem comprometer a coesão grupal: nasceram as leis, estatutos e regulamentos, porquanto anarquia não era uma opção. Ao lado da regulamentação legal admitida por consenso, ou imposta por mandantes, outras regras não escritas foram surgindo espontaneamente. Muito obrigado, com licença, por favor, bom dia, como vai? e outras expressões são manifestações verbais do comportamento humano que atendem pelo nome genérico de gentileza. A gentileza é o conjunto de atitudes convencionais essencial para a sobrevivência da espécie nas suas relações, na medida em que “lubrifica” as peças da máquina social evitando ou diminuindo o atrito que pode emperrar o mecanismo. E tem mais, o profeta paulista que vivia nas ruas do Rio, José Datrino, (1917-1996) enxergou mais longe e vaticinou: Gentileza gera gentileza. Assim, um mero bom dia pode prenunciar uma jornada diária de boas relações entre indivíduos que devem conviver, ou que estão, de alguma forma, confinados num espaço que os torne próximos ou ao alcance da visão uns dos outros.

Tendo observado a sociedade americana nas viagens que fiz aos EUA, ouso afirmar que o cidadão americano é muito mais gentil que o brasileiro, em que pese a afirmação de certos sociólogos que o brasileiro é um povo gentil. Thank You é uma expressão muito mais ouvida lá do que muito obrigado aqui. Não sei dizer se existe qualquer estudo mostrando que onde impera a gentileza as pessoas são menos estressadas e mais produtivas, mas estou fortemente inclinado a admitir que possa ser uma explicação porque há países em que as relações entre indivíduos se traduzem em progresso e bem estar da maioria da população. Os países escandinavos, conhecidos pelo seu regime de leis que instituem o capitalismo social e pelo nível de satisfação de seus cidadãos, estão entre os países cuja população é a mais gentil do Planeta. É uma questão para ser pensado por nós, cidadãos desse país tropical bonito por natureza.

Que o trânsito citadino de nossas urbes é um caos todos sabemos, entretanto, o ícone mais gritante de nossa falta de gentileza está na ausência de uso da seta por parte dos motoristas. Pode parecer meio esquisito, mas é justamente a falta de indicação da direção que o motorista vai tomar que mostra nosso desprezo pelas regras de trânsito e nossa falta de respeito pelo pedestre quando dirigimos. O uso da seta, antes de obedecer regra escrita de bem dirigir, é um ato de gentileza para com outros motoristas e, sobretudo para o pedestre. Lembrando que todos somos pedestres antes de sermos motoristas, a gentileza de avisarmos nossa intenção no volante é uma cordialidade que deveríamos observar como regra pétrea. A mente do motorista brasileiro funciona mais ou menos assim: ninguém está olhando, então não há regras, dirijo como quero. A par dessa atitude obscurantista e não explicável do motorista que não liga para as demais pessoas, sejam pedestres ou outros motoristas, existe uma curiosidade digna de ser registrada: o motorista sempre avisa o ocupante de outro carro se este estiver com a porta semi aberta ou não travada. É uma regra não escrita observada pela totalidade dos motoristas, aliás, pode ser que o motorista avisado seja o mesmo que sofreu uma fechada momentos antes, ou fechou o avisante pouco tempo atrás. Parece que, “sua porta está aberta” redime o chofer de todos os pecados que tenha cometido no trânsito até então.

Pois é, num mundo ideal, o comportamento das pessoas assumiria a gentileza como atitude basilar no relacionamento com seus semelhantes. Em decorrência, no trânsito ou no dia-a-dia, com toda certeza, teríamos muito menos atritos e acidentes. A irritação e o estresse diário que muitos de nós carregamos como um peso morto que oprime e baixa nossa qualidade de vida, seriam coisas do passado e o mundo passaria a ser um lugar mais agradável de se viver. Gentileza gera gentileza é um bom mote para pautarmos nossas atitudes diárias de convívio com nossos iguais. JAIR, Matinhos, 01/01/11.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Nostradamus

O nome do cidadão era Michel de Nostre-Dame, sendo Nostradamus uma latinização como costumavam fazer os cientistas daquele tempo. Nasceu em Saint-Rémy, França, em 14 de dezembro de 1503. Passou para a história como médico dedicado que, durante a peste que assolou a Europa, empenhou-se de corpo e alma na mitigação das dores dos enfermos, já que não se conhecia a cura para o mal. Costumava associar seus conhecimentos médicos-científicos com astrologia e ocultismo que havia aprendido com seu avô. Foi autor de apenas uma obra com duas partes, As Centúrias e Os Presságios, ambas, até hoje, objetos de interpretações estapafúrdias, parciais, sectárias, contraditórias, adaptadas aos mais diversos fatos a posteriori, o que permite sejam tão eficientes e corretas quanto queiramos.

Seus textos, escritos em francês arcaico, são verdadeiros enigmas, escritos em linguagem hermética, muitas vezes em sentido inverso, onde o médico usa metáforas, referências complexas, indiretas e indeterminadas, citações de nomes geográficos inexistentes, como também termos inventados e muita imaginação.

Assim sendo, muita gente dá sentido esotérico às “previsões” de Nostradamus, quando, ao que parece, ele só era um escritor criativo que produzia ensaios em forma de poemas, nos quais gostava de brincar com o idioma e fazer especulações inconsequentes a título de literatura fantástica. Era uma espécie de Gabriel Garcia Márquez do século dezesseis. Parece que escrevia como terapia desestressante depois do trabalho que lhe era muito exaustivo, nada mais.

Já que muitos supostos intérpretes fazem previsões – ainda que depois do fato acontecido – por meio de suas Centúrias, dentro do espírito bola de cristal retardatária também faço a minha. No alto, dois números, um romano outro arábico. O primeiro refere-se ao número do livro da centúria; o algarismo arábico aponta a centúria. Na sequência, o texto original em francês antigo em letras normais, a tradução feita por Ettore Cheynet em itálico e, por último, minha “interpretação” em negrito.


II-35

Dans deux logis de nuict feu prenda,

Pluiseurs ostouffez et rostis:

Prés de deux freuves por seul il adviendra,

Sol l’Arc et Caper, tous seront amortis.


Em dois prédios haverá fogo e se fará noite,

Muitos serão sufocados e assados:

O fato será visto em dois mundos,

O Sol no Arco e no Capro, todos mortos.


Interpretação: a explosão e o incêndio causado no WTC, em Nova Iorque, pelo choque de dois aviões. Haverá fogo e noite se fará pela poeira do desmoronamento dos prédios. O fato será visto pelo Ocidente cristão e pelo Oriente muçulmano (dois mundos). Será de dia (Sol no Arco). E Capro (bode) se refere ao novo milênio que, segundo crença medieval esotérica, o segundo milênio seria da vaca e o terceiro do bode.

Assim, após fait accompli, também acertei em cheio minha previsão. Nostradamus é, realmente, genial! JAIR, Floripa, 12/01/11.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A cetra


Sou do tempo e do lugar em que nem tudo estava disponível nas lojas ou no comércio, como dizíamos. Na década de cinquenta no interior do Paraná, em Palmeira, coisas simples como brinquedos para crianças eram “luxos” que, o mais das vezes, só eram encontráveis em Curitiba, quase cem quilômetros de péssima estrada de rodagem ou quatro horas de trem, de distância. Adicione-se às dificuldades geográficas, a falta de dinheiro que era uma constante para a grande maioria dos operários que trabalhavam nas serrarias abundantes na Palmeira daqueles anos. Meu pai era um desses tolhidos e mal pagos empregados das serrarias. Diga-se, pobres e escravos de madeireiros gananciosos, pais e mães eram tão corujas ou amavam seus filhos como os de hoje, e nutriam os mesmos desejos de verem seus rebentos felizes com presentes nos aniversários ou no Natal. Pois é, então se não havia grana ou era impossível comprar o mimo para os filhos, como os pais tiravam coelhos da cartola? Como as próprias crianças se viravam?

Ora, onde o dinheiro mal dava para comer o básico feijão-com-arroz com alguma carne nem sempre presente, mas sobrava imaginação, as pessoas usavam a criatividade. Se você queria possuir um bem, você criava esse bem! Os guris da rua em eu morava eram exímios construtores do que hoje, numa versão menos nobre, costumam chamar de carrinhos de rolimãs. A versão antiga desse brinquedo tinha quatro rodas de madeira, sofisticado sistema direcional composto de volante, barra de direção e tirantes de couro ligados ao mecanismo do eixo dianteiro, de modo que, o motorista, sentado num banco às vezes almofadado, girava o volante para onde desejava e o carrinho de madeira, se tudo estivesse correto, obedecia.

Pipas (papagaios, arraias, pandorgas e outras denominações) construídas pelos próprios usuários, saturavam o espaço aéreo da periferia com suas dezenas de cores e formatos os mais diversos. Essa pobre pipa de duas varas de bambu comprada em lojas que os guris de hoje bordejam pelos bairros, está a quilômetros de distância das que confeccionávamos com varetas de flor de capim, muito mais leves, que permitiam formatos e tamanhos que só perdiam para as elaboradas pipas japonesas. Lembro que eu fazia uma pipa chamada bidê, em cuja confecção entrava dezoito varetas de tamanhos variados e trinta e seis alfinetes, era uma obra de engenharia linda e voava com uma elegância magnífica. Fico com pena dos garotos de hoje com suas modestas pipas de duas varetas e formato sempre o mesmo.

Pois bem, caminhõezinhos, trenzinhos, bonecas, casinhas, piões e até bicicletas de madeira eram comuns na comunidade. Quando tinha cinco anos ganhei de meu pai, um triciclo de madeira pintada de azul piscina, feito por ele mesmo, um brinquedo especial. Toda a piazada da rua admirava meu brinquedo ágil e reluzente.

Era quase regra geral naquele tempo, os piás costumavam caçar passarinhos! Por favor, não julgue isso com conceitos ecológicos atuais, naquele tempo de poucos recursos isso representava uma fonte crucial de proteínas, a fome ditava comportamentos hoje politicamente incorretos. O que quero dizer é que caçar passarinhos requeria uma “arma” adequada para a prática, de tal forma que o potencial caçador fabricava o artefato que chamávamos de cetra. Em outras regiões do país tal instrumento recebe os mais variados nomes: estilingue, bodoque, atiradeira, funda, baladeira e outros mais. O importante é que era uma arma de arremesso constituída de uma forquilha em forma de “Y” provida de um par de elásticos, geralmente cortados de câmaras de ar, presos a uma tira de couro macio chamada malha, com que se lançavam pedras ou pelotas de barro cozido ao sol ou ao forno de lenha, bolotas de barro que chamávamos pelotes e transportávamos num bocó, ou seja um embornal próprio que levávamos pendurado no ombro. Assim, madeira, couro e borracha combinados no jeito certo davam luz à elegante cetra, terror dos passarinhos e, às vezes, das vidraças. Embora um instrumento simples, construir uma cetra era uma arte que requeria conhecimento especializado, aptidão manual e certa técnica, sem as quais o artefato acabava sendo uma bugiganga imprestável. Escolher nas matas a forquilha resistente era o primeiro passo. Pode parecer banal, mas encontrar um galho bifurcado simétrico, com os dois ramos de espessura igual, retos ou ligeiramente curvados, mas de igual ângulo de curvatura, madeira dura e lisa e sem nós, é uma habilidade que deve ser praticada com bastante empenho para se chegar a uma peça fundamental e que dever ser bem equilibrada, sob o risco de o instrumento tornar-se de má qualidade. Havia árvores “próprias” para se encontrar uma boa forquilha: Cambuí, branquinho, pau-ferro e aroeira eram as mais adequadas. Conseguida a forquilha, passava-se a aquisição de elásticos, borracharias eram os locais naturais para se conseguir pedaços de câmaras que servissem ao propósito. Câmaras michelin, de cor vermelha, mas muito raras, eram as melhores, na falta, câmaras de bicicleta e, por último, as demais. Cortavam-se as tiras com muito cuidado para não produzir “bocas”, ou irregularidades que acabassem enfraquecendo o material, enfraquecimento que poderia causar incidentes quando o elástico se rompia e atingia o rosto do atirador descuidado. O corte do material se fazia com tesoura para um acabamento ideal. A tesoura de costura de minha mãe perdia o fio por esse uso indevido e isso me custou algumas broncas e puxões de orelha, mas nada traumático felizmente. Por penúltimo, escolhia-se um pedaço de couro macio, geralmente uma banda de sapato velho servia perfeitamente. Amarrilhas eram o próximo passo, nada mais que tirinhas de elástico bem finas com as quais se amarravam as tiras maiores na forquilha e na malha, hoje seriam usados elásticos de prender dinheiro com mais eficácia, mas naquele tempo nem conhecíamos essa modernidade. Estava pronta a cetra, arma fundamental para abater os incautos pássaros que seriam degustados no jantar, a destreza no manuseio se adquiria com a prática.

Pois bem, também construí umas cetras com habilidade adquirida pelo método de tentativa e falha, fui um “cetrista” bem razoável. É bom que se esclareça, nunca matei passarinhos. Não sei se atribuo esse fraco resultado à pontaria ruim, alguma consciência ecológica precoce ou a cetras de má qualidade, contudo, acertei algumas vidraças em atos hoje considerados “de vandalismo”. Agora, no século vinte e um, passando as festas de fim de ano na casa de um amigo no litoral paranaense onde abundam árvores, resolvi testar minha aptidão em confeccionar uma boa cetra. Para isso, utilizei borrachas médicas encontradas nas farmácias, amarrilhas de maços de dinheiros, mas a forquilha foi encontrada, cortada e preparada com toda técnica e visão acurada adquiridas nos anos cinquenta. O artigo ficou bonito e funcionou muito bem, algumas garrafas PET sofreram danos irreversíveis com a potência da arma e minha pontaria que, afinal, não está tão enferrujada assim depois de quase seis décadas.

O resultado dessa incursão nas artes manuais é fruto da tentativa de provar que não perdemos nossas habilidades desenvolvidas na infância. Em outra ocasião, quando morei em Campo Grande, construí pipas maravilhosas que fizeram a alegria da garotada no dia da criança. Há quem diga que nadar, andar de bicicleta e datilografar, depois que se aprende nunca mais se esquece. Ouso dizer que capacidade de construir e usar cetras não se perde jamais também. JAIR, Matinhos, 02/01/11.