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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Sandices históricas

Até mais ou menos dez mil anos atrás, os homens andavam por aí nas suas aldeias ou caminhando em busca alimento, construindo habitações rústicas instrumentos de pedra, osso ou madeira, mas não faziam história. Como assim, não faziam história? Pois é, os paleontologistas e outros estudiosos interessados naquele período da nossa existência convencionaram chamar de história da humanidade apenas o que tivesse registro escrito, isto é, tudo que aconteceu antes da adoção das letras pelas civilizações passou a se chamar pré-história. Atitude que visa separar, segundo eles, para efeito didático, períodos distintos de nossa vida sobre este planetinha azul, mas que, a meu ver, tem um viés de preconceito, tipo assim: nós somos melhores que vocês, nós sabemos escrever, vocês não.
De qualquer forma, mesmo que não escrevessem livros e tampouco conhecessem quaisquer tipos de letras, os homens primitivos, que nessa altura já ocupavam quase todos os lugares habitáveis do Planeta, costumavam registrar alguns feitos e costumes nas paredes de suas casas. Bem, não se sabe em que outros lugares eles desenharam seus feitos, porque só restou mesmo desenhos em cavernas, as quais eles ocupavam porque eram casas prontas, não havia necessidade de erigir paredes. Talvez o que mais lhes fizesse falta eram banheiros, lixeiras e despensas, eles faziam as necessidades no chão onde colocavam alimentos e jogavam lixo, nada muito diferente do que se vê ainda hoje em alguns lugares de populações pobres.
Contudo, esse hábito não muito saudável de não jogar lixo no lixo, facilita o estudo dessas populações, pois os cientistas se valem dos vestígios de alimentos e cocô (cocô fossilizado chama-se coprólito e é um instrumento muito interessante no estudo da alimentação não só de homens, mas também de animais extintos, até dinossauros) para deduzir seus hábitos e costumes. Existe até uma matéria que os paleontólogos estudam na faculdade, chamada coprolitologia que, traduzindo em miúdos, é o estudo de merda fossilizada. Haja imaginação!
Escrevi em outro texto: “Se há uma característica universal que define o ser humano é a produção de lixo. As pessoas sempre deixaram e deixam restos espalhados por onde passam, lixo é uma marca da civilização. Vemos a prova disso em todas as partes, nas ruas das cidades, nos rios e oceanos e nos depósitos apropriados, os chamados lixões. Existe até um estudo, “lixologia”, que consiste em xeretar os restos de pessoas célebres para descobrir detalhes de suas vidas. Nossos museus exibem objetos salvos dos restos de outras épocas: moedas celtas, cerâmicas egípcias e marajoaras, porcelanas chinesas, tecidos astecas e incas, objetos de culto maias, armas e instrumentos de uso domésticos diversos. A lista é interminável, e as peças contam a mesma história genérica: os humanos fazem objetos, usam-nos e depois os descartam, jogando-os fora como coisas imprestáveis, ou ocasionalmente ofertando-os numa cerimônia fúnebre, como os sepultamentos de pessoas importantes, sepultamentos os quais os egípcios praticaram em grande escala”.
Pois então, nossos ancestrais analfabetos deixaram registros numerosos e consistentes de sua passagem por aqui, mas os historiadores estão mesmo interessados no registro escrito, então ficamos na história. Têm-se como certo que primeiras grafias que representavam números, transações e nomes apareceram no com os sumérios, a chamada escrita cuneiforme porque eles se valiam de sinais em forma de cunha. Bem, não interessa como eles escreviam e sim o quê fizeram questão de deixar registrado nas suas placas de barro. E para aqueles que imaginam que o escriba sumério estava preocupado em “colocar no papel”, grandes feitos que enaltecessem seu povo e sua civilização, é a maior decepção. Os sumérios registraram suas transações comerciais tipo assim: o fulano trocou dois bodes gordos que havia criado por um saco de trigo. Ou, vendi uma ânfora de azeite para sicrano e ele ficou devendo dois dinares. Por conseguinte, nada homérico, nada faustoso, só registros contábeis comezinhos, algo assim como deixarmos registros de nossas compras em supermercado e, daqui a quinhentos mil anos, um arqueólogo encontrar o caderninho e fazer suas suposições. Não vamos ficar ofendidos se ele nos achar primitivos e destituídos de elã histórico. A vida segue como deve e os historiadores correm atrás.
Outro povo “escritor” antigo foram os egípcios, deixaram escritas abundantes em pedra, por isso é possível estudar muito de seus hábitos e costumes com alguma acurácia. Não só isso, eles possuíam duas escritas: hieróglifos, em cuja redação entravam figuras que representavam palavras e situações; e escrita demótica – uma versão popular mais simplificada da antiga língua egípcia. Essa duplicidade de escritas facilitou muito a compreensão de sua história quando engenheiros napoleônicos encontraram uma pedra na localidade de Roseta escrita em hieróglifos, demótico e grego antigo. O achado foi uma mão na roda. A partir da decodificação da pedra de Roseta a história do Egito antigo tornou-se transparente, e houve como deduzir suas relações políticas e de negócios com outros povos. Que fique registrado neste texto: os egípcios antigos eram meio arrogantes e só colocavam nos seus “livros” de pedra coisas relacionadas aos Faraós, à nobreza e à classe dominante. Alguma semelhança com a história do Patropi?
Daí, na Ásia e Europa ocupadas pelos Homo sapiens eles começaram a fazer história, registraram muitos fatos e até começaram com primeiros escritos ficcionais, principalmente depois de 1439 quando Gutenberg construiu a primeira máquina impressora que usava tipos móveis, bem mais fáceis de manipular e imprimir. Aliado ao fato que o papel, que antes só era produzido a partir de restos de tecido e de roupas velhas (esse papel primitivo devia ter odor de roupas sujas, pois ninguém lava vestimentas que vai descartar, aliás, naquele tempo não era costume nem lavar as roupas cotidianas. Sabão era artigo de luxo e costumava-se usar a mesma roupa até tornar-se inservível), agora havia possibilidade de fabricá-lo de fibras de madeira o que o tornava mais barato. Embora essa descoberta tenha, de certa forma, decretado a extinção das florestas da Europa e depois do resto do mundo. Fico feliz em estar escrevendo neste teclado e não publicar minhas “mal traçadas” em papel. Não podemos perder todas, não é mesmo? JAIR, Floripa, 28/01/12.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A Pedra de Roseta



Em 1798, o vitorioso general Napoleão que havia derrotado a Itália, inclusive saqueado o próprio Vaticano, resolveu conquistar o Egito, que segundo entendimento comum na França pós revolucionária, “não tinha dono”. Para a empreitada, o jovem general armou uma esquadra com 16 mil marinheiros e 34 mil soldados, com toda a parafernália necessária para empreender uma campanha naquele país contra os mamelucos que detinham o poder, ainda que, nominalmente, o Egito fizesse parte do império Otomano, conhecido no ocidente como império Turco. Os mamelucos eram uma casta de guerreiros que originalmente teriam sido escravos criados desde crianças orientados para as artes bélicas, ou seja, guerreiros. Comportavam-se como mercenários, ou como a Legião Estrangeira veio se comportar depois de criada pela França. Eram guerreiros formidáveis que só se dedicavam à guerra e à pilhagem.
Contudo, ainda que a frota e as tropas napoleônicas estivessem bem de acordo com seus propósitos imperialistas de conquista de espaços vitais, a expedição tinha um componente no mínimo inusitado: contava com um entourage de 150 “cientistas”, a nata do Instituto da França, incorporado às tropas do exército com soldos correspondentes a de oficiais, embora seus membros se recusassem a usar fardas. Chamados genericamente de “sábios” por Bonaparte, matemáticos, topógrafos, arquitetos, cartógrafos, engenheiros, geômetras, físicos, astrônomos, químicos, botânicos e até um músico e um poeta compunham essa eclética equipe destinada a estudar in loco todas as particularidades da terra exótica e de cultura milenar que era o Egito e a região circundante, chamada Levante. Berthollet, Savigny, Geoffroy Saint-Hilaire, Gaspard Monge (inventor da geometria descritiva), Devilliers, Fourier (séries de Fourier, quem não lembra?), o fantástico inventor Nicolas Jacques Conté e uma quantidade de estudantes de engenharia, faziam parte do grupo que, teoricamente, efetuariam profundos estudos civis sobre a geografia, a sociedade, os potenciais econômicos, a hidrografia e a botânica da região, mas que, por trás dos panos estavam destinados para finalidades militares que, desde o primeiro momento, eram o escopo do general francês.
Assim que chegaram ao Cairo, os “sábios” fundaram o Instituto Egípcio e caíram em campo para trabalhos que renderam ao fim da viagem uma enciclopédia, “Description de L’Égypte”, em 23 volumes. Mas Napoleão, de olho numa conexão militar estratégica, ordenou que os engenheiros, arquitetos e topógrafos fizessem um estudo visando à construção de um canal ligando o Mar Vermelho ao Mediterrâneo, iniciando no porto de Suez. O projeto só se tornou realidade 50 anos depois por iniciativa do empreendedor Lesseps, mas nada tinha a ver com Bonaparte então.
Pois bem, enquanto faziam medições próximas à cidade de Roseta, os engenheiros encontraram uma rocha rosada com estranhas inscrições, que acabaria por trazer à luz uma grande parte perdida da história humana. A chave que viria a revelar a antiga escrita egípcia foi descoberta em Roseta, num dia muito quente de verão no final de julho de 1799. Os franceses estavam cavando ao longo de uma muralha, na tentativa de reforçar uma velha fortaleza do tempo dos cruzados, na margem esquerda do Nilo, trabalho destinado a defender a costa contra a armada inglesa que navegava pelo Mediterrâneo com vistas a expulsar os franceses do Egito. Em meio aos detritos, um engenheiro francês de nome Pierre-François Xavier Bouchard, notou uma pedra de granito rosa coberta por inscrições. Espanando a poeira que a cobria, percebeu que os escritos vinham em três línguas, uma delas visivelmente o grego antigo e outra claramente hieroglífica. Bouchard levou sua descoberta ao conhecimento do general encarregado das obras em Roseta, Jacques Menou, que mandou transportar para a própria tenda, ordenou que a limpassem e providenciou a tradução do texto grego. Menou pediu também que os engenheiros procurassem por outros fragmentos daquilo que, todos concordavam, deveria ser um achado muito importante, mas, ainda que aos soldados se tivesse dito que aqueles pedaços de rocha “valeriam seu peso em ouro” não foi possível desvendar o segredo que aquelas linhas encerravam.
Poucos dias depois, um engenheiro chamado Michel-Ange Lancret mandou uma carta a Monge e Berthollet no Cairo, informando-os da descoberta. Menou enviou a pedra aos acadêmicos no Cairo em agosto. Jean-Jacques Marcel, o orientalista da expedição, foi o primeiro a examiná-la. Identificou a segunda escrita como sendo “demótica” – uma versão popular mais simplificada da antiga língua egípcia. Os cientistas ficaram entusiasmados. Possivelmente, as cinquenta e cinco linhas em grego e as trinta e duas em demótico inscritas na pedra tornariam possível traduzir a terceira, um fragmento de texto menor, catorze linhas em escrita hieroglífica na parte inferior da pedra.
Quando os franceses encontraram a Pedra de Roseta, como passou a ser conhecida, 1500 anos haviam se passado desde que o último ser humano fora capaz de ler um único caractere da escrita hieroglífica egípcia. Ainda que a antiga civilização tivesse durado milhares de anos, a erradicação do paganismo egípcio fora súbita e total. Os cristãos que conquistaram o país no século três ordenaram que os habitantes locais abandonassem sua antiga escrita religiosa. O coptas – egípcios recém cristianizados – aceitaram a imposição sem protestar e passaram a usar o alfabeto grego. Com a antiga cultura já em processo de rápido declínio, não se passou mais duas ou três gerações até nenhum ser humano sequer ser capaz de decifrar a “língua dos deuses”, como era conhecida a escrita hieroglífica. Diante dessa situação a Pedra de Roseta era o descobrimento arqueológico mais importante da história humana. Fazia-se necessário que alguém conseguisse decifrá-la.
Com a derrota de Napoleão pelos ingleses no Egito, assinou-se o Pacto de Alexandria que espoliou os franceses daqueles bens que eles haviam espoliado dos egípcios, a Pedra de Roseta acabou indo para Londres onde se encontra até hoje. Aos perdedores as batatas! Ou melhor, restaram apenas litografias feitas por Conté, as quais foram enviadas a Paris onde se encontram no Louvre.
Jean-François Champollion (1790 – 1832) foi um linguista e egiptólogo francês. Com dezesseis anos dominava uma dúzia de línguas, e com vinte anos isso incluía o latim, grego, hebreu, amárico, sânscrito, avestan, pahlavi, árabe, siríaco, caldeu, persa e chinês, sem contar o francês. Em 1809 se torna professor de História em Grenoble. Seu interesse pelas línguas orientais, especialmente o copta, levou-o a se dedicar à tarefa de decifrar os escritos da então recém-descoberta Pedra de Roseta, e ele passou os anos 1822–1824 envolvido nesta tarefa. Decifradas as escritas hieroglíficas por Champollion, tornou-se tarefa de menor vulto ler as extensas inscrições nos monumentos e tumbas de faraós, as quais os egípcios foram pródigos em produzir. O resgate da ascensão e declínio dessa fantástica civilização, e por tabela das origens da cultura decorrente, só foi possível por que alguém, em algum momento do passado, teve a iniciativa de produzir a Pedra de Roseta. JAIR, Floripa, 18/08/11.