
Morrer, como nascer, é um ato individual e absolutamente solitário, não se compartilha um e outro. Só quem já ultrapassou o divisor de águas entre estar vivo e não mais fazer parte desses que podem ler isto que escrevo, é que pode falar sobre a morte, tudo o mais é especulação. A morte nem sequer é dolorosa em si, o ato de morrer é menos que indolor é passivo, ninguém morre “ativamente”. O indivíduo pode até ter provocado o ato que o levou a morte, mas a passagem é própria do corpo, e este não a delega a ninguém. Se a morte se aproxima por doença, perdemos a vontade de nos alimentar e beber, o corpo torna-se pouco exigente, não há necessidade de repor energias a um corpo que não tem como aproveitá-las. Então nos desidratamos e inanimos sem maiores traumas. Deixamos de secretar, nos secam as mucosas e não há lágrimas, e isso se torna reconfortante, nosso corpo está concentrado no ato de partir apenas. Os sofrimentos deixam de existir, não há passagem dolorosa, ao contrário do que pensa a maioria das pessoas. Se o moribundo está gemendo no leito de morte, não é esta que lhe está sendo desconfortável, o que dói é a vida. Nosso cérebro esvazia, se acalma, deixamos de pensar. Uma espécie de cansaço se instala em nossos neurônios e estes deixam de fazer sinapses, a não ser aquelas ligadas ao ato de morrer. Nesse momento se instala em nós um sentimento de bem estar, às vezes até de euforia, uma espécie de portal convincente e atrativo se abre a nossa frente, queremos adentrá-lo, mas não temos pressa, não estamos estressados, ansiosos, apenas calmos e contemplativos. As vontades, desejos, necessidades angústias e incertezas se esvaem, surge um vácuo de sensações. Vemos e ouvimos tudo ao redor, só não sentimos mais necessidade de conversar ou interagir com coisas e pessoas que nos circundam. Neste momento, o ato de segurar a mão de um ente querido não pode ser interpretado como vontade de viver, é um simples gesto de despedida. Às vezes, nos chamados momentos finais, podemos entrar numa espécie de sono profundo, estado que os médicos costumam chamar comatoso, nesta hora enxergamos uma luz branca difusa que preenche todo nosso campo visual, não há sombras nem pontos escuros. Deixa de existir frio ou calor, que são substituídos pela total ausência de temperatura, os sons também dão lugar a uma espécie de silêncio que preenche todo o universo. Em seguida nossa respiração cessa. Nesse momento os músculos relaxam e se instala uma sensação de paz completa, o mundo, como o conhecemos, deixa e existir, e do lado de cá as dores e sofrimentos são sentimentos desconhecidos. Acreditem, sei do que estou falando, já passei para o lado de cá.