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sábado, 12 de dezembro de 2009
MINI CONTO (Último do ano)

UMA CEIA DE NATAL EM FAMÍLIA
Talvez nunca tenha se sentido tão equilibrada, tão calma e tão satisfeita desde que fora desenganada. O médico foi explícito e até impiedoso: carcinoma avançado, no máximo três meses de vida. Ninguém mais ficou sabendo. Agora, noite de Natal, todos os filhos e marido reunidos para ceia que ela fez questão de preparar. A família reunida para sempre é seu sonho de mãe e esposa dedicada. Por precaução, tudo, desde a salada até a sobremesa, passando pelo indefectível peru assado, contém doses cavalares de estricnina. JAIR, Floripa, 01/12/09.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
MINI CONTO

REFLEXÃO DO VELHO CASANOVA
Não havia razão para se queixar de nada que vivera até então. Setenta anos e contabilizava uma mocidade, vida adulta e vida madura plenas. Se não tivera todas as mulheres do mundo, pelo menos havia tentado. O que lhe dói, dói de verdade, é saber que agora as mulheres que se aproximam já não veem seus atributos físicos ou admiram sua inteligência sagaz, olham apenas sua conta bancária. JAIR, Floripa, 07/12/09.
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
MINI CONTO

ENCRUZILHADA
Sentia-se deslocado sentado no banquinho em meio a mecânicos de macacões cheios de graxa, mãos enegrecidas e falando palavrões enquanto tentam colocar peça renitente debaixo de um chassi qualquer. Concentrado, relia sua erudita tese sobre fusão de partículas e interação galáctica enquanto esperava seu carro ficar pronto. Em algum ponto os dois mundos se cruzam sem quem ninguém desconfie. JAIR, Floripa, 03/12/09.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
MINI CONTO

RÉQUIEM PARA NAGAZAKI
Missão cumprida. Bárbaros presunçosos de olhos claros que semearam, como mortalha sinistra, o maldito cogumelo sobre a cidade que dormia, com almas pesadas, impenitentes, a lhes torturar para sempre, seguem para o inferno de seus lares onde beijos dos filhos queimarão suas faces, comida de suas mesas lhes saberá amarga como fel e camas se tornarão inauditos tapetes de pregos. JAIR, Floripa, 07/12/09. terça-feira, 1 de dezembro de 2009
MINI CONTO

MUNDO, VASTO MUNDO!
Havia nascido, crescido e se tornara adulto naquele vilarejo medíocre de casas frágeis, ruas confusas e horizontes apertados, sem eletricidade e sem estradas que o ligassem a outros lugares. Povoação distante da vida e de tudo que esta significa. Dali nunca se afastara e nada sabia do resto. Contudo, suspeitava, vagamente, que existia um mundo lá adiante, onde começava sua imaginação. JAIR, 28/11/09. MINI CONTO

A VINGANÇA É UM PRATO QUE SE COME COM PRAZER
Há muito descobri na roupa dele o perfume caro, longos fios de cabelos loiros, manchas de batom, recibos de motéis de luxo – todo o elenco de constantes e rotineiros casos amorosos. A última coisa que penso é arrastá-lo ao tribunal para denunciar a infidelidade. Antes, tratei de transferir o dinheiro do banco para meu nome, vender todas as jóias e obras caras e ficar com a grana apurada. Hoje, passagens para as ilhas Seichelles nas mãos, namorado já telefonou do aeroporto, não vejo inconveniente algum que o crápula tenha seus casos. Amanhã quando ele descobrir que está pobre e que me fui para sempre, talvez entenda. JAIR, Floripa, 27/11/09.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
MINI CONTO

PRÁ AMÉLIA NENHUMA BOTAR DEFEITO
Desde que levantou tratou de arrumar a cama, varrer a casa, esfregar, tirar pó, lavar banheiros, polir, limpar vidros, jogar lixo, lavar, secar e passar roupas, bater tapetes, aguar as plantas, dar comida ao peixinho dourado, limpar cocô do cachorro, ir ao supermercado, arrumar a geladeira, fazer comida (sem esquecer da sobremesa), não parou um minuto sequer. Para não desleixar a aparência, malhou na academia por duas horas, tomou banho, escovou e penteou os cabelos, cuidou das unhas e da pele, maquiou-se, perfumou-se, calçou meias e sapatos finos e colocou vestido adequado. Feito isso, checou se todos os detalhes estavam perfeitos, de acordo com a vontade dele. Cinco minutos antes dele chegar, acomodou-se silenciosa e imóvel num canto da sala, e, confundindo-se com a decoração, mimetizou-se em indistinta peça da mobília. Orgulha-se de ser a perfeita mulher-objeto. JAIR, Floripa, 22/11/09.
sábado, 21 de novembro de 2009
MINI CONTO

É NATAL NO SHOPPING CENTER
Consegui! Graças à minha barba espessa e branca fui contratado. Até me aconselharam colocar enchimento na barriga para parecer mais gordo. Ótimo! Domingo estarei ilhado por dezenas de pais, mães e seus malditos rebentos. A carnificina que seguirá a explosão da bomba em minha cintura, tenho certeza, será cinematográfica. SANTA KLAUS, Natal de 2009.
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MINI CONTO
INFINDÁVEL CURIOSIDADE
Oito ou mais horas por dia, de sol a sol, trabalho bruto e cansativo que se repete todos os dias e todas as horas; semanas e meses consecutivos, sempre. Cavar buracos de certa dimensão que devem acolher corpos daqueles que, por algum motivo, deixaram esta atribulada existência terrena. Coveiro por necessidade, a morte lhe proporcionava os meios de vida. Os infindáveis desfiles de cadáveres que sumiam nas covas que cavava, não lhes eram indiferentes, faziam-no pensar, sentir-se curioso. Para onde iam? O que lhes esperava além? Seriam felizes? Estarão melhores lá, do que eu aqui? A curiosidade e o cansaço convenceram-no. Deitou-se na cavidade que acabara de criar e deixou-se cobrir de terra. JAIR, Floripa, 21/11/09.
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MINI CONTO

LINHA DIRETA PARA O COLO DO CAPETA
Iníquo, mau cidadão, marido infiel, gatuno ardiloso, foi alçado do anonimato por outro homem público, este maculado pelas falcatruas mais abjetas, ladravaz impune; seguiu-lhe os passos; refugiou-se na política onde as leis da vala comum não se aplicam; onde a impunidade é linha mestra que conduz homens da aviltante pobreza ao pináculo das fortunas não explicadas; onde existe uma zona cinzenta de desonestidade que é moeda de troca entre mãos sujas. Cometeu os maiores roubos do dinheiro dos contribuintes; rapinou verba que seria empregada em hospitais, salvaria vidas; praticou pilhagem obscena do erário público; amealhou milhões; enquanto pilhava, escarneceu da sociedade e colocou-se acima das leis dos homens, zombando também das regras divinas. Arrogante, julgou-se imortal e intocável. O câncer, às vezes instrumento de justiça invisível e cruel, corroeu-lhe as entranhas e conduziu-o ao inferno, onde deverá queimar para sempre. JAIR, Floripa, 21/11/09. sexta-feira, 20 de novembro de 2009
MINI CONTO

REFLEXÃO FINAL
Sentado na pedra à beira do deserto, sentia-se compelido a refletir sobre sua vida tão curta ainda, e prestes a findar em algumas horas apenas. Sacrifício extremo a que se expunha em nome de ideologia que lhe fora empurrada goela abaixo, e que não digerira o suficiente para entender: “Quando explodisse junto às pessoas que estavam condenadas por não partilhar suas crenças, iria para o paraíso, isso ele entendia. Mas, e essas pessoas? Elas também têm uma crença; elas acreditam que ao morrerem suas almas vão para o céu, e lá serão felizes. Então, se eu eliminá-las, estou, na verdade, causando-lhes um bem; estou lhes concedendo a oportunidade de viverem no paraíso como desejam. Se meu gesto, como me foi ensinado, é de vingança, é para lhes causar mal, não vejo como pode ter sentido matá-las”. Foi seu último pensamento antes de premir o detonador da bomba afixada em seu corpo. JAIR, Floripa, 20/11/09.
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quinta-feira, 19 de novembro de 2009
MINI CONTO

DECEPÇÃO NO HIPÓDROMO
A megera mostrara o tufo de pêlos afirmando tratar-se de pêlos do animal castanho, de nome Glifo, que competiria no quarto páreo. Verdadeira barbada, afirmava ela. O DNA não deixara dúvidas, era, de longe, fisicamente o melhor cavalo; o que reunia as melhores condições genéticas do hipódromo deste, ou de qualquer outro dia. Acreditei nela, apostei tudo e perdi. Perdi porque havia acreditado no resultado da análise daquele tufo de pêlos que, no fim, mostrou-se apenas barbada velhaca dela, aquela desnaturada. JAIR, Floripa, 18/11/09. terça-feira, 17 de novembro de 2009
MINI CONTO

JUSTIFICANDO
Não consigo entender, sei que tenho feito o que é preciso, tenho cumprido a incumbência divina que me foi confiada, no entanto, a polícia e a imprensa não estão percebendo o belo resultado de meu desempenho, vejam estas manchetes: “JÁ SÃO ONZE AS VÍTIMAS DO SERIAL KILLER”, “POLÍCIA PROMETE PRISÃO PARA BREVE!”. Parece que eles se referem à outra pessoa, a outros fatos, porém, é de minha pessoa que eles estão falando! Quando volto para casa, para meus filhos e minha mulher depois do trabalho, às vezes, fico tentado a gritar para o mundo: “Será que vocês não percebem? Afinal eram apenas Freis Dominicanos, gente que não merecia viver!” JAIR, Floripa, 17/11/09.
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