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quinta-feira, 31 de maio de 2012

Complexidade

Primeiro existia o nada absoluto, algo assim tão radicalmente imaterial, tão insubstancial que nossas limitadas mentes humanas são incapazes de captar na totalidade. Depois, segundo uma teoria amplamente aceita, dessa ausência total de qualquer coisa, houve uma expansão súbita, uma absurda e tão rápida expansão que resolveram chamá-la de Big bang. Embora o Big bang tão tenha sido uma explosão, é a partir desse instante (bilionésimos de segundos) que se criou trilhões de partículas sub-subatômicas, numa temperatura mais alta que temperaturas do interior de estrelas atuais. Ainda não existiam átomos ou quaisquer de suas partículas conhecidas como prótons, nêutrons e elétrons. Mas, na medida que esse universo se expandia, esfriava e as minúsculas partículas sub-subatômicas se combinavam e formavam os elétrons, nêutrons e próton, o processo adquiriu impulso próprio de modo que essas partículas se recombinaram e formaram os primeiros átomos de hidrogênio, a partir daí esses átomos se uniram formando moléculas que reunidas em imensos aglomerados construíram as primeiras estrelas. E, como sabemos, estrelas nascem, vivem e morrem, mas à cada morte de estrela corresponde uma liberação de bilhões de bilhões de toneladas de matéria. Essa matéria, “poeira de estrelas”, é que formou tudo que vemos e conhecemos, todas as coisas vieram de estrelas primordiais que já não existem mais.
Criada a terra, surgiram mares, uma atmosfera, calor do sol e terras secas, tudo combinado de forma a favorecer um aumento na interação das moléculas de forma deixá-las mais complicadas. Então, cerca de 3,7 bilhões de anos atrás, substâncias bastante complexas concentravam-se localmente, talvez em gotículas em suspensão, ou espuma que secava nas margens dos mares. Sob a influência da energia dos raios ultravioleta do sol, combinavam-se em moléculas maiores e mais, muito mais organizadas. Pode-se perguntar por que isso não ocorre hoje. Moléculas assim seriam rapidamente absorvidas, degradadas ou devoradas por bactérias e outros seres vivos. Naqueles tempos as grandes moléculas orgânicas podiam boiar livremente no caldo cada vez mais denso sem serem molestadas. Num dado momento formou-se por acidente, uma molécula notável, uma molécula que podia replicar-se. Então, teria surgido a vida.
Claro que essa explicação é apenas provisória até que surja outra melhor que seja reproduzível em laboratório, por exemplo. Mas o que quero focar é o que veio depois. Há provas fósseis que os seres vivos primitivos eram incrivelmente simples, monocelulares, geneticamente descomplicados e todos viviam na água. Então, há algumas centenas de milhões de anos, algumas espécies anfíbias se adaptaram e passaram a viver mais tempo na terra que na água, daí a marcha da evolução premiou aqueles seres que tinham maior adaptabilidade e transformou-os em animais terrestres. E esses animais, agora num ambiente diferente, desenvolveram aptidões e particularidades que os tornaram organismos significativamente mais complicados que aqueles que viviam nas águas.
O que se depreende então dessa reorganização da matéria? O resultado de reunião de partículas que formam átomos, depois moléculas e estrelas que acabam fornecendo matéria para a construção de tudo, é que, desde o Big bang o universo tende à complexidade. A marcha do universo está caminhando do simples para o cada vez mais emaranhado. O produto final dessa tendência à complexidade não está ao alcance de nossas mentes, mas existe. É só atentarmos para o reino animal, por exemplo. Organismos simples como bactérias são seres notavelmente mais antigos que organismos surgidos depois cujos arranjos moleculares são complicados como os vertebrados e, dentro da classe dos vertebrados, podemos afirmar que os que vieram depois são mais complexos que os que vieram antes, vale dizer, peixes, são mais simples que aves, que são menos complexas que mamíferos, então tudo caminha para complexidade extrema. Não há nada que indique que algum organismo vivo tenha alcançado grau de complexidade absoluto, nada nos faculta afirmar sequer que exista um grau absoluto de complexidade. O que observamos, e está perfeitamente claro, é que existe uma tendência definitiva à complexidade.
Alguns místicos e supersticiosos usam essa marcha da natureza para justificar um Ser anterior que a tudo teria criado e que estabeleceu um final onde a criatura ao atingir a complexidade absoluta encontraria esse Criador, teria se tornado a imagem de Deus. E mais, há os que acreditam que o ser humano é a criatura escolhida pelo Criador para se tornar o ser absoluto, apesar de que os organismos dos mamíferos têm o mesmo grau de complexidade. E o homem, não obstante sua inteligência supostamente superior aos demais, é o animal mais perverso de todos. Donde se depreende se o Ser supremo for perverso o homem é candidato ideal a tornar-se igual a ele, mas se a bondade e tolerância forem atributos necessários à sublimação do ser humano até tornar-se imagem do Criador, ele está fora do jogo, não é mesmo? JAIR, Floripa, 29/05/12. 

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Infinitudes

A infinitude é provavelmente a idéia mais profunda e desafiadora com a qual o ser humano pode se deparar. Seja do ponto de vista religioso, filosófico, físico ou matemático, o infinito desafia a capacidade neurônica dos homens. Deus tem poderes infinitos? Como o tempo é algo que não tem fim? Onde acaba o universo? Quantos números há? Estas indagações inquietam a mente do homem e fazem principalmente os matemáticos exaurirem suas teorias, teses, postulados, teoremas, axiomas e proposições na busca de uma resposta que provavelmente não existe.
Quando comecei a ter noção de matemática, lembro-me de ter me perguntado quantos números existem, e me angustiado com a possibilidade de não existir uma resposta ou que essa resposta simplesmente aumentasse o mistério: infinitos. O processo cognitivo do qual nos valemos para entender as coisas, tende a “numerificar” aquilo que não captamos de imediato. Assim, a primeira vista, o infinito nos parece um número desconhecido, mas representado pelo símbolo chamado lemniscata, que se assemelha a um 8 deitado.
Mais profundo se torna o mistério do infinito quando aprendemos que some-se, subtraia-se, multiplique-se ou divida-se qualquer número pelo infinito e este não se altera. E mais, como se fosse pouco, há um número incalculável de infinitos, ou seja, há infinitas infinitudes. É simplesmente assustador existir plural dessa entidade.
A primeira pessoa a se preocupar com o infinito foi o filósofo grego Zenão que viveu no século cinco antes de Cristo. Zenão costumava criar paradoxos para provar que o infinito existia. Depois dele, o cientista que mais se destacou ao encarar o desafio do infinito foi George Cantor, professor da Universidade de Halle na Alemanha. Cantor se envolveu tanto em provar que existiam infinitos maiores que outros, que acabou sendo internado num manicômio onde terminou seus dias como esquizofrênico incurável. Foi uma vítima dessa entidade tanto misteriosa quanto terrível: a infinitude.
Pois bem, e um ser humano comum que não quer provar nada e que apenas pensa a respeito? Eu, esse ser humano comum, me inquieto com algumas propriedades do infinito. Por exemplo: se considerarmos todos os números, podemos facilmente responder que são infinitos, certo? Se considerarmos apenas os números positivos começando do zero, também não é difícil admitir que são infinitos, não é mesmo? No primeiro caso temos uma série aberta, no segundo uma série fechada num extremo, neste caso o zero é o início da série que se perde no infinito. Mas, quantos números decimais existem entre o 1 e o 2, por exemplo? Podem ser contados? A intuição matemática nos diz que não podemos contar esses números, portanto são infinitos. Mas como? Infinito com um começo (1) e um fim (2)? Como é possível confinar algo que não tem fim, que não pode ser medido, dentro de um espaço bem definido? É como dizer para um religioso que Deus é limitado por uma forma da qual não pode sair, da qual não pode se livrar. É como afirmar para um astrônomo que o universo acaba numa margem, que a partir dessa margem nada mais existe. Mas o nada também não é alguma coisa? É como falar para o filósofo que o tempo começa e termina em algum ponto. Depois que o tempo acaba existe o quê? Não tem sentido. Essas questões me angustiam profundamente e procuro respostas em Cantor e outros matemáticos, mas eles se esquivam, preferem teorizar sobre as propriedades das infinitudes e eu continuo a ver infinitos navios. JAIR, Floripa, 26/07/11.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

As folhas caem



Outono, período de transição entre o verão que se foi e o inverno que chega, é, em geral, quando as folhas das árvores de folhagem não perene caem. Em climas frios e temperados essa é a regra, nos trópicos ou em regiões semitropicais isso quase não acontece, em geral as árvores mantém suas vestimentas verdes o ano todo. A botânica nos informa que essa perda de folhas permite que a árvore “durma” durante o inverno despendendo menos energia preservando sua seiva e seu vigor para que, nos dias mais quentes da primavera, ela possa renovar-se, florir e preparar-se para produzir frutos e sementes que garantirão sua descendência. Fica evidente que essa estratégia de reprodução foi desenvolvida pela vegetação que vive em climas menos favoráveis, as árvores de florestas tropicais em geral não perdem as folhas porque a abundância de sol e água não oneram seu desenvolvimento e elas podem se dar ao luxo de serem verdejantes o ano todo.
Embora seja costumeira uma analogia dessa particularidade da vida dos vegetais com a sequência seguida por nós humanos dizendo que homens e mulheres da terceira idade estão no “outono” da vida, isso não é a expressão da verdade. Animais que somos, não vivemos em ciclos repetitivos como as plantas. A não ser o ciclo circadiano, que se repete mais ou menos a cada vinte e quatro horas, não temos algo que se assemelhe a “estações” do ano que se sucedem como nas plantas. Não conseguimos nos renovar a cada ano de modo a recuperar “folhas” perdidas durante o outono. Quando chegamos nesse período da vida já deixamos para trás grande parte do vigor e da saúde; agora, queiramos ou não, entramos no ramo descendente que nos levará ao término irrefragável, não há renovação como nas plantas.
As folhas caem. Nossos cabelos, seios, dentes, tonicidade muscular e pele sofrem a ação da gravidade e despencam, sinal da decadência da matéria da qual somos constituídos. Qualquer artificialidade que vise interromper ou atenuar essa sucessão de eventos é mera cosmetologia, a idade e o fatal declínio do corpo físico são irreversíveis. As nossas folhas caem sem retorno e sem renovação, nós somos seres de existência vetorial, nossas vidas têm grandeza, sentido e direção. À vista dessa inexorabilidade, a qual aponta sempre do começo para o fim inescapável, o homem, como angustiado ser pensante, inventou uma tal de vida após a morte que serve para consolá-lo na sua ansiedade existencial. Deus, alma, inferno, limbo, céu e vida após a morte estão de acordo com a recusa inconsciente do homem em pensar sobre o fim; e o consequente retorno da matéria que o compõe ao estado primitivo de substâncias inanimadas simples e elementos da tabela periódica.
A mente é pródiga em construir castelos no ar no qual os seres humanos possam se abrigar das intempéries inevitáveis que o decorrer obtuso do tempo impõe. A mente é o instrumento perfeito para criar a ilusão que mantém a esperança. Parece que a mesma mente que nos diferencia de outros seres nos dando autoconsciência, serve como contraponto amenizando o terrível sofrimento que nos aflige ao nos sentirmos mortais. O cair de nossas “folhas”, ao contrário do mesmo fenômeno no reino vegetal, prenuncia o fim que evitamos pensar, mas desencadeia todo um mecanismo de bloqueio e repulsão da realidade terrível, não somos racionais quando se trata da morte.
As religiões nos dão “certeza” que, se seguirmos seus ditames, teremos um nobre assento num lugar chamado céu onde nossa alma gozará de delícias mil eternamente. Não importa que nossas velhas folhas caiam, nossa alma terá vida eterna. Esse é o mecanismo que o homem inventou para compensar a inevitável queda de suas folhas. JAIR, Floripa, 16/06/11.