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sábado, 30 de junho de 2012

A religião


Pelo que se sabe, desde que o Homo sapiens se identificou como um ser diferente dos demais seres que o cercam, formou comunidades cada vez maiores com os seus, e passou a pensar abstratamente, criou a religião. Essa crença visava (visa ainda), basicamente responder as perguntas que angustiam o homem: Quem sou eu? Onde me encaixo? E, desde que a religião passou a existir, prosperou, ramificou-se, dividiu-se, multiplicou-se por milhares e permeou todos os povos, culturas e nações.
Contudo, com o aparecimento da ciência com respostas para quase todas as perguntas, e o tempo dedicado ao viver moderno, científico e industrial, a religião passou a ocupar menor espaço na vida das pessoas de um modo geral. Na primeira metade do século vinte, muitos pensadores achavam que a modernização econômica e social estava levando ao desaparecimento da religião como elemento importante da existência e catalisador de comunidades. Claro que essa suposição causava angústia naqueles que deploravam tal tendência, mas agradava aqueles que achavam positivo tal fato. Os agnósticos e modernizantes aplaudiam o grau que a ciência, o racionalismo e o pragmatismo estavam eliminando as superstições, os mitos, as crenças, as irracionalidades e os rituais que constituem o cerne das religiões. A sociedade que estava emergindo ia ser tolerante, racional, pragmática, progressista, humanística e totalmente laica. Em contraposição com aqueles conservadores que viam com preocupação as graves consequências do desaparecimento das crenças e instituições religiosas, e da orientação moral que elas representam. Diziam que o resultado seria a depravação moral e a degradação e anarquia social.
Mas o que realmente está acontecendo? Criou-se um vácuo de crenças por acaso? As religiões definharam? Bem, não é isso que se observa, os percentuais estatísticos revelam que a humanidade está “mais” religiosa que antes da hegemonia da ciência e da tecnologia. Desde a criação das religiões elas tenderam sempre a aumentarem, não só no número de adeptos como no número de seitas disponíveis. Essa tendência continua, as religiões cristãs se multiplicam como se houvesse um fermento celestial que as estimula, e o número de crentes também se incrementa.
Pois bem, constatado esse aumento de religiões, como ficam aqueles adeptos do racionalismo e do pragmatismo? Resposta simples, criaram uma religião para si: a internet. Embora nenhum adepto fique fazendo proselitismo por aí e nem sequer admita a céu aberto que é um seguidor, a internet é uma religião a qual tem milhões de seguidores e continua crescendo. Calcula-se que daqui a algumas poucas décadas será muito maior que as três religiões monoteístas juntas, cristianismo, islamismo e judaísmo.
A nova religião tem seus apóstolos como Bill Gates, Steve Jobs (agora um santo, provavelmente) e Stephen Wozniak. Tem também milhares de acólitos e pastores seculares espalhados por todos os continentes. Tem seus altares nos domicílios e nas empresas em forma de monitores, onde os acólitos oram, recebem instruções e fazem seus pedidos, além de olhar para o futuro e o passado. Tem seus “templos”, chamados redes sociais, onde os seguidores se reúnem e trocam experiências. Tem até uma escrita própria que usa os dígitos um e zero para expressar-se.
E, contrário a outras religiões, os internautas não creem numa vida da alma após a morte, eles sabem que tudo que restará é o que estiver salvo em seus HDs. Suas preces são em forma de baites e bits e suas reuniões são virtuais nos chats. Não são adeptos ao uso de velas e círios, lhes basta elétrons, e que a energia não caia durante seus rituais. O céu não existe, o que existe e todos desejam é o Cyber space, lá todos se visitam e se conhecem, embora nunca se tenham visto o mais das vezes. Essa nova religião não pune, a menos que você tenha violado a privacidade de algum irmão. Existe pecado? Sem dúvida. Pecado é praticar ou difundir pedofilia pela rede, por exemplo.
Por ser uma religião recém desembarcada na civilização ainda lhe falta uma estrutura melhor para fortalecer o vínculo entre seus seguidores, ainda não existe símbolo que a identifique cabalmente como a cruz do cristianismo, a estrela de David do judaísmo e o crescente do Islamismo. Contudo, continuará crescendo e penetrará em todos os desvãos da sociedade humana num tempo muito breve. Amém. JAIR, Floripa, 25/06/12.   

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Sobre ciência



Os cientistas formam uma elite diminuta, uma minoria diferenciada, talvez a média de apenas um cientista para cada vinte mil habitantes do Planeta. As idéias, atos e opiniões de um grupo tão pequeno só têm importância devido ao impacto que causam na sociedade em geral. Obviamente, a resposta da sociedade é indispensável para a ciência, uma vez que esta depende da compreensão daquela para que haja dinheiro para custear suas pesquisas e estudos, além do que, o resultado prático das descobertas e invenções resulta sempre em proveito das pessoas comuns. É claro que a ciência só pode continuar a e existir e atuar nos tempos atuais se for aceita por vastos grupos da população. Acabou o tempo que o cientista era aquele abnegado sacerdote do saber que, às suas próprias expensas, empreendia trabalho heróico e muitas vezes não reconhecido, que levava a descobertas e invenções que acabavam vindos em benefício da mesma sociedade que o ignorava.
Contudo, o ponto crucial dessa relação entre o sábio e as pessoas comuns, reside na confiança, sim, o ser humano médio tem que acreditar e aceitar que o homem de ciência é o único ser dotado das características especiais que o tornam passível de deslindar os mistérios do mundo que nos cerca e de equacionar os problemas de modo a torná-los inteligíveis às pessoas comuns.
Mas, tal aceitação está sendo conquistada gradualmente, ao longo dos séculos em batalhas estéreis e desanimadoras. Contudo, a vitória ainda não está completa nem necessariamente é final, bolsões de opiniões anticientíficas ainda persistem e são influentes em pleno século vinte e um. Por exemplo, a medicina alopática – científica, portanto – é rejeitada por parte do público de países ocidentais que professam a tal de Ciência Cristã, o que quer que isso seja; os fundamentalismos cristãos e muçulmanos contestam a geologia e a evolução, acreditam no criacionismo e descrêem nas evidências geológicas que provam a origem antiga da vida no Planeta; as religiões místicas habitam uma fronteira entre ciência e superstição; a astrologia desfruta de tanto prestígio que é difícil de entender o porquê. Esses bolsões que se espraiam pela população são um desafio constante para a ciência. Não é impossível que algum deles venha emergir num futuro não discernível, com elementos de verdade, por enquanto inacessíveis à ciência, pois, como sabemos, a ciência é dinâmica, evolui sempre e não se furta em admitir novas ideias e proposições e aceitá-las como fatos depois de provadas. De qualquer forma, esses movimentos anticientíficos representam no presente um obstáculo para a aceitação espontânea da boa ciência. Mas, o crescimento desta desde o século dezoito até o momento, e a aceitação cada vez mais ampla de suas descobertas, permanece como seu maior trunfo com relação às “crenças” infundadas.Não é estultice supor que no futuro, mais e mais a ciência irá se impondo e deixando menos espaço para a superstição e o misticismo que se arvoram em explicadores de fenômenos os quais não compreendem ao invés de se aterem apenas ao seu departamento: a fé. JAIR, Floripa, 05/08/11.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Cada um no seu quadrado






No atávico confronto entre as idéias da ciência e os dogmas da religião, com frequência, surge a acusação que os cientistas tiraram Deus das pessoas e não ofereceram nada em troca. As indagações mais racionais que os crentes em uma entidade superior fazem são: Se tudo pode ser explicado pela razão; se tudo pode ser compreendido por mecanismos lógicos de causa e efeito, onde cabem as emoções como nossa capacidade de amar, sentir dor, desespero e solidariedade? A ciência pode fornecer meios que combatam nossas dúvidas existenciais, como a religião o faz? Se não há vida depois da morte, o que a ciência nos oferece? Então, a alma não existindo, o que nos diferencia dos outros animais? Somos apenas um acidente de percurso de uma evolução cega não programada?

Realmente, se encaradas assim sem maiores reflexões, essas perguntas parecem perturbadoras. Se adorarmos a ciência e a colocarmos no altar, ela estará substituindo Deus ou qualquer entidade que represente algo místico que preenche as lacunas onde a ciência não alcança, ou não alcançou ainda. Essa perturbação da ordem, (vamos chamá-la assim) tem dois aspectos relevantes que devemos considerar: Grande maioria, mas grande maioria mesmo, dos homens de ciência acredita numa entidade superior, apenas não mistura suas convicções religiosas com suas pesquisas que adentram os mecanismos que a natureza usa para ser o que é; além disso, nosso cérebro é constituído de dois hemisférios que tem funções distintas, o lado esquerdo desenvolve raciocínio lógico, faz contas e deduções a partir de dados; o lado direito é lírico, emocional e criativo, não está preocupado com resultado da soma dois mais dois, mas gosta de poesia e arte, além de acreditar em coisas místicas.

Assim fica fácil entender que sempre existiu e sempre existirá a dualidade entre querer compreender o que se passa e atribuir o obscuro, o misterioso a algum ente de poderes superiores e não questionáveis. Alguns poucos privilegiados conseguem ser técnicos excelentes e fazer boa poesia, ter sensibilidade para música (meu amigo RRB sabe de quem estou falando) e usar o lado do direito do cérebro tanto quando o esquerdo. Mas nós, bilhões de simples mortais, não temos tal habilidade, portanto, estamos sujeitos a “embolar o meio de campo” e, onde a lógica não nos atender, passamos a bola ao inexplicável da silva a quem damos nome de Deus, ás vezes.

Tenhamos em mente que a ciência é um método de adquirir conhecimento, de descobrir regras e diretivas da natureza, não é um substituto de Deus, não exige veneração nem fé, o que não se coaduna com as teorias e fórmulas não deixa de ser cada vez mais estudado e analisado. Já a religião, desde tempos imemoriais, explora o ignoto e o medo do escuro dos homens, não tenta explicar o inexplicável, apenas gera conforto onde há angústia e traz esperanças aos desesperados. A ciência explica o passível de ser explicado e não se mete na religião, segue paralela às crenças e, quando as confronta, é apenas para aclarar alguma coisa bastante simples, exemplo: o mundo não foi feito em seis dias, não há base que sustente essa proposição.

Não há necessidade de um propósito divino para justificar a busca que ciência faz pelo conhecimento. A ciência sempre será instigante e maravilhosa, e tem a humildade de se saber limitada, incompleta, sempre buscando algo mais, mas nunca supondo que alcançou o zênite. A ciência é mestre em construir modelos que se aplicam à natureza e aumentam o conhecimento que temos dela. A ciência é excepcional em argumentar, fazer perguntas depois tentar respondê-las, nunca se furta a tentar, experimentar e divulgar o que descobriu. A religião faz parte de outro departamento da mesma empresa, não deveria confrontar a ciência, pois estaria “jogando contra” e, desse modo, diminuindo a eficiência da empresa humanidade.

E a alma? E a vida eterna? E as angústias e medos? Ora, esse é o departamento das religiões, e a ciência nada tem a dizer, por enquanto. Como diz aquela música: Cada um no seu quadrado. JAIR, Floripa, 27/08/10.