
A América é imodesta sobre muitas coisas, mas sobre seu status de império nem seus líderes nem seus cidadãos costumam usar a expressão ou admitir que o sejam. Enquanto impérios anteriores como Roma e Grã Bretanha faziam questão de alardear suas condições de potências e deixar claro que se orgulhavam disso, o império americano diz simplesmente que não existe. Os americanos acreditam que são ricos porque são um povo decente que trabalha duro (o mais das vezes isso é verdade), sem perceber a vantagem gigantesca que o poderio presencial de suas forças armadas e, principalmente de suas multifacetadas empresas ciclópicas, lhes proporcionam explorando as fontes baratas de recursos naturais no exterior. Petróleo no oriente médio e mão de obra barata na China são apenas dois exemplos entre inúmeros que podem ser citados.
No início os EUA agiram como império usando repetidamente a força para expandir seu território. Começaram expulsando os nativos de suas terras produtivas e os levando para desertos ou áreas inóspitas nas quais privações atrozes e morte por inanição ou doenças os esperavam, quando não os exterminaram simplesmente. Depois, em 1812, empurraram os britânicos para o Canadá de uma vez por todas, de modo que intimidaram os espanhóis que cederam suas terras no sudoeste, onde hoje se encontra a Califórnia. Na guerra de 1898 contra a Espanha ficaram com Cuba, Porto Rico e Filipinas, transformando-as em virtuais colônias americanas embora com disfarce de protetorados. Daí em diante, contando mais com força econômica que militar, continuaram conquistando mais e mais países para sua zona de influência especialmente na América Latina, considerada seu quintal desde então.
Nós cidadãos de outros países achamos estranho e apavorante que cidadãos comuns têm permissão para portar armas na América, e vemos as altas taxas de criminalidade e tiroteios em escolas um corolário previsível dessa suposta liberalidade. A imprensa nos dá conta que depois de setembro de 2001 as compras de armas cresceram muito em todos os estados americanos. Mas, vale lembrar que durante a maior parte da história americana, sempre que o interesse econômico era contrariado, o recurso às armas não tinha pudor de ser empregado. Aliás, o gosto por armas, que distingue os EUA de outros países, tem suas raízes na sua história econômica, uma vez que o uso da força teve desde o início uma participação essencial na busca pela riqueza. O chamado oeste selvagem é icônica prova desse apelo armamentista voltado para aquisição de riqueza. Um revólver e um rifle tinham mais utilidade que uma enxada e uma pá na conquista de novas fronteiras. Na fronteira o homem só podia manter o que pudesse defender, e, como quase sempre estava expulsando os nativos americanos, a defesa era uma necessidade constante. Outros colonos também eram uma ameaça potencial, um vizinho belicoso devia ser enfrentado à bala. A ironia e a sutileza eram pouco valorizadas na fronteira; os americanos eram um povo caloroso e aberto que não tinha vergonha do desejo incontrolável pela riqueza, a venalidade nunca foi uma falha de caráter. Foi lá que nasceu o adágio: “Todo homem tem seu preço”.
O moderno império americano coloniza mentes, não territórios. Faz isso principalmente através do domínio daquela que talvez seja a tecnologia mais importante dos últimos cinquenta anos: a tela. Houve tempo em que nós do mundo afora ficávamos sabendo sobres os EUA principalmente através das telas de cinema, na verdade a versão oliudiana para a vida na América. Mais tarde os filmes foram suplementados pelo lixo televisivo e agora temos a internet e suas redes sociais, cujo idioma (inglês) expressa bem a medida que a colonização se processa. Todas essas tecnologias se dirigem principalmente aos jovens. Todas refletem e ampliam o domínio global do inglês. Todas podem levar impulsos diferentes, até mesmo contraditórios, mas estão unidas num comprometimento principal com o comércio, todas dizem: compre!
Os americanos são os melhores comerciantes do Planeta, até porque sua economia é baseada no consumismo desenfreado. Através das telas eles convencem o mundo a querer o que são especialistas em produzir: uma definição consumista da felicidade. A definição americana consumista de felicidade está matando o Planeta. O estilo de vida americano é sedutor, faz o resto do mundo sonhar com ele, mas se todos os mais de seis bilhões de habitantes da Terra o alcançassem, seriam necessários no mínimo três Planetas para proporcionar toda a matéria prima necessária e para acomodar todo o lixo produzido. Mas, como só temos essa Terra é preciso repensar tecnologias melhores, mas, sobretudo, redefinir o que é desenvolvimento e até onde a humanidade pode ir se quiser usufruir do que os americanos definem como progresso e bem estar.
Não faz sentido o americano comum sentir culpa da riqueza que goza, mas será considerado idiota se não perceber como é privilegiado. Num mundo que é assustadoramente pobre, a maioria dos americanos é incrivelmente rica, às vezes esbanjadoramente rica. Essa riqueza tem consequências enormes, mas eles não percebem isso, estão dizimando os recursos que a Terra dispõe e os quais não são renováveis, como o petróleo, por exemplo, e nem sequer pensam a respeito. Isso é estultice pura, uma Terra devastada é tão ruim para o pobre como para o rico.
Existe algo torpe em consumir de modo tão insensato quando um terço dos habitantes do Planeta vive abaixo da linha de pobreza. Aliás, não deveriam se surpreender que o comportamento deles provoque os mesmos sentimentos que os ricos atraíram durante toda a história: inveja, admiração, mas também ressentimento e ciúme e os atos perversos que essas emoções podem provocar. 11 de setembro de 2001, é consequência dessa situação, não tenhamos dúvida. JAIR. Floripa, 05/03/11.