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sábado, 25 de fevereiro de 2012

Sandices nucleares

Logo no início dos anos cinquenta, quando a Europa ainda lambia as feridas da grande guerra e o mundo estava se conformando à nova geopolítica que dividia o Planeta em campos opostos, antagônicos e não miscíveis: os de lá, atrás da chamada Cortina de Ferro, eram os comunistas, contrários à civilização ocidental e em reconhecer que existiam direitos humanos; os de cá, nós, capitalistas empedernidos, queríamos um mundo livre onde todos tivessem direito as suas opiniões, natural que a coisa degringolasse para um arreganhar de dentes entre eles e nós, nascia a chamada guerra fria.
Guerra fria queria dizer guerra de palavras, ideias, posições políticas, zonas de influência e ameaças. Mas, como ambos os lados possuíam armamento nuclear, as rusgas podiam descambar para confronto real e a guerra poderia se tornar quente, na verdade muito quente, uma explosão atômica gera calor de intensidade maior que o sol.
Só que, tanto os EUA como a URSS tinham que mostrar um ao outro suas capacidades de intimidação, a chamada persuasão pela força. Então, ambos fabricaram milhares de bombas, ogivas acopladas a mísseis que carregavam as tais bombas, uma verdadeira loucura. Não só isso, as demonstrações também ocupavam oceanos com submarinos carregando mísseis altamente destrutivos e aeronaves portando até quatro bombas de hidrogênio prontas a serem soltas sobre o território inimigo, era o chamado bombardeio estratégico. Os soviéticos usavam para esse fim o Tupolev TU-95, uma aeronave turboélice de quatro turbinas e oito hélices contra-rotativas, uma verdadeira traquitana voadora; já a USAF utilizava o B-52, aeronave ainda em uso até hoje, o qual tem oito motores a jato e é considerado pelos entendidos o bombardeiro mais bem sucedido de todos os tempos.
Então, os ares ficaram povoados de B-52 e TU-95 carregados de bombas e se ameaçando jogar esses artefatos no país do outro. Como um meio de manter a capacidade de atacar primeiro durante a guerra fria, bombardeiros norte-americanos e soviéticos carregados com armas nucleares cercaram a terra incessantemente ao longo de décadas, durante 24 horas por dia, uma verdadeira insanidade. E o mundo assistindo com maior ou menor grau de apreensão dependendo da altura da voz de cada oponente. Dessa época só nos restam lembranças, mas foi quando o Planeta mais se viu perto da extinção da belicosa raça humana.
Pelo fato de muitos aviões e submarinos patrulharem diuturnamente águas e ares era de se esperar que algum acidente viesse a ocorrer. Não deu outra, no dia 17 de janeiro de 1966, sobre a costa mediterrânea da Espanha, num local chamado Palomares, um B-52 e um avião tanque KC-135 que o abastecia, colidiram e ambos caíram. Das quatro bombas de hidrogênio (ver meu texto “A bomba do fim do mundo”) de setenta quilotons (a bomba lançada sobre Hiroxima tinha vinte quilotons) carregadas pelo B-52, três caíram em terra e uma no mar. Não foi o primeiro acidente ou o último envolvendo bombas de destruição em massa americanas, mas, neste caso, a repercussão foi enorme porque se tratava de um país que, teoricamente, não estava envolvido na disputa entre as duas potências.
O B-52 estava retornando para sua base na Carolina do Norte na sequência de uma missão de rotina ao longo da rota sul, quando tentou reabastecer com um KC-135, avião tanque destinado a esse fim. O B-52 colidiu com a mangueira de abastecimento do avião tanque, arrancando-a e inflamando o combustível. O KC-135 explodiu, matando todos os quatro tripulantes, mas quatro membros de uma tripulação de sete do B-52 conseguiram saltar de pára-quedas. Nenhuma das bombas estava armada, mas o material explosivo (explosivo convencional destinado a destruição da bomba em caso de algo sair errado) em duas das bombas que caíram em terra explodiu com o impacto, formando crateras e espalhando plutônio radioativo sobre os campos de Palomares. Uma terceira bomba aterrou no leito seco do rio e foi recuperada relativamente intacta. A quarta bomba caiu no mar em um local desconhecido. Foi uma lambança da melhor qualidade.
Palomares é uma peque e remota comunidade agrícola que se viu invadida por cerca de dois mil militares norte-americanos e guardas civis espanhóis que se apressaram a limpar os detritos do acidente e descontaminar a área atingida pelas explosões. O pessoal dos EUA tomou precauções para evitar a superexposição à radiação, mas os trabalhadores espanhóis, que viviam em um país que não tinha experiência com a tecnologia nuclear, não o fizeram. Calcula-se que cerca de mil e quatrocentas toneladas de solo radioativo e vegetação foram raspadas do terreno e enviadas para os Estados Unidos para eliminação.
Enquanto isso, no mar, 33 navios da Marinha dos EUA estavam envolvidos na busca da bomba de hidrogênio perdida. Usando um computador da IBM, os especialistas tentaram calcular onde a bomba poderia ter afundado, mas a área de impacto ainda era muito grande para uma busca eficaz. Finalmente, uma testemunha ocular, um pescador espanhol, levou os investigadores para uma área de uma milha quadrada onde ele vira a bomba cair. Em 15 de março, um submarino localizou a bomba, e em 7 de abril esta foi recuperada. O invólucro do artefato estava amassado, mas intacto, menos mal.
Foram feitos estudos a respeito dos efeitos do acidente nuclear sobre o povo de Palomares, os EUA instalaram uma comissão no local que recebeu cerca de quinhentas reclamações de moradores, cuja saúde fora afetada pelo acidente. Como o acidente aconteceu em um país estrangeiro, ele recebeu uma publicidade muito maior do que uma dúzia de falhas semelhantes que supostamente ocorreram dentro das fronteiras americanas. Como medida de segurança, as autoridades americanas deixaram de anunciar acidentes com armas nucleares, e alguns cidadãos norte-americanos podem ter inadvertidamente sido expostos à radiação que resultou de acidentes não divulgados. Segundo os teóricos da conspiração, hoje duas bombas de hidrogênio e um simulacro com núcleo de urânio estão extraviados em locais ainda indeterminados na Geórgia, em Washington, e num pântano perto de Goldsboro, na Carolina do Norte.
Acabou a guerra fria, mas seus efeitos malignos ainda podem fazer vítimas até hoje. JAIR, Floripa, 21/02/12.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A bomba do fim do mundo


Para entendermos como funciona o mais poderoso artefato que o homem já construiu, temos que adentrar ao núcleo do átomo e ver como funciona a conversão de matéria em energia. Primeiro vamos àquele modelo simplista de átomo que Niels Bohr concebeu: Com elétrons com carga negativa orbitando um núcleo composto de prótons com carga positiva e nêutrons naturalmente neutros, tudo em equilíbrio relativo. Porém, como se mantém unido o núcleo, somente com prótons negativos e nêutrons? Os prótons, sem força oponente, deveriam estar se repelindo mutuamente de forma a separar-se. Mas não o fazem, de forma que os físicos chegaram à conclusão que existe uma ligação poderosa que os une, ligação que eles chamam de “força nuclear forte”. Quando certos núcleos são divididos, a energia que liberam representa a mais poderosa produção de energia que se conhece.

Podemos fazer uma analogia: O núcleo seria como uma porta provida de uma mola muito forte. Teríamos que fazer um grande esforço para abrir a porta. Contudo, no momento que a soltássemos ela se fecharia com grande ímpeto, provavelmente com uma violenta pancada. Essa porrada é a energia correspondente aos prótons e nêutrons que foram separados e reúnem-se em outro núcleo. Essa energia é a base da fissão (Bomba atômica) e da fusão (Estrelas e Bomba de hidrogênio).

Como já escrevi antes, o processo de fissão foi usado para se construir as bombas que destruíram duas cidades japonesas durante a guerra, e a maioria das bombas que compõe os arsenais nucleares de vários países deste Planeta. No processo, um número suficiente de nêutrons bombardeia certa quantidade de plutônio ou urânio explodindo os núcleos dos átomos, liberando pressão e calor em quantidades inimagináveis. Isso é assim nas chamadas bombas atômicas. Agora vejamos a partir daí. Cerca de dez anos depois da primeira bomba de fissão, consoante com a teoria desenvolvida por Leo Szilard, o qual havia proposto a reação em cadeia, a pressão e o calor gerado por uma bomba atômica foram usados para detonar o que seria a bomba do fim do mundo. O processo de fusão ocorre no interior das estrelas, onde, devido à imensa força gravitacional, os núcleos de dois átomos de hidrogênio se fundem formando um átomo de hélio.

No nosso dia-a-dia estamos habituados a pensar e admitir três estados da matéria: sólido, líquido e gasoso. Contudo existe um quarto estado ao qual os físicos deram o nome de “plasma”. Com ele se designa um estado da matéria quando submetida a temperaturas muito superiores a 2500° C, e é possível que hidrogênio em estado de plasma seja a matéria mais abundante do Universo. Sabemos através de rádios telescópios e pelo incrível Hubble que nosso Universo se compõe de bilhões de galáxias e que cada uma contém bilhões de estrelas que, neste momento, estão convertendo zilhões de toneladas hidrogênio em hélio e liberando a energia resultante dessa fissão. Recebemos aqui na Terra algo em torno 1/2.000.000.000 da energia que o sol produz e, desse montante, aproveitamos menos de um por cento. Contudo, essa ínfima quantidade de luz e calor dá condições para que haja vida no Planeta com toda essa abundância que conhecemos.

A nossa humilde estrela, o Sol, transforma a cada segundo, mediante o processo de fusão, 657 milhões de toneladas de hidrogênio em 653 milhões de toneladas de hélio. As quatro milhões de toneladas restante não se perdem, são lançadas como energia radiante no espaço. É assim que a famosa equação de Einstein: E=mc², cuja explicação é que a energia de um objeto é igual à massa multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz, funciona diariamente para nossa sobrevivência.

Apesar desses números literalmente astronômicos, aqui na terra já se consegue reproduzir esse processo estelar. A bomba termonuclear de fusão – a chamada bomba de hidrogênio – explodiu pela primeira vez em 1952, utilizando como detonador uma bomba nuclear de urânio 235 para produzir um lampejo de calor tão intenso a ponto de fundir o hidrogênio, transformando-o em hélio e, portanto, capaz de liberar exatamente o tipo de energia gerada no interior do Sol e de todos os bilhões de estrelas do Universo. E, claro, produzindo também todo o tipo de outros riscos à vida do Planeta que algo tão terrível assim traz em seu bojo. A verdade é que a bomba do fim do mundo não foi assim chamada por Leo Szilard por mero acaso, pois ao contrário do Sol, cujos raios são diretamente responsáveis pela vida na Terra, a bomba “H” não tem outra função a não ser aniquilar a vida e tudo que dá suporte a ela. Podemos deduzir, a partir da fusão nuclear, uma dialética da física, se é que tal expressão possa existir: A energia que tornou possível nossa existência é a mesma que poderá nos destruir algum dia. JAIR, Floripa, 19/12/10.