A chamada guerra
fria, que era um arreganhar de dentes entre o ocidente democrático (EUA) e o
oriente comunista (URSS), requeria de ambos os contendores vigilância constante
e demonstrações aparatosas de poder bélico visando impressionar o oponente.
Nós, expectadores compulsórios, quase sempre com taquicardia, éramos vítimas de
notícias de novas ameaças e de novas armas desenvolvidas especialmente para
aniquilar uma conquista tecnológica do outro lado. Assim, bombas “A” cada vez
maiores e mais potentes eram “testadas” no atol de Biquíni no Pacífico pelos
EUA, e artefatos semelhantes detonados no deserto do Kazaquistão pelos russos.
Lembrando que a bomba “A” detonada em Hiroxima tinha uma potência equivalente a
20 quilotons (vinte mil toneladas de TNT), as bombas de ambos os lados na
década de cinquenta andavam na casa dos megatons (milhão de toneladas de TNT).
Sempre que os soviéticos anunciavam uma bomba especialmente potente, os
americanos respondiam com uma maior, e a recíproca era verdadeira. Parecia que aquela
disputa ia acabar com a humanidade por um mero acidente quando alguém meio
destrambelhado apertasse um botão numa má hora.
Aviões, submarinos e
belonaves de superfície cruzavam céus e mares 24 horas por dia armados com as
tais bombas do fim do mundo, não havia limite para a potência dos artefatos,
nem dos meios empregados para transportá-los da forma mais ameaçadora possível.
Não bastava tê-las nos respectivos arsenais, havia necessidade de intimidar a
outra parte com o que se convencionou chamar de “bombardeio estratégico”.
Estratégia: (Houaiss) arte de coordenar a ação das forças militares, políticas,
econômicas e morais implicadas na condução de um conflito ou na preparação da
defesa de uma nação ou comunidade de nações. Foi aí que os senhores da guerra
americanos resolveram ampliar a ameaça criando uma arma nuclear tática.
Lembrando que tática é: (Houaiss) arte de dispor e manobrar as tropas no campo
de batalha para conseguir o máximo de eficácia durante um combate.
Diante dessa nova visão
de intimidação, o arsenal Picatinny
foi encarregado de criar uma peça de artilharia capaz de lançar uma bomba
nuclear tática. O engenheiro militar Robert Schwartz, criou os primeiros
desenhos de tal arma baseados no canhão 240 milímetros (então o maior do
arsenal dos EUA) e usou o sistema alemão desenvolvido para transportar o canhão
K5, (descomunal canhão alemão que foi utilizado contra a França na segunda
guerra) como ponto de partida para o transporte.
O projeto foi
aprovado pelo Pentágono, em grande parte através da intervenção de Samuel
Feltman, engenheiro civil que trabalhava para o exército americano no
desenvolvimento de novas armas. Um esforço concentrado de três anos de trabalho
foi iniciado. O projeto passou com rapidez suficiente para produzir um modelo
de demonstração para participar do desfile em homenagem ao presidente
Eisenhower em janeiro de 1953 quando da assunção ao seu primeiro mandato.
O canhão era
transportado por dois conjuntos de esteiras especialmente concebidos, capazes
de direção independente. Cada um dos conjuntos tinha 375 cv de potência nos
motores, e podia atingir velocidades de 35 quilômetros por hora e possuía
habilidade de manobra para fazer curvas com 28 metros de raio, em estradas
pavimentadas ou terrenos não preparados. Pode parecer que curvas com esse raio
sejam muito grandes, mas é bom lembrar que a arma era imensa e pesadona, tinha
quase trinta metros de comprimento e pesava 84 toneladas, calibre 280
milímetros, tinha um alcance de 30 quilômetros e foi batizada de M65. A peça de
artilharia poderia ser liberada para uso em 15 minutos e, depois dos disparos,
voltar a deslocar-se em outros 15 minutos. A intenção era baseá-la na Europa
onde pudesse ser utilizada contra tropas soviéticas ao longo das fronteiras da
guerra fria. Não ficou registrado a reação dos russos sob essa nova ameaça.
Em 25 de maio de
1953 às 8:30 horas da manhã no estado de Nevada, o canhão atômico foi testado,
como primeira parte de uma série de testes nucleares programados. O teste de codinome
Grable - contou com a presença, do secretário
de defesa Charles Erwin Wilson - e resultou na detonação com sucesso de um
projétil contendo uma bomba “A” de quinze quilotons. Este foi o primeiro
artefato nuclear a ser disparado de um canhão.
Após o teste bem sucedido,
houve pelo menos 20 outros canhões fabricados a um custo de 800.000 dólares
cada. Eles foram destacados no exterior para a Europa e Coréia, eram muitas
vezes continuamente deslocados para evitar serem detectados e servirem de alvo
para as forças oponentes. Devido ao tamanho do aparelho; a sua gama de
utilização um tanto limitada; o desenvolvimento de projéteis nucleares
compatíveis com peças de artilharia de 155 e 203 milímetros já existentes; e o
desenvolvimento de mísseis nucleares terra-terra, o M65 tornou-se obsoleto logo
depois que foi implantado. No entanto, até 1963 manteve-se como arma de
prestígio sem sequer ter um plano de utilização em caso de conflito,
acreditava-se que sua presença era suficiente para amedrontar os soviéticos e
seus aliados.
Dos vinte canhões
produzidos hoje existem oito deles em exposições em museus. O que se deduz
dessa tecnologia é que a imaginação do homem não tem limites quando se trata de
produzir morte nos seus semelhantes. JAIR, Floripa, 23/03/12.
