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quinta-feira, 15 de março de 2012

Sandices insetais



Se ignoramos os seres microscópicos como bactérias e vírus, podemos afirmar com segurança que a forma de vida que mais deu certo e que mais abunda no planetinha azul, são os insetos. Esses bichos de seis pernas, com exoesqueletos, divididos em cabeça, tórax e abdômen, a maior parte das vezes com asas, são resultado do caminho evolutivo mais bem sucedido que se conhece. Antes que alguém pergunte, aranhas não são insetos, têm oito pernas, dividem-se em encefalotórax e abdômen, são artrópodes e parentes dos escorpiões e dos caranguejos. Registros fósseis nos provam que insetos habitam o Planeta há bilhões de anos e não há qualquer indício que deixarão de existir algum dia.
Pois bem, o bicho homem, este animal não tão bem sucedido como os insetos, mas arrogante de doer, o mais das vezes ao avistar um bichinho destes, tende a matá-lo. Parece que insetos são objeto de repulsa, nojo, medo ou desprezo, nenhum sentimento altruísta ou bondoso, embora abelhas e bichos-da-seda sejam animais que prestam serviços relevantes a humanidade desde que a civilização começou.
Os insetos ocupam todos os continentes, inclusive a Antártida, e todos os ambientes, desde o lodo de rios e lagos, até milhares de metros acima do solo, passando por montanhas geladas, florestas e desertos inóspitos. O bichos são perseverantes, versáteis e resistentes, o Planeta é deles, nós somos apenas inquilinos malcriados e danosos que ao invés de pagar aluguel detonamos o ambiente no qual vivemos.
A natureza no seu caminho evolutivo sempre fez experiências no sentido de explorar todas as possibilidades de formas, meios de locomoção, tamanhos, tipo de reprodução, alimentos, adaptabilidade ao meio, longevidade, força e toda uma complexa gama de diferenças entre suas diversas criações. Assim, o número de pernas, por exemplo, varia desde seres sem pernas até o milípede que, ao contrário do que o nome sugere, pode ter um pouco mais de cem pares de patas. Os mamíferos, aves e répteis têm nenhuma (baleias e golfinhos) duas ou quatro pernas, os peixes nenhuma, mas os insetos têm seis. Então, será que seis pernas é uma boa solução?
Então, cientistas da NASA envolvidos numa pesquisa visando construir um meio de transporte adequado à exploração em outros planetas, descobriram que um veículo com maiores possibilidades de locomover-se bem em terreno desconhecido, mas certamente irregular e hostil, seria um carro com seis rodas ou seis pernas. O Mars Rover é resultado dessa conclusão. Porque será hein? Simples, lembremos aquela definição de geometria: “três pontos não alinhados no espaço estão SEMPRE no mesmo plano”. Ai vem uma observação dos entomólogos (estudiosos dos insetos): ao deslocar-se, em qualquer momento, o inseto sempre estará apoiado em três pernas. Portanto, o inseto sempre estará estável qualquer que seja a superfície na qual ele se apóie. É só lembrar que suportes para instrumentos ou objetos de precisão que devem atuar ao ar livre usam tripés: máquinas fotográficas e teodolitos, por exemplo. Não é de estranhar, portanto, que insetos sejam tão bem sucedidos na corrida evolutiva, eles “descobriram” o número ideal de patas que os tornam estáveis e possivelmente vencedores dessa corrida que ainda está em pleno agito. No futuro vencerão os mamíferos que desenvolverem seis pés, quem viver verá.
Então, além dessa magnífica solução para locomover-se a pé, os insetos ainda possuem asas na sua maioria. Vejamos a libélula. Esse magnífico inseto de quatro asas transparentes e esverdeadas que vive voejando sobre córregos e pequenos lagos é um predador formidável de outros insetos, girinos e alevinos, quem diria! Na fase larval, o inseto vive dentro da água onde come girinos e alevinos, logo que se transforma em adulto voa sobre os cursos de água e ataca outros insetos. Pois é, além de voar ele tem uma vida subaquática como um submarino armado e predador, coisa de filme tipo “Oitavo passageiro”, aliás, a forma daquele monstrengo alienígena criado para o filme foi baseada nos insetos.
Insetos de todo mundo, esses bichinhos em geral vegetarianos, também se encontram na base da cadeia alimentar. Eles servem de alimento a outros insetos, aves, répteis, mamíferos e até ao homem. No oriente é comum gafanhotos, grilos e cigarras serem degustados como iguarias de gosto exótico e prenhes de proteínas. No nordeste brasileiro as tanajuras fazem parte de um cardápio exótico, sendo iguaria em mercados públicos como o de São José, em Recife. Tanajuras são fêmeas férteis das formigas saúvas, aquelas mesmas que “acabam com o Brasil se o Brasil não acabar com elas” como disse Saint-Hilaire, botânico, naturalista e viajante francês, que aqui esteve em 1816.
Em 2009 publiquei um texto muito bom sobre insetos chamado, “Coleópteros”, onde desmistifiquei a lenda que esses bichinhos são responsáveis pelas perdas nas lavouras, me expressei assim: “Assim, nos acostumamos associar esses bichos com danos que eventualmente eles nos causam e os temos na conta de inimigos públicos, para dizer o menos. Entretanto, essa idéia de perversidade ligada ao inseto não se traduz em números, das 350 mil espécies conhecidas de coleópteros, apenas algumas dezenas, efetivamente, ocupam-se em atacar os cultivares desenvolvidos para alimentação humana, a esmagadora maioria é inocente, ou seja, trata-se de insetos inofensivos que só estão preocupados com a reprodução, alimentação e modus vivendi lá deles, sem atinar que na superfície do planeta em que vivem, existe um tal de Homo sapiens, seja lá o que isso for ou represente para sua própria existência”. Pois bem, esse é terceiro texto mais lido de meu blogue com 4.692 visualizações de página até hoje (04/03/12), só perdendo para “Iakuza” e “Cinema”.
Claro que não sou entomólogo, mas gosto imensamente de insetos, já escrevi além do texto citado, “Lepidópteros” cujo tema são as borboletas, então quero finalizar com este fecho que usei anteriormente com relação aos Coleópteros: “De todos os coleópteros o Vaga-lume talvez seja o mais exótico de todos. Bem, considerando esse multimilenar universo de seres tão pequenos quando hostilizados, podemos facilmente escolher os coleópteros como os representantes mais formidáveis do mundo dos insetos pela sua espantosa variedade, pela diversidade de suas aptidões e pela beleza de seus coloridos” JAIR, Floripa, 04/03/12.

sábado, 19 de novembro de 2011

Abelhas






Desde que os antigos humanos trocaram o modo de vida de caçadores-coletores para pastores-agricultores, as primeiras colônias se viram compelidas a domesticar animais e plantas para facilitar a sobrevivência, principalmente porque a nova configuração social acarretou maior densidade populacional. Assim, muitas plantas, muares, ovinos, bovinos, galináceos e insetos, foram compulsoriamente atrelados ao modus vivendi humano nas aldeias e tribos. Obviamente isso não aconteceu a um só tempo, nem num mesmo lugar.
Com facilidade, costumamos associar os mamíferos e aves à nossa civilização por se tratar de animais “visíveis” que não deixam dúvidas que estão ali. Contudo, dois pequenos insetos da maior importância convivem conosco a quase tanto tempo quando os outros animais domesticados: bichos-da-seda e abelhas.
Os bichos-da-seda para se reproduzirem constroem casulos onde colocam seus ovos. Os humanos usam essas ootecas para tecer a seda. Os historiadores acreditam que a produção de seda teve início na China, por volta de 3.000 a.C., revelando que as pessoas já deviam ter começado a domesticar o bicho-da-seda por volta dessa época. Em 2009, uma equipe de cientistas liderada por investigadores chineses comparou o genoma de bichos-da-seda selvagens e de produção industrial tendo concluído que a domesticação deste animal, há cinco mil anos, resultou de um evento único embora se desconheça se os animais fundadores foram recolhidos num único lugar. Desde o início esses insetos têm contribuído em progressão geométrica para a indústria de vestuários e confecção em geral.
Já, com relação às abelhas, há que se notar que antes do século dezenove as populações dependiam do mel para adoçar suas beberagens e comidas, e ainda não existia açúcar industrial. As pessoas conseguiam mel em colméias e não é preciso dizer que se arriscavam a levar doloridas ferroadas para consegui-lo. As abelhas, segundo registros mais antigos, foram domesticadas no oriente por volta de três mil anos atrás.
No século dezenove, o reverendo americano Lorenzo Lorraine Langstroth melhorou significativamente a estrutura das colméias para permitir métodos mais eficientes para a produção do mel. De então para cá, a indústria melífera aperfeiçoou-se cada vez mais e se tornou indispensável para os modos de vida escolhidos pelos homens tanto do oriente como do ocidente. O mel entra na composição de centenas de alimentos, além de ser grandemente utilizado na indústria farmacêutica. Cera, própolis e geléia real são subprodutos também muito explorados pela apicultura.
Com o desenvolvimento da agricultura em larga escala, verificou-se que a apicultura tinha mais uma utilidade ainda. A polinização. As grandes plantações se valem das abelhas e outros insetos para aumentar a produtividade, plantas fecundadas são mais prolíferas e, assim, abelhas criadas junto às culturas, contribuem significativamente para plantas mais produtivas. É consórcio que traz benéficos incalculáveis à agricultura.
Então, por milênios, as abelhas conviveram em relativa paz com homens e a eles deram o produto de seu trabalho sem maiores dissabores, e os humanos esperavam contar com esse serviço por mais alguns milênios talvez. Só que, parece, essa relação está entrando em declínio, vai deixar de existir dentro de muito pouco tempo se nada for feito.
Desordem de Colapso de Colônia (CCD em inglês) é um fenômeno em que abelhas operárias de uma colméia de abelhas melíferas européias e africanizadas, de repente desaparecem. Enquanto tais desaparecimentos ocasionalmente ocorriam ao longo da história da apicultura, o termo CCD foi aplicado pela primeira vez a um aumento drástico no número de desaparecimentos de colônias de abelhas europeias nos EUA no final de 2006. Esse colapso de colônias é alarmante porque, como dissemos, muitas produções agrícolas em todo o mundo são polinizadas por abelhas.
Alertados para o fato, apicultores europeus observaram fenômenos semelhantes na Bélgica, França, Holanda, Grécia, Itália, Portugal e Espanha, e relatórios iniciais também vieram da Suíça e da Alemanha, embora em menor grau. Enquanto na Irlanda do Norte relatórios dão conta de um declínio superior a 50%. Outros casos possíveis de CCD também têm sido relatados em Taiwan desde abril de 2007. No Brasil, interior de São Paulo, também se fala em grandes perdas nos apiários, embora não haja relatórios conhecidos a respeito.
A causa ou causas dessa síndrome ainda não são compreendidas. Em 2007, algumas autoridades atribuíram o problema a fatores biológicos como ácaros e doenças de insetos (isto é, patógenos, incluindo Nosema apis e vírus de paralisia aguda de Israel). Outras causas propostas incluem mudanças ambientais por pesticidas que podem levar a desnutrição dos insetos. Mais possibilidades especulativas têm incluído modificação celular por radiação.
Também foi sugerido que pode ser devido a uma combinação de muitos fatores e que nenhum fator é a causa principal ou central. O relatório mais recente (USDA - 2010) afirma que: "com base em uma primeira análise de amostras coletadas em abelhas mortas, tem-se notado o elevado número de vírus e outros patógenos, pesticidas e parasitas presentes em colônias que sofreram CCD. Este trabalho sugere que uma combinação de fatores ambientais pode desencadear uma cascata de eventos e contribuir para debilitação dos insetos de forma que estes ficam vulneráveis a outras doenças”. Contudo, não há qualquer convergência de resultados nos estudos efetuados até o presente e, principalmente, não se sabe o porquê dos eventos. O que se sabe com certeza, é que as abelhas continuam desaparecendo e essa síndrome está se espalhando pelo Planeta e não há nenhuma solução a vista a médio e curto prazo. Cientistas preocupados projetam que dentro de uns vinte anos não mais haverá abelhas produzindo mel industrialmente. Quem viver provavelmente terá muito menos doçura em sua vida então. JAIR, Floripa, 19/11/11.