sábado, 12 de março de 2011

Traíra, o peixe


Em outros textos aludi às pescarias que costumava fazer na minha infância e adolescência, pescarias de lambaris nos riachos e regatos da periferia da cidade e de peixes maiores quando se tratava de rios caudalosos como Iguaçu e Tibagi. Nestes havia, além dos peixes mais comuns como carás, jundiás, cascudos e mandis, traíras que eram peixes mais “nobres”, por assim dizer. Traíras têm carne branca e, apesar de não serem peixes de grande valor comercial, seu filé é delicioso, e estão entre os mais saborosos, mas possuem muitos espinhos o que as torna quase impraticáveis de se serem degustadas.

Considerada pelos estudiosos e pelos pescadores, o peixe mais tipicamente tupiniquim, porquanto existe desde o Oiapoque até o Chuí, ou seja, habita todas as bacias hidrográficas do país; tem condições de viver em qualquer rio, riacho, represa, lagoa ou cursos d'água que existem no território nacional. Embora, como se sabe, apareça também nos países vizinhos como Argentina, Paraguai, Uruguai, Guiana, Bolívia e outros.

Não é peixe de piracema ou de águas agitadas, ao contrário, é territorial e prefere viver e se reproduzir em lagoas e ambientes de águas paradas mas, eventualmente, pode ser encontrado em rios com pouca correnteza onde costuma se alimentar de peixes menores. Seu hábitat por excelência são os meandros abandonados dos rios onde, eventualmente, durante as cheias, as águas do rio invadem trazendo grande quantidade de alevinos que lhe servem de alimento. É um predador voraz e seu método de ataque, fazendo uma analogia com mamíferos, é como o do tigre que fica de tocaia e ataca a vítima de repente, não como o leopardo que corre até alcançar a presa. Também, diferente da maioria dos peixes, a traíra é ovípara e se reproduz por desova parcial, ou seja, com várias posturas por ano, com produção alta de alevinos dos quais cuida com grande zelo ao mesmo tempo em que defende seu território com firmeza, ataca até peixes maiores quando está cuidando da prole. Pode ser pescada tanto com iscas naturais como artificiais, desde que estas sejam movimentadas na água a guisa de animal vivo se debatendo.

Por ser um animal extremamente primitivo, (uma espécie de celacanto da água doce) - calcula-se que exista há mais de duzentos milhões de anos, aliás, tenho um fóssil de 150 milhões de anos desse peixe, oriundo da serra do Araripe – tem aparência um pouco estranha e agressiva: Peixe de escamas; corpo cilíndrico; boca grande; dentes acúleos bastante afiados; olhos grandes; e nadadeiras arredondadas, exceto a dorsal. A cor é marrom esverdeada ou preta manchada de cinza. Chega a alcançar cerca de 60 cm de comprimento e até mais de 2kg. Para a ciência as traíras têm importância fundamental, pois além de conservar até hoje suas características primitivas, podem viver e se reproduzirem em ambientes muito poluídos, águas paradas com pouca oxigenação. Também gostam de aquecer-se ao sol em águas rasas, o que as torna alvo fácil de pescadores que usam arpões ou fisgas. Podem deslocar-se no seco, migrando de uma poça para outra e, até viver enterradas no barro na época da seca por meses, graças a uma reserva de água guardada no corpo.

Por sua aparência desagradável e agressiva, as traíras, o mais das vezes não são consideradas importantes ou úteis. Por possuírem dentes cortantes, pontiagudos e salientes, são acusadas indevidamente de destruir os cardumes de alevinos, o que não passa de falta de informação. Na realidade, como predadores do topo da cadeia alimentar, esses peixes melhoram a qualidade genética de suas presas, comem e exterminam os exemplares mais fracos e menos aptos, deixando que os melhores se reproduzam. Portanto, são necessários à evolução das espécies que a sábia natureza criou.

Lembro-me que pegar algumas traíras em nossas incursões pesqueiras, era proeza digna de festa, elas eram esquivas e nem um pouco abundantes naqueles rios do Paraná. Contudo, principalmente pelo fato de serem avis rara, sempre foram objeto de cobiça até dos mais canhestros pescadores, entre os quais me incluo. Peguei uma meia dúzia “no susto” em toda minha vida de pescador bisonho, não posso me gabar de ter sido um exterminador de traíras. Mesmo levando em conta as dificuldades de pescá-las, não era muito raro acontecer que pescadores como meu pai aparecerem com alguns bonitos espécimes depois de dois ou três dias de insistência na margem de algumas lagoas formadas pelo Iguaçu nas enchentes periódicas. Chegados em casa, os peixes deveriam ser deglutidos porque eram fonte de proteínas, mas, mais importante, porque eram deliciosos. A abundância de espinhos era o óbice para prepará-los, não havia como se livrar daquelas agulhas bifurcadas perigosas que podiam causar sérios danos à garganta do comensal incauto. Como preparar o peixe de modo a comê-lo sem muito perigo? Existiam alguns “macetes” como cortá-lo em fatias muito finas a moda de salame para fritá-lo em seguida, mas não havia uma maneira perfeitamente segura de prepará-lo, isso todo mundo sabia.

Desde aquele tempo sempre sonhei em comer a traíra com gosto sem qualquer perigo, e já tinha ouvido falar em “traíra sem espinhos”, prato preparado no sul de Minas, mas faltava-me a experiência degustativa em tempo real. Faltava-me! Porque um dia destes, numa viagem à Brasília, deparei-me com um restaurante na periferia da cidade, cuja especialidade era, justamente, traíra sem espinhos. Finalmente! Comi o delicioso peixe em toda sua exuberância de gosto e textura, sem qualquer receio. O maître do local não informa como se retira os espinhos do peixe, mas deixa subentendido que é uma técnica relativamente fácil com faca bem afiada de lâmina fina. De qualquer modo, para mim, o círculo se fechou, de pescador neófito que só conseguia pescar alguma traíra se esta estivesse distraída, passando por comensal desiludido com a dificuldade de preparar o prato definitivo que redimiria o paladar frustrado, até, finalmente, saborear o delicioso peixe em toda sua plenitude. JAIR, Floripa, 11/03/11

quinta-feira, 10 de março de 2011

Não existe almoço grátis


Muito bem, durante a crise do petróleo nos anos setenta, crise que assustou o público consumidor do produto e despertou a consciência das nações para o quanto eram dependentes do óleo extraído, em maior parte, de uma região instável politicamente e conflagrada por guerras recorrentes, o mundo ocidental não auto-suficiente se viu compulsado a adotar medidas que permitissem diminuir ou eliminar sua dependência do óleo oriundo do Oriente Médio.

Fora as pirotecnias demagógicas que muitos líderes adotaram como recomendar aos usuários que deixassem seus carros em casa, andassem de bicicleta ou a pé, houve medidas econômicas como aumentar o preço dos combustíveis de modo a tornar proibitivo que os mais pobres usassem seus veículos. A indústria automotiva botou a boca no trombone, ameaçou fechar muitas fábricas, – em alguns casos fechou mesmo – demitir gente e lembrou que isso diminuiria a arrecadação de impostos. Os governos acuados recuaram o mais das vezes, e tomaram medidas para buscar novas jazidas do produto ou fontes alternativas antes desprezadas. No Brasil intensificaram-se os investimentos na prospecção do óleo e, ao mesmo tempo, procurou-se aperfeiçoar tecnologia que permitisse uso do álcool como combustível de automóveis.

Como pioneiro na conversão de motores ao consumo de álcool, o principal problema das autoridades foi estimular os ricos usineiros a destinar partes substanciais de suas colheitas à produção do álcool combustível (etanol). Enquanto o governo promovia estudos econômicos para a produção em grande escala, oferecendo tecnologia e até mesmo subsídios às usinas produtoras de açúcar e álcool, as indústrias automobilísticas instaladas no Brasil na época - Volkswagen, Fiat, Ford e General Motors - adaptavam seus motores para receber o etanol. Daí, surgiriam duas versões no mercado: motor a álcool e a gasolina. Veja bem, DUAS versões de motores, versões diferentes porque álcool e gasolina são quimicamente diferentes e, como tal, NÃO PODEM queimar plenamente e, em consequência, fornecer plenamente seu potencial energético no mesmo motor. A engenharia mecânica, considerando que o álcool tem maior poder calórico e que o equilíbrio estequiométrico da gasolina é diferente do álcool, resolveu a adaptação ao álcool aumentando a taxa de compressão, desenvolvendo uma vela de ignição melhor, substituindo o óleo lubrificando por outro de melhor performance, mudando os materiais empregados na confecção de mangueiras, protegendo todas as partes que entram em contato com o novo combustível de forma que este não causasse corrosão. Algumas dessas adaptações podem ser consideradas perfunctórias e não alteram a queima da gasolina, outras melhoram o desempenho, mas a mais importante e irretorquível foi o aumento da taxa de compressão do motor. O etanol exige um taxa maior, sem a qual sua queima é imperfeita e fornece menos potência. Em contrapartida, a gasolina exige uma taxa menor, sem a qual sua queima é imperfeita e fornece menos potência. Um motor bicombustível é, no mínimo, uma máquina desequilibrada que fornece menos potência por litro de combustível queimado e, na pior das projeções, uma trapizonga construída para atender motivos econômicos-políticos inconfessáveis com disfarce de “bom mocismo” preocupado com o meio ambiente. Para lembrar, esses carros não poluem menos que os demais.

Então, caros proprietários de carros chamados flex, coloquem suas barbas de molho, como a história prova que não existe almoço grátis, é possível que os senhores estejam dirigindo carroças que terão a vida útil do motor diminuída em função desse milagre na forma de máquina que queima dois combustíveis tão diferentes e inconciliáveis. Devo esclarecer que faço essa advertência porque minha formação e prática de quarenta anos em mecânica me permitem dizer que ninguém conseguiu explicar essa maravilha de motor, essa entidade extraordinária que tem o dom da dualidade, que consegue extrair potência de dois comburentes discordantes. Para consolo dos usuários, existe o benefício do uso de um dos combustíveis sempre que o preço do outro não compensar, sempre que a relação de um para outro favoreça um dos dois, mas a problemática mecânica talvez não compense essa vantagem. Para não deixar dúvidas, devo dizer que meu carro é a gasolina, não sou contra carros a álcool e motores movidos a gás são tão bons quanto aos movidos a gasolina, afinal ambos são hidrocarbonetos, mas jamais compraria um carro flex. JAIR, Floripa, 21/02/11.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Banho de cachoeirra


Cidade longe do litoral, com acesso às praias franqueado apenas a quem dispusesse de grana, natural que os mais pobres procurassem alternativas para refrescar-se nos verões caniculares daquela Palmeira de minha infância. Os riachos, lagoas e cachoeiras existentes na região eram a opção lógica para divertimento e lazer barato. Pois bem, além dos arroios represados pelas madeireiras que havia dentro do perímetro urbano, os quais nós usufruíamos com assiduidade, existia rios de águas muito limpas mais distantes que só eram viáveis para o banho com algum planejamento. Explico, devido à distância, não se podia programar uma ida até esses locais, durante uma tarde após o término das aulas, por exemplo. Fazia-se necessário planejar num dia feriado a saída de manhã com volta já no meio da tarde porque só o deslocamento consumia quatro horas para ir e voltar, um lanche sempre devia acompanhar o banhista em tal empreitada. O rio da cachoeira do Pugas era um desses locais.

O rio do Pugas tinha esse nome porque era localizado na vila rural Pugas, toponímico que possivelmente resultou de corruptela do substantivo pulgas, visto que esses insetos seriam abundantes em tal local. Seja ou não verdade, o fato é que Pugas era assim denominado e assim ficou. Bem, o rio em si, como os demais do planalto, era correntoso de águas claras e corria sobre leito de rochas com algumas “praias” de areias muito finas e muito brancas. A cachoeira nada mais era que uma queda d’água de metro e meio de altura por uns trinta de largura que se precipitava numa espécie de piscina de fundo arenoso, onde nadávamos, havia também uma pequena praia onde tomava-se banho de sol. Rios da região caracterizam-se por correr entre morros formando vales rasos e por possuírem mata ciliar bem variada em espécies. Pitangueiras, araçazeiros e guabirobeiras abundavam naquelas matas e eram objeto de desejo da piazada nas épocas de frutas. Quero fazer uma declaração que, definitivamente, prova que a jabuticabeira é uma árvore nativa do Brasil: Juro que encontrei uma jabuticabeira selvagem naquelas matas, ainda que sem frutas, não era época. Esses rios também possuem uma variada fauna de lambaris, bagres, carás e até pitus, mas estes não eram objetos de nossas iscas e anzóis por serem muito pequenos. Feito o planejamento e os preparativos, que quase sempre incluíam varas de pescas e algumas minhocas para tentar a sorte com os lambaris, lá ia a gurizada subindo o morro da Vila Rosa, para, em seguida, descê-lo do outro lado onde havia acesso por pastos de gado até o rio. A travessia dos pastos se fazia com certo receio por causa de touros bravios que por ali pastavam, umas vezes tivemos que correr de algum daqueles touros mal humorados, nada grave, no entanto, apenas um corridão até passar a cerca de arame que delimitava o campo.

Bem, o que realmente tornava interessante o banho no rio da cachoeira, o que acabou causando a “perda da inocência” de muitos guris daquela geração da qual fiz parte, além do que já foi dito, é que as prostitutas de uma casa conhecida como “dos cedrinhos” que funcionava na Vila Rosa, costumavam, vez ou outra, deslocar-se até lá para tomar banho. A gurizada sempre contava com a possibilidade de encontrá-las no rio, porque algumas delas costumavam se banhar nuas, e isso era motivo bastante para atrair até o mais retraído piá que morasse naquelas bandas. Por surpreendente que possa parecer, aquelas mulheres queriam privacidade, e aparição de qualquer pessoa estranha fazia com que elas se recolhessem, colocassem suas roupas e fossem embora. O comportamento delas era marcado com uma pudicícia perfeitamente condizente com nossa própria criação, para nós era aceitável que ninguém gostasse de se expor aos olhos de estranhos, daí fazermos tudo para não sermos notados por elas ao tempo que as espiávamos.

Pelo que ouvi de outros garotos, a iniciação sexual de muitos foi durante os banhos coletivos das mulheres, quando alguns de nós ficávamos escondidos nas moitas apreciando as beldades; ainda que iniciação sexual fosse apenas incluí-las em nossas fantasias sensuais irrealizáveis. Confesso que a primeira mulher nua que vi na minha vida foi uma daquelas jovens, eu tinha onze anos e nunca esqueci a plasticidade das linhas daquele corpo moreno jambo bem proporcionado. A figura daquela mulher invadiu meus sonhos eróticos por meses. Contar para os adultos o que acontecia na cachoeira estava fora de cogitação, sabíamos que se vazasse que mulheres “da vida” banhavam-se nuas em pleno dia naquelas águas, estaríamos banidos de lá para sempre por nossas mães. Creio que os banhos de cachoeira foram muito importantes como rito de passagem da infância para adolescência para nossa geração naquele meio, o amadurecimento posterior veio sem sustos ou maiores surpresas as quais pudessem causar danos visíveis ao nosso comportamento frente à vida. Quero deixar minha gratidão às mulheres que, mesmo sem o saber, nos proporcionaram cenas tão inesquecíveis os quais enriqueceram nossa maneira de ver o mundo. JAIR, Floripa, 28/01/11.

sábado, 5 de março de 2011

Pinhão


Só quem viveu à sombra dos pinheirais, em contacto íntimo com a Araucaria angustifolia, conhecida como Pinheiro do Paraná, pode ter lembranças que envolvam o gosto do pinhão catado no chão e comido à moda nativa: no sapêco. Nos meses de maio e junho, quando do sazonamento dos pinhões, era programa obrigatório dos garotos de minha infância saírem à cata dessas sementes nas matas que circundavam a cidade de Palmeira. Era diversão garantida andar pelas trilhas das florestas e procurar pelas tão saborosas sementes antes que, cotias, pacas, ouriços, camundongos e serelepes; e aves como papagaio-de-peito-roxo, gralha-picaça, airus, gralha azul, tucanos e insetos, os atacassem. As incursões bem sucedidas dependiam de timing apurado: nem antes que os pinhões caíssem naturalmente, nem depois que os predadores os atacassem.

No entender prático de nosso tempo e conhecimento, existem dois tipos de pinheiros quanto às suas pinhas e ao tempo de maturação delas. O primeiro, mais alto e esguio, tende a ter um perfil do tipo “taça de champanhe” e dá pinhas menores, com pinhões mais abundantes, formatos alongados e claros mesmo quando sazonados. O segundo tipo apresenta o perfil de guarda-chuva, mais baixo com tronco mais grosso, suas pinhas são maiores, sazonam mais tarde e os pinhões, maiores, menos abundantes, são mais escuros e mais deliciosos. Existe um terceiro perfil, o cônico ou tipo árvore de natal tradicional, mas este formato se refere a pinheiros novos ou espécimes anômalos que tenham nascido fora de seu ambiente natural, as florestas ombrófilas.

Pois bem, o ideal seria observar o timing exato e colher os pinhões ainda frescos no chão, só que isso era apenas teoria ou comportamento não observado, a vontade de comer as sementes o quanto antes ditava outras regras. O mais das vezes o que nós fazíamos, capitaneados pelo nosso tio Beto, era ir à colheita antes das pinhas debulharem seu conteúdo no solo, ou seja, quando as pinhas já maduras ainda não tinham se desfeito lá no alto dos galhos. Então, tio Beto cortava um bambu bem comprido, normalmente encontrado na chácara do seu Ângelo Nicolate, e o levávamos para cutucar as pinhas de modo a fazê-las soltarem os pinhões. Catadas as sementes, em geral fazíamos uma fogueira com as próprias agulhas da árvore, agulhas que chamávamos sapê, e jogávamos os pinhões no fogo de forma a assá-los a moda indígena chamada sapêco. Ficavam deliciosos.

Fora esse consumo in natura o ato da colheita, os pinhões eram levados para casa onde podiam ser cozidos com um pouco de sal ou assados na chapa do fogão a lenha e amassados com macete de madeira de forma a ficarem achatados e soltarem a casca, a esta modalidade chamávamos de bilé.

Pois bem, além do pinhão ser fonte importante de proteínas e carboidratos, ele proporcionava-nos a fantástica oportunidade de trilhar aquelas matas maravilhosas com imbuias e cedros centenários ornadas de orquídeas, especialmente a Lelia purpurata que, na época de floração, tingia com tonalidades arroxeadas a floresta. A experiência de incursões na floresta fresca mesmo no verão, perfumada por aromas sutis de plantas, musgos e flores; sonorizada por pios de pássaros os mais variados e assombrada por brisa que farfalhava as árvores dando-lhes movimento de vida perceptível, como se estivessem a falar umas com as outras, é algo inexplicável, algo que só é possível sentir, descrever não.

Mas, uma das vezes em que fomos com tio Beto e o bambu comprido, nos dirigimos a uma mata pequena bem próxima ao bairro onde morávamos, coisa de quarenta minutos a pé. Havia um aglomerado de pinheiros muito antigos, portanto, muito altos, nessa pequena floresta que, segundo nosso tio, pertencia a um conhecido dele, Kaminski, o qual dera permissão tácita para que tio Beto colhesse pinhões lá. Acompanhávamos nosso tio, o Joel, eu e o Jonas, irmão mais novo do Joel, devia ter uns quatro ou cinco anos. Pois estava o tio Beto trepado numa árvore, da qual podia cutucar as pinhas com mais facilidade com o bambu e nós apanhávamos os pinhões que caíam no chão, quando ouvimos gritos de alguém nos enxotando do lugar. “Saiam da minha propriedade, ladrões!” ou coisa que o valha. Assustados, nós os piás, corremos. Tio Beto, sobre a árvore, involuntariamente camuflado entre a ramagem, identificou que quem gritava era o Kaminski, e também gritou: “Kamisnki! Sou eu! Kaminski! Sou eu!”, e o Kaminski nem aí, munido com um facão, ameaçava com gestos. Corremos tanto que nossos calcanhares batiam nas nádegas e só paramos quando a distância ao polaco raivoso e seu ameaçador facão nos pareceu segura.

Serenados os ânimos depois do susto, Jonas tinha urinado nas calças, tio Beto, indignado, ainda reclamava do "amigo" não o ter reconhecido e feito aquele papelão, Joel e eu consideramos que foi o mico do ano e deixamos de comentar o acontecido. Mais tarde, ficou por conta do Jonas os comentários do evento que, segundo pareceu a ele, foi causado por um cachorro chamado Kaminski. Perguntado sobre o fato, respondia: O Kaminski mordeu o calcanhar do tio Beto. E ponto final, não havia mais o que falar. JAIR, Floripa, 27/01/11.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Pombos



Na minha infância eu era fascinado por pombos, não sei dizer por que, não sei se pelo fato das aves representarem a liberdade de voar para onde quisessem, se por causa da fidelidade que dedicavam ao local no qual viviam ou porque são facilmente adaptáveis à criação caseira. Em cidades do interior, principalmente no sul do país, ainda hoje é possível verificar a existência de pombais em residências com a única finalidade de alojar as aves, como se fossem albergues ou hotéis de estadia gratuita, e onde os casais podem se reproduzir a vontade. Aliás, quando morei no Rio de Janeiro observei que em bairros antigos e tradicionais como Bonsucesso e Ramos ainda existem pombais em algumas casas. No local em que eu trabalhava na Ilha do Governador os pombos haviam escolhido um hangar da FAB para viver e ali estabelecer uma colônia.
Segundo a Wikipédia, o pombo-comum, também conhecido como pombo-doméstico (Columba livia), é uma ave columbiforme bastante frequente em áreas urbanas. A plumagem é normalmente em tons de cinzento, mais claro nas asas que no peito e cabeça, com cauda riscada de negro e pescoço esverdeado. Caracterizam-se, em geral, pelos reflexos metálicos na plumagem, cabeça e pés pequenos, bicos com ceroma ou elevação na base e a ponta deste em forma de gancho. O bico é vermelho, curto e fino, com 3,8 cm de comprimento médio, foi criado por asiáticos desde a antiguidade mais remota - há imagens que o representam, na Mesopotâmia, datadas de 4.500 a.C. Alimenta-se de sementes, grãos e frutas e, nas cidades, do que estiver disponível nas ruas, incluindo resíduos.
A parceria homem-pombo se fez quando as aves viram a possibilidade de “almoço grátis” na relação. O Homo sapiens havia estabelecido as primeiras aldeias permanentes onde praticava atividades de pastor e agricultor, o que conferia à comunidade maior concentração de esforços na resolução de problemas e partilhamento imediato de inovações. Animais começaram a ser domesticados e os pombos tanto adotaram os homens quanto estes viam as aves como eventuais fontes de proteínas. Desde quando se sabe os aglomerados humanos convivem com pombos domésticos.
Então, nenhuma novidade que desse consórcio surgissem relações novas entre os convivas, as aves assumiram novas formas e passaram ter outras utilidades e os homens deram mais espaço em suas cidades para elas viverem, construíram pombais. Darwin, que além de cientista, gostava imensamente de pombos, os criava em sua casa conhecida como Down House, no condado de Kent, Inglaterra. Não só os criava como fazia experimentos de seleção artificial através de cruzamentos programados. Darwin chegou a classificar 120 “raças” diferentes de pombos domésticos oriundos, segundo ele, de uma única espécie selvagem, o Pombo-das-rochas, nome popular do Columba livia. Dentre as tantas estudadas pelo cientista, uma das mais estranhas é a do pombo-cambalhota, uma ave que faz piruetas enquanto voa. Fazendo comparação com uma aeronave, é como se esta voando reta e nivelada, de repente, fizesse um looping inesperado e prosseguisse o voo como nada tivesse acontecido. Pois é, o “cambalhota” procede assim por que tem uma deficiência genética no cérebro que o induz a um “espasmo” momentâneo, uma espécie de curto circuito em neurônios responsáveis pelo voo. Podemos comparar esse sintoma às manifestações daquela doença que nos humanos é conhecida como “dança de São Guido”, a qual faz o portador mostrar movimentos descoordenados e estranhos num breve instante, em seguida, seu comportamento volta ao normal.
Os pombos-correio são os representantes columbófilos talvez mais estudados em todo o mundo. Esses pombos, como os demais, são monógamos e extremamente apegados ao local onde vivem, o que os diferencia dos outros é sua capacidade de orientar-se de modo a voltar para casa, praticamente de qualquer lugar onde estejam. O homem, há centenas de anos, explora em seu benefício essa aptidão da ave. Hoje existem, em todos os continentes, centenas sociedades columbófilas que se dedicam a criação de pombos de raças, principalmente os pombos-correio. A ciência não se cansa de teorizar sobre como o os pombos-correio conseguem se orientar. Há uma teoria a qual afirma que eles possuem no lóbulo frontal do cérebro um nódulo que “lê” as linhas magnéticas da Terra; outra diz que os pombos têm uma espécie de GPS que se orienta pela posição em relação a um ponto inicial qualquer; e, ainda outra, conclui que a posição relativa do sol diz ao pombo o local exato em que ele está e, como sabe a posição onde vive, é só se dirigir para lá. Teoria à parte, os pombos-correio são navegadores extraordinários que fariam Colombo morrer de inveja.
De qualquer forma, minha afeição aos bichos se traduziu na confecção de um pombal no quintal de casa. Um palanque vertical de dois metros e meio fincado no meio do pátio, encimado por uma caixa cúbica coberta de material impermeável, com seis divisões à guisa de abrigos para ninhos. As aves, alimentadas com canjica, afeiçoam-se rapidamente ao local, fazem suas excursões, mas sempre voltam à base onde comem e dormem, são fiéis umas com as outras e às suas casas. Algum incremento nas vendas de sucatas me permitiram aumentar e variar o plantel inicial que era de apenas um casal que eu havia ganho de um criador que morava rua acima. Formou-se uma comunidade columbina, cujo número de aves era limitado pelo número de abrigos pra ninhos, parece que os “excedentes” mudavam-se para outras comunidades onde houvesse mais espaço, de modo a manter a população equilibrada.
Ainda que as populações urbanas de pombos, segundo alguns sanitaristas rancorosos, ameacem os humanos com o perigo da disseminação de doenças através de suas fezes, não há constatação que isso aconteça, não mais do que o perigo representado pelo lixo acumulado ou pelos ratos que infestam as grandes cidades. O fato é que os pombos urbanos estão perfeitamente adaptados a viverem em nossas cidades e o fazem a centenas anos. Roma, Paris, Londres, Rio de Janeiro, Buenos Aires, todas essas grandes cidades têm seus plantéis de columbiformes desde sempre incorporados as paisagens das ruas e devem continuar assim para deleite dos aposentados e viúvas que fazem deles seus bichos de estimação e lhes proporcionam alimentos em troca do prazer de vê-los esvoaçando sobre suas cabeças. JAIR, Floripa, 23/01/11.