
Em outros textos aludi às pescarias que costumava fazer na minha infância e adolescência, pescarias de lambaris nos riachos e regatos da periferia da cidade e de peixes maiores quando se tratava de rios caudalosos como Iguaçu e Tibagi. Nestes havia, além dos peixes mais comuns como carás, jundiás, cascudos e mandis, traíras que eram peixes mais “nobres”, por assim dizer. Traíras têm carne branca e, apesar de não serem peixes de grande valor comercial, seu filé é delicioso, e estão entre os mais saborosos, mas possuem muitos espinhos o que as torna quase impraticáveis de se serem degustadas.
Considerada pelos estudiosos e pelos pescadores, o peixe mais tipicamente tupiniquim, porquanto existe desde o Oiapoque até o Chuí, ou seja, habita todas as bacias hidrográficas do país; tem condições de viver em qualquer rio, riacho, represa, lagoa ou cursos d'água que existem no território nacional. Embora, como se sabe, apareça também nos países vizinhos como Argentina, Paraguai, Uruguai, Guiana, Bolívia e outros.
Não é peixe de piracema ou de águas agitadas, ao contrário, é territorial e prefere viver e se reproduzir em lagoas e ambientes de águas paradas mas, eventualmente, pode ser encontrado em rios com pouca correnteza onde costuma se alimentar de peixes menores. Seu hábitat por excelência são os meandros abandonados dos rios onde, eventualmente, durante as cheias, as águas do rio invadem trazendo grande quantidade de alevinos que lhe servem de alimento. É um predador voraz e seu método de ataque, fazendo uma analogia com mamíferos, é como o do tigre que fica de tocaia e ataca a vítima de repente, não como o leopardo que corre até alcançar a presa. Também, diferente da maioria dos peixes, a traíra é ovípara e se reproduz por desova parcial, ou seja, com várias posturas por ano, com produção alta de alevinos dos quais cuida com grande zelo ao mesmo tempo em que defende seu território com firmeza, ataca até peixes maiores quando está cuidando da prole. Pode ser pescada tanto com iscas naturais como artificiais, desde que estas sejam movimentadas na água a guisa de animal vivo se debatendo.
Por ser um animal extremamente primitivo, (uma espécie de celacanto da água doce) - calcula-se que exista há mais de duzentos milhões de anos, aliás, tenho um fóssil de 150 milhões de anos desse peixe, oriundo da serra do Araripe – tem aparência um pouco estranha e agressiva: Peixe de escamas; corpo cilíndrico; boca grande; dentes acúleos bastante afiados; olhos grandes; e nadadeiras arredondadas, exceto a dorsal. A cor é marrom esverdeada ou preta manchada de cinza. Chega a alcançar cerca de 60 cm de comprimento e até mais de 2kg. Para a ciência as traíras têm importância fundamental, pois além de conservar até hoje suas características primitivas, podem viver e se reproduzirem em ambientes muito poluídos, águas paradas com pouca oxigenação. Também gostam de aquecer-se ao sol em águas rasas, o que as torna alvo fácil de pescadores que usam arpões ou fisgas. Podem deslocar-se no seco, migrando de uma poça para outra e, até viver enterradas no barro na época da seca por meses, graças a uma reserva de água guardada no corpo.
Por sua aparência desagradável e agressiva, as traíras, o mais das vezes não são consideradas importantes ou úteis. Por possuírem dentes cortantes, pontiagudos e salientes, são acusadas indevidamente de destruir os cardumes de alevinos, o que não passa de falta de informação. Na realidade, como predadores do topo da cadeia alimentar, esses peixes melhoram a qualidade genética de suas presas, comem e exterminam os exemplares mais fracos e menos aptos, deixando que os melhores se reproduzam. Portanto, são necessários à evolução das espécies que a sábia natureza criou.
Lembro-me que pegar algumas traíras em nossas incursões pesqueiras, era proeza digna de festa, elas eram esquivas e nem um pouco abundantes naqueles rios do Paraná. Contudo, principalmente pelo fato de serem avis rara, sempre foram objeto de cobiça até dos mais canhestros pescadores, entre os quais me incluo. Peguei uma meia dúzia “no susto” em toda minha vida de pescador bisonho, não posso me gabar de ter sido um exterminador de traíras. Mesmo levando em conta as dificuldades de pescá-las, não era muito raro acontecer que pescadores como meu pai aparecerem com alguns bonitos espécimes depois de dois ou três dias de insistência na margem de algumas lagoas formadas pelo Iguaçu nas enchentes periódicas. Chegados em casa, os peixes deveriam ser deglutidos porque eram fonte de proteínas, mas, mais importante, porque eram deliciosos. A abundância de espinhos era o óbice para prepará-los, não havia como se livrar daquelas agulhas bifurcadas perigosas que podiam causar sérios danos à garganta do comensal incauto. Como preparar o peixe de modo a comê-lo sem muito perigo? Existiam alguns “macetes” como cortá-lo em fatias muito finas a moda de salame para fritá-lo em seguida, mas não havia uma maneira perfeitamente segura de prepará-lo, isso todo mundo sabia.

