sexta-feira, 21 de junho de 2013

Pedra de raio



Quando eu era criança no interior do Paraná, algumas vezes ouvi minha mãe contar que quando caía um raio este conduzia uma pedra no seu interior e que, às vezes, era possível encontrar alguma pedra dessas. Corroborando essa história, minha mãe afirmava que certa ocasião quando ela se encontrava na roça colhendo milho, viu e ouviu um desses raios em pleno céu límpido sem chuva. Dias depois em outro trecho do roçado ela deparou-se com a pedra que teria caído com aquele raio. Guardou a pedra – negra, ligeiramente assemelhada com um machado sem cabo, com arestas arredondadas - por muitos anos, mas esta se extraviou por ocasião de alguma mudança ainda no seu tempo de solteira e nunca mais a encontrou. Obviamente eu acreditava na minha mãe, mas tinha acentuada dúvida quanto à origem daquela “pedra de raio” que ela guardou como uma relíquia por muito tempo
Pois bem, hoje lendo um despretensioso livro “Ontem, o Universo” que trata das origens do universo, do sistema solar e da terra, me deparei com um trecho sobre meteoritos bem interessante, do qual transcrevo parte:
Em todos os tempos, os homens se impressionaram com a queda dos meteoritos. De fato, o espetáculo é grandioso: um rastro de luz atravessa a uma velocidade de dez a vinte quilômetros por segundo, acompanhado de um barulho de trovão prodigioso. Esse fenômenos, visíveis numa extensão de vários milhares de quilômetros quadrados, aterrorizavam as populações. Um acontecimento desses, evidentemente, não podia passar despercebido.
Na antiguidade, os homens conheciam a origem dessas pedras. Foram encontrados hieróglifos que uma delas era designada “pedra caída do céu”. Os egípcios, aliás, utilizavam alguns desses meteoritos que, as vezes, contém ferro em estado de metal quase puro. Encontraram-se armas e ferramentas forjadas com ferro proveniente desses meteoritos. Os gregos e os romanos também conheciam a origem extraterrena dessas pedras e, durante muito tempo, atribuíam um poder mágico a esses objetos. Em diversas civilizações alguns meteoritos eram até divinizados. É possível que famosa Pedra Negra de Meca, santuário do islamismo, seja um meteorito. Curiosamente, a atitude mudou na Idade Média, pois, se o mundo greco-romano nos deixou numerosos testemunhos de seu elevado nível cultural, a humanidade iria entrar, em seguida, em um longo período de obscurantismo.
Foi, então, preciso esperar até o século XIX para se verificar uma mudança de mentalidade: no dia 26 de abril de 1803, uma verdadeira chuva de pedras caiu nas cercanias de Aigle, França. Cerca de 3000 pedaços do meteorito foram encontrados sobre uma superfície de aproximadamente 50 quilômetros quadrados. E, desta vez, a Academia de Ciências enviou observadores que tiveram que se render às evidências: de fato, tudo aquilo tinha mesmo caído do céu!
A tradição popular ainda atribui um poder mágico a esses objetos. Em lugarejos do interior (Aqui lembro de minha mãe que vivia numa pequena localidade chamada Pinheiral de Baixo), são chamados “pedras de raio”. O que mostra simplesmente que sua queda se faz acompanhar de um clarão e um troar de trovão. Às vezes, são encontrados sobre esse nome objetos talhados pelo homem pré-histórico, e sua origem também era atribuída ao raio. “Seja como for, o camponês (minha mãe, novamente) que achasse tais objetos guardava-os como preciosidades, fixando-os na parte de cima da porta de entrada de sua habitação: a casa ficava, assim, protegida contra incêndios...”
À minha mãe, já falecida, peço perdão se em algum momento possa ter deixado de acreditar plenamente na origem da sua “pedra de raio” tão estimada e venerada. A crença dela estava em sintonia exata com o que a tradição popular de seu tempo entendia como verdade verdadeira. JAIR, Floripa, 23/04/2013. 

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Inteligência




Desde muito tempo os cientistas estiveram convencidos que inteligência e cérebro grande tinham relação biunívoca, isto é, um está intrinsecamente ligado ao outro. Se há cérebro grande existe inteligência, se há inteligência esta está relacionada ao tamanho de cérebro. Contudo, essa relação que a muitos parecia óbvia, estava eivada de preconceitos. Como eram europeus brancos que primeiro formularam a teoria, eles naturalmente se achavam mais inteligentes que outros – negros, asiáticos e não brancos de todos os matizes – então convencionaram que seus cérebros eram grandes e suas inteligências brilhantes. Eles tinham certeza que possuíam os maiores cérebros humanos e que as mulheres jamais seriam tão inteligentes quanto os homens porque seus cérebros eram menores. Santo preconceito!
O que a ciência acabou descobrindo efetivamente é que dentro de uma mesma espécie o tamanho cérebro tem pouca importância, porque a variação da inteligência de um indivíduo a outro é muito pequena. Já entre espécies, o tamanho do cérebro pode ser significativo apenas se for medido o peso do cérebro em relação ao corpo do animal, porque, uma parte enorme de qualquer cérebro é dedicada aos detalhes cotidianos da manutenção do corpo – coisas como contrair músculos, mover os intestinos, sentir sensações na pele, eriçar pelos. Amplie o animal e teremos mais território para administrar, mais músculos para acionar, mais pele para monitorar, necessitando, desse modo, mais matéria cinzenta para meramente funcionar. O fato que um veado tem cérebro maior que um rato não significa, necessariamente, que é mais inteligente, porque seu corpo pode pesar milhares de vezes mais, sendo, portanto, mais difícil de administrar.
Diz a ciência, subtraia as partes do cérebro relativas à manutenção do portador e o que resta é a única coisa que interessa, porque os neurônios “extras” podem integrar informações do mundo exterior em abstrações – capacidade que pode ser, grosso modo, uma definição de inteligência. A partir dessa premissa, fez-se um estudo completo do peso cerebral relativo dos vertebrados e descobriu-se que peixes, anfíbios e répteis formavam uma linha crescente num gráfico, mas que aves e os mamíferos formavam uma linha bem mais elevada. Para aqueles que costumam dizer que galinhas não são inteligentes foi um balde de água fria - talvez as galinhas sejam tão inteligentes que se neguem a demonstrar isso. Em outras palavras, um mamífero pode pesar o mesmo que um réptil, mas tem um cérebro dez vezes maior.
O tamanho relativo do cérebro é um indicador seguro do grau de inteligência entre as espécies, mas para definir com certa precisão a diferença entre os mamíferos é necessário apurar melhor essa medição. A ciência reuniu dados suficientes para estabelecer qual o tamanho ideal do cérebro para certa massa corporal. Ou seja, qual o peso médio “devia” ter um cérebro de um mamífero de determinado peso. Então todo peso cerebral que excedesse o peso médio de um animal era fatorado em que porcentagem encontrava-se acima ou abaixo, e a este índice deu-se o nome de QE (quociente de encefalização). Se um animal apresentar um QE de 1, por exemplo, significa que ele tem todo aparato intelectual para levar uma vida padrão de mamífero. Se o QE for maior que 1, ele dispõe de neurônios “livres” para ser “criativo”, se e quando este termo se aplicar àquele mamífero. Não é preciso dizer que o QE humano é de 7,06, índice muitos pontos acima do mamífero em segundo lugar - surpreendentemente o boto tucuxi com QE de 4,56. Quem diria, aquele animal que, segundo uma lenda amazonense, sai da água e engravida moças ribeirinhas é um carinha prá lá de inteligente!
Mas alguns pesquisadores assinalaram que simplesmente ter um conjunto de neurônios “sobrando” não produz automaticamente inteligência. As interações do animal com seu ambiente social são tão importantes quanto um QE alto. Assim, um animal que tenha que correr todos os dias atrás de sua caça tende a ser mais inteligente que aquele animal que simplesmente espera que o alimento chegue até ele. Um sapo contemplativo que espera a mosca entrar no raio de ação de sua pegajosa língua, por certo deverá ser menos inteligente que a lagartixa que embosca insetos na parede.
Contudo devemos lembrar um importante pormenor, os parâmetros que medem a inteligência são todos humanos, ninguém parece lembrar que a “inteligência” de outros animais pode obedecer a outros critérios que nem sequer imaginamos. Então, qualquer número inteligencial que possa surgir desses raciocínios humanos pode não ter qualquer validade quando se mede a inteligência de uma formiga, por exemplo. Já que formigas podem obedecer a medidas diferentes, a escalas métricas dos Himenópteros (olhaí meus estudos de entomologia entrando em ação). Para que as cogitações humanas possam ter verossimilhança, necessário é que o homem deixe de se julgar o centro do universo e admita que cada um no seu quadrado. Ou cada bicho com seu parâmetro. JAIR, Floripa, 22/04/2013

terça-feira, 4 de junho de 2013

Eu vi



Lembro que mais do que realmente ver, eu sentia os eventos, era como um filme em 3D estivesse sendo projetado diretamente no meu cérebro. Era a História do Universo que se desenrolava ao alcance, se não dos meus olhos, pelo menos da minha mente ou de algum outro sentido que não sei definir. Era a história da matéria que despertava à minha frente quase ao alcance da mão. O Universo nascia num meio onde nada havia, um zero absoluto cercado de vazio. No início surgiram as partículas simples, sem estrutura. Como bolas de bilhar num movimento browniano, elas se contentavam em se deslocar e entrechocar-se. Depois, nas etapas seguintes, essas partículas se combinam e se associam. Começam a surgir as arquiteturas do que viria a ser matéria mais complexa e, talvez, atuante em algum sentido.
Sentia-me como sentado num gramado macio a beira de um bosque, olhando para o céu. Em meu campo de visão as árvores balançam ao sabor do vendo como a embalar seus frutos como filhos que se embalam para dormir. Eu escutava o tempo que, em absoluto silêncio, realizava sua grandiosa obra, transcendentalizava. Essa escuta aplicava-se ao todo, ao Universo. Pois é no fio do silencioso tempo que se desenrola a gestação cósmica. A cada fração o Universo se revela mais e mais complexo, as suas fímbrias, lentamente, perdem-se alhures, não há horizontes. Como espectador deste desenrolar dos acontecimentos primevos e primordiais, eu sabia que minha missão era testemunhar o aparecimento de novos elementos cósmicos e novos seres ao cabo.
Então aplaudi o nascimento dos primeiros átomos. Deixando os braseiros estelares, os núcleos recém nascidos “vestem-se” de elétrons e formam os primeiros átomos. Assim começa a evolução química. Os átomos se aliam em moléculas e poeiras interestelares, e essas poeiras, reunidas em torno de estrelas em formação dão origem aos planetas. Alguns desses planetas em convoluções adquirem mares e atmosfera; ali a evolução química, catalisada por essas novas condições, se acelera, criando moléculas que flutuam numa sopa primordial. De química a evolução torna-se biológica e produz células e seres vivos. Eu vi. 
Em alguns momentos me senti inquieto, havia crises e distorções nesta suposta ascensão. Não percebia eu que o Cosmo, como ser vivo que é, se contorce, se expande, se contrai e se acalma em vários movimentos quase sempre inexplicáveis. Em certos momentos especialmente instáveis, parecia que tudo era um grande engano e o frágil equilíbrio que existia implodiria em caos irremediável. Mas o Universo, apesar de hesitar e recuar algumas vezes, se reinventava e continuava seguindo adiante.
Eu me perguntava: onde nos levará esse caminho? Hoje a física nuclear nos permite conhecer a evolução nuclear. Ela nos explica como, a partir daquelas partículas nucleares que as vi nascerem, milionésimos de segundo após o que se convencionou chamar de Big bang, se formaram os primeiros núcleos atômicos no ventre incandescente das estrelas. Lançados como projéteis para o espaço pejado de partículas primordiais, os núcleos revestiram-se de elétrons. Atualmente a radioastronomia e exobiologia molecular nos permitem reconstruir as grande fases da evolução química das estrelas e o surgimento dos planetas primitivos. E, finalmente, seguindo as revelações de Darwin, somos capazes de percebermos, erguendo-se a nossa frente, a grande árvore da vida: a evolução biológica que nos leva à inteligência humana que permite deslindar esses mistérios da natureza.
Enquanto eu assistia esse drama como em uma tela panorâmica com imagens em 3D, me assaltava a pergunta: esse caminho rumo à extrema complexidade termina no homem? Santa ingenuidade. De sã consciência não há como afirmá-lo, não nos é permitido achar-nos o ápice da criação. O coração do Universo continua a bater no mesmo ritmo. A força inicial continua com impulso rumo ao vir a ser. O sentido inicial é o mesmo e o nível da complexidade não é possível de ser avaliado. É até viável que em outros planetas se tenham processado avanços muito maiores, e que em outros mais, o impulso vital só agora se faça sentir. Não nos é lídimo assegurar que somos únicos, como que privilegiados por uma natureza tão pródiga em outros misteres. Como em “2001 uma odisséia no espaço”, que futuro desconhecido a gestação cósmica prepara para nós? Que somos oriundos de primatas sabemos, mas o que nascerá do homem? JAIR, Floripa, 16/04/2013. 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Grécia


Acrópole
Vulcão em Santorini 1950.

É meu costume tecer algumas impressões sobre as terras e povos que conheço em minhas viagens. Acabo de escrever sobre o Havaí e agora que estou em Santorini depois de passar por Atenas, impõe-se um registro em forma de pinceladas sobre esta que foi a pátria dos grandes filósofos que influenciam a cultura ocidental até hoje.
Tenho um conhecido grego muito especial que casou com uma amiga nossa – infelizmente falecida a poucos meses – o qual não estou visitando nesta viagem, mas que já esteve em minha casa no Brasil algumas vezes. Pois bem, esse grego, Panaiotis Dotsikas, médico cirurgião plástico, fala bem o português de modo que podemos desenvolver altos papos sem perda de qualidade de informações. Em certa ocasião, observei que o grande passado digamos, “civilizatório“ grego, devia ter algum peso no sentimento do homem helênico comum nos tempos atuais. Ele, o Panaiotis, concordou comigo e afirmou que esse alentado passado filosófico é tão significativo que, ao ser lembrado, coisa que acontece sempre, é sentido como uma pirâmide invertida sobre a cabeça dos gregos atuais. O passado deste povo é maior que o presente, seu peso é muito difícil de carregar em vista da vida comum, e porque não dizer medíocre, que os gregos vivem hoje. Ainda mais agora, aderidos a CEE, onde parceiros mais abastados dão as cartas no jogo e países como Espanha, Portugal e Grécia, o mais das vezes concordam de cabeça baixa, submissos.
Outro dia acabei de ler um interessante livro sobre a crise econômica mundial que assola especialmente a Europa e os EUA. No que se refere à Grécia o autor destacou que a insolvência do Estado está ligada à baixa arrecadação de taxas e impostos que incidem sobre grandes investidores, profissionais liberais e pessoas abastadas. Claro que para nós brasileiros não é tanta novidade observar que quem tem mais poder aquisitivo em geral paga menos impostos, mas parece que aqui na terra onde nasceram as Olimpíadas, não há necessidade de grandes obras públicas e eventos patrocinados pelo Estado para que os mais ricos se valham com mais assiduidade da “Lei de Gérson”. Contrário ao Patropi, onde a Receita Federal está sempre atenta às declarações e, às vezes, até mesmo às ostentações, na Grécia o rico, o especulador e o profissional liberal infrator podem ficar tranquilos, quem está no poder está tão atolado em sonegação que não toma qualquer atitude para não entornar o caldo. Mas os pobres e assalariados se parecem muito com nós brasileiros, continuam pagando a conta maior dos impostos. A Grécia é um Brasil dois ponto zero europeu quando se trata de impostos, não deverá sair do atoleiro sem um vassourada firme em forma de auditoria séria nas suas contas.
Então esse é o país arquipélago composto de centenas de ilhas onde se encontra Santorini, ilha que estou hospedado há alguns dias. Santorini, para quem é fascinado por geologia como eu, é um prato cheio. A ilha principal que tem forma de um “C” invertido com três outras ilhas menores no seu interior, foi formada por vulcões a partir de 600 mil anos atrás. Pela Wikipédia fico sabendo que Santorini é o vulcão mais ativo do denominado Arco Egeu, sendo constituída por uma grande caldeira submersa, rodeada pelos restos dos seus flancos. Esta forma atual da ilha deve-se, em grande parte, à violentíssima erupção que há aproximadamente 3.500 anos atrás explodiu mais de oitenta por cento do território da ilha. A erupção, citada pelos geólogos como a mais violenta dos tempos históricos, algo equivalente a um milhão de bombas atômicas de Hiroshima, criou a atual caldeira e produziu depósitos de cinzas, lavas e pedras com algumas centenas de metros de espessura que recobriram tudo o que restou da ilha e ainda atingiram grandes áreas do Egeu e dos territórios vizinhos. As camadas geológicas alternadas são perfeitamente visíveis nas encostas desmoronadas da ilha. Há indicações seguras que a erupção parece estar ligada ao colapso da fabulosa Civilização Minóica na ilha de Creta, distante de Santorini 110 km ao sul. Fora isso, há 63 anos atrás aconteceu a última erupção numa ilha que posso ver da minha janela a poucas centenas de metros. O que resultou de bom de toda essa atividade sismológica é que as terras vulcânicas de Santorini são extremamente férteis, aqui todo mundo planta uvas e produz vinho de excelente qualidade. As frutas e legumes produzidos pelos ilhéus - eles fazem questão de dizer - são vendidos em todos os supermercados e mercadinhos da ilha e nada devem em qualidade às melhores produções de qualquer parte do Planeta. Não tenho dúvidas que eles estão certos, comi as frutas locais e as considerei excelentes.
Feitas as contas, guardando respeito pelo passado esmagadoramente influente, a situação da Grécia atual está amparada na excelência do turismo que aproveita o potencial de seu arquipélago privilegiado de belezas naturais.  Independente de modismo, vale muito à pena visitar as ruínas do império na capital Atenas onde se pode ver a excelência das engenharias helênica e romana que construíram monumentos de tal ordem de grandeza e complexidade que é difícil imaginar como o fizeram há mais de dois mil anos atrás. Quando visitei a Acrópole vi o local tal uma praça denominado “Perypatus” e quase consegui enxergar Aristóteles andando, seguido de seus pupilos, versando pausadamente sobre botânica, biologia, lógica, música, matemática, astronomia, medicina, cosmologia, física, história da filosofia, metafísica, psicologia, ética, teologia, retórica, história política, do governo e da teoria política, retórica e as artes. Tudo que acabou sendo incorporado à nossa cultura ocidental e deu feição ao que hoje somos. Ευχαριστώ Ελλάδα! Obrigado Grécia! JAIR, Santorini, 19/05/13.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Interações





Nas minhas observações, por assim dizer, antropológicas das pessoas que me cercam, sempre olhei com bons olhos as “miscigenações”. Me deleito ao ver casais “mistos” em que um dos cônjuges ou um dos companheiros é diferente do outro, seja na cor, seja na etnia ou seja na nação de origem. Me amarro quando observo uma pessoa de cor negra junto a outra de pele branca, ou um aparente indígena com seu companheiro de características físicas distintas ou de cultura outra que não a sua. O mesmo vale para orientais e companheiros não orientais. Parece que casais mistos me fazem acreditar que a humanidade tem jeito, isto é, se pessoas de origens diferentes se unem e geram prole, estaremos mais próximos de abolir para sempre os preconceitos que criam desavenças culturais e guerras. Sonho que um dia a amálgama de todos com todos conduzirá a uma civilização solidária onde rusgas e desentendimentos raciais, religiosos, sociais, políticos, civilizatórios, culturais e entre nações serão coisa do passado.
Hoje participei aqui no Havaí do casamento de meu filho mais novo, Adriano. Ele casou com uma canadense. Falando assim nada de muito inusitado ou estranho, mas se levarmos em conta que ele mora na Austrália, ela no Canadá e casaram no estado norte americano mais longe do território continental daquela país, já começa a ficar interessante essa união.
Então vamos entender um pouco da cerimônia e suas interações culturais. A canadense Megan é filha de descendentes russos que vieram para o Canadá há quase 120 anos, mas conservam costumes de sua ancestral comunidade doukhobor. Os doukhobors são uma seita de cristãos russos que imigraram para o Canadá no fim do século 19 por terem sido perseguidos pelos imperadores russos que os queriam obrigar a servir nas forças armadas, atividade contrária ao seu pacifismo. Eles se instalaram no sudeste da Columbia Britânica, Alberta e Saskatchewan.
Entre os 41 convidados da festa havia uns vinte russos/canadenses, três ou quatro russos, uma ucraniana, cinco ou seis australianos, alguns norte americanos e quatro brasileiros, minha mulher, eu e os dois filhos, sendo que o nubente é cidadão australiano e o outro cidadão americano. Pois bem, por essa mixórdia já dá para perceber que existia certa amálgama de pessoas de origens diferentes. Falta dizer apenas que o pastor que realizou a cerimônia era havaiano nativo.
Para ilustrar bem como foi esse intercâmbio vale dizer que a cerimônia  foi realizada no idioma havaiano pelo pastor, em russo e inglês pelos parentes russos e canadenses e em português por mim e minha mulher. E um pouco de espanhol permeou as conversas de nós (minha mulher e eu) brasileiros com uns norte americanos que arranhavam o idioma de Cervantes. O francês de alguns canadenses francófilos também pontuou um pouquinho e o ucraniano da moça que o falava ficou dormente. O ritual em si foi um misto de casamento cristão, russo doukhoboriano e havaiano. As pessoas que lá se encontravam tinham olhos claros, exceto minha família e o oficiante havaiano. Vale contar que o pastor Lino, tem um antecedente longínquo português de sobrenome Lopes, o que nos fez quase aparentados e criou um clima de cordialidade cúmplice entre nós os brazucas e ele.
Essa união também torna-se interessante porque os doukhobors, por serem pacifistas extremados, escrutinaram o comportamento e a origem de meu filho para ter certeza que não estavam introduzindo um potencial cavalo de Tróia belicista ou adepto de armas e violência em sua comunidade. Os pais da Megan, Marilyn e Paul, estiveram até na Austrália conferindo in loco a vida do nosso filho. Para felicidade dos apaixonados Adriano e Megan nada desabonável foi encontrado em sua pacata vidinha de mineiro australiano. Aloha! JAIR, Mauí, 11/05/2013.