terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Sobre emoções

Para falar de emoções quero usar como gancho o trecho abaixo publicado no blogue http://seteramos.blogspot.com de autoria de meu amigo Barcellos: “Homens são lógicos e racionais. Mulheres são emotivas e passionais. É claro que esta visão é extremista e polarizada demais. A maioria de nós - homens e mulheres - se situa em algum ponto intermediário entre esses dois extremos. E deslizamos para um lado ou para outro conforme as circunstâncias, sobre as quais raramente temos um controle efetivo”.
Na verdade, emoções nos são tão necessárias como comer ou dormir, nossa saúde mental depende delas. Há que se levar em conta que no curso da evolução humana a emoção do medo, por exemplo, foi fundamental para a sobrevivência, o homem que temia perigos insuperáveis como enfrentar um animal mais forte, rápido e bem armado de garras, era o que sobrevivia e deixava descendentes. Os homens por demais imprudentes que se colocaram a mercê de eventos perigosos que lhes tiraram a vida, dificilmente tiveram oportunidade de passar seus genes adiante. Embora se possa dizer que esses arrojados foram mais felizes em conseguir comida, também foram os primeiros a serem devorados pelas feras. Somos herdeiros de homens comedidos e racionais, mas que colocaram a emoção medo a serviço da perpetuação da espécie.
Os autores Sandra Aamodt e Sam Wang, do livro “Seja bem-vindo ao seu cérebro”, dizem que “a maioria das pessoas acha que emoções prejudicam a capacidade de fazer opções sensatas – mas isso não é verdade”. Afirmam, baseados em estudos do cérebro em condições monitoradas, que as emoções surgem em resposta a eventos que impressionam a mente e mantém o cérebro concentrado no que for importante para reagir, desde ameaça à integridade física até oportunidades sociais. As emoções nos forçam a moldar nosso comportamento aos fatos de modo a obtermos maximização de resultados, seja para nos defendermos ou para aproveitarmos uma oportunidade adequada.
E aqui fica uma observação do que ocorre com a tão comentada racionalidade que, aparentemente, deveria comandar nossas ações mais eficientes. Na vida real, geralmente não podemos emitir julgamentos acertados com base apenas na lógica, pois, o mais das vezes não dispomos de todos os dados da equação para decidirmos a melhor maneira de fazer ou de se comportar. Assim, seria favas contadas mudar de profissão, por exemplo, se soubéssemos que no futuro nossa decisão nos traria aquilo que desejamos em matéria de salário e satisfação pessoal. Num caso de perigo funciona assim: corra para se salvar, mesmo que depois descubra que a “ameaça” era apenas um galho com aparência estranha. Pois, na maioria dos casos, só podemos contar com nossa intuição e não com dados concretos e confiáveis, o galho era um bicho terrível, lembra?
De certa maneira, podemos recordar de nossa última viagem ao exterior muito melhor do que comemos no desjejum de hoje, a menos que nossa primeira refeição tenha sido algo inusitado como lagosta acompanhada de caviar beluga, ou tenhamos comido gafanhotos assados, por exemplo. Emoções fortes tendem a marcar nossa memória de maneira acentuada. As emoções salientam o efeito da experiência e fazem com que os fatos sejam consolidados na memória. A excitação mental que a emoção causa pode “marcar” áreas cerebrais de modo a formar armazenamento de longo prazo de detalhes importantes de um evento especialmente emotivo, em detrimento de detalhes periféricos não ligados ao caso.
Particularmente, não sou bom contador de piadas, me falta aquele “time” que torna o desfecho da anedota risível ou gargalhativo. Mas, consigo lembrar de muitas piadas – muitas centenas talvez – com o exato contexto em que foram contadas e quem as contou. Lembro até piadas que ouvi quando era criança de dez ou onze anos, e “vejo” na minha memória o momento e local que gargalhei ou ri de um bom desfecho. Por que essas lembranças tão vívidas? Emoção. Embora o humor não seja algo que se defina com facilidade, é fácil reconhecer situações risíveis, ou seja, se é engraçado para nós, rimos e pronto, não há uma chave de liga e desliga do humor, ele se impõe por si só.
Através do humor as pessoas se sentem bem, parece que ativa áreas de recompensa no cérebro que reagem a outros tipos de prazer como comer ou fazer sexo. Na verdade a gargalhada pode ser uma antiga reação dos hominídeos para indicar que aquilo que aparentava perigo era inócuo, então a gargalhada representava o prazer de estar vivo e saudável.
Portanto, as recompensas (emoções) do humor não são apenas de bem estar consigo mesmo. Quem faz os outros rirem está contribuindo para interação social e permitindo àqueles que riem desestressem. Portanto se nos divertimos com coisas que outros não acham engraçadas, provavelmente viveremos mais e melhor que os ranzinzas e resmungões. Então, quaisquer que sejam as emoções, elas sempre estarão contribuído para nossa qualidade de vida. JAIR, Floripa, 07/01/12
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sábado, 14 de janeiro de 2012

Ferrugem


Ferrugem, como sabemos, é o nome que se dá à oxidação do ferro e suas ligas, com honrosa exceção do aço inoxidável que, como o nome diz, não oxida, não enferruja. Assim, um dos maiores problemas da civilização é a oxidação, navios, edifícios, pontes, automóveis e a maioria dos artefatos de metal estão sujeitos a essa ação do elemento oxigênio que degrada os elementos com os quais se combina, abreviando a vida útil dos objetos e exigindo grandes investimentos para mantê-los “saudáveis” e funcionais.
Não cabe aqui explicar como o oxigênio age de modo a baixar o nível de energia dos elementos até torná-los novamente iguais ou próximos do minério que lhes deu origem – óxido de ferro, por exemplo. Cabe apenas lembrar que desde que o homem começou a construir objetos de metal, passou a lutar contra a ação do oxigênio, principalmente a degradante ferrugem. Somas enormes de recursos e horas e trabalho são empregadas todos os dias contra essa ação deletéria do O².
Tão importante é a prevenção contra a oxidação que corrói, que ao lançar ao mar um navio ou inaugurar uma ponte de ferro, se faz necessário um plano de prevenção imediatamente após a entrada em serviço de uma obra dessas. Não há caminho fácil para manter nossa civilização nos trilhos (alusão às locomotivas) se queremos continuar construindo à base de metais, em especial com ferro: produtos antioxidação são desenvolvidos e empregados cada vez mais, numa busca tanto insana quanto inútil de conter a ferrugem. De nada adianta: ferrugem não é acidente, é destino.
A ponte Hercílio Luz está localizada na ilha de Santa Catarina onde se encontra a capital do estado, Florianópolis. Foi construída para ligar o continente à ilha no local mais estreito entre uma e outro, local que foi apropriadamente chamado de estreito e acabou dando nome a um bairro continental onde hoje moro.
Essa é uma das grandes pontes pênseis do mundo e a maior do Brasil e é totalmente de aço (liga de ferro). Sua construção iniciou em 1922 e foi inaugurada a 13 de maio de 1926. O comprimento total é pouco mais e oitocentos metros, a estrutura tem o peso aproximado de cinco mil toneladas e o vão central tem 43 metros de altura. Todo o aço utilizado veio dos EUA, assim como a maioria dos técnicos e engenheiros. Lembremos que pontes pênseis chamam-se assim porque têm seu vão central suspenso por tirantes que se apóiam num cabo de amarração ancorado nas cabeceiras terrestres e que passam sobre dois pilares que sustentam todo o peso da estrutura. Há outras soluções de engenharia para pontes pênseis de concreto (vide ponte JK de Brasília), mas a ponte Hercílio Luz é do modelo clássico.
Pois bem, desde o momento que foi projetada, a construção dessa ponte que ainda é o cartão postal de Floripa, teve seus fundamentos eivados de lances obscuros e mal explicados que encheram o bolso daqueles áulicos que cercavam o governador que deu início às obras e acabou dando nome à ponte: Hercílio Luz. Quando se terminou de construir a primeira sapata de concreto o dinheiro acabou. Se os leitores estão acostumados ver denúncias de superfaturamentos na ordem 2, 3, 5 e até 10 vezes o custo inicial, pasmem: O custo inicial foi multiplicado por 700 no fim da obra. Considerando que naquela época não havia inflação, com o dinheiro gasto em UMA ponte daria para construir SETECENTAS pontes, ou uma ponte de 560 quilômetros. Por ter falecido em 1924 esse governador acabou não vendo sua obra acabada, mas, consta que seus herdeiros não se tornaram mais pobres com a construção da ponte.
Considerando uma obra que já nasceu viciada de corrupção e custos fora do orçamento, não é de estranhar que também não houvesse um plano de manutenção. Desde sua inauguração, embora sendo crucial para ligar a parte continental da capital à parte ilhoa, sua “manutenção” se resumia a uma pinturinha ridícula de tempos em tempos, pinturinha que mais escondia a ferrugem do que trazia qualquer benefício. Os custos dessa pinturinha, porém, sempre foram avultados. Pois, ia a Hercílio Luz capengando para levar gente lá da ilha para cá e vice versa, já existindo duas outras ligações de concreto, quando em 1981 descobriu-se que um dos elos do conjunto de amarração estava rachado. Resultado, a ponte foi interditada e entrou num sério regime de manutenção.
Então, por trinta anos, a ponte recebeu tratamento de obra doente e uma empresa ligada a gente do poder aqui em SC fazia esse tratamento. Foram gastos mais de 300 milhões de reais neste período. Agora, em 2011, “descobriu-se” que ela precisa de manutenção, está oxidada, a ferrugem corroeu algumas de suas partes estruturais de forma que se não houver substituição dessas partes ela ruirá. Recapitulemos: foram trinta anos de manutenção ao custo de 300 milhões de reais e agora se descobre que a ponte está podre, que a corrosão comprometeu sua estrutura e ela precisa de uma intervenção séria. TREZENTROS MILHÕES E TRINTA ANOS, dá para acreditar?
Pois é, caros leitores, esse monumento à ferrugem que se chama Hercílio Luz, que já foi cantada em redondilhas, hoje é apenas uma conta para pagar, o orçamento inicial para seu reparo é de 160 milhões de reais, já foram gastos mais de cem e não se pode dizer que alguma coisa foi feita, a não ser uns supostos pilares que devem sustentar o vão central para troca das “correntes” de amarração.
Aquela ferrugem, que definimos no início como a oxidação do elemento ferro e suas ligas, venceu novamente. Uma das estacas colocadas no mar para sustentar a ponte durante a fase de restauração sumiu. Técnicos do consórcio responsável pela obra investigam as causas do incidente. A estrutura estava cravada a 30 metros de profundidade, sete deles dentro de uma rocha. A estaca que cedeu faz parte de um conjunto que terá 16 pilares. As quatro bases que deverão sustentar as torres metálicas, nas quais a ponte ficará apoiada para troca de sequências de olhais condenados. Olhais que compõem 300 barras flexíveis, como elos de uma corrente de moto, que forma a corrente de amarração da estrutura. O pior é que ninguém sabe o que pode ter acontecido com ela a estaca, talvez uma marola mais irada a tenha quebrado e afundado. Como não devemos ter esperança que algum dia venhamos a cruzar aquele trecho de mar sobre a ponte pênsil, não há o que reclamar. Viva a ferrugem! JAIR, Floripa, 12/01/12.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Filme: O ovo da serpente




Bem, porque o filme me impressionou demais, me fez refletir sobre a intolerância e o preconceito humanos, quero registrar o que penso a respeito dessa obra de Ingmar Bergman filmada na Alemanha em 1977, e tendo David Carradine e Liv Ullmann como protagonistas. Bergman havia saído meio que em fuga da Suécia, em virtude de estar em desacordo com o fisco, e foi morar em Berlim ocidental onde rodou a película. O produtor é Dino de Laurentis, Carradine faz o papel de Abel Rosenberg e Liv de Manuela Rosenberg, sua cunhada, ambos com atuações impecáveis.
Abel é um judeu americano, trapezista desempregado e alcoólatra, que ficou sabendo que seu irmão acaba de se matar. Manuela, que fora casada com o irmão dele, (daí o sobrenome Rosenberg) convida Abel para morar com ela já que ele está meio desarvorado.
A história se passa em 1923, época em que o povo da Alemanha está lambendo as feridas da guerra perdida; as voltas com a hiperinflação aviltante que lhe corrói o poder aquisitivo em questão de horas; e no meio de uma indefinição ideológica que coloca direita e esquerda em conflitos armados nas ruas de Munique e outras grandes cidades. A República Weimar, recém inaugurada depois da guerra, é olhada por ambos os lados do espectro político como uma instituição vacilante e fraca, resultado de acordos espúrios entre os aliados que ganharam a guerra e a nobreza alemã que a perdeu, mas que não deseja entregar o osso, digo, o poder ao povo. Nesse caldo de cultura explosivo nascerá o Nacional Socialismo e Hitler, e o filme se antecipa a essas tragédias anunciadas mostrando uma sociedade “pronta” para absorver qualquer ideologia espúria que lhe venda um futuro, mesmo em troca de sua alma.
O angustiado Abel e sua cunhada se veem compelidos a trabalhar numa clínica clandestina que realiza experiências em seres humanos, embora isso eles não saibam. A clínica centenária “Clínica Santa Ana” é apenas um disfarce para experimentos terríveis com pessoas comuns, os cientistas que ali trabalham veem pessoas como meras cobaias que podem ser usadas para qualquer fim, sob quaisquer condições, a maioria das experiências termina em morte. O irmão de Abel - mais tarde ele veio saber - matou-se nessa instituição.
Acho que Bergman, na sua forma genial de dar recados, aponta o dedo acusatório para a sociedade alemã - ao invés de apenas para o Nazismo, Hitler e seus sanguinários acólitos – pela eclosão da guerra e pelo holocausto que a acompanhou. A alusão ao ovo da serpente é porque este permite que, através da translucidez de sua casca, pode ser visto o filhote que um dia eclodirá em forma de réptil peçonhento e maligno. A sociedade alemã dava toda indicação que buscava uma ideologia e um líder drásticos que a conduzisse ao inferno, se essa fosse a condição para sair do atoleiro de recessão e indefinição republicana que a deixara com o pincel na mão depois de lhe tirar a escada.
Por último, o filme se presta para uma reflexão sobre o momentum político que os aliados criaram ao tirar da Alemanha qualquer chance de se reerguer após a guerra de 1914-1918. E aqui cabe uma porção de “ses”: Se os aliados tivessem tratado a Alemanha com indulgência; se o ocidente interferisse na reestruturação alemã após a guerra; se o mundo tivesse enxergado o potencial sinistro daquela sociedade desenvolvida, culta, mas racista até a medula. A respeito desse último “se”, existe um livro, “Os carrascos voluntários de Hitler” que dá a medida que a sociedade alemã estava envolvida no extermínio de judeus. Nesta obra polêmica, o cientista político Daniel Goldhagen procura demonstrar que o Genocídio não foi um espetáculo de horror, organizado e perpetrado por nazistas insanos, ao qual os alemães teriam sido obrigados a assistir, mas, na verdade, foi o resultado de anseios amplamente compartilhados pela maioria do povo alemão durante a primeira metade do século. Segundo Goldhagen, o alemão médio não politizado até aplaudiu quando da instituição de medidas de genocídio do povo judeu. Parece que Bergman tinha a mesma opinião do escritor e conseguiu transmiti-la de maneira sutil através de “O ovo...”. E o apavorante dessa constatação é que fica implícito que Hitler e o Nazismo apenas tinham uma “antena” sensível para captar a vontade do povo alemão e levá-la até as últimas consequências, para horror daquela parte da humanidade menos afinada com a intolerância. JAIR, Floripa, 09/01/12.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Sobre gêneros

“Homens são de Marte, mulheres são de Vênus”, livro que pretende colocar homens e mulheres em campos opostos, é apenas um dos títulos a disposição do público que enfatiza a diferença de gêneros entre humanos. Para sermos politicamente corretos devemos considerar homens e mulheres iguais então? Nem pensar! O mundo está repleto de homens afetuosos e românticos (Vênus) e de mulheres agressivas (Marte) mas, no que toca a inteligência, não há qualquer diferença entre os gêneros. É claro que existem diferenças biológicas bem acentuadas entre homens e mulheres, por exemplo: os hormônios influenciam diferentes partes cerebrais de modo que o hormônio masculino (testosterona) e o feminino (estrogênio) atuam nos cérebros dos bebês em formação e também nos adultos. Daí, o formato dos cérebros de mulheres e homens diferirem em consequência desse “tratamento” hormonal diferenciado, embora as diferenças sejam só observáveis por cientistas treinados. O cérebro feminino apresenta maior número de conexões, enquanto o masculino é ligeiramente maior.
Considerando as diferenças de formato não é de se estranhar que os comportamentos difiram também. Contudo, a maioria das diferenças é cultural, instituída pela sociedade. Existe uma sociedade no Laos na qual a família escolhe um dos meninos para ser criado como menina. A ele é dado tratamento como se menina fosse; desde o berço até a adolescência suas roupas, preocupações, gestual e atividades são escolhidas de forma que se torne uma menina de direito, embora seu aparelhamento genético desminta esse gênero, ou seja, são meninos de facto. A esses meninos escolhidos é permitido somente frequentar classes de aula de garotas e até banheiros femininos. Como a sociedade na qual vivem não discrimina esses meninos-meninas, eles se sentem bem confortáveis, e não abdicam de sua “feminilidade” adquirida mesmo depois de adultos e conscientes de que foram obrigados a assumir aquela identidade. Consta que a porcentagem de homossexuais entre eles é a mesma que entre a população de homens “normais”, ou seja, de homens que foram criados como tal.
Como costumamos dizer, nossa sociedade é machista e, desse modo, as instituições foram criadas, na sua maioria, valorizando o trabalho e as atividades masculinas em detrimento das mulheres. Nas religiões, sejam cristãs ou não, as funções de guias (pastores, rabinos, mulás, padres etc) são masculinas, e não há qualquer indicação que isso tende a mudar em médio prazo. Até a década de setenta alimentava-se, nos EUA, a crença que mulheres eram menos dotadas musicalmente, dizia-se que elas não podiam tocar músicas clássicas nas orquestras. Dessa forma, as melhores orquestras eram essencialmente masculinas. No rastro do movimento feminista surgiu pressão para que os maestros e diretores de orquestra passassem a fazer testes com os candidatos músicos ocultos por biombos, para que pudessem ser ouvidos, mas não identificados. Resultado: vinte anos depois as grandes orquestras americanas têm um número igual de mulheres e homens nos seus plantéis, e nem por isso a qualidade de seus concertos caiu. Na Europa, como não existe esse teste cego, mais de oitenta por cento dos músicos das orquestras são homens, e muitos músicos continuam acreditando que as mulheres não tocam tão bem quanto os varões.
Existe o mito que homens são melhores que as mulheres em matemática, visto que é maior o número de homens que têm excelente desempenho em testes. Mas é verdade também que o número de homens com desempenho muito ruim é maior, ou seja, se quisermos dizer que os homens são melhores, temos que admitir que também são piores. Empatou, certo? A diferença crucial entre os gêneros é o que o desempenho dos homens é mais variado que o das mulheres.
Por último gostaria de dizer, homens e mulheres são iguais em direitos, deveres e inteligência e, fundamentalmente diferentes naquilo que interessa para a perpetuação da espécie: sexo. Já imaginou se mulheres fossem indistinguíveis de homens na aparência? Quem gostaria de fazer sexo com um “aparentemente” homem? Só homossexuais talvez, mas daí a continuidade da raça humana estaria garantida? Viva a diferença! JAIR, Floripa, 07/01/12.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Caixa preta

Numa flagrante contradição, alguns cientistas costumam afirmar que o cérebro humano é mais complexo que o universo, como se fosse possível o conjunto maior ser mais simples que seu conteúdo. Fazendo uma analogia barata: um automóvel é tão ou mais complexo que seu mais complicado componente. Não dá para ser diferente. De qualquer forma, mesmo não sendo mais intrincado e ignoto que o universo que nos contém, o cérebro que foi definido como “carne pensante”, é uma máquina que fascina a todos e que ainda não conseguiu ter suas funções plenamente desvendadas.
Então vejamos, o conhecimento sobre esse componente essencial da maioria dos seres do reino animal está sendo acumulado ao longo de centenas de anos. Na medida em que a tecnologia vai se desenvolvendo, é comum as pessoas compararem o cérebro ao que há de mais “avançado” no campo das invenções e descobertas, assim, ele já foi comparado às máquinas a vapor quando estas estavam no auge; a centrais telefônicas e até a motores a explosão interna. Hoje, como não podia ser diferente, o cérebro é comparado a um computador. Mas quanto dessa comparação pode ser verdade?
A aproximação mais evidente que se faz é dizer que a massa cinzenta que compõe nosso cérebro seria o hardware e as experiências e os saberes acumulados seriam o software. Nada mais lógico para que tem necessidade de “enquadrar” o cérebro em algo que conhece e do qual faz uma avaliação positiva. Contudo, ainda que comparado com o que há de mais adiantado tecnologicamente em nosso Planeta, a comparação torna-se essencialmente anódina se levarmos em conta que computadores são projetados - e não poderia ser de outra forma – como uma linha de montagem: as ações seguem uma linha lógica, não há errância, isto é, o computar não divaga, não percorre atalhos e não toma decisões “erradas”. Já o maravilhoso cérebro funciona mais como uma caótica cidade grande com seu tráfego, suas pessoas indo e vindo e todas as implicações boas ou más da interação entre tudo que se move e todos os “obstáculos” que impedem ou dificultam o livre fluxo. Têm que se levar em conta que no cérebro, como na cidade grande, nem tudo dá certo o tempo todo. Imaginar que o cérebro sempre faz a coisa certa é uma estultice que o próprio cérebro produz, e, talvez, aí resida o grande óbice porque não conseguimos desvendar todos os mistérios dessa extraordinária caixa preta biológica.
Agora vem minha opinião. Como quem nos comanda; quem dá as cartas em todas nossas ações e escolhas; quem conduz nossa civilização, é o cérebro, a ele poderia ser atribuído o poder de não se “desvendar” não se expor em todos os seus mistérios. Digamos que o cérebro se auto preserva ao não permitir que tenhamos pleno conhecimento de como funciona. O mecanismo de defesa desse órgão é, justamente, não delegar ao homem o poder do conhecimento, algo assim como: você só poderá saber até onde eu permitir. O homem é prisioneiro de seu cérebro egoísta, não lhe é dada a faculdade de conhecê-lo em profundidade.
Essa possibilidade me faz lembrar o conto de Arthur C. Clark, “Os nove bilhões de nomes de Deus”, no qual ele conta a história de cientistas contratados por excêntricos monges tibetanos para fazer uso de um super computador para analisar todas as possibilidades de permutações de letras e chegar aos definitivos nove bilhões de nomes de Deus. Quando todos os nomes forem encontrados, o mundo acabará, pois o propósito do Universo terá sido alcançado. Assim, antecipando-se à criatividade do genial Clark, nosso cérebro faz tudo para não ser desvendado, pois se um dia isso acontecer, o propósito do Universo terá sido atingido e não mais haverá motivo para continuarmos existindo, será o fim da humanidade. O cérebro nos terá, mais uma vez, vencido então. JAIR, Floripa, 05/01/12.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Sobre o Paleolítico







No período compreendido entre 2,5 milhões a.C. Até cerca de 10 mil a.C., que os paleontólogos convencionaram chamar de Paleolítico, os homens eram essencialmente nômades caçadores-coletores, tendo que se deslocar constantemente em busca de alimentos. Também desenvolveram os primeiros instrumentos de caça e artefatos de uso doméstico como agulhas feitos em madeira, osso ou pedra lascada, e dominaram o uso do fogo.
Existe muita literatura a respeito e o assunto é fascinante para quem, como eu, gosta de fazer ilações sobre aquela vida primitiva em contato direto com os perigos e os benefícios que a natureza poderia oferecer. Na escola aprendemos que os índios do Novo Mundo estavam, em sua maioria, vivendo sobre a égide do Paleolítico superior em transição para o Neolítico, isto é, grande parte de suas armas e artefatos eram confeccionados de pedra lascada ainda. Restos de suas culturas podem ser encontrados nos museus e atestam com veemência as assertivas sobre suas habilidades na feitura dos instrumentos que usavam. Pontas de flechas, pontas de lança, machados, facas, bordunas, vasos, pratos e urnas mortuárias são exemplos dessas culturas da idade da pedra lascada.
Contudo, para mim, sempre ficou a interrogação de quão eficiente poderiam ser os artefatos de corte, principalmente. Peças de cerâmica são fáceis de serem avaliadas porque, mesmo na atualidade, suas feituras e formas mudaram muito pouco ou quase nada com relação àquelas antigas que repousam nos museus. Qualquer vaso encontrado nas feiras de artesanato por aí não difere muito da cerâmica marajoara antiga e sua qualidade e eficiência quanto á impermeabilidade é facilmente provada. Mas, as facas e machados de pedra lascada eram realmente eficazes no corte de couro e carne dos animas abatidos, e na confecção de artefatos de madeira? Pois é, essa dúvida que me perseguia teve uma resposta bastante convincente na semana precedente ao Natal a qual passei no interior de Minas.
Primeiro, pedra lascada significa que deve existir rocha ou rochas duras que lasquem de forma que as beiradas das lascas sejam afiadas, finas e resistentes o bastante para prover corte em troncos e galhos. Existe pedra com essas propriedades? Sim, existe. O basalto, rocha ígnea encontrável em derrames que formaram grandes platôs continentais, como, por exemplo, na Bacia do Paraná, no sul do Brasil, é um excelente candidato. Lembrando que, a formação das rochas ígneas vem do resultado da solidificação por resfriamento do magma derretido ou parcialmente derretido que aflorou em eras passadas. Normalmente as rochas ígneas são extremamente duras, caso do basalto, que ainda possui a faculdade de lascar formando bordas muito finas. Essa característica das rochas chama-se clivagem, isto é, clivagem em mineralogia é a forma como muitos minerais se quebram seguindo planos relacionados com a estrutura interna, paralelos às possíveis faces do cristal que formariam. A clivagem do basalto dispõe que ele se quebre em lascas afiadas naturalmente.
Assim, estando em Buritis para passar o Natal, conheci um riacho, tributário do Urucuia que margeia o município, usado para lazer pelos buritienses, cujo leito é formado totalmente de basalto. Minha curiosidade “científica” foi despertada pela presença da rocha que atende aos requisitos para confecção de instrumento de corte paleolítico. Então, me propus a fazer um experimento: usar lasca de basalto como “faca” para cortar um galho de árvore. Não foi muito difícil encontrar uma lasca, havia sinais que algum pedreiro andou quebrando várias rochas para uso em cantaria. Colhida uma lasca afiada intentei cortar um galho de árvore, o que fiz com bastante facilidade, mesmo considerando meu primarismo e falta de habilidade. O corte ficou “limpo” e o trabalho em si não levou mais que cinco minutos, imagino que homens da idade da pedra lascada pudessem fazer o mesmo trabalho, com menos esforço e num piscar de olhos. O resultado do desafio foi um pedaço especial de galho resistente e não muito grosso, em forma de parafuso. Essa rosca se deve a cipó que enlaça o galho como uma cobra constritora e o deforma na medida em que cresce, nada muito incomum numa floresta de transição do cerrado mineiro. O galho cortado e a lasca afiada eu os trouxe para casa e suas fotos ilustram esta matéria.
Pelo que resultou do experimento: um galho com corte limpo e uma lasca de basalto ainda afiada depois do uso, dá para concluir que fazer corte em carne e pele de animais não seria tarefa muito árdua ou fora de propósito para o homem do paleolítico que dispusesse de basalto na região na qual vivia. Se houver oportunidade, pretendo demonstrar que minha lasca de pedra poderá ainda ser usada em outros cortes mais desafiadores, pois confesso que me senti quase um troglodita quando da prova a que me submeti. JAIR, Floripa, 04/01/12
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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A passagem



Morrer, como nascer, é um ato individual e absolutamente solitário, não se compartilha um e outro. Só quem já ultrapassou o divisor de águas entre estar vivo e não mais fazer parte desses que podem ler isto que escrevo, é que pode falar sobre a morte, tudo o mais é especulação. A morte nem sequer é dolorosa em si, o ato de morrer é menos que indolor é passivo, ninguém morre “ativamente”. O indivíduo pode até ter provocado o ato que o levou a morte, mas a passagem é própria do corpo, e este não a delega a ninguém. Se a morte se aproxima por doença, perdemos a vontade de nos alimentar e beber, o corpo torna-se pouco exigente, não há necessidade de repor energias a um corpo que não tem como aproveitá-las. Então nos desidratamos e inanimos sem maiores traumas. Deixamos de secretar, nos secam as mucosas e não há lágrimas, e isso se torna reconfortante, nosso corpo está concentrado no ato de partir apenas. Os sofrimentos deixam de existir, não há passagem dolorosa, ao contrário do que pensa a maioria das pessoas. Se o moribundo está gemendo no leito de morte, não é esta que lhe está sendo desconfortável, o que dói é a vida. Nosso cérebro esvazia, se acalma, deixamos de pensar. Uma espécie de cansaço se instala em nossos neurônios e estes deixam de fazer sinapses, a não ser aquelas ligadas ao ato de morrer. Nesse momento se instala em nós um sentimento de bem estar, às vezes até de euforia, uma espécie de portal convincente e atrativo se abre a nossa frente, queremos adentrá-lo, mas não temos pressa, não estamos estressados, ansiosos, apenas calmos e contemplativos. As vontades, desejos, necessidades angústias e incertezas se esvaem, surge um vácuo de sensações. Vemos e ouvimos tudo ao redor, só não sentimos mais necessidade de conversar ou interagir com coisas e pessoas que nos circundam. Neste momento, o ato de segurar a mão de um ente querido não pode ser interpretado como vontade de viver, é um simples gesto de despedida. Às vezes, nos chamados momentos finais, podemos entrar numa espécie de sono profundo, estado que os médicos costumam chamar comatoso, nesta hora enxergamos uma luz branca difusa que preenche todo nosso campo visual, não há sombras nem pontos escuros. Deixa de existir frio ou calor, que são substituídos pela total ausência de temperatura, os sons também dão lugar a uma espécie de silêncio que preenche todo o universo. Em seguida nossa respiração cessa. Nesse momento os músculos relaxam e se instala uma sensação de paz completa, o mundo, como o conhecemos, deixa e existir, e do lado de cá as dores e sofrimentos são sentimentos desconhecidos. Acreditem, sei do que estou falando, já passei para o lado de cá.