terça-feira, 29 de novembro de 2011

Os males do fumo




Houve uma época em que o ato de fumar traduzia sucesso e glamour, até o Brasão da República Brasileira contém folhas de fumo ao lado de ramos de café. Mas nos últimos cinquenta anos a ciência se esmerou em provar que o hábito do tabagismo acarreta danos terríveis ao fumante. Mostrou cabalmente que o tabaco contém centenas de agentes nocivos à saúde, muitos deles causadores de câncer. Pulmões, garganta, lábios, língua, estômago, rins e bexiga são alguns dos órgãos que estão sujeitos à maior incidência de vários tipos da doença, com graus variados de morbidade e, muito pior, graus terríveis de sofrimento atrelado a despesas elevadas e degradação da qualidade de vida do doente e dos familiares, resultando quase sempre numa morte prematura e dolorosa.
Em consequência dos elevados custos sociais e materiais, muitos governos do ocidente, o do Brasil inclusive, resolveram atacar o hábito do fumo proibindo propaganda de qualquer espécie e banindo dos meios de comunicação qualquer referência que estimule o ato de fumar. Não há estatísticas que demonstrem a assertiva dessas medidas. A indústria fumageira se ressente dessas campanhas? Houve uma redução de fumantes a partir da extinção das propagandas? Não há divulgação dos resultados. O que se sabe com certeza, é que os órgãos responsáveis pelas campanhas antifumo atacaram apenas a ponta do consumo, isto é, o alvo dos ataques sempre foram os fumantes, a eles se dirigiu o grosso da artilharia que visa melhorar a saúde da população e, por tabela, diminuir os gastos dos sistemas de saúde com tratamentos de doenças provenientes dos males do fumo. Mas e a outra ponta, aquela que produz o fumo desde a semente até o produto final: cigarro? Há alguma preocupação governamental em esclarecer os males que plantar tabaco (Nicotiana tabacum) causa aos agricultores? Parece que não, milhares de famílias do campo estão morrendo por causa do fumo e nada se fala sobre isso.
Os fatos a seguir foram publicados por Sandreli Gross Costa no blogue
http://pinheiraldebaixo.blogspot.com baseados no trabalho de Fabianne Heemann, publicado no saite http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/22063 e nos dão uma ideia da dimensão do problema:
“Para produzir fumo de qualidade, o agricultor necessita aplicar múltiplas sessões de agrotóxicos, fica exposto às intempéries climáticas para fazer a colheita na maturação certa das folhas, tem o sono interrompido várias vezes a noite para cuidar dos fornos durante a secagem, passa horas em posições desconfortáveis para colher, transportar e classificar as folhas. Resumindo, trabalha feito “um burro de carga”. Esse excesso de trabalho, afeta o organismo dos agricultores acarretando problemas físicos e mentais (depressão)”.
Em outro trecho ela lembra: “A colheita e secagem acontecem simultaneamente. Essa é a etapa do processo produtivo mais cansativa, esgotante, penosa e desconfortável. Inicialmente o agricultor colhe o baixeiro (folhas rentes ao chão) e à medida que as folhas maduram colhe o restante. É preciso repassar de 5 a 6 vezes o mesmo pé de fumo. Esta etapa do trabalho acontece nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro. O fumicultor passa horas curvado, carregando maços pesados de folhas, sob o sol e calor insuportável, isso quando não é pego de surpresa pelas repentinas chuvas de verão. A nicotina presente nas folhas do fumo entra em contato com a pele dos agricultores e causa a “Doença do Tabaco Verde” provocando vômitos, dores estomacais, dores de cabeça, tontura, fraqueza, dificuldades para dormir, entre outros”.
E continua: “Após secas, as folhas são depositadas no paiol, onde mais tarde passarão por um processo de classificação por cor, tamanho e espessura. Em seguida são feitas as manocas ou bonecas (várias folhas da mesma classificação são amarradas umas nas outras pelo talo) e finalmente o fumo é enfardado. Essa etapa é rotineira e desconfortável, pois os fumicultores passam os dias sentados no chão, manuseando as folhas, aspirando pó e sentindo um cheiro ruim que só o fumo sabe ter. Depois de pronto, os fardos são enviados as empresas fumageiras que normalmente pagam um preço muito abaixo do esperado pelo agricultor”.
A certa altura a autora denuncia: “Em relação à saúde dos fumeiros como a gente diz por aqui, chega janeiro estão todos magros, amarelos e "soiudos" na linguagem popular, com o decorrer dos anos adquirem sérios problemas de coluna, artrite, câncer de pele, depressão. Este é um trabalho muito desvalorizado, mas infelizmente é o que garante a sobrevivência das famílias. Eles não têm opção melhor. Quem acende um cigarro não imagina quanto sofrimento ele provocou até chegar naquela caixinha”.
Então por que os agricultores continuam a se expor a uma atividade tão nociva nessa ponta como o é na outra, e ainda mais sendo mal pagos? Parece uma pergunta irrespondível, mas não é. A própria Sandreli aponta a resposta: “O trabalho com o fumo é quase todo manual e pode ser cultivado em pequenas e descontínuas áreas, terrenos, maquinários, insumos agrícolas possuem preços exorbitantes, muito além do que meus conterrâneos podem pagar. Além disso, embora as fumageiras paguem um preço ridículo pelo quilo de fumo, essa cultura é mais rentável em relação a de milho, feijão e outras, se estas forem plantadas em pequenas áreas”. Veja bem, mais rentável, é a expressão chave que deve ser considerada. Se plantar fumo rende mais que plantar alimentos essenciais, deve haver uma relação perversa entre o estímulo que as indústrias de cigarros oferecem e as facilidades que o poder público deveria oferecer para tornar a agricultura alimentar rentável, não é mesmo? Além disso, as autoridades fazem vistas grossas quando se trata de esclarecer e ajudar os agricultores. Será isso mais uma prova que as indústrias fumageiras continuam dando as cartas nas ações de combate ao fumo porque pagam pesados impostos ao governo? Será que essa prática de desestimular o consumo numa ponta e na outra ignorar as terríveis consequências do cultivo, é uma maneira de “compensar” as indústrias que fabricam cigarros? Uma espécie de atitude de “morde e assopra” tão ao gosto das demagogias ocidentais? Se assim for, é a política mais maquiavélica e covarde que se tem notícia neste país desde o descobrimento, e o Brasão da República é apenas mais uma comprovação de que no Brasil vidas sempre foram menos importantes que impostos. Com a palavra as autoridades. JAIR, Floripa, 28/11/11.

domingo, 27 de novembro de 2011

Batalha da Inglaterra





Batalha da Inglaterra é como se convencionou chamar os eventos de guerra aérea ocorridos sobre o Canal da Mancha e solo inglês durante os meses de julho e agosto até 15 de setembro de 1940, quando a Luftwaffe atacou em massa cidades e instalações industriais e militares inglesas que foram defendidas pelo Comando de Caças da RAF.
Talvez para os britânicos, na história de seu país, tenha sido um momento tão importante como a derrota da “Invencível Armada” espanhola em 1588 e o triunfo do almirante Nelson em Trafalgar sobre as frotas francesas e espanholas em 21 de outubro de 1805. Menos de três mil jovens pilotos – não mais de novecentos num só dia de combate – roubaram a cena de Hitler, quando parecia que a Grã Bretanha estava prestes a ser invadida pelos nazistas depois da aniquilação de sua Força Aérea. Sobre essa que foi, segundo opinião de analistas posteriormente, a batalha “que ganhou a guerra”, Wiston Chulchill cunhou a frase que a imortalizou: “Nunca tantos deveram tanto a tão poucos”.
Os “poucos” como passaram a ser chamados os pilotos de caça da RAF, talvez sem perceber, naquele dia fatídico para os nazistas, 15 de setembro, tenham derrotado Hitler. Este, incapaz de invadir e conquistar a Grã Bretanha, se voltaria para a União Soviética, sacrificando o exército alemão e, a partir daí, prolongando a guerra até que, finalmente, depois que os EUA forram arrastados para a guerra pelo ataque japonês a Pearl Harbor, deixando a Alemanha contra os três países industrializados mais poderosos do mundo.
Tudo isso viria a acontecer, e ninguém, mesmo Churchill que tinha uma visão aguçada dos acontecimentos futuros, poderia prever no outono de 1940, quando a Grã Bretanha estava sozinha. Mas o Comando de Caças, comandado pelo Tenente Brigadeiro Sir Hugh Dowding, e seus jovens pilotos, tinham preponderado sobre uma Luftwaffe muito mais poderosa e bem armada.
Não é minha intenção descrever aqui os acontecimentos dessa importante batalha, porque não será num espaço deste que caberá aquele pedaço da história. Contudo, centenas de livros foram escritos sobre os eventos, obviamente evidenciando a coragem e empenho dos pilotos de Spitfires e Hurricanes na batalha. Só que, por trás dos panos, os ingleses se deparavam com obstáculos terríveis como o de manter a produção das aeronaves de modo a suprir os aviões perdidos na batalha e aumentar a reserva visando as ações que fatalmente viriam; formar pilotos hábeis e capazes em tempo recorde para manter os esquadrões operacionais mesmo com as perdas diárias crescentes.
É claro que os radares ainda rudimentares usados pelos ingleses foram uma contribuição importante para a coordenação da defesa aérea. O fornecimento de gasolina de alta octanagem pelos EUA também permitiu o ótimo desempenho dos motores Rolls-Royce Merlin que equipavam os caças ingleses. E até o aproveitamento dos restos mortais dos aviões alemães abatidos sobre solo inglês foi útil para uso na indústria aeronáutica que fabricava Spitfires e Hurricanes. Assim, é quase certo que alguns dos aviões recém saídos das linhas de montagem ingleses tivessem, em parte, sido construídos com alumínio proveniente dos Stukas e Junkers alemães.
Outro dado importante é que cada perda alemã – homem e máquina – era definitiva, isto é, se o tripulante sobrevivesse normalmente tornava-se prisioneiro de guerra, e as máquinas tornavam-se sucatas para os ingleses; e as perdas britânicas eram em solo ou águas pátrias, de modo que o sobrevivente podia voltar à ativa e o material, sempre que possível, era reaproveitado.
Assim, uma ilha assediada e sozinha acabou derrotando a maior força aérea do mundo naquele momento, e definindo os rumos da guerra que acabou com o triunfo das democracias contra os nacionalismos exacerbados e cegos da Alemanha, Itália, Japão e seus aliados. JAIR, Floripa, 24/11/11.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Genética




Nesta quadra da história moderna onde a clonagem de vertebrados está bem além da ficção e já existe tecnologia para clonar um ser humano, vale contar um evento curioso que envolve fecundação. Alguns seres vivos se reproduzem de maneira diferente da nossa. Alguns moluscos e certas plantas têm como estratégia reprodutiva o hermafroditismo ou androgenia, cujos princípios consistem na existência de caracteres machos e fêmeas no mesmo indivíduo. Assim, para formação da primeira célula embrionária não há participação exterior de um indivíduo de sexo contrário. O novo ser é construído a partir do potencial genético adulto, uma espécie de gêmeo idêntico de quem o gerou.
Analogamente, a partenogênese, denominação de outro processo de reprodução consiste na substituição do gameta masculino (espermatozóide) por um gameta feminino chamado oosfera. Portanto, sem nenhuma participação do exterior a reprodução se completa. O suíço, Chales Bonnet, em 1940, descobriu partenogênese dos pulgões. Depois verificou-se o mesmo fenômeno em algumas espécies de abelhas, em alguns vegetais, nos ouriços do mar, nas estrelas do mar, nas rãs e em alguns peixes. Vários experimentos em laboratórios demonstraram que é possível provocar a partenogênese artificial em gatos, coelhos e outros mamíferos. Outros cientistas verificaram que óvulos de mamíferos cultivados sob certas condições de temperatura e meio de cultura fora do útero, iniciavam o processo de divisão dando o início à criação de um novo ser como se estive fecundado dentro útero. A respeito dessa descoberta, o Dr Goldman escreveu em 1966: “O nascimento sem pai é possível nos seres humanos...”.
Decorrente dessa especulação genética, apareceu na revista “Lancet” um artigo assinado pela especialista em eugenia Dra Helen Spurway, no qual dizia que “talvez” fosse possível uma mulher engravidar sem intervenção de espermatozóide. Daí, a coisa evoluiu para o sensacionalismo, a imprensa se apoderou da idéia e instituiu um concurso para que toda cidadã britânica que tivesse engravidado “virginalmente” se apresentasse, sua identidade seria preservada se assim as participantes desejassem. O escopo do “concurso” era encontrar fêmeas humanas para comprovar a tese que era possível a reprodução sem participação masculina.
Como a Europa estivera em guerra, milhares de mulheres – adúlteras e abandonadas por namorados - viam no concurso a possibilidade de “apagar” traições a seus maridos e companheiros enquanto estes estiveram no front. Dezenas de milhares de mulheres com filhos se apresentaram. Começaram então os testes que consistiam primeiramente uma entrevista rigorosa e em prova de compatibilidade sanguínea. Somente dezenove mulheres restaram depois disso. Em seguida veio o teste de saliva que reduziu o grupo a apenas quatro candidatas. O último teste tratava-se enxertos de peles cruzados. A mãe recebia um pedaço da pele do rebento e este um da mãe, se houvesse rejeição se comprovaria a incompatibilidade, em caso contrário o filho era considerado fruto da partenogênese natural. Três das concorrentes foram eliminadas e restaram a senhora Emminaire Jones e sua filha Monica, gerada em circunstâncias anômalas.
Em 1944, Emminaire estava com enjôos constantes e se sentia muito mal, seu noivo estava em combate e ela era virgem, procurou um médico e este constatou que ela estava grávida de três meses. Ela havia passado o tempo todo servindo com enfermeira onde só existiam mulheres no corpo médico, e ela nunca havia feito qualquer coisa que justificasse a gravidez. Emminaire casou com seu noivo, a criança nasceu e ela teve uma depressão nervosa, não entendia o que poderia ter acontecido. Os exames formais verificaram que Monica não tinha nenhum “elemento” estranho ao de sua mãe. O Dr Stanley Balfour-Lynn, juntamente com o famoso professor J. B. S. Haldane divulgou esse caso insólito para o mundo. Ele julgava um caso autêntico de partenogênese natural. Por outro lado, os cristãos que creem no dogma da virgindade de Maria e se sentem desconfortáveis com uma fecundação celestial, acharam um meio de justificar sua gestação.
Pois bem, e como ficou o resto dos cientistas do mundo? A resposta é que ninguém achou que o caso merecia qualquer investigação mais profunda, os testes foram imprecisos e não comprovavam nada, segundo os cientistas “sérios”. Assim, o caso caiu no esquecimento e não mais se falou na possibilidade dessa tal partenogênese natural humana. Só que, em 2005, lá mesmo na Inglaterra, o Dr Eugene Lightorn, geneticista do laboratório “London Medical Genetic Center”, leu o artigo em uma revista da década de sessenta e resolveu procurar as amostras de sangue dos testes, se estas existissem. Para sua surpresa, um congelador do próprio LMGC continha os sangues das mulheres datados e identificados. Ele procedeu ao exame de DNA das amostras e verificou aquilo que ninguém acreditava: Os DNAs da mãe e filha eram perfeitamente compatíveis, como costumam ser DNAs de gêmeos idênticos e de clones de animais e plantas. Agora, diante dessa descoberta, está na hora de os geneticistas darem uma boa “olhada” na possibilidade de existir esse fenômeno, até porque a ciência é pródiga em surpreender a partir de eventos inesperados e fora da “normalidade”. Será este o caso? JAIR, Floripa, 22/08/11.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Sobre poder




Na história da humanidade registra-se um período em que os homens viviam em bandos familiares pouco organizados, em atividade de coleta e caça de alimentos, eram os caçadores-coletores. A economia de caça e coleta implicava em viver em pequenos bandos, o número de indivíduos era limitado pela disponibilidade de fontes alimentícias e pela necessidade de mobilidade. Há fortes indícios que esse número girava em torno de vinte e cinco indivíduos incluídos adultos e meia dúzia de crianças já andando. A própria estrutura do bando excluía qualquer apropriação de áreas de bandos vizinhos e de propriedade de bens. O ônus de propriedades móveis e de invasão de áreas de coleta de outros era maior que os benefícios que poderiam advir de tais opções. Claro que é razoável supor que em tempos de escassez pode ter havido conflitos entre os bandos, mas as indicações arqueológicas depõem contra essas confrontações. Mas, quando a necessidade ou a vontade ditaram o estabelecimento de aldeias, foi que essas populações vizinhas encontraram motivos para cobiçar os recursos de seus contíguos. Ao contrário do modo de vida de caça e coleta, onde os pequenos bandos são mais apropriados para explorar fontes de alimentos, a concentração de alimentos mediante cultivo e pastoreio permite que populações sedentárias cresçam. As aldeias podem tornar-se cidades, com todas as implicações que esses aglomerados apresentam. Se uma aldeia agrícola decide apoderar-se das plantações de uma aldeia vizinha, ela se beneficiará porque sua própria população poderá expandir-se por causa do alimento adicional. Está claro que haveria antes o detalhe de uma batalha. Mas, desde que os benefícios superassem as perdas supervenientes, a aldeia que vencesse o conflito se colocaria numa posição vantajosa à custa dos vizinhos.
Com o advento de povoações permanentes ocorre também o nascimento do materialismo. A vida sedentária nas aldeias permite a acumulação de objetos não essenciais, é e com esses objetos que costumamos associar, o mais das vezes, os símbolos de status e riqueza. A experiência nos mostra que a acumulação de riquezas provoca o desejo de novas riquezas, e, em nenhum momento, essa sede de bens é saciada. Ou seja, ninguém é rico o suficiente para desprezar aquisição de mais e mais bens. O fenômeno vai além do simples acumular coisas materiais, como um fim em si mesmo: pode ser definido como um psicomaterialismo, fenômeno parecido com a cobiça do poder. Riqueza e poder são irmãos xifópagos. E mais, o poder só é atrativo quando há um grande número de pessoas sobre as quais exercê-lo. A história recente do século passado nos dá a medida que essa compulsão pelo poder pode ser maléfica. Com toda evidência, as possibilidades de procura, de manutenção e de expansão do poder foram muito maiores após a revolução agrícola do que antes. E a história nos mostra que há dois caminhos básicos para a expansão do poder: manobras políticas habilidosas ou operações militares bem sucedidas. Mais uma vez nos lembramos de Clausewitz: “A guerra é a continuação da política por outros meios”.
Concordando com Clausewitz, já que a natureza dos dois fenômenos é a mesma, ambas, guerra e política, sempre estão concorrendo para a tomada, aumento ou manutenção do poder. Ainda mais, como poder e materialismo na forma de riqueza são irmãos xifópagos, não há contradição em afirmar que a guerra que está a serviço do poder, e também a política, ambas têm como objetivo aumento da riqueza, seja de nações seja de indivíduos. Meio complicado, mas intrinsecamente verdade. Poder gera riqueza que para ser mantida ou ampliada serve-se da guerra e/ou política para tal. Maquiavel na mais pura acepção: os meios, guerra e política, justificam os fins, poder e riqueza. Fico fascinado como pensadores antigos já tinham uma sintonia fina para perceber os grandes temas sócios antropológicos e os meios para alcançá-los que predominariam nossa sociedade atual. JAIR, Floripa, 21/11/11.

sábado, 19 de novembro de 2011

Abelhas






Desde que os antigos humanos trocaram o modo de vida de caçadores-coletores para pastores-agricultores, as primeiras colônias se viram compelidas a domesticar animais e plantas para facilitar a sobrevivência, principalmente porque a nova configuração social acarretou maior densidade populacional. Assim, muitas plantas, muares, ovinos, bovinos, galináceos e insetos, foram compulsoriamente atrelados ao modus vivendi humano nas aldeias e tribos. Obviamente isso não aconteceu a um só tempo, nem num mesmo lugar.
Com facilidade, costumamos associar os mamíferos e aves à nossa civilização por se tratar de animais “visíveis” que não deixam dúvidas que estão ali. Contudo, dois pequenos insetos da maior importância convivem conosco a quase tanto tempo quando os outros animais domesticados: bichos-da-seda e abelhas.
Os bichos-da-seda para se reproduzirem constroem casulos onde colocam seus ovos. Os humanos usam essas ootecas para tecer a seda. Os historiadores acreditam que a produção de seda teve início na China, por volta de 3.000 a.C., revelando que as pessoas já deviam ter começado a domesticar o bicho-da-seda por volta dessa época. Em 2009, uma equipe de cientistas liderada por investigadores chineses comparou o genoma de bichos-da-seda selvagens e de produção industrial tendo concluído que a domesticação deste animal, há cinco mil anos, resultou de um evento único embora se desconheça se os animais fundadores foram recolhidos num único lugar. Desde o início esses insetos têm contribuído em progressão geométrica para a indústria de vestuários e confecção em geral.
Já, com relação às abelhas, há que se notar que antes do século dezenove as populações dependiam do mel para adoçar suas beberagens e comidas, e ainda não existia açúcar industrial. As pessoas conseguiam mel em colméias e não é preciso dizer que se arriscavam a levar doloridas ferroadas para consegui-lo. As abelhas, segundo registros mais antigos, foram domesticadas no oriente por volta de três mil anos atrás.
No século dezenove, o reverendo americano Lorenzo Lorraine Langstroth melhorou significativamente a estrutura das colméias para permitir métodos mais eficientes para a produção do mel. De então para cá, a indústria melífera aperfeiçoou-se cada vez mais e se tornou indispensável para os modos de vida escolhidos pelos homens tanto do oriente como do ocidente. O mel entra na composição de centenas de alimentos, além de ser grandemente utilizado na indústria farmacêutica. Cera, própolis e geléia real são subprodutos também muito explorados pela apicultura.
Com o desenvolvimento da agricultura em larga escala, verificou-se que a apicultura tinha mais uma utilidade ainda. A polinização. As grandes plantações se valem das abelhas e outros insetos para aumentar a produtividade, plantas fecundadas são mais prolíferas e, assim, abelhas criadas junto às culturas, contribuem significativamente para plantas mais produtivas. É consórcio que traz benéficos incalculáveis à agricultura.
Então, por milênios, as abelhas conviveram em relativa paz com homens e a eles deram o produto de seu trabalho sem maiores dissabores, e os humanos esperavam contar com esse serviço por mais alguns milênios talvez. Só que, parece, essa relação está entrando em declínio, vai deixar de existir dentro de muito pouco tempo se nada for feito.
Desordem de Colapso de Colônia (CCD em inglês) é um fenômeno em que abelhas operárias de uma colméia de abelhas melíferas européias e africanizadas, de repente desaparecem. Enquanto tais desaparecimentos ocasionalmente ocorriam ao longo da história da apicultura, o termo CCD foi aplicado pela primeira vez a um aumento drástico no número de desaparecimentos de colônias de abelhas europeias nos EUA no final de 2006. Esse colapso de colônias é alarmante porque, como dissemos, muitas produções agrícolas em todo o mundo são polinizadas por abelhas.
Alertados para o fato, apicultores europeus observaram fenômenos semelhantes na Bélgica, França, Holanda, Grécia, Itália, Portugal e Espanha, e relatórios iniciais também vieram da Suíça e da Alemanha, embora em menor grau. Enquanto na Irlanda do Norte relatórios dão conta de um declínio superior a 50%. Outros casos possíveis de CCD também têm sido relatados em Taiwan desde abril de 2007. No Brasil, interior de São Paulo, também se fala em grandes perdas nos apiários, embora não haja relatórios conhecidos a respeito.
A causa ou causas dessa síndrome ainda não são compreendidas. Em 2007, algumas autoridades atribuíram o problema a fatores biológicos como ácaros e doenças de insetos (isto é, patógenos, incluindo Nosema apis e vírus de paralisia aguda de Israel). Outras causas propostas incluem mudanças ambientais por pesticidas que podem levar a desnutrição dos insetos. Mais possibilidades especulativas têm incluído modificação celular por radiação.
Também foi sugerido que pode ser devido a uma combinação de muitos fatores e que nenhum fator é a causa principal ou central. O relatório mais recente (USDA - 2010) afirma que: "com base em uma primeira análise de amostras coletadas em abelhas mortas, tem-se notado o elevado número de vírus e outros patógenos, pesticidas e parasitas presentes em colônias que sofreram CCD. Este trabalho sugere que uma combinação de fatores ambientais pode desencadear uma cascata de eventos e contribuir para debilitação dos insetos de forma que estes ficam vulneráveis a outras doenças”. Contudo, não há qualquer convergência de resultados nos estudos efetuados até o presente e, principalmente, não se sabe o porquê dos eventos. O que se sabe com certeza, é que as abelhas continuam desaparecendo e essa síndrome está se espalhando pelo Planeta e não há nenhuma solução a vista a médio e curto prazo. Cientistas preocupados projetam que dentro de uns vinte anos não mais haverá abelhas produzindo mel industrialmente. Quem viver provavelmente terá muito menos doçura em sua vida então. JAIR, Floripa, 19/11/11.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A peste



No princípio parecia apenas que um número maior de pessoas estava gripado, os acometidos por um possível vírus apresentavam sintomas iguais ou parecidos com os da gripe, como irritação na garganta, coriza, alguma obstrução nasal e, em alguns casos, uma febre leve.
Palmeira era uma cidade pequena e as ocorrências, fatos e eventos que lá se passavam eram de conhecimento de todos, como se pertencessem a uma grande família. Então, quando os casos de “gripe” começaram a levar gente ao único hospital do burgo em busca de tratamento, os dois médicos e as irmãs de caridade que atendiam os doentes perceberam que eles estavam mais prostrados do que se poderia esperar se estivessem apenas gripados. Toda a cidade tomou conhecimento que mais gente e com gravíssimos sintomas estavam baixando aos leitos hospitalares.
Mais ou menos no segundo mês depois que os primeiros casos apareceram quase um terço da população, inclusive um dos médicos, estava acometido dessa doença que passou a preocupar tanto as autoridades quando os cidadãos que ainda não tinham sido contaminados. Pelo que se sabia era uma doença virótica ou bacteriana contagiosa, porque era comum pessoas de uma mesma família ou que conviviam em ambientes confinados como salas de aula ou escritórios, apresentassem sintomas em cadeia. As primeiras mortes vieram logo a seguir, mortes horríveis com os doentes assumindo posições arqueadas, olhos esbugalhados, boca aberta e gritando como se o fogo do inferno os tivesse queimando, parecendo possuídos por demônios. Em um mês, mais da metade dos cidadãos já estavam doentes e os coveiros passaram a fazer horas extras para enterrar os mortos. Notadamente, a doença não escolhia classe social, idade ou sexo, ainda que os primeiros mortos tenham sido pessoas idosas e crianças muito novas.
O prefeito apressou-se em decretar estado de vigilância e decretou que escolas fossem fechadas, dispensou os funcionários públicos municipais e sugeriu que todos os serviços que não fossem essenciais deixassem de funcionar.
Muitos dos mais ricos arrumaram as malas e se mandaram para Curitiba ou outra cidade onde tivessem parentes ou amigos. Aos pobres coube apenas se trancar em casa tanto quanto possível, e rezar para que a doença não os alcançasse. Houve dois ou três casos nos quais todas as pessoas de uma mesma família confinada foram atacadas morreram e só se tomou conhecimento disso quando os corpos começaram a exalar mau cheiro.
O padre, alguns pastores, beatas e outros devotos faziam penitências, rezavam, oravam e pediam perdão por pecados nunca cometidos e por faltas nunca acontecidas. Apareceram três pregadores místicos que bradavam pelas ruas vazias dizendo que aquele era um castigo de Deus pelas iniquidades daquele povo incréu e pecaminoso. Se alguém acreditava nisso nada dizia, mas era aparente o medo e a desconfiança. Será que Deus estava castigando a todos por algo que alguns fizeram? Será que o Criador havia escolhido aquela cidade para servir de exemplo para uma humanidade pecadora, cruel e belicosa? Foi nesse clima que alguém ressuscitou a palavra PESTE. Para a crendice do povão ignaro palmeirense, peste significava muito mais que uma grave doença ocasional, ou mesmo um epidemia inesperada e fatal; peste significava algo determinado por uma força superior como punição; peste era penitência por pecados cometidos, e isso mexia com o imaginário daquelas pessoas simples. Então, a partir da lembrança da palavra, muitos passaram admitir que estavam sendo punidos com a peste. Por estranho que pareça, o fato de agora saberem o que era e qual a finalidade do mal, fez com que alguns se conformassem com o destino e, com humildade, admitissem que eram pecadores e deviam ser punidos.
Mas a peste continuou ampliando seu alcance e mortalidade, mais gente foi infectada e muitas mais morreram. Os cemitérios já não comportavam tantos defuntos e as autoridades liberam outros dois terrenos públicos para os sepultamentos, que agora se faziam até a noite. Calculava-se que um terço dos cidadãos havia falecido, outro terço estava doente e o terço final rezando e tremendo em suas casas. Dos que partiram, depois se soube, também um terço havia deixado de viver nessa mesma época.
Ainda que o apelo das autoridades médicas tivesse sensibilizado a Secretaria de Saúde do Estado, e esta tenha enviado uma equipe médica e um hospital de campanha cedido pelo Exército, os casos da doença misteriosa só aumentavam e o número de mortos também. Curiosamente, ninguém que tenha vindo para a cidade para trabalhar ou que por lá tenha passado adquiriu a doença. Parecia uma epidemia seletiva, só atacava os moradores de Palmeira. Mas, assim como havia começado seis meses antes sem trombetas ou foguetórios, saiu de cena de mansinho sem deixar saudades, acabou. Os últimos doentes sararam de um dia para outro e os que não haviam ficado doentes saíram de suas casas e perderam o medo. Palmeira, agora rarefeita de gente, começou lentamente e se recuperar da catástrofe, era uma cidade convalescente e com outro espírito, como fênix renascida, purificou-se.
O formoso burgo, que já era conhecido como Cidade Clima do Brasil, agora aguilhoado pela mórbida moléstia, podia ser chamado de Cidade Bem-aventurada do Brasil, a bondade, o denodo, o altruísmo, o bom mocismo, a benevolência, a filantropia, a caridade, a prodigalidade, a piedade, o brio, a consideração, a reflexão, a tolerância, a candidez, a moralidade, a nobreza de caráter, o pundonor, a gentileza, a compostura, a fineza, a probidade, o esmero, a maturidade, a sobriedade, o recato, o equilíbrio, a calma, a elegância no trato aos outros, a prudência e a lealdade passaram a ser a marca registrada dos habitantes daquela comunidade. Todos se tornaram mais felizes e passaram a contagiar de felicidade quem viesse morar na cidade.
Muitos anos depois, cronistas relataram que mais da metade da população havia perecido, dos que sobraram mais da metade mudou-se para sempre. Os que ficaram formaram uma pequena sociedade extremamente coesa, honesta e solidária, a mais exemplar do país a qual até hoje pode ser citada por suas realizações humanitárias. Palmeira é a melhor cidade do Brasil desde então. JAIR, Floripa, 16/09/11
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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Brasil na guerra

Início da década de quarenta, Brasil vivendo sob a ditadura de Getúlio Vargas que não escondia sua preferência pelos modelos doutrinários ditatoriais de Hitler e Mussolini na Alemanha e Itália. A guerra na Europa se fazia entre os nacionalismos exacerbados de nazistas e fascistas contra os aliados que representavam as democracias. Getúlio fazia ouvidos moucos para vozes que o exortavam a se aliar às democracias contra as ditaduras; nas águas territoriais brasileiras, navios mercantes eram atacados e afundados por submarinos alemães e italianos e centenas de vidas civis eram perdidas numa guerra que não era nossa. A extrema direita brasileira, representada pelos “camisas verdes” (integralistas) capitaneados por Plínio Salgado, aproveitava o clima de indignação oriundo das unidades mercantes torpedeadas nas nossas costas, para divulgar propaganda enganosa no sentido que eram os americanos que estavam afundando nossos navios para nos obrigar a entrar na guerra ao lado deles. A insinuação não passava de bobagem maldosa para obrigar o Brasil a entrar na guerra ao lado dos alemães e italianos, mas existiam pessoas que acreditavam.
O presidente do EUA era Roosevelt, conhecido por FDR, o qual, diante do espraiamento da guerra para o norte da África, necessitava de bases para suas forças, mais próximas dos campos de batalhas. Diante disso, FDR insistiu junto a Vargas para que este cedesse bases aéreas em solo brasileiro, principalmente no norte e nordeste, para que suas forças pudessem transpor com mais facilidade o oceano Atlântico, rumo à África transportando tropas, armas e suprimentos. Pressão dos aliados de um lado e da opinião pública de outro, fizeram Vargas ceder. Numa jogada política esperta, da qual Getúlio era mestre, ele “trocou” as bases brasileiras e a entrada do país no conflito, por uma usina siderúrgica de última geração. A Companhia Siderúrgica Nacional, CSN, foi cedida por Roosevelt e instalada em Volta Redonda onde se encontra funcionando até hoje, embora privatizada.
Tendo aceitado entrar na guerra junto aos aliados, o Brasil preparou tropas a partir de 1943 para enviar ao palco de batalhas contra os alemães na Itália, o que se deu em junho de 1944. Os pracinhas, como eram chamados os soldados expedicionários, saíram-se muito bem nas tomadas dos montes Cassino e Castelo na região dos Apeninos. Vibrantes, destemidos e arrojados os soldados brasileiros, equipados pelos americanos com materiais e vestimentas modernos, enfrentaram o frio europeu e os alemães com a mesma bravura. O cessar fogo na Europa se deu em maio de 1945. Nessa guerra de menos de oito meses, a FEB perdeu 443 homens, entre soldados e oficiais, e mandou para os hospitais da retaguarda perto de 3.000 feridos. Por outro lado, fez 20.573 prisioneiros alemães, inclusive dois generais.
Finda a guerra, resolveu-se construir um cemitério na região da Toscana, para reunir num único local, com quadras apropriadas e devidamente demarcadas, os restos dos mortos nos combates do teatro de operações de guerra italiano. Ao final do conflito, em maio de 1945, havia 443 sepultados nesse local. O “Cemitério Militar Brasileiro”, pela proximidade da cidade ficou conhecido como cemitério de Pistóia. Em outubro de 1952 foi criada uma comissão de repatriamento dos mortos brasileiros sepultados no Cemitério de Pistóia, o que acabaria acontecendo apenas no ano de 1960. Hoje os restos mortais dos militares jazem sob o Monumentos dos Pracinhas, no aterro do Flamengo, Rio.
Só que repatriamento dos restos mortais dos mortos no campo de batalha foi meio tumultuado, tornou-se objeto de uma disputa quase infantil entre a FAB e Marinha Brasileira. A Armada queria trasladar as urnas funerárias de navio, e a FAB estava convencida que o traslado em aviões seria melhor. Talvez pelo fato de a Marinha não ter participado de batalhas na Europa e seus mortos serem oriundos dos ataques de submarinos aqui mesmo no Brasil, ficou estabelecido que as urnas, em vez de virem para o Brasil em navios de guerra, seriam transportadas por três aviões C-54 da FAB. Por azar da FAB e certa discreta alegria mórbida da Marinha, nesse traslado quase ocorreu uma tragédia de graves consequências num evento pouco divulgado, menos ainda lembrado. O percurso aéreo Itália – Rio de Janeiro previa, entre outras, uma parada técnica em Lisboa. Nas manobras de aproximação do Aeroporto de Lisboa, um dos aviões sofreu um acidente no pouso, bateu, quebrou a asa e foi tomado por um incêndio. Alguns tripulantes e passageiros tiveram ferimentos leves, mas todos ficaram profundamente traumatizados com o acidente e com os possíveis danos à preciosa carga que levava o avião. As urnas não sofreram grandes danos, mas tiveram que ser reparadas para prosseguirem viagem em outra aeronave.
O episódio ficou conhecido como a segunda morte dos pracinhas, mas, pelo fato de ter ocorrido em Portugal, deu azo para que os eternos gozadores cariocas veiculassem a seguinte piada politicamente incorreta: “Um pequeno avião da FAB sofreu um acidente em Lisboa e as autoridades portuguesas informam que entre mortos e feridos já resgataram mais de quatrocentos corpos”. A heróica passagem dos militares brasileiros pelos campos de batalhas da sangrenta segunda guerra acabou sendo objeto de descontraída alusão a anedótica pouca inteligência de nossos irmãos lusos. JAIR, Floripa, 11/11/11.