sábado, 12 de novembro de 2011

O Lambari




Lambari é a designação popular de várias espécies de peixes de águas temperadas e tropicais do gênero Astyanax, família Characidae, (a mesma família dos acarás) encontráveis em praticamente todos os rios, lagoas, córregos, açudes e represas do Brasil. Há quem afirme que é o peixe mais abundante do país.
O tamanho médio de um espécime adulto varia desde cinco centímetros até mais de quinze e essa variação se deve a - além de fatores genéticos - duas causas que afetam todos os peixes: peixes crescem menos ou mais dependendo da quantidade de alimentos disponíveis; e, ao contrário da maioria dos vertebrados, eles crescem a vida toda, não há uma “maioridade” na qual eles deixem de desenvolver-se, assim, num mesmo local sob as mesmas condições, um peixe maior é quase certamente mais velho que um menor. Como prova desse crescimento ininterrupto, já vi um excepcional exemplar conservado em formol pesando seiscentas gramas, enquanto a maioria dos lambaris “grandões” não passa de cem gramas. O lambari possui corpo prateado, nadadeiras e cauda com cores que variam conforme as espécies, sendo mais comuns os tons amarelados, avermelhados ou tendentes a preto.
O fato de esse peixe ser o mais disseminado e, também, por ser onívoro, isto é, gastrônomo generalista que come qualquer coisa vegetal ou animal, faz com que seja apreciado como objeto de pesca artesanal e amadora. Praticamente todo garoto do interior já teve a oportunidade de, munido com um caniço de bambu, linha, anzol e uma lata de minhocas, pescar nos riachos, açudes, lagoas ou rios disponíveis nas proximidades de sua cidade. Não conheço ninguém de minha geração que não o tenha feito, é um “esporte” nacional muito barato e prazeroso, embora o peixe não possua qualquer valor comercial. Não foram poucas as ocasiões durante minha infância e adolescência que, com maior ou menor sucesso, percorri quilômetros ao longo dos riachos palmeirenses lançando a linha em suas águas corredeiras, frias e piscosas em busca desse prêmio cobiçado.
Pois bem, a pesca amadora do peixinho quase sempre se reveste também do consequente prazer culinário. O lambari em geral é frito em óleo quente até apresentar cor dourada e consistência crocante. Neste caso é apreciado com grande satisfação pelos pescadores como aperitivo, e consumido com cerveja. A única inconveniência para seu consumo deve-se ao trabalho em prepará-lo para a fritura. Descamá-lo, cortar a cauda e nadadeiras e eviscerá-lo é uma tarefa que a muitos pode parecer não valer a pena: muito trabalho para um petisco tão pequeno! A realidade é que o prazer de degustar um acepipe tão saboroso está além da trabalheira de prepará-lo. Só quem já teve oportunidade de fazê-lo sabe a delícia que é.
Além do uso culinário consagrado, o peixe também tem outras utilidades reconhecidas. Para pescadores praticantes de pesca de peixes maiores, o lambari é isca de ótima qualidade. Para usá-lo como engodo eficiente, colocasse-o vivo ou morto num anzol grande para atrair jundiás, traíras e outros peixes carnívoros. Mas, a utilização mais inusitada e curiosa que sei do peixinho, vi num programa de televisão, num “Globo rural”. Uma pequena comunidade no interior do Mato Grosso, pega grande quantidade com uma peneira confeccionada de bambu, e cozinha em água os peixinhos numa panela grande até os corpos se desmancharem restando somente escamas, ossos e uma camada grossa de gordura na superfície da fervura. Essa gordura, depois de separada dos restos, é chamada de manteiga de lambari e é utilizada na culinária em substituição aos óleos de cozinha. Segundo o programa televisivo, essa “manteiga” não tem cheiro e acrescenta um ótimo sabor à comida, além de não ser onerosa para o orçamento familiar de famílias de baixa renda, é claro.
Assim, a pesca do peixinho mais abundante da fauna brasileira, torna-se, além de ótimo passatempo para a gurizada do interior, uma fonte de proteínas para populações de baixa renda e uma alternativa culinária de ótimo resultado e até alguma sofisticação para comunidades onde lambaris existem em quantidades apreciáveis. Por tudo isso, está longe de ser um despropósito eleger o nobre lambari – que já tem uma cidade em Minas batizada com seu nome - como o peixe fluvial mais notável e importante para a população brasileira que não aparece nas colunas sociais e tampouco sabe o que é salmão. JAIR, Floripa, 25/10/11.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Sobre dor


De acordo com a International Association for the Study of Pain: "Dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável associada com danos reais ou potenciais em tecidos e órgãos, ou assim percebida como tal, isto é, por se tratar de uma experiência também emocional, pode existir dor sem um real dano a qualquer parte do corpo”. E a definição continua: “A incapacidade de comunicar verbalmente não exclui a possibilidade de que um indivíduo esteja sentindo dor e necessite tratamento para alívio da mesma”, isso significa que os animais ditos irracionais, embora não possam expressar, sentem tanta dor quanto os humanos.
A dor é absolutamente subjetiva. Cada indivíduo aprende o uso da palavra dor através de experiências próprias relacionadas com traumatismos no início da sua vida. A dor é individual, particular e não pode ser delegada nem dividida, não há dor coletiva nem compartilhada. Os analgésicos e anestésicos nasceram da imperiosa necessidade de afastar dos humanos essa tão desconfortável sensação.
Os cientistas verificam que os estímulos que causam dor são os mesmos que causam provável dano nos tecidos. Portanto, a expressão “a dor é nossa amiga” se aplica plenamente, ao sentirmos o desconforto dessa sensação, procuramos evitar a causa da dor e, em consequência, a causa do dano. Para provar, basta aproximarmos a mão da chama de uma vela. Percebemos que, por reflexo, retiramos a mão tão logo sentimos dor, assim evitamos o dano da queimadura.
Por outro lado, dado a subjetividade da dor e por essa subjetividade tornar inviável a construção de um “dolorímetro” confiável que enquadre a intensidade das dores numa escala que possa comparar dores originadas em órgão e tecidos diferentes, nascem polêmicas acerbadas sobre qual ou quais as dores mais doloridas, por assim dizer.
A Bíblia é pródiga em associar dor ao parto, em Romanos (8:22) podemos ler: “a natureza criada geme até agora, como em dores de parto”. Além de, em Gênesis (3:16) está dito com referência à mulher: “Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores” . Ora, seja pelo fato da dor do parto ser “bíblica”, ter pedigree, por assim dizer, ou por alguma razão obscura qualquer, convencionou-se que essa é a dor mais intensa que pode acometer um ser humano. Só que, quem já teve cálculo renal, afirma de pés juntos que essa é a dor Primus inter pares, que não há dor que se compare a ela. Ainda há um adágio meio machista que afirma: “Quem acha que a dor do parto é a pior, é porque nunca levou um chute nos testículos”. E a contrapartida feminista: “Quem afirma que chute na genitália é a dor mais cruciante, tente defecar uma bola de futebol para ver”. Dessa forma, ficou estabelecido um impasse. Como já dissemos, não existe um dolorímetro, então cada um pode afirmar o que achar conveniente, em outras palavras pode puxar a brasa para sua dor. Provavelmente, as mulheres vão continuar sentindo as terríveis dores que acompanham o nascimento de mais um rebento, e os homens se queixando como bebês chorões quando levarem uma bolada na região pélvica.
Mas existe uma tribo no México que resolveu esse imbróglio de modo brilhante, criativo, com equipamento de baixíssima tecnologia e resultados surpreendentes. Os Huichol acreditam que a dor do parto deve ser partilhada por aquele co-responsável pela gravidez da mulher. Assim, a mulher em trabalho de parto agarra um cordão que fica amarrado com firmeza nos testículos do marido, e a cada contração puxa o barbante. Quanto mais intensa a contração, tanto maior o puxão.
Parece que, além de conscientizar o pai sobre o sofrimento da mãe ao parir, esse costume acarreta um “efeito colateral” de consequência social decisiva para cultura dos Huichol: tornou-se uma ferramenta eficiente no controle de natalidade. A expectativa de dor lancinante nas gônadas faz com que os maridos pensem duas vezes antes de engravidar suas mulheres, preferem a abstinência nos dias férteis delas depois de terem passado pela experiência da tortura escrotal uma ou duas vezes. Por conseguinte, os Huichol têm baixo índice de natalidade e, com isso, conseguem manter uma qualidade de vida mais elevada que seus conterrâneos que não utilizam o cordãozinho maldoso. A dor é duplamente amiga dos Huichol, de certo modo, muito mais do que para o resto da humanidade. JAIR, Floripa, 07/11/11.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Canibal



Nem a psiquiatria consegue explicar desvios comportamentais extremos como o canibalismo não motivado por fome letal. É um evento tão radical que foge das definições acadêmicas que a medicina da mente se socorre para enquadrar perversões.
Gustav Frank nasceu em 13 de agosto de 1890, fora dos limites urbanos da cidade de Palmeira, na pequena Vila Pinhões, hoje desaparecida depois que a estrada que liga Paranaguá a Assunção no Paraguai desapropriou suas terras. Oriundo de uma família de médias posses, proprietária de terras nas quais plantava milho, criava porcos e algumas vacas leiteiras, parece que teve uma infância bem comum, embora pelo que consta teve muitas dificuldades na escola e uma relação difícil com pai. Discussões ásperas sobre seu desempenho escolar fizeram com que ele, aos doze anos, fugisse de casa para trabalhar na construção de estradas. Há indícios que sua mãe havia falecido nesta época e ele viu-se desamparado porque tinha uma relação quase doentia de afeto a ela, enquanto ao seu pai nutria apenas temor e desprezo. Não há registro do que ele fez nos treze anos seguintes, mas, imagina-se que não tenha mantido relações com a família. Quando ele tinha 25 anos seu pai faleceu. Deixou a propriedade para seu irmão Karl, e uma quantia em dinheiro a Gustav a qual permitiu a ele comprar uma casa grande, antiga e decrépita em Palmeira.
Gustav alugou uma pequena loja, ao lado de sua nova casa, onde ele vendia alimentos e outros suprimentos para a população pobre do bairro. Com o passar dos anos ele se tornou querido e respeitado pelos quase cinco mil habitantes da cidade. Religioso ao extremo, tornou-se uma espécie de coringa da igreja batista local onde costumava manter o velho órgão em funcionamento adequado e auxiliar em todas as festas e eventos da congregação. Gostava de crianças e era igualmente gentil com conhecidos e estranhos. Aos cinquenta anos, tornou-se uma espécie de papai Noel de cabelos e barba ruivos, era querido de todos. Nunca enriqueceu e nem se tornou famoso, mas tinha bons amigos e, dizia-se, na sua mesa havia sempre comida suficiente para quem o visitasse. Era aparentemente o tipo de pessoa que todos gostariam de ter como vizinho. Podia ser considerado um cidadão acima de qualquer suspeita.
Depois que crises sucessivas fizeram com que fechasse seu pequeno negócio, Gustav passou a vender de porta em porta, cordões de sapato, suspensórios, cintos, sabão caseiro, agulhas de costura e outras miudezas. Uma vez por semana, em malas enormes, levava seu pequeno estoque às localidades de Pugas, Quero-quero, São Luis do Purunã, Porto amazonas e Irati, onde expunha os produtos nos mercados municipais ou em locais públicos de movimento. Logo acrescentou conserva de porco ao seu acervo de produtos. Parece que aos 52 anos, embora vivendo de biscates como se dizia, não morreria de fome, aliás, até engordara.
Mesmo na escassez dos mantimentos mais básicos decorrente da guerra que se desenvolvia na Europa, Gustav continuava a ser gentil e prestimoso como sempre. Aos andarilhos que passavam pedindo de porta em porta, ele fazia questão de dar abrigo e fornecer comida. Era uma espécie de guardião da caridade cristã. E suas conservas de carne de porco tinham uma aceitação elevada entre a população que pouca opção de alimentos dispunha.
Um sinal inquietante de que alguma coisa estava errada surgiu em setembro de 1942, quando um andarilho de apelido Garnizé, saiu correndo do casarão de Frank, sangrando muito com um ferimento na cabeça e gritando em desespero pela rua. Alertado pela gritaria, um vizinho saiu de casa para ver o que se passava. Na rua viu o pedinte coberto de sangue, falando rápido e desordenado que o velho ruivo tentara matá-lo com um machado. O vizinho, que se chamava Gabriel, incrédulo mas preocupado, levou-o à delegacia onde ele reiterou a acusação e foi levado ao hospital onde lhe fizeram um curativo e o baixaram para observação.
Embora descrente da afirmação do mendigo, o delegado pediu que Frank comparecesse ao distrito para confrontar a acusação de tentativa de assassinato. O velho, muito nervoso e falando de maneira atabalhoada, explicou que, como de hábito, havia oferecido hospedagem ao rapaz e que este tentara assaltá-lo e ele havia se defendido com o primeiro objeto que encontrou. Zeloso, o policial mesmo em dúvida sobre qual versão era verdadeira, deteve Frank sob custódia até que investigação mais apurada esclarecesse os fatos. Por volta das onze horas, o policial de plantão passou pela cela de Frank para ver se tudo estava bem. Para seu horror, encontrou o corpo sem vida de Frank balançando nas grades pendurado numa corda feita de lençóis rasgados.
No dia seguinte, os parentes de Frank foram avisados do suicídio e seu casarão foi interditado até que investigação total fosse efetuada. As acusações de Garnizé ainda estavam pendentes. O delegado com sua equipe, em seguida, foi ao casarão do suicida procurar qualquer evidência antes de liberar os pertences de Frank. Ainda que a entrada da casa se fizesse pela sala de visitas onde nada havia de anormal, também na copa, onde existia uma mesa de jantar com seis cadeiras, nada indicava qualquer ilicitude. Porém, ao entrar na cozinha os homens tropeçaram numa verdadeira loja de horrores, um labirinto asqueroso de imundícies acumuladas. Restos de ossos empilhados num canto, crânios em outro, pilhas de roupas e sapatos e prateleiras cheias de vidros de conserva “de porco” prontos para venda. No fogão uma panela grande com pedaços de carne aparentemente humana cozidos. Alguns órgãos humanos sobre a mesa, uns crus outros assados. As cadeiras da cozinha haviam sido revestidas de pele humana, o mesmo material havia sido usado para recobrir abajures e cestas de lixo. A tigela sobre a mesa, de aparência estranha, havia sido feita com o topo de um crânio humano. No quarto de dormir de Frank, as descobertas continuavam além da imaginação. Uma mesa escorada em três tíbias cruzadas a guisa de pés e caveiras sorrindo nas colunas da cabeceira da cama. Debaixo da cama encontrara restos mumificados de orelhas enfiadas num cordão como um colar macabro. Na parede havia uma coleção de máscaras faciais feitas com a pele dos rostos de nove vítimas.
Análises posteriores comprovaram que a carne “de porco” que era vendida por Gustav e tão aceita pela população, na verdade era humana. Parece que, durante anos, Gustav Frank, aquele bom cristão que todos gostavam, havia sido um canibal que vendia carne em conserva de suas vítimas, como se de suíno fosse, e se alimentava das vísceras daqueles sem teto que matava. Ao todo foram computados restos de 32 corpos dentro da casa e enterrados no jardim. Jamais se soube o que levou aquele homem à prática desses horrores. Às autoridades não convinha dar notoriedade àqueles funestos eventos, de modo que optou-se por ocultar da imprensa tudo que se relacionava ao caso. Não havia porque dar divulgação àquelas perversões, mesmo porque quase todo mundo na cidade havia comido carne humana. O que aqui está relatado foi extraído dos autos do inquérito que se instaurou na época.
Pois é, a vida real, por incrível que pareça, costuma ser mais surpreendente que a mais estranha ficção, Hannibal Lecter é apenas uma paródia bisonha do mais medonho canibal registrado na história deste país: Gustav Frank, o qual ficou conhecido como Jack Estripador de Palmeira. JAIR, Floripa, 03/11/11.

sábado, 5 de novembro de 2011

Lixo

Assunto recorrente em muitos textos de blogues que se preocupam com o meio ambiente, lixo não poderia deixar de aparecer em meus escritos. O fato é que já publiquei dois ou três registros de minha indignação para com o pouco caso que nós, os chamados civilizados, tratamos os dejetos que produzimos. Em primeiro, devemos ter em conta que a quantidade de lixo produzido aumenta na proporção que nos tornamos mais “civilizados”, isto é, uma existência mais “primitiva” - menos tecnológica - produz menos refugos que outra com grau maior de sofistificação. Mais “cultura” e civilização se traduzem num amontoado maior de sobras. É razoável inferir que o indígena ou silvícola quase nada de lixo produz que agrida o meio onde vive, seus restos são orgânicos e absorvíveis pela natureza, não há plástico numa tribo primitiva.
Em segundo lugar, devemos lembrar que o Planeta é um só e limitado no espaço que dispomos para ocupá-lo. Se nós formos acumulando as escórias e resíduos, fatalmente diminuímos o espaço disponível para vivermos. Seja pela ocupação física do lixo em lugares que poderíamos plantar e produzir alimentos, ou pelo envenenamento das águas, do solo e do ar. O problema é tão sério que não é apenas uma questão de construir lixões onde as dejeções humanas podem ser enterradas e, virtualmente, o problema pode ser empurrado com a barriga para as próximas gerações. É um problema de proporções tão gigantescas e consequências tão deletérias, que se não for tratado com prioridade máxima em nível mundial, a humanidade estará fadada a imergir nos próprios excrementos e de lá não sair mais, com todos os efeitos que esse mergulho coprófilo pode representar.
Dados oficiais do Fundo Mundial para o Meio Ambiente (GEF, sigla em inglês para Global Environmental Facility) nos dão conta que o cidadão médio produz em torno de 700 gramas de lixo doméstico por dia. Se multiplicarmos por sete bilhões de habitantes dá um resultado absurdo de 4.900 mil toneladas a cada 24 horas, isso sem contar os resíduos industriais e agropecuários. Aliás, o gado vacum é responsável pela emissão de milhões de toneladas de gás metano por ano, o que contribui sobremaneira para incrementar o efeito estufa, e os dejetos de porcos e galinhas poluem os cursos d’água em todo o Planeta.
Considerando que o aumento demográfico é uma realidade inescapável e que níveis maiores de prosperidade advenientes trarão aumento correspondente na produção de dejetos, há que se pensar urgentemente em alternativas que tornem viável a vida saudável de todos os seres deste mundo. Então, como não é enterrando o lixo em baixo do tapete – literal ou metaforicamente - que se resolve a equação lixo/vida, o GEF propõe o que muitos consideram a única opção ao alcance da humanidade antes que um ponto sem retorno seja alcançado.
O Fundo Mundial para o Meio Ambiente (GEF) é um mecanismo financeiro internacional formado por 176 países que se dedica a apoiar iniciativas voltadas à preservação do meio ambiente e à promoção do desenvolvimento sustentável. Desenvolvimento sustentável é a expressão chave que deverá nortear todas as ações visando o futuro da civilização. Vejamos então o que é o conceito desse desenvolvimento: “O desenvolvimento que procura satisfazer as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades, significa possibilitar que as pessoas, agora e no futuro, atinjam um nível satisfatório de desenvolvimento social e econômico e de realização humana e cultural, fazendo, ao mesmo tempo, um uso razoável dos recursos da terra e preservando as espécies e os habitats naturais”. Me parece que, uso razoável dos recursos encerra tudo que devemos perseguir para tornarmos viável nossa perpetuação na face deste Planetinha azul.
No atual estágio de desenvolvimento onde existem poucos muito ricos e a grande massa é de despossuídos, é completamente irreal pensar um mundo futuro com todos ostentando o nível de consumo dos americanos ou dos europeus ricos, por exemplo. Também é uma ingenuidade imaginar que os atuais povos muito prósperos possam manter seus patamares de demanda de recursos sem comprometer a condição de vida humana como um todo. Então, deduz-se, só é possível resolver o impasse encontrando um ponto intermediário onde não existam milionários do desperdício nem miseráveis do consumo. E esse ponto de inflexão só será alcançado no dia que a humanidade perceber que se não tomar providência nesse sentido, o arcabouço cultural e as realizações da humanidade ruirão para sempre arrastados para o monturo de lixo que engolirá a civilização. JAIR, Floripa, 26/10/11.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sobre leitura





Antonio Rogério Magri, para quem não lembra, era um dirigente sindical que foi convidado pelo presidente Fernando Collor de Melo para ser ministro do trabalho de seu lamentável e felizmente curto governo. Magri, além de ter sido ministro canhestro e totalmente ineficaz nas lides administrativas, alçou seu nome na imprensa pela inclusão no anedotário pátrio de expressões, neologismos e ideias “originais” que não lhe dignificam a inteligência que por certo lhe acode.
Num laivo de criatividade com resquícios de espírito sindical, o ministro cunhou o termo “imexível” ao se referir aos ganhos dos trabalhadores contemplados pela CLT; em outra ocasião, promoveu sua cachorrinha a “ser humano” como qualquer outro e criou expressões outras que lhe valeram mais destaque que sua atuação no Ministério do Trabalho. Mas, o que quero lembrar aqui é a sua infeliz colocação sobre livros e leitura: “Não leio livros, pois estes tendem a influir na opinião de quem lê, acho muito importante manter minha opinião sobre as coisas”. Essa frase lapidar, em minha opinião, é a defesa pura e simples da treva do obscurantismo, é a pedra tumular sobre tudo que o iluminismo trouxe para a cultura ocidental. Nada tenho contra o ex-ministro em questão, apenas, como leitor, me sinto ofendido e custo a acreditar que existe gente capaz de expressar tal estranheza sobre o ato de ler como fonte de conhecimento.
Para efeito de compreensão sobre a evolução cultural do Homo sapiens neste Planeta considera-se duas fases distintas as quais se convencionou chamar de pré-história e história propriamente. Sendo que a distinção entre o período histórico e seu precedente reside apenas no aparecimento da escrita. Não é segredo algum que a escrita fundamentou a civilização, sem ela a humanidade estaria vivendo em aldeamentos e aglomerações sem regras ou prescrições gravadas e sem registros que perpetuassem as descobertas e invenções que viabilizaram as sociedades modernas, ou seja, mesmo que houvesse criações que melhorassem nossa qualidade de vida, não haveria memória que as tornassem disponíveis para gerações vindouras. Sem a escrita seríamos um pouco mais que apenas trogloditas, não haveria perpetuação dos saberes adquiridos através das gerações que nos precederam. É razoável supor seríamos apenas um bando pré tecnológico de rogérios magris contemplativos, pouco vestidos, a perambular pelas campinas primitivas e vivendo em abrigos toscos de troncos cobertos de folhas.
Então, ainda que o registro literário exista há menos de dez mil anos, ele é o único elo que nos mantém coesos como civilização. A leitura inicialmente foi considerada como um simples meio de entender uma mensagem. Nos dias de hoje, porém, pesquisas neste campo definem o ato de ler, em si mesmo, como um processo mental de vários níveis, que contribui de modo extraordinário para o desenvolvimento do intelecto. Em outras palavras, quem lê desenvolve uma maior capacidade cognitiva. O processo de transformar símbolos gráficos em conceitos, ideias ou objetos exige grande atividade do cérebro; durante o processo de elaboração da leitura coloca-se em funcionamento um número incontável de neurônios. Lembrando que neurônios ativados significa maiores ligações entre eles e mais ligações, igual a capacidade cognitiva mais acentuada. Equivale dizer que a leitura representa para o cérebro o que o exercício físico representa para o corpo.
O processo de leitura consiste, basicamente, de quatro passos: visualização, na qual o leitor identifica as palavras e a relação entre elas; fonação, que é quando o leitor “fala” as palavras com o cérebro; na audição o leitor “ouve” as palavras proferidas com a mente e identifica o som que elas representam; e, finalmente, cerebração que é a transformação das palavras em mensagem, a qual terá maior ou menor clareza dependendo de os vocábulos serem menos ou mais conhecidos. Equivale dizer que se alguns termos não pertencerem ao vocabulário do leitor, este terá compreensão reduzida do texto. Mas, para nossa felicidade, quanto mais lemos mais nosso vocabulário se amplia, ou seja, fazendo analogia com o corpo: quanto mais se pratica exercícios, mais fácil se torna fazê-los. Assim, em que pese haver grande número de pessoas que “não têm tempo” para se dedicar a leitura porque está assistindo novela das oito, não há processo sucedâneo que possibilite eliminar a leitura de nossa vida com alguma vantagem cultural. Para desgraça do boquirroto ex-ministro. JAIR, Floripa, 28/10/11.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Peixe boi

O pacífico e vegetariano peixe-boi amazônico é quase um ícone daquela região, não só porque foi caçado quase até a extinção, mas por se tratar de um mamífero aquático de características únicas. Segundo revela pesquisa de seus DNAs mitocondriais, todos os animais da família dos Sirenios como o peixe-boi amazônico, o manati, a vaca marinha africana e o dugongo são descendentes de animais terrestres que retornaram à água. Contrariando a história da evolução que registra a vida inicialmente surgindo nos mares e, posteriormente, adaptando-se a terra, alguns animais, inexplicavelmente saudosos da vida aquática, fizeram a viagem de volta e tornaram-se mamíferos marinhos como as baleias e os golfinhos. Mas quem eram esses retornantes? Ainda não se sabe, não há registros fósseis confiáveis que indiquem com precisão qual a morfologia das espécies que se adaptaram, contudo, abundam indícios que se tratava de paquidermes possivelmente anfíbios parecidos com hipopótamos e, quase certamente, parentes distantes destes.
A informação mais interessante acerca desses mamíferos aquáticos diz respeito justamente a seus ancestrais. Os testes revelam que animais, cujo habitat é tão distante como os dugongos que vivem no sul da Austrália e os peixes-bois amazônicos, são descendentes de uma mesma linhagem, isto é, seus ancestrais são comuns. Isso tanto pode revelar que suas origens remontam a Gondwana, o supercontinente que teria antecedido a atual distribuição de terras secas no Planeta, como pode indicar que houve uma migração de longuíssima distância por parte desses animais, o que parece bem pouco provável.
De qualquer forma, a docilidade e a lentidão de movimentos dos peixes-bois quase os levaram a extinção. Os ribeirinhos da Amazônia viam (alguns ainda veem) no animal uma formidável fonte de proteínas de fácil acesso, de modo que a caça era generalizada, não respeitando quaisquer regras. Aproveitavam-se quando os animais vinham à tona respirar, colocavam em suas narinas tampões que os sufocavam, de modo que os bichos permaneciam na superfície o tempo necessário para serem mortos a pauladas. A crueldade da caça e o grande número de mamíferos abatidos levou as autoridades a proibir sua caça. Ainda que a proibição continue em vigor, é bastante normal no Mercado Público de Manaus, encontrarmos bancas de peixe vendendo carne de peixe-boi. A desculpa dos comerciantes é que o mamífero enroscou-se em uma rede destinada à captura de peixes e acabou se afogando, daí os peixeiros estarem aproveitando sua carne para comercialização.
O nosso peixe-boi é o único Sirenio que vive exclusivamente em água doce, os demais vivem em estuários onde as águas dos mares se misturam com as dos rios, ou vivem somente em água salgada. Por isso, como o manati é encontrável desde o litoral da Bahia até a Flórida, há uma zona de interseção de habitats nos deltas do Orinoco e do Amazonas onde o peixe-boi acaba convivendo com o manati. Pesquisadores do museu Emílio Goeldi de Belém encontraram, próximo a ilha de Marajó, um espécime que traz características de ambas as espécies, denotando que, mais do que convivência, houve cruzamento entre o manati e o peixe-boi. Embora o primeiro possa pesar até oitocentos quilos e o segundo não passe de trezentos. Como a natureza é sábia e não permite que a evolução dê saltos, o híbrido de duas espécies distintas como cavalo e asno, por exemplo, não é fértil, sua probabilidade de gerar descendentes é nula, assim, é estultice esperar que venhamos a ter uma nova espécie oriunda do cruzamento dos dois mamíferos marinhos. Portanto, o cruzamento de dois bichos tão diferentes é um mero acidente de percurso sem maiores consequências para a evolução das espécies, o equilíbrio da natureza não está ameaçado.
Por último, para infelicidade dele, um bicho que nem de longe parece peixe, muito menos boi, e é considerado por muita gente preconceituosa um monstrinho disforme e sem graça (feio) - ao contrário do panda, por exemplo - possivelmente não terá chance de sobreviver no nosso desumano mundo que, o mais das vezes, julga o valor dos outros pela aparência. Infelizmente o destino do simpático animal, que não é campeão de beleza por qualquer critério e que tem poucos predadores naturais, está à mercê dos piores e mais arrogantes seres que já pisaram o solo deste Planetinha azul. JAIR, Floripa, 22/10/11.

sábado, 29 de outubro de 2011

Canal Casiquiare




Como todos sabemos, rios são drenos naturais das terras do Planeta, eles escoam a água excedente de uma região em direção a outro rio, lago ou em direção ao mar. Um sistema de rios, com uma corrente principal e seus afluentes chama-se bacia hidrográfica. Por que bacia? Porque o formato geral do relevo aprofundado no meio e mais elevado nas “beiradas” lembra uma bacia. Nada muito estranho, portanto. Grandes rios como o Amazonas formam grandes bacias, aliás, a bacia Amazônica é a maior do Planeta, escoando para o oceano Atlântico algo em torno de até 300 mil metros cúbicos por segundo na estação chuvosa, com uma média de 209 mil metros cúbicos por segundo durante o ano. Pois é, além da bacia do rio Amazonas, aqui na América do Sul temos, mais ao norte, a bacia do Orinoco, segunda maior do continente e terceira do mundo. Então, além desses sistemas se situarem no mesmo continente, o que mais têm em comum? A resposta é: o mais surpreendente e estranho canal do Planeta, o canal Casiquiare.
Desde a descoberta do chamado Novo Mundo esses sistemas hidrográficos extraordinários exerciam um enorme fascínio sobre a mente de curiosos, botânicos, exploradores, aventureiros, catequistas e colonizadores europeus e eram objeto de suas incursões “científicas” ou meramente especulativas, de modo que já em 1639, o padre jesuíta Acuna relatou rumores acerca de um misterioso canal que ligaria o Orinoco ao Amazonas; e em 1744, outro jesuíta, o padre Roman, acompanhou alguns comerciantes de escravos portugueses que vieram da Venezuela para o Brasil por via fluvial através de um canal. Mas, somente em fevereiro 1800, o explorador Alexander Von Humboldt partiu da nascente do Orinoco navegou até o rio Negro, adentrou o Amazonas e chegou até sua foz. Estava formalmente descoberto o canal Casiquiare.
O canal Casiquiare de 320 quilômetros é o maior canal natural da Terra que liga dois grandes sistemas fluviais, e é possivelmente o melhor exemplo de bifurcação de um rio que pode ser visto em qualquer lugar. O rio Orinoco divide suas águas de forma que um terço do fluxo diverge de sua margem esquerda e dirige-se para a margem esquerda do rio Negro, tributário do Amazonas. Mas, o que é tão surpreendente sobre isso? Bem, sendo o rio Negro um afluente do rio Amazonas, o canal Casiquiare de fato forma uma ligação natural inusitada entre dois sistemas hidrográficos que, por natureza, formam e pertencem a geografias separadas e próprias. Bacias hidrográficas dessas magnitudes têm até climas próprios e regimes pluviais independentes, funcionam como se fossem dois mundos distintos e separados e em nenhum lugar do Planeta se unem de qualquer forma. E um elo entre esses sistemas é comparável à ligação de duas árvores em terrenos separados por muro alto que, unidas por um galho comum, fusão de galhos de ambas, trocando fluindo de seiva de uma para outra. Evento extremamente improvável, para não dizer totalmente em desacordo com a natureza.
Surpreendente? Sim, muito, mas nem tanto se atentarmos para mais uma excentricidade: o fluxo das águas do Casiquiare muda de direção de acordo com o regime de chuvas das bacias. Funciona assim: quando chove mais na bacia do Orinoco, suas águas sobem e o fluxo do Casiquiare dirige-se ao Negro. Mas quando as chuvas são maiores na bacia Amazônica e o rio Negro sobe, o Casiquiare reflui para o Orinoco, torna-se um afluente dele quando antes fora uma bifurcação. É o único rio (um canal de 320 quilômetros pode ser chamado de rio, sim) que se conhece que suas águas não descem apenas, elas fluem para lá e para cá de acordo com o regime pluvial, de forma que a margem direita e a esquerda permutam de nome entre si ao longo do ano.
O Casiquiare é uma curiosidade geográfica extraordinária, digna de ser registrada no “Blue Book of Curiosities”, um capricho especialíssimo da natureza e que não se encontra em outra parte do Globo. JAIR, Floripa, 07/10/11.