terça-feira, 13 de julho de 2010

A distância


Crônica da vida como ela é.

Um amigo meu, o qual em nome da longa amizade preservo a identidade, conservador como um mineiro d’antanho, mais tosco que escultura feita a machado, pai de duas exuberantes beldades, se viu na posição de conhecer o namorado da filha mais velha. Sabendo que o dito rapaz era campeão de jiu-jitsu de uma categoria respeitável, e, por isso, não via como encará-lo de forma a deixar claro quem era dono do terreiro; que sentia ciúmes e não permitiria qualquer avanço mais ousado em direção as virginais carnes de sua amada filha, lembrou-se que fora campeão de tiro num passado recente; e que jiu-jitsu é uma luta de contato.

Paramentou-se com as dezenas de condecorações e medalhas que detinha e, amedalhado, postou-se no sofá a espera do tal pretendente fortão. A filha, ao chegar, notou a parafernália e, meio constrangida com o mico, apresentou o namorado ao pai e vice-versa. Meu amigo, peito coalhado de comendas, postou-se a dois metros do lutador campeão e sentenciou: “Entre esta distância e qualquer outra maior eu acerto você, pense nisso”. JAIR, Floripa, 11/07/10.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Sobre a Bíblia


Como escrevi algumas vezes, a Bíblia é um apanhado de crônicas produzidas por pessoas diversas em épocas distintas e sobre assuntos os mais variados. Não é um compêndio científico, tampouco histórico, serve apenas como referência de usos e costumes de povos que viveram num passado que, por coincidência, era antes, durante e algum tempo depois da vida de Jesus. Não costumo publicar produtos de outros autores, mas o texto abaixo está tão interessante que resolvi colocá-lo aqui. É do livro “Ostra feliz não faz pérola” de Rubem Alves. Espero que ele me perdoe por copiá-lo.

Consultório bíblico
“Laura Schlessinger é uma conhecida locutora de rádio nos Estados Unidos. Ela tem um desses programas interativos que dá respostas e conselhos aos ouvintes que a chamam ao telefone. Recentemente, perguntada sobre homossexualidade, a locutora disse que se tratava de uma abominação, pois assim a Bíblia afirma no livro de Levítico 18:22 . Um ouvinte escreveu-lhe então uma carta que vou transcrever: “Querida dra. Laura: Muito obrigado por se esforçar tanto para educar as pessoas segundo a Lei de Deus. Eu mesmo tenho aprendido muito em seu programa de rádio e desejo compartilhar meus conhecimentos com o maior número de pessoas possível. Por exemplo, quando alguém se põe a defender o estilo homossexual de vida, eu me limito a lembrar-lhe que o livro de Levítico, no capítulo 18, versículo 22, estabelece claramente que a homossexualidade é uma aberração. E ponto final... Mas, de qualquer forma, necessito de alguns conselhos adicionais de sua parte a respeito de outras leis bíblicas concretamente sobre a forma de cumpri-las:
Gostaria de vender minha filha como serva, tal como indica o livro de Êxodo, 21:7. Nos tempos que vivemos, na sua opinião, qual seria o preço adequado?
O livro de Levítico 25:44 estabelece que posso possuir escravos, tanto homens como mulheres, desde que sejam adquiridos de países vizinhos. Um amigo meu afirma que isso só se aplica aos mexicanos, mas não aos canadenses. Será que senhora poderia esclarecer esse ponto? Por que não posso possuir canadenses?
Sei que não estou autorizado a ter qualquer contato com mulher alguma no seu período de impureza menstrual (Lev. 18:19, 20:18 etc). O problema que se me coloca é o seguinte: como posso saber se as mulheres estão menstruadas ou não? Tenho tentado perguntar-lhes, mas muitas mulheres são tímidas e outras se sentem ofendidas.
Tenho um vizinho que insiste em trabalhar no sábado. O livro Êxodo 35:2 claramente estabelece que quem trabalha no sábado deve receber a pena de morte. Isso quer dizer que eu, pessoalmente, sou obrigado a matá-lo? Será que a senhora poderia, de alguma maneira, aliviar-me dessa obrigação aborrecida?
No livro de Levítico 21:18-21 está estabelecido que uma pessoa não poderá se aproximar do altar de Deus se tiver algum defeito na vista. Preciso confessar que eu necessito de óculos para ver. Minha acuidade visual tem de ser 100% para que eu me aproxime do altar de Deus? Será que se pode abrandar um pouco essa exigência?
A maioria de meus amigos homens tem o cabelo bem cortado, muito embora isto esteja claramente proibido em Levítico 19:27. Como é que eles devem morrer?
Eu sei, graças ao Levítico 11:6-8, que quem tocar a pele de um porco morto fica impuro. Acontece que adoro jogar futebol americano, cujas bolas são feitas de pele de porco. Será que será permitido continuar a jogar futebol americano se usar luvas?
Meu tio tem uma granja. Deixa de cumprir o que diz o Levítico 19:19, pois planta dois tipos de sementes no mesmo campo, e também deixa de cumprir a sua mulher, que usa roupas de dois tecidos diferentes, a saber, algodão e poliéster. Além disso, ela passa o dia proferindo blasfêmias e maldizendo. Será que é preciso levar a cabo o complicado procedimento de reunir todas as pessoas da vila para apedrejá-los? Não poderíamos adotar um procedimento mais simples, qual seja, o de queimá-los numa reunião privada, como se faz com um homem que dorme com sua sogra, ou uma mulher que dorme com seu sogro? (Levítico 20:14). Sei que senhora estudou esses assuntos com grande profundidade de forma que confio plenamente na sua ajuda. Obrigado de novo por recordar-nos que a Palavra de Deus é eterna e imutável””.

domingo, 11 de julho de 2010

Pensando


Numa das mais cáusticas de minhas diatribes, na qual descrevi os desmandos que o Homo sapiens comete contra a natureza, me atrevi a inferir que uma formiga, numa visão formigal, contrária a visão antropocêntrica do homem, pensaria assim: “Afinal, para que servem os humanos?”. Complementando, quero dizer que o Planeta sem homens seria exuberante, mas sem os demais seres vivos o homem não sobreviveria. Então, para que servem os homens? Alguém se habilita a responder? JAIR, Floripa, 11/07/10.

sábado, 10 de julho de 2010

A Utopia


Anarquistas posando para foto.

Quando a revolução social se instalou em Palmeira.
Tenho a discutível honra de ter nascido na cidade de Palmeira, situada no planalto dos campos gerais do Paraná, local onde foi tentada na prática a única experiência de comunidade anarquista que se tem notícia na história da humanidade, a Colônia Cecília.
Tudo começou quando um movimento capitaneado por Giovanni Rossi, filósofo anarquista, pregava o anarquismo como forma de combater a pobreza, no norte da Itália em fins do século dezenove. Mas, vamos ver como o Brasil entra nessa jogada. Lembram que quando a Princesa Isabel aboliu a escravidão Don Pedro II encontrava-se na Europa? Pois é, o velhinho havia ido à Itália, em abril de 1888, para tratamento de saúde. Não é que Imperador toma conhecimento da obra “Il Commune in Riva al Mare”, de Rossi, e, logo ele um Monarca com pedigree impecável, mostra-se interessado pelo conteúdo humano dos escritos do revolucionário? Coisas que a História não consegue explicar. Os textos descreviam uma hipotética experiência anarquista em país americano, onde individualismo livre só cederia ao coletivismo se estivesse totalmente impregnado de egoísmo, onde o ideal de liberdade suporia amor livre, inexistência da propriedade privada, ausência de qualquer dogmatismo. Já em agosto, após o regresso ao Brasil, D. Pedro II escreve ao jovem professor, oferecendo-lhe oportunidade de efetivar, na região sul brasileira, na Província do Paraná, a consecução de seu ideal. Estava lançada a pedra fundamental do Anarquismo na minha cidade.
No Brasil, o Imperador havia implantado uma política de migração de europeus pobres com intuito de ocupar áreas de solo fértil e escassamente povoadas. Dizem que por trás da nobreza do gesto estava a intenção de “branquear” a população brasileira através da miscigenação, contudo, nada se comprova a respeito. Como havia fracassado uma primeira tentativa de trazer colonos alemães para o município de Palmeira, o Monarca resolveu oferecer aos seguidores de Rossi trezentos alqueires de terra antes destinados aos germanos. Veio o último baile da Ilha Fiscal, o Império ruiu, a República se instalou, mas a oferta do Imperador continuou em pé.
Na Itália, Rossi, através do semanário Lo Sperimentale, continuava sua campanha de convencimento junto a intelectuais, lavradores pobres e financiadores com a meta de conquistar pessoas para o experimento. Diga-se, Rossi e os demais utopistas eram perseguidos pelo poder e não tinham uma vida fácil, uma razão a mais para ansiarem por fazerem as malas. Enfim, a 20 de fevereiro de 1890 zarparam de Gênova cerca de 150 anarquistas italianos. Chegando ao planalto dos campos gerais, instalaram-se no que seria o núcleo Cecília em abril de 1890. Com o lema, “Um ideal na cabeça e solo fértil sob os pés” fundaram o que seria a primeira colônia agrícola anarquista do Planeta. Estava iniciada a Utopia!
Concluídas as habitações individuais para os casados, e coletivas para os solteiros, dividido racionalmente o trabalho, respeitando a habilidade individual de cada um, iniciou-se o plantio de milho, produto ideal para o cultivo naquelas circunstâncias. No começo, tiveram condições de subsistirem e laborarem a terra graças aos poucos recursos que trouxeram, aos instrumentos de trabalho que adquiriram e à compra de sementes e mantimentos. No entanto, viram-se obrigados, mais tarde, a procurar tarefas que lhes proporcionassem o sustento até que pudessem viver tão somente das atividades do núcleo. Os anarquistas concentrados, uns na lavoura, outros em empreitadas contratadas junto ao governo para a construção da estrada de rodagem Serrinha-Santa Bárbara, recebiam salários semanais que auxiliavam os companheiros da Colônia. No suor de cada dia, os anarquistas plantaram mais de oitenta alqueires de chão, na área em que lhe foi cedida, mais dez quilômetros de estrada construíram com pás, picaretas e carrinhos de mão, em época onde inexistiam máquinas nem tratores. Um barracão coletivo, vinte barracões individuais, celeiros, casa da escola, moinho de fubá, tanque de peixes, pavilhão coletivo, que também servia de consultório médico, viveiro de mudas, poços, valos, pomar de peras, estábulos, tudo denunciava dinamismo. Proporcionalmente ao suor do trabalho, cresceu a interação das famílias com a população das cidades circunvizinhas.
Só que, se o trabalho duro sem tréguas lhes trouxe alguma esperança de conquistar seus sonhos, o mesmo não acontecia quando se tratava da relação com os poderes, secular e religioso; também não contavam com a iniquidade humana nas suas próprias fileiras. Já os padres de Palmeira queriam chamar a colônia de Santa Cecília, denominação frontalmente contrária ao espírito laico da comunidade; também insistiam no intento de batizar as crianças ali nascidas, evento que os anarquistas se opunham. As autoridades municipais, por sua vez, davam ouvidos a boatos que ali se praticava o “amor livre”, verdadeira aberração que ofendia a pudicícia da sociedade palmeirense. Não fossem esses contratempos, o governo da República não havia honrado compromisso que o Império assumira de fornecer escrituras definitivas das terras aos anarquistas; e, mais ainda, surgiram na colônia desavenças sérias sobre uso dos recursos comuns que, produto do labor de todos, eram guardados para uso coletivo. José Gariga, tesoureiro e agente de compras nas cidades vizinhas, sumiu e levou com ele o que havia na caixa comum, deixando a comunidade a ver navios. No somatório de crises que vivia o núcleo, o furto representou a mais considerável, porque violentou a ordem anárquica dominante. A semente da desconfiança nascera com o episódio, e poucos demonstraram interesse em tentar tudo de novo, partindo do zero, sem dinheiro e sem confiança no próximo. Oportunidades de trabalho em outras comunidades, vantagens materiais em cidades servidas de luz, água, diversões, fizeram com que o núcleo fosse, aos poucos, abandonado. Em 1897 o sonho estava acabado.
A utopia terminou e uns poucos colonos continuaram vivendo na colônia que passou a plantar e colher uvas do modo tradicional, e a fazer um vinho até palatável para sobreviver. E aqueles que saíram, o que foi feito deles? Bem, Mezzadris, Agottanis, Gubertis, Fornaris e outros decidiram se instalar em Palmeira e seus descendentes se mesclaram com os locais e lá vivem até hoje. Uns poucos se dispersaram pelo país e alguns se tornaram empresários como os Rossi que fundaram a fábrica de armas; os Cini montaram uma empresa de refrigerantes em Curitiba; os Gattai foram para São Paulo e deram origem a Zélia, escritora de sucesso e mulher de Jorge Amado. Aliás, a experiência anarquista de seus antepassados deu azo para que ela escrevesse, “Anarquistas, graças a Deus”, livro que virou best seller.
E nós, palmeirenses sem vínculos étnicos com os italianos “rossistas”, que não partilhamos genes com eles, herdamos do anarquismo certa rebeldia que sempre permeou nossa cidade e nos contaminou. Não toleramos peias, somos indomáveis frente a autoridades despóticas, aliás, somos contra autoridades simplesmente. Portanto, saímos no lucro. JAIR, Floripa, 07/07/10.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Vida alternativa


Amishs arando no melhor estilo século dezenove.

Nestes tempos em que muitas pessoas se voltam para uma vida mais simples, mais natural, ecologicamente correta, menos agressiva ao meio ambiente, não há como não lembrar de uma comunidade que faz isso, com grande êxito, há séculos, os Amish. Mesmo comunidades de “bichos grilo”, de ex-hippies, veganos e outros naturebas podem sequer comparar-se de longe com esses radicais alternativos.

A maior comunidade Amish vive em terras altamente produtivas no condado de Lancaster na Pensilvânia desde 1720, mas existem outras comunidades em 23 estados americanos e uma no Canadá.

Donde surgiram essas pessoas que vivem na era pré industrial, pré eletricidade e pré automóvel? Pois é, quando Lutero rompeu com a igreja católica e fundou uma nova ordem religiosa que se convencionou chamar “protestantes”, o movimento que se seguiu cindiu-se em várias frentes umas menos outras mais radicais. Em 1536, um jovem padre católico da Holanda chamado Menno Simons se juntou ao movimento anabatista que professava o “rebatismo” de pessoas que haviam sido batizadas antes do uso da razão, e, em seguida fundou uma igreja ainda mais exigente, os Menonitas. Dessa dissidência nasceu a mais radical igreja cristã, os Amish. Estes grupos anabatistas foram duramente perseguidos em toda a Europa. Milhares foram mortos como hereges tanto por católicos como por protestantes. Para evitar esta perseguição muitos fugiram para as montanhas da Suíça e do sul da Alemanha. Ali começou a tradição Amish da agricultura e da exploração dos seus serviços de culto nos lares ao invés de igrejas. Quando Wiliam Penn, fundador do estado que passou a chamar-se Pensilvânia, convidou-os para se estabelecerem lá, eles não pensaram duas vezes, mudaram-se de mala e cuia para os USA, onde fundaram a colônia que existe até hoje.

Os Amish são muito devotos, eles acreditam na interpretação e aplicação literal das escrituras. Eles acreditam que o mundanismo, ou seja, tudo que cheire a modernidade, pode impedi-los de estar perto de Deus, e pode introduzir influências nocivas nas suas comunidades e ao seu modo de vida. São agricultores notáveis, no entanto, não têm eletricidade em suas casas, não usam telefone, rádio ou televisão, automóveis, implementos agrícolas modernos ou qualquer objeto tecnológico que, remotamente, lembre “mundanismo”, seja lá o que eles entendam que é isso. Informática então, nem pensar.

Eles preferem viver da agricultura justamente porque esta está ligada ao mais fundamental, à terra. Eles sentem que seu estilo de vida e de suas famílias pode ser melhor mantido em uma vila rural usando apenas mulas nos seus arados e colheitadeiras do século dezoito. Em comparação com a nossa sociedade de ritmo rápido, a vida simples dos Amish, centrada na família tem um fascínio inspirador. Apesar de viverem no país mais tecnologicamente desenvolvido do Planeta, onde ocorreram as maiores mudanças em todos os setores, eles ainda vivem e trabalham tal qual seus antepassados. Suas famílias e suas fazendas são suas prioridades, perdendo apenas para Deus.

Sua separação do resto da sociedade contribui efetivamente para reforçar a sua comunidade. Socializar constitui uma parte importante da vida Amish. Os Amish têm um forte senso de espírito de comunidade, e muitas vezes vêm em auxílio daqueles que precisam. Vizinhos dão livremente seu tempo e suas habilidades para ajudar um ao outro. Os Amish são geralmente pessoas reservadas e, muitas vezes prestar atenção e curiosidade sobre seu estilo de vida perturba-lhes, eles não gostam. Eles acreditam que a tomada de fotografias em que alguém é reconhecível é proibido pelo veto bíblico contra fazer qualquer tipo de "imagem de escultura". Também são pessoas pacíficas, não usam armas e abominam a violência. O atentado de outubro de 2006, quando o atirador, identificado como Charles Carl Robert, de 32 anos matou três crianças de uma escola Amish ilustra bem esse fato: Os Amish simplesmente perdoaram o assassino.

Vestem-se com roupas despretensiosas, o que lhes valeu o nome de "pessoas simples". Muitos de nós temos curiosidade em saber como essas pessoas podem sobreviver em seus caminhos supostamente retrógrados. Aí é que as pessoas se assombram: Eles não apenas sobrevivem, eles estão prosperando! E muito. Mesmo durante a crise mundial que se abateu sobre os USA e o resto do mundo recentemente, os Amish continuaram vendendo muito bem seus produtos naturais e prosperando. A comunidade Amish conta com muitos milionários, ainda que continuem vivendo do básico, sem ostentação.

Com a atual “onda” ocidental em restaurar na nossa sociedade "valores da família”, muito pode ser aprendido com o estudo do modo de vida Amish. Sua devoção à família e comunidade e sua forte ética de trabalho são bons exemplos para a nossa sociedade em geral, mesmo abstendo-se do lado religioso radical, seus valores estão acima da média de qualquer sociedade ocidental. JAIR, Floripa, 05/07/10.


sábado, 3 de julho de 2010

É o seguinte...



A nova guerra do Paraguai.

Ao contrário do que se diz por aí, futebol não é uma caixinha de surpresas, ganha quem faz mais gols. Entretanto, longe de ser uma ciência exata, tem regras não escritas que, uma vez desrespeitadas, trazem o dissabor da derrota para quem ousar violá-las. O resultado do jogo Brasil e Holanda ilustra perfeitamente o quero dizer a respeito das regras não explícitas, mas invioláveis: Futebol se joga de chuteiras, olhaí vou repetir, DE CHUTEIRAS, filhotes de Dunga. Outra regra não escrita: resultado parcial de um a zero não significa vitória nem em Bangladesh ou Faxinal dos esquecidos.

Pois é, os filhotes de Dunga ignoraram essas regrinhas, obtiveram um gol no primeiro tempo, e quando voltaram do vestiário, inexplicavelmente, calçavam salto quatorze. Levaram um banho das laranjas nem um pouco mecânicas. Bem de acordo com a época, as laranjas agora são cibernéticas, informatizadas, ou qualquer coisa nesse sentido, contudo, não esqueceram como se joga futebol e observaram as regras, deu no que deu.

em Alemanha X Argentina, ficou claro, mais uma vez, que arrogância não ganha jogo. Os argentinos movidos pela empáfia de um gnomo travestido de técnico, esqueceram de jogar contra um time que, mesmo com larga margem a favor no placar, jogou visando o gol como se perdendo estivesse. O resultado foi uma lavada histórica na celeste.

Voltam prematuramente para casa dois times que se alimentavam de mitos criados por um futebol bem jogado num passado que rendeu glórias e títulos a ambos. Confiar na arrogância, calçar sapatos altos e esquecer como se joga, não é, definitivamente, opção para quem quer ganhar o caneco numa disputa de caráter mundial.

O Paraguai, futebolisticamente falando, deveria estar alegre com as derrotas desses possíveis adversários nas semifinais. Pelo lado histórico, esses países, juntamente com o Uruguai, dizimaram o povo paraguaio numa guerra cujas origens até hoje não foram claramente explicadas. Uma guerra cujos documentos permanecem secretos até hoje, suscitando especulações as mais estranhas possíveis. Uma guerra na qual os combatentes paraguaios não foram derrotados e nem se renderam, foram extintos e, por falta de soldados e até de população ativa, pararam de lutar. Os paraguaios não são melhores nem piores do que argentinos e brasileiros, deixaram a Copa na mesma condição, mas lutaram a boa luta e voltaram para casa com a cabeça erguida conscientes que fizeram uma ótima campanha. Se tudo der certo, guaranis, uruguaios, brazucas e platinos, se verão em 2014 para uma guerra onde não haverá sangue nem lágrimas, e o melhor vencerá. Até lá! JAIR, Floripa, 03/0710.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Os lemingues e o México


Lembro-me que, quando criança, uma das histórias que mais achei interessante foi a dos lemingues. O lemingue é um roedor parecido com o porquinho-da-índia que vive na Escandinávia e que, de tempo em tempos, por uma razão ainda não explicada, desloca-se em massa numa migração amoque que leva grande quantidade deles à morte. Como as costas dos países nórdicos, Noruega, Finlândia, Suécia e uma parte da Rússia, são caracterizadas pela existência de fiordes, formações que determinam barrancos abruptos no encontro da terra com o mar, os lemingues que chegam aos fiordes normalmente caem das pirambeiras e morrem afogados.
Muitas são as teorias que tentam explicar porque os lemingues se comportam dessa maneira “suicida”. Alguns cientistas acham que uma superpopulação e escassez de alimentos podem ser a causa, contudo, há escassez sazonal de alimentos anualmente e os lemingues procriam menos nessas ocasiões, mas não saem feitos loucos a procura de víveres que eles sabem que não existem. Essa teoria não é aceita pela maioria dos estudiosos, há uma explicação que atende melhor o que acontece.
A migração não parece ter peridiocidade regular, acontece a cada dez, doze e até vinte anos. Quando das migrações, normalmente há muito alimento disponível e os bichos estão saudáveis e se reproduziram em abundância. Então eles saem em multidões para os lados donde, há milhões de anos, havia terra e hoje só existe mar. Houve um aumento do nível das águas a cerca de trinta milhões de anos, a as terras a oeste ficaram submersas. O que se deduz é que os animais migram para essas terras agora inexistentes, terras que seus ancestrais ocupavam em tempos remotos. Parece que existe em seus genes uma mensagem específica que diz, vá para o oeste lá tem espaço para a expansão populacional e comida de montão. Os bichos vão para o oeste e muitos acabam morrendo.
Como escrevi em texto anterior, o México perdeu mais da metade de seu território pelas anexações que os EUA, fizeram em decorrência da guerra de 1846 a 1848 e por espoliação pura e simples mesmo. Grande parte do que hoje é o sul do irmão do norte já foi o México. Os mexicanos talvez não saibam, mas o comportamento de muitos tem semelhança com o dos lemingues. Eles vão para o norte, direção de terras que antes eram suas, e adentram o EUA obedecendo um impulso atávico gravado em suas memórias sociais. Eles estão apenas fazendo o que fariam a duzentos anos, deslocando-se para terras mexicanas, nada mais.
Lemingues e mexicanos migrantes não partilham uma herança genética comum que determina suas vocações a deslocamentos; mexicanos não estão programados geneticamente a ocupar espaços “seus” melhores em certas épocas; o que eles fazem é acreditar que se deslocando para o norte encontrarão melhores oportunidades de trabalho e uma vida mais fácil. O que mexicanos e lemingues partilham é a incerteza; a possibilidade de, num outro lugar encontrarem um Éden; e, mais ainda, ambos quase sempre se dão mal. O lemingues pelos despenhadeiros mortais a sua frente, e os mexicanos pela ação enérgica do ICE (Immigration and Customs Enforcement) agência de investigação do Departamento de Segurança americano. Formado em 2003, a missão do ICE é proteger a segurança do povo americano e o país por vigilância da imigração ilegal nas fronteiras, quase sempre fronteiras mexicanas.
Assim, os lemingues mexicanos, qualquer que seja a época estarão tentando migrar para terras mexicanas e, sempre que conseguem, estimulam outros cidadãos lemingues tentarem a sorte também. Estados sulinos americanos, um tanto desérticos, um tanto possuidores de reservas petrolíferas e, de resto, desenvolvidos como os demais, atraem os mexicanos pobres e, de certa maneira, os acolhem, a composição étnica desses estados comprova isso. Talvez um terço da população desses estados seja composta de mexicanos.
Se os EUA mantiverem a política de vistas grossas quando se trata de ilegais já estabelecidos no seu território, os lemingues mexicanos estarão reconquistando uma terra que já foi sua e onde eles merecem viver. JAIR, Floripa, 01/07/10.