terça-feira, 15 de junho de 2010

Sobre Futebol



Clima de copa do mundo, todos respirando futebol, nada mais próprio do que lembrar João Saldanha (1917 – 1990), gaúcho de Alegrete, mas de vida familiar e profissional no Rio de Janeiro desde os 14 anos. Falar de futebol sem citar Saldanha é o mesmo que degustar a sobremesa sem comer o prato principal. Seu pai, amigo de Getúlio Vargas, foi contemplado com um cartório na zona sul do Rio, razão pela qual Saldanha pertencia a classe média alta. Comentarista polêmico, botafoguense, ex-jogador profissional, jornalista, escritor, erudito, formado em direito e filiado ao PCB sem ter sido militante. Nas eliminatórias de 1970 era técnico da seleção brasileira e classificou o Brasil invicto com um time conhecido como “as feras de Saldanha”, diz a história que o Presidente Médici mandou defenestrá-lo porque não ficava bem ao Brasil ser campeão tendo como técnico um comunista. Vejamos o que o Saldanha declarou a respeito: “Eu sabia que a Seleção estava desmoralizada. O Maracanã não enchia nem contra a Seleção da FIFA, nem contra a Argentina. O povo não acreditava mais. Eu achava que devia promover o nosso futebol. Provocar, chamar a atenção pra cima da gente, pra cima de mim se fosse preciso. Fui por aí, enfrentando as paradas. De repente surgiu uma crise. Se me perguntarem hoje porque fui demitido, palavra de honra, juro pela Teresa e pelas crianças que não sei. Porque não me deram nenhuma explicação, tentaram fazer com que eu pedisse demissão. Disseram que a Comissão Técnica estava dissolvida”.
Pois bem, havia quem não gostasse dele, havia quem o achasse pedante, havia quem o acusasse de comunista, havia os que viam nele um bon vivant rico que apenas curtia a vida, outros diziam ser um play boy bem sucedido meio falastrão e irresponsável, contudo, uma coisa ninguém pode negar, o cara era profundo conhecedor da história dos esportes, com justiça muitas vezes chamado de enciclopédia do futebol.
Escrevia crônicas sobre história do futebol e esportes em geral recheadas de informações interessantes e curiosas. Uma dessas crônicas, “Tirem o Bedel!”, quero comentar aqui. Pois bem, existem perguntas pertinentes que os apreciadores do futebol às vezes fazem e não encontram respostas como: Por que onze jogadores? Por que dois tempos de 45 minutos cada? Na crônica, João Saldanha, contando a história recente do esporte bretão, dava uma bela pincelada nos fatos que originaram onze jogadores e 45 minutos por tempo num jogo.
Conta ele que, no início, na Inglaterra, no ano de 1848, numa conferência em Cambridge, estabeleceu-se um único código de regras para o futebol. No ano de 1871 foi criada a figura do guarda-redes (goleiro) que seria o único que poderia colocar as mãos na bola e deveria ficar próximo ao gol para evitar a entrada da bola. Em 1875, foi criada a regra do tempo de 90 minutos. O tempo duração do jogo assim ficou estabelecido porque o jogo era praticado, como esporte obrigatório, pelas escolas das elites inglesas onde o tempo de duração das aulas era cinquenta minutos. Quarenta e cinco minutos de jogo e cinco para preparação, com dois tempos para dar revanche ou desempatar. Como as turmas eram formadas por vinte alunos, dez de cada lado. E o goleiro? Bem, lembram da figura do bedel? Aquele carinha chato que era uma espécie de inspetor responsável pela disciplina de cada turma? Pois é, durante o inverno, quando o esporte tinha também a finalidade aquecer os meninos ricos ingleses, era impraticável colocar um deles paradão entre as traves, congelando, então colocaram o bedel. O bedel era, afinal, apenas um empregado, podia ficar com frio e tornou-se o décimo primeiro homem em campo.
Assim, turmas de 20 alunos definiram a quantidade de jogadores e duração de 50 minutos de aula estabeleceram o tempo de cada metade do jogo, nada misterioso ou cabalístico como alguns podem pensar. Nada a ver com o tamanho do campo, pois este variava muito na época até que, finalmente, foi regulamentado pela FIFA em terreno de 90 a 120 metros de comprimento e de 45 a 90 metros de largura, mas para partidas internacionais a entidade recomenda as seguintes medidas: entre 100 e 110 metros de comprimento, e entre 64 e 75 metros de largura.
O que vale é que o João Saldanha era uma autoridade em futebol, senão como jogador ou técnico, pelo menos como historiador e estudioso. Esta é uma homenagem a esse gaúcho carioca que respirava o esporte mais popular do Planeta e a ele dedicou sua vida, e que morreu como queria, depois de comentar a copa faleceu em Roma em 12 de julho de 1990. JAIR, Floripa, 15/06/10.

sábado, 12 de junho de 2010

O Beijo.


Foto e escultura "O Beijo".

Em San Diego, um belo passeio cultural que se pode fazer é visitar o Museu Porta-aviões Midway, atracado na baia da cidade. A enorme belonave transformada em museu foi construída em 1960 e recebeu o nome de Midway em homenagem a famosa batalha de junho de 1942. Visitei o super organizado museu, mas não é esse o assunto do texto.
Nos entornos da baia de San Diego há uma atmosfera militar que nos remete à guerra, a armas, batalhas e afins. Assim, ao lado do Midway há uma escultura de oito metros de altura de um marinheiro beijando uma enfermeira, e é sobre isso que quero falar.
No final da Segunda Guerra Mundial, quando foi anunciada a rendição do Japão, e o povo americano em euforia comemorava a vitória nas ruas, o fotógrafo Alfred Eisenstaedt fez uma foto, que se tornou famosa, de um marinheiro beijando uma jovem enfermeira na Times Square de Nova York. "O Beijo", como ficou conhecida a foto, retrata o instante no qual a enfermeira Edith Shain de 26 anos era beijada por um marinheiro que, empolgado, distribuia beijos a todas as moças naquele momento. Curiosamente, nunca se soube a identidade do marinheiro, já a enfermeira esteve no mesmo local em 2005 para inauguração da estátua “O Beijo” e contou que havia dado um tapa no rosto do ousado marujo.
Em 2005, quando o artista J. Seward Johnson foi convidado a participar na exposição anual de esculturas de grande escala exibidos ao longo do Bayfront em Sarasota, na Flórida, ele decidiu recriar a foto numa escultura de 26 pés de altura. Essa obra, reproduzida em várias cidades americanas, encontra-se numa praça ao lado do Midway e é uma atração que ninguém deve perder.
Evoco a escultura e a simbologia que ela representa neste dia em homenagem a todos os namorados, namoradas e românticos de todo mundo. JAIR, Floripa, 12/06/10.

A fama da calçada


Na Calçada


Com franqueza, não se enquadra no meu perfil; não é o tipo de roteiro cultural que eu faria espontaneamente; nunca imaginei, nunca mesmo, ir a Los Angeles e, muito menos, visitar o caminho das famosidades, a tão decantada Calçada da Fama. Situada ao longo das ruas Hollywood Boulevard e Vine Street no bairro de Hollywood, Califórnia, EUA, onde o chão é constituído por mais de duas mil lajes com estrelas, onde estão gravados nomes de celebridades honradas pela Câmara do Comércio de Hollywood pelas suas contribuições para a indústria do entretenimento.

Bem de acordo com o espírito comercial de tudo que se faz em Hollywood, os homenageados na calçada são atores, atrizes, diretores e produtores, músicos, dramaturgos, cantores, escritores, roteiristas, coreógrafos e que tais, os quais trazem ou trouxeram alguma arrecadação para a cidade em função de suas atividades artísticas.

Como a atração é muito conhecida no Planeta todo, milhares de pessoas chegam a LA literalmente TODOS os dias para conhecer a calçada, tirar fotos do marco HOLLYWOOD pespegado no morro e conhecer Beverly Hills, bairro elegantérrimo onde moram os astros.

Pois é, como nem sempre mandamos no nosso destino, ainda mais quando se trata de turismo, acabei indo parar em Irajá, ou melhor, em LA em um curto passeio de menos de um dia.

Na mesma Hollywood Boulevard encontra-se o não menos conhecido Teatro Chinês que é onde a cerimônia de entrega do Oscar se realiza. Na frente desse teatro de arquitetura original, suntuosa e exagerada, encontra-se o pedaço de calçada onde as celebridades imprimem baixos relevos de seus pés e mãos no cimento fresco. Ao lado, o não menos conhecido e apreciado Museu de Madame Tussaud, onde os famosos estão reproduzidos em cera, com uma espetacular técnica de modo a representá-los, não só com aparência natural, mas numa atitude como se estivessem congelados um momento trivial de suas vidas cotidianas ou profissionais, nada de poses estudadas. As estátuas de cera são tão convincentes que é justo classificá-las como clones perfeitos das pessoas. Assim, John Wayne, Marilyn Monroe, Humphrey Bogart e James Dean, dividem espaço com Barack Obama, JFK e Bin Laden, numa mistureba eclética e interessante, vale a pena visitar o museu.

Como corolário, toda a frente do teatro e do museu é tomada por atores amadores – aqueles que vão a LA em busca de um lugar à sombra – fantasiados dos mais variados personagens de filmes, desde Cinderela, Shrek e Mikey Mouse até Edward Mãos de tesoura e Avatar. O perverso dessa “operação cinema” é que os atores fantasiados cobram – em geral cinco dólares – para serem fotografados. Os desavisados turistas, ao apontarem suas câmeras com o fito de registrarem o passeio, são forçados a posarem ao lado dos personagens e obrigados a pagar pela foto. Milhares de dólares por hora fluem dos bolsos dos visitantes para as mãos dos fantasiados. Calcula-se que cada um daqueles achacadores morde algo em torno de cem mil dólares, não declarados, ou mais por ano. É uma soma considerável, mesmo para os padrões de uma cidade cara como LA.

Então, lá estamos nós os brasileiros embasbacados, não pela calçada, mas sim pelo fluxo ininterrupto de turistas embasbacados pisando o solo sagrado onde os U$ são o Deu$ $upremo; onde mitos como Michael Jackson levantam do túmulo tantas vezes por dia quantas necessárias para fazer o “plim” na máquina registradora; onde um simples nome gravado no cimento é mais valorizado que um quilo de ouro; onde fama e dinheiro são sócios e fundem-se numa amálgama indiscernível que obnubila as mentes mais lúcidas dos passantes, os quais, literalmente, obnubilam o chão que, afinal, é apenas um piso sem maiores atrativos, contém apenas nomes gravados. Lá estávamos, quando recebi o insight: Na verdade, o que atrai os visitantes para cá não é a Calçada da Fama, e sim a fama da calçada, nada mais. JAIR, Floripa, 02/06/10.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O Cassino


Meu crachá

Nos USA, em geral, as leis estaduais se sobrepõem às federais se a matéria não for constitucional, o que, aliás, é muito frequente, visto que a Constituição se compõe de apenas sete artigos e vinte e quatro emendas.

Essa “liberalidade” legislativa se deve, evidentemente, à forma confederada de Estado adotada, nada anormal. Comparando, aqui no Patropi, nossa formação federativa de Estado determina a submissão legislativa absoluta dos estados à Constituição e às leis menores, não se podem contrariar matérias federais quaisquer que sejam.

Então, lá no irmão do norte, como a Constituição é omissa com relação a jogos de azar e, segundo o princípio que tudo que não é proibido é permitido, os estados legislam ao sabor das vontades dos eleitores matérias referentes a cassinos e apostas de modo geral. Há estados que proíbem jogos e há estados que os permitem, na Califórnia os cassinos são legais, mas só em “Reservas Indígenas”.

Opa! Reservas Indígenas? Sim, caros leitores, Reservas Indígenas, mais do que espaços físicos áridos onde se confinam os americanos naturais, são “pessoas jurídicas” de direito público onde constam índios como integrantes de uma comissão, uma espécie de clube cuja diretoria é constituída de Navajos, Seminoles, Sioux, Moicanos, Dakotas etc. As Reservas gozam de certa autonomia administrativa e funcionam como se fossem “Zonas Francas”. Essa flexibilidade conceitual do que é uma Reserva Indígena permite que se construa um cassino em plena Downtown, sem contrariar a legislação, desde que o local pertença aos índios por aquisição.

Dentro do princípio legal e consoante à liberdade individual dos que querem jogar, e de acordo com o apetite de arrecadação do estado, existem pencas de cassinos na Califórnia. A economia de San Diego, não está submetida à exploração de cassinos como Las Vegas, mas lá existe uma meia dúzia deles.

Assim, o turista que vos escreve não poderia deixar de conhecer uma casa onde se explora a jogatina sob o falso pretexto de diversão. Fomos a um. Mas como funciona realmente um cassino? Lá no Sycuan Cassino, como na maioria das casas de jogos, você, o potencial jogador, o cara que vai deixar o dinheiro nas máquinas e nas mesas, tem que ser seduzido, conquistado, tem que sentir-se confortável e até paparicado se for o caso. Você será alvo de todas as atenções, se assim o desejar.

Para seu conforto, ao adentrar o ambiente, você tem duas opções. A primeira é ser um jogador anônimo que perde ou ganha e não precisa ter contato com nenhum funcionário da casa, joga a dinheiro e, se ganhar, as máquinas e as mesas fornecem um “vale” automático que lhe dá direito de trocar por dólares em caixas eletrônicas próprias para isso ali mesmo nas salas de jogos. Se perder, ninguém fica sabendo, o anonimato é respeitado. A outra opção é identificar-se e receber um crachá de “sócio” que lhe dá direito a certas regalias. Agora como “sócio” você tem direito a uma refeição, independente da hora. Não um lanchinho qualquer ou um tira-gosto, mas uma lauta refeição tipo self service, com dezenas de pratos quentes e frios, sobremesas, refrigerantes e sucos ao gosto do freguês e sem hora para terminar, significa que você pode passar o tempo quiser comendo sem ser incomodado.

Vejamos o jogo propriamente, por ser “sócio” você não é obrigado a jogar, mas se o fizer, poderá colocar o crachá no lugar apropriado da máquina e esta registrará quanto você jogou, quanto ganhou ou perdeu e vai somando pontos à sua conta, de modo que ao atingir certa cota você terá direito a nova refeição, a qualquer dia de sua existência. Essa “liberalidade” visa estimular seu retorno.

Quanto ao ambiente físico da casa, cabem algumas observações. Os imensos salões estão sempre abarrotados de máquinas e mesas, em qualquer direção que se vá, seja ao banheiro, ao bar ou à sala de estar as tentações estão presentes, não há como “desligar-se” da atmosfera de luzes e sons convidativos ao jogo e que estimulam o estado de vigília, não há como sentir sono. Nas máquinas se pode jogar a partir de um cent, é uma atrativa maneira de induzir os pobres ao jogo. O ar condicionado é perfeito, não há qualquer variação seja inverno ou verão, dia ou noite. Por falar em dia e noite, não há janelas, não há como se ter referências externas, fica-se confinado num agradável ambiente acarpetado onde inexistem relógios ou meios que permitam “sentir” o exterior.

Contam-se histórias de jogadores compulsórios que passam dias jogando, apenas comendo e bebendo, sem dormir. Pelos exageros que custaram saúde, fortunas e, às vezes vidas, o povo da Califórnia exigiu, e o poder público acolheu, agora não são permitidas caixas eletrônicas de bancos dentro dos cassinos, se você quer jogar leve seu dinheiro em cash, nada de cartões de crédito.

Pois é, antes de entrar no Sycuan, estabeleci que ia jogar no máximo vinte dólares, perdi dezesseis, me diverti muito e saboreei uma deliciosa refeição, minha mulher jogou três dólares e ganhou sessenta e dois. Custo-benefício positivo, mas voltar, talvez daqui a três anos, não é a minha praia. JAIR, Floripa, 09/06/10.


domingo, 6 de junho de 2010

México


Pagando mico em Tijuana

Dia primeiro de maio de 2010, passou a vigir resolução diplomática que deixa de exigir visto de brasileiros que queiram entrar no território mexicano, e tenham visto americano. Aliás, decisão inteligente, já que a exigência que se fazia de visto para aquele país era, justamente, para evitar que brasileiros atravessassem a fronteira mexicana com destino aos EUA. Se o indivíduo tem permissão para entrar nos EUA ou já está em seu território seria necedade proibi-lo de entrar no quintal do vizinho, não é mesmo?

Então, em seis de maio fomos, eu e minha mulher, a San Diego, Califórnia, ali pertinho do México, tão perto que parte da Califórnia e do Novo México, estados americanos, já foram territórios mexicanos.

Em 1853, depois de uma guerra cruenta, de 1846 a 1848 entre os EUA e o México, foi completada a anexação de territórios do México iniciada com a incorporação do Texas, motivo da guerra. Metade do território mexicano havia sido perdida para os Estados Unidos, (Remember Alamo!). Lázaro Cárdenas, presidente mexicano (1934-1940), comentou em relação ao imperialismo norte-americano: "Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos"

Essa frase reflete o sentimento à época em que o México tinha perdido grandes porções do seu território para os EUA, por isso a alusão à proximidade com aquela nação, e a referência a Deus deve-se a fase de rebeliões com muitos crimes, muita insegurança que ocorria no México àquela época.

A frase tornou-se famosa e é evocada pelos mexicanos sempre que querem fazer alusão ao abismo econômico e social que separa os dois países de extensa fronteira comum. Fronteira que menos impede e mais estimula a migração de mexicanos em busca de uma vida supostamente melhor.

Então, estávamos ali em San Diego, onde existe um trolley elétrico que vai até às portas de Tijuana por apenas cinco dólares, e as restrições já não existiam, por que não ir? Fomos. Minha expectativa era que o México real de fronteira não fosse aquele estereótipo que vemos em filmes americanos: Ruas sujas e mal ajambradas com lojas humildes, operadas por gente feia e meio desonesta, vendendo tacos e tequila a turistas e tentando enganar os fregueses “ricos” como são todos os americanos. Minha esperança era que o México de fronteira fosse mais como Guadalajara, cidade bonita e organizada onde estive na década de noventa.

Bem, chegando ao fim da linha do trolley, adentramos o México por uma passarela toda fechada como se um túnel fosse. E daí a surpresa, ou falta dela se quisermos. Tijuana lembra exatamente aquele retrato feio que os americanos pintam, nada tem a ver com Guadalajara. Ruas ruins e gente esquisita querendo “assaltar” no bom sentido (às vezes no outro sentido também), os turistas. Dezenas de farmácias, umas coladas nas outras, com atendentes implorando para que você adquira remédios que necessitam de receitas nos EUA e aqui não.

Curiosidade, na rua principal de Tijuana, calle Ignacio Zaragoza, nos dois lados, em todas as esquinas, existe “zebras” vivas nas calçadas, sobre as quais o passante pode montar e tirar fotos a preço de dois dólares cada. Zebras? É possível isso? Na verdade, uma bizarria, burros brancos pintados com listras pretas à moda de zebras. Por incrível que pareça, vi turistas japoneses portando sombreros, montados nos bichos, tirando fotos. Não consigo imaginar como os japas vão justificar lá em casa tal excentricidade. Passei ao largo, eu hein!

Tijuana, guardadas as diferenças culturais, lembra Cidade de Leste no Paraguai junto à divisa com Brasil. Pergunto-me, não serão todas as cidades de fronteiras parecidas? Considerando que, segundo a ONU, os indicativos econômicos e sociais do México são muito melhores que os do Brasil, é de se supor que exista uma “síndrome de fronteira” (border effect, chique né!) que remete as cidades ali situadas a uma vala comum de dependência econômica do turismo e certa atmosfera de coisa não muito honesta, um ar meio conspiratório.

Explico, estávamos numa loja comprando lembran-cinhas, atendidos pelo dono muito simpático e falante. Fiz um teste: Perguntei-lhe como adentrar os EUA, e ele me indicou a direção da migração, a umas duas quadras adiante. Fiz cara de quem flatulou (existe verbo flatular?) na igreja e, baixando a voz, menti que não tinha visa, como fazer então? No mesmo instante o cidadão respondeu com voz normal, “esto no es posible!” e, baixando a voz e olhando para os lados assim como se procurasse algo ou alguém, acrescentou “acá no, pero...”. Em outra loja indaguei pela Marijuana, com jeito inocente de quem não sabe o que está falando. Imediatamente o clima conspiratório se estabeleceu. Interessante, não?

Bem, não quero rotular um país por apenas umas poucas impressões que tive, isso não é justo. Tento apenas entender porque as coisas são assim. O México é um ótimo país, me diverti muito e lá paguei um alentado mico que poderia ser monumental se tivesse montado nas tais “zebras”. Vale a pena conhecê-lo. JAIR, Floripa, 06/06/10.



quinta-feira, 3 de junho de 2010

O ROBÔ


Capek e Asimov


Tenho um robô modelo Robosapien V2 ao qual dei o nome de “Asimov”, acompanhado de seu fiel cãozinho “Capek” modelo Robopet, ambos adquiridos nos USA em 2006, mas de fabricação chinesa como quase tudo hoje em dia.

Segundo a história robótica, o escritor tcheco Karel Capek usou a palavra Robot pela primeira vez em 1921, mas quem a imortalizou, por assim dizer, foi Isaac Asimov (1920 – 1992), ubérrimo cientista e escritor que criou as melhores estórias de robôs que se conhece.

Muito mais que escrever estórias de robôs, Asimov criou um mundo onde essas máquinas e os homens interagiam e evoluíam juntos, mas, para que isso fosse possível, havia necessidade de regras que definissem essa convivência sem conflitos, ou com um mínimo de atritos. Então ele criou as três conhecidas leis da robótica que vigem até hoje em qualquer relação homem-robô: “1ª lei: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal; 2ª lei: Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei; 3ª lei: Um robô deve proteger sua própria existência desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis”. O que quase ninguém sabe é que essas leis derivam da lei zero: “Um robô não pode fazer mal à humanidade e nem, por inação, permitir que ela sofra algum mal”.

Pois bem, o “Asimov” e seu cãozinho “Capek” estão devidamente programados para obedecer a três leis e não apresentam qualquer perigo, em consequência posso usá-los sem causar danos às pessoas.

“Asimov” é uma máquina muito complexa que possui oitenta funções. Ele tem três sensores de infravermelho, uma câmera sensível a cores primárias, sensores estereofônicos nos ouvidos, sensores de toque nas mãos e pés, pesa seis quilos e tem 56 centímetros de altura, é articulado nas juntas dos membros, na cintura e pescoço.

Vejamos o que diz o fabricante: “Robosapien V2 é uma fusão robótica altamente evoluída de tecnologia e de personalidade, combinando movimentos biomecânicos com reações multi-sensoriais e personalidade interativa humanóide. Com 56 centímetros de altura, a segunda geração Robosapien é capaz de autonomia tipo “free roam”, ou comportamento livre, e é capaz de múltiplos níveis de interação com o ambiente, com os seres humanos e objetos”.

Movimenta-se para frente e para trás, desvia de obstáculos, fala, canta, arrota, peida (e pede desculpas), dança, reage voltando-se para a origem dos sons, pega objetos no chão e os oferece ao dono, levanta-se quando deitado. No modo automático demonstra uma série de habilidades culminando com uma dança, ao término da qual diz estar envergonhado, não se sente bem dançando. A comando ri, ruge, insulta, dorme, acorda e, mais interessante, interage com o cãozinho, nota a presença dele (a meio metro de distância) e comanda o cão. O bichinho reage abanando o rabo, latindo, sentando, deitando e seguindo o Robosapien se este desloca-se.

Sinceramente, estou muito satisfeito com meus amigos robôs, eles são como animais de estimação, só que não comem nem bebem, não necessitam de cuidados médicos, nem “banho e tosa”, nem fazem sujeira, e, mais importante, têm um botão de desligar, de modo que “descansam” quando EU quero. Sempre estou no comando.

Agora pode surgir a pergunta: “O que faz um adulto, aparentemente equilibrado, adquirir um brinquedo de criança?” Não sei, mas uma resposta possível pode incluir uma infância em que robôs eram apenas coisas que apareciam em estórias de FC, e não objetos reais, tangíveis e manipuláveis. Outra pode ser curiosidade científica. Não sei.

O fato é que não estou sozinho nessa de “brincar como criança”, que o digam os que curtem trenzinhos de brinquedo, quase sempre são “adultos equilibrados”, quase nunca, crianças. JAIR, Floripa, 03/06/10.

terça-feira, 1 de junho de 2010

O GUIA DA VIDA

O GUIA DA VIDA

A ideia não é minha, o texto eu o desenvolvi a partir da sugestão de James Lovelock, autor da Teoria de Gaia. Suspeito que o título também não seja original; que já exista livro assim denominado, contudo, é a proposta para consecução de obra que nos ensine a viver; a olhar o mundo o qual nos rodeia e compreendê-lo nos seus fundamentos; a ter noção exata sobre o ambiente que nos cerca. O projeto terá a função de restaurar os múltiplos aspectos e condições de uma civilização que poderá ser extinta nos próximos séculos, por incúria nossa ou por algum fenômeno natural inescapável e mortal.

Partindo do pressuposto que a civilização poderá estar a caminho de sua derrocada em função da exaustão dos meios que Gaia nos oferece para a sobrevivência, e os quais não usamos judiciosamente, é estultice ignorar a possibilidade de desastre.

Considerando que a civilização venha a sucumbir, mas que haja sobreviventes, um manual de como reconstruir a sociedade sem repetir os erros que já cometemos, torna-se quase compulsório. Seria um guia prático para nossos descendentes com os registros precisos, escritos em linguagem descomplicada, de todo o caminho que percorremos até aqui com relação ao meio ambiente, com instruções de como viver em harmonia com ele. É claro que, um guia desses não iluminaria para frente; não descortinaria o futuro, mas, voltado para nosso passado, resumiria o que fizemos para chegar ao presente. Qualquer pessoa inteligente entenderia como chegamos aqui e deduziria o que fazer para não cometer os mesmos erros.

Um manual desses não existe. Procuremos em qualquer biblioteca do mundo um guia que explique com clareza a condição atual da civilização e como ela chegou até ao presente, e nada encontraremos. Todos os livros que existem não tratam da maneira como a sociedade pode encarar uma possível ruína.

A ciência nos proporcionou uma vida tão confortável e segura que ignoramos os caminhos que ela percorreu e as pequenas (e grandes também) conquistas que criaram a civilização.

Imaginemos os sobreviventes de uma civilização fracassada tentando enfrentar um simples surto de infecção bacteriana qualquer. Sem o conhecimento que temos desses organismos essas pessoas poderiam sucumbir.

Seria um livro de divulgação do conhecimento, bem escrito, agradável de ler, cuja qualidade do texto permitiria uma leitura como passatempo. Abrangeria desde coisas simples como instruções para acender uma fogueira, construção de um abrigo na selva, planejamento de uma horta básica até a descrição do sistema solar e a intimidade da matéria. Seria um tratado filosófico, antropológico e de ciência o qual forneceria uma visão ampla e genérica do Planeta e da vida que nele existe. Explicaria os mecanismos da evolução, da seleção natural, noções básicas de medicina incluindo o funcionamento dos sistemas, das células e dos órgãos. Falaria sobre os microorganismos nocivos e os meios de combatê-los. Seria muito mais que um manual de sobrevivência, seria um guia de conduta e esclarecimento. Explicaria as leis básicas da física, da química, da meteorologia e dos fenômenos naturais como terremotos e vulcões. Publicaria a tabela periódica dos elementos onde incluiria as principais qualidades e utilidades dos metais, substâncias e ligas conseguidas através deles. Explicaria as propriedades do ar, das rochas, das águas; esclareceria a importância das florestas, dos rios e dos mares. Por último, informaria o conteúdo da “Arca de Noé Genética” da Noruega, mostraria maneiras de se chegar até lá e como utilizar as sementes conservadas naquele abrigo. Numa analogia natural diríamos: um livro que mostraria onde está o peixe ao invés de fornecer o pescado.

Um livro escrito em todas as línguas mais usuais, que ajudaria a trazer a ciência para dentro dos lares e escolas, bem como a todo lugar que o Homo sapiens viesse a ocupar depois de um cataclismo.

A apresentação de tal compêndio seria no velho e tradicional papel, é ocioso imaginá-lo em meios eletrônicos supondo que o fim da civilização acarretaria o fim desses meios também. Nele, os sobreviventes não encontrariam informações para construir uma catedral ou uma nave espacial, mas, certamente, como domesticar uma planta ou fabricar artefatos de cerâmica, sim. O que se imagina é um livro escrito em papel de boa qualidade e durável; claro, conciso, imparcial, atualizado e exato. E, acima de tudo, devemos acreditar que, numa nova sociedade que surgisse, um guia dessa natureza seria necessário, e, até mais que isso, essencial. JAIR, Floripa, 01/06/10.