sábado, 1 de maio de 2010

BESOUROS, ORQUÍDEAS E EVOLUÇÃO


O Besouro e a orquídea Ophyr


Taí um tema interessante, sou evolucionista convicto, juramentado e militante e nutro paixão por orquídeas as quais chamo de “As mais belas flores do Planeta”, conforme texto que publiquei, além disso já produzi texto sobre coleópteros.

Pois é, talvez a mais curiosa dependência do cheiro para encontrar uma companheira e perpetuar a espécie seja encontrada num besouro sul-africano que costuma se enterrar no solo e ali permanecer durante o inverno. Na primavera, com o degelo, os besouros emergem, mas os machos o fazem algumas semanas antes da fêmeas. Nessa mesma região da África do Sul, evoluiu uma espécie de orquídea (Ophyr) que exala um aroma idêntico ao feromônio da fêmea do besouro. Estudos provam que a evolução da orquídea e da fêmea do besouro produziu basicamente a mesma molécula. A evolução dos besouros machos, por sua vez, investiu no olfato em prejuízo da visão, eles são extremamente míopes. E a orquídea, muma espécie de malandragem evolutiva, tem um labelo em forma de inseto, parece uma fêmea receptiva ao coito, engana totalmente o macho cegueta. Os besouros ficam “se achando”, passam várias semanas “copulando” com as flores como se estas fossem “besouras” cheias de amor para dar; e, em consequência, polinizando as flores ardilosas. De repente, para espanto dos besourões donjuans, surgem do solo as fêmeas autênticas, estas sim cheias de amor para dar. É de imaginar que os exauridos machos se vejam feridos nos seus egos reprodutores, mas nem por isso deixam de transar com as fêmeas.

Apesar de tudo, as orquídeas foram polinizadas, de acordo com o que a natureza lhes programou, pelos besouros amorosos (quase escrevi cheios de tesão mas, como este é um blog familiar, abstive-me), os quais, agora envergonhados, se empenham ainda mais em fertilizar suas parceiras e garantir a próxima geração de míopes machos libidinosos e perfumadas fêmeas. Assim, tanto as flores como os insetos saíram no lucro.

Observe-se que não é interessante para as orquídeas serem demasiadamente atraentes; se os besouros deixarem de se reproduzir, as orquídeas não terão quem as polinize. Provavelmente, também não é bom que inexistam orquídeas falaciosas, pois estas estimulam a libido dos besouros de modo a torná-los mais ansiosos para agradar suas companheiras.

Por outro lado, uma atração sexual puramente olfativa, sem variação de intensidade ou “nuances” que definam um aroma melhor que outro, é uma limitação evolutiva pelo fato de toda fêmea produzir o mesmo aroma, não há possibilidade de diferenciação entre os parceiros, ou seja, o macho é atraído igualmente por qualquer fêmea, não pela mais saudável ou mais apta. Não há como ele se “apaixonar” por uma mais que outra como acontece quando é o macho que atrai a fêmea, com exibições de força ou de saúde.

Ainda que seja curioso e algo sofisticado, o método de enganação desenvolvido pela orquídea Ophyr é muito comum na natureza, outros animais e plantas o usam sem qualquer pudor em várias regiões do Planeta. Fingimentos, mimetismos e simulações estão na ordem do dia de inúmeros seres vivos que desejam deixar descendentes, não existe ética quando se trata de evolução. É, a natureza tem seus truques que até o mais crédulo dos homens nem desconfia. JAIR, Floripa, 26/04/10.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

DIA DO LIVRO




Em 23 de abril comemora-se o Dia Mundial do Livro. Apesar de opiniões contrárias, o livro ainda é o maior divulgador de cultura que já se inventou. Mesmo após surgirem tantas novas tecnologias de divulgação cultural ou “formadoras de opinião” como se costuma dizer; mesmo que meios midiáticos proliferem nessa aldeia global, o livro ainda permanecerá muito tempo entre nós, apesar de muitos alardearem sua futura "aposentadoria". Ele ainda é a forma mais democrática e acessível de conhecimento, sobretudo se considerarmos a população mundial como um todo.

O livro é facilmente armazenado. Podemos lê-lo em nosso próprio ritmo sem perturbar os outros. Podemos retornar às partes difíceis ou degustarmos novamente partes que nos trouxeram um deleite especial. Ele é produzido em massa, a custo relativamente baixo. Além disso, a leitura por si mesma constitui uma atividade deslumbrante, imaginemos: olhamos para uma folha de papel feita a partir de uma árvore, e a voz do autor começa a falar dentro de nossa cabeça (Alô, você sabia que...). É assombroso! Não dá para descrever o maravilhoso mundo que se descortina depois que abrimos um livro especialmente agradável. Não conheço nada mais prazeroso. (vão dizer que sexo é melhor, e eu concordo, mas, sexo e leitura não são excludentes, pelo contrário, quem mais lê, mais prazer encontra no sexo. Afinal, o cérebro é o centro do prazer, não é mesmo?).

Não devemos esquecer, ainda, que a melhora no conhecimento humano e no potencial de sobrevivência da civilização, só aconteceu após a invenção da escrita e popularização dos livros. O mundo sem escrita era um mundo imerso no obscurantismo que degrada e oprime. Houve também o progresso na autoconfiança: passou a ser possível apreender pelo menos os rudimentos de uma arte ou uma ciência através de livros, e não mais depender do acidente feliz que consistia encontrar um mestre diletante disposto a passar seu conhecimento adiante.

Em última análise, a invenção da escrita deve ser exaltada não apenas como uma inovação brilhante, mas como um notável benefício para a humanidade. A civilização ao livro deve ABSOLUTAMENTE TUDO! E, supondo que venhamos sobreviver o bastante para usar todas as invenções possíveis e imagináveis conseguidas graças ao livro, ainda assim, desfrutando todo o conforto e o prazer que meios eletrônicos nos tragam, o LIVRO continuará sendo nosso companheiro inseparável.

Quero pedir desculpas a todos bibliófilos, bibliotecários, biblióforos, bibliognostas, bibliólatras, bibliólogos, bibliômanos, bibliopegistos, bibliátricos e até aos bibliopiratas do Planeta, por ter me esquecido de homenagear o livro no seu dia, ainda assim, a todos eles e a todos os livros, meus parabéns extemporâneos. JAIR, Floripa, 28/04/10.

terça-feira, 27 de abril de 2010

EVOLUÇÃO – NÁDEGAS & INTELIGÊNCIA



De acordo com a teoria da evolução, a cada mutação do indivíduo que implique em vantagem sobre seus semelhantes, corresponde uma chance maior em que este sobreviva e, sobrevivendo, poderá deixar descendentes que perpetuem essa vantagem, tornando-a definidora de uma variação da espécie que poderá predominar sobre outras, pelos menos numericamente.

Há consenso entre cientista e até entre pessoas comuns, que o cérebro humano é a característica que mais o diferencia dos demais primatas. Maior cérebro, ou relação maior entre tamanho do cérebro e massa corporal, define mais inteligência que, como sabemos, coloca o Homo sapiens numa categoria de seres inteligentes sem concorrência. Mas, ao que devemos esse cérebro grande?

Pois bem, estudiosos da anatomia humana como o inglês Sir Wilfred Le Gros Clark, sugerem que, durante a evolução do Homo sapiens, houve um “acidente” genético anatômico, uma mutação benéfica, que tornou a pelve das mulheres mais avantajadas. Decorre que, essa mutação provavelmente representou uma adaptação que permitiu o nascimento vivo de bebês com cérebro grande. As mulheres de pelves estreitas continuaram a ter bebês com cérebros menores, pois ao conceberem bebês com cabeças maiores, morriam no parto e, geralmente, os bebês também morriam.

A seleção natural favorecia as calipígias (bundudas) em detrimento das menos dotadas de glúteo, admitindo-se que pelves desenvolvidas correspondam a glúteos maiores também. Essa afirmação parece ser corroborada no livro “O gene egoísta” de Richard Dawkins, onde ele apresenta uma pesquisa feita com povos primitivos, portanto, alheios a influências culturais nossas que criam modelos a ser desejados de mulheres: magras e retilíneas. A pesquisa permitiu que homens pudessem escolher entre vários tipos físicos de mulheres, aquelas que seriam mais adequadas para casar e ter filhos. Invariavelmente eles escolhiam as que tinham pelves mais largas; as popozudas no linguajar atual.

O surgimento simultâneo de cabeças humanas maiores e nádegas femininas desenvolvidas ilustra generosamente como funciona a seleção natural. As mães com pelves hereditariamente grandes estavam habilitadas dar à luz crianças com cérebros grandes que, em virtude de sua inteligência superior, eram capazes de competir com êxito na idade adulta com a prole de cérebro pequeno das mulheres de pelves estreita. Aquele que fosse capaz de confeccionar ou tivesse maior habilidade de manusear uma machadinha de pedra, por exemplo, era mais capaz de vencer uma contenda, ou capturar o animal que lhe ia fornecer as proteínas. A invenção, manufatura e o manuseio de uma machadinha, como sabemos, exigiam maiores volumes cerebrais.

Os anatomistas afirmam que hoje é improvável que um aumento considerável na pelve e no canal de parto resulte em algum benefício para as mulheres. Se isso ocorrer deverá comprometer a capacidade da mulher de caminhar, sua região pélvica já está suficientemente desenvolvida.

Quando o assunto é seios grandes, não há sugestão evolucionista alguma que eles também sejam produtos de mutação que beneficiou suas portadoras, contudo, é bastante óbvio que machos sentem atração por fêmeas de mamas desenvolvidas pelo fato destas serem o protótipo da fertilidade.

Segundo essa linha, digamos “anatomista” da evolução, cérebro e nádega tem tudo a ver. Então não devemos nos espantar do motivo pelo qual a maioria dos homens tem fixação em bundas femininas. Eles estão obedecendo a um imperativo categórico kantiano, atávico e irrevogável, a evolução assim o dispõe. JAIR, Floripa, 26/04/10.



ADENDO:


Parece que o desejo e a curiosidade do homem pelas mamas e ancas grandes remonta à pré-história. A representação mais antiga de um ser humano está retratada no corpo de uma mulher com tetas e ancas fartas. A Vênus de Willendorf, uma estatueta do paleolítico datada de 24.000 a.C., foi encontrada durante escavações na Áustria pelo arqueólogo Josef Szombathy nos primeiros anos do século XX.

Fonte: Google

sábado, 24 de abril de 2010

UMA AVENTURA NA SELVA


J

im das Selvas, personagem dos quadrinhos criado por Don Moore em 1934, era um “Tarzan” que, tal como o original do Edgar Rice Burroughs, vivia nas selvas enfrentando caçadores malvados, exploradores ilegais de pedras preciosas, piratas e contrabandistas ardilosos e astutos. Diferente do outro personagem, Jim não se deslocava pendurado em inverossímeis cipós, tampouco proferia gritos estridentes que provocassem pânico na fauna e assustassem seus inimigos. Também não andava meio pelado, suas roupas eram normais de um explorador de selvas. O nome do personagem era Jim Bradley, “das Selvas” como era conhecido, devia-se as suas andanças pelas matas de Bornéu, Sumatra, Malásia e Bengala. Portanto, ao invés de um herói africano como Tarzan, tínhamos um “mocinho” da Oceania. Estreou na tela grande tendo Johnny Weissmuller no papel de Jim. Tornou-se um sucesso no cinema e cativou a atenção das crianças e jovens nos anos cinquenta. Talvez o fato de Jim ser menos fantasioso que Tarzan tenha contribuído para sua aceitação e popularidade. Ele era palatável por ser “normal”, por não parecer uma anomalia gritante (sem trocadilho) como Tarzan.

Meu primo Joel e eu, que já curtíamos suas peripécias nas revistas, ficamos encantados quando o Cine Teatro Municipal de Palmeira passou a apresentar seus filmes. As tardes de domingo eram aguardadas com alguma ansiedade quando se anunciava que Jim seria exibido naquela semana. O dinheiro para o matinê, quase sempre inexistente, tinha que ser conseguido à custa de alguma atividade durante a semana para que no domingo pudéssemos nos deleitar com perigosas aventuras nas matas quase impenetráveis, cheias de felinos e crocodilos potencialmente letais.

J


Vista aérea geral do bairro onde morávamos

(clique na foto para ampliá-la)


Como podíamos ser considerados piás imaginosos e criativos antevíamos como seria viável reproduzir nosso herói naquelas jornadas. Impressionava-nos em particular ver Jim remando um pequeno barco, num rio de águas mansas ladeado de selva densa e misteriosa. Tínhamos um forte sentimento que era no mínimo nossa obrigação imitar o ídolo lendário e destemido.

Bem, para isso era preciso um rio cercado de selva e um barco, não é mesmo? Pois é, rio, com alguma imaginação, poderia ser encontrado no fim da rua que morávamos. Lá embaixo existia um riacho – que depois vim a saber, chamava-se “Do Monjolo” – o qual era represado formando um laguinho no início e uma porção estreita e sinuosa a montante, ladeado por um matinho bem denso e bonito, na verdade uma nesga de mata atlântica da melhor qualidade adornada com alguns exemplares de araucária e ipês amarelos além de pau-de-bugre e cedro. O lago era nossa área de lazer onde nadávamos no verão e alguns até pescavam lambaris e traíras. Por estar situado na propriedade de uma indústria de madeiras o chamávamos de Tanque dos Querubins, sendo que Cherubim era o sobrenome dos donos da madeireira.



Vista aérea aproximada do fim da Rua Barão
e a mata ciliar onde existiu o "Tanque dos Querubins".
(clique na foto para ampliá-la)


Bem, o “rio” cercado de selva (mata ciliar) já estava disponível, agora faltava o barco. Por sorte morávamos em casas, propriedades de outra madeireira, situadas exatamente na frente das pilhas de tábuas que aquela indústria estocava para, quando exigido, usar na confecção de móveis e outros artefatos.

Uma incursão nas reservas madeirais da “fábrica”, como era conhecida pela gurizada, foi o suficiente para constatar que a matéria prima essencial para confecção do barco estava ali, disponível e dando bobeira. Uma segunda incursão, e trouxemos as tábuas necessárias e as escondemos em baixo do assoalho da casa do Joel.

Com martelos, alguns pregos, serrote, entusiasmo e betume, nós, em pouco tempo, construímos a obra que daria vazão aos sonhos adolescentóides de dois guris cuja fantasia ia além das revistas em quadrinhos e telas de cinema. Fizemos um barco que flutuava e era manobrável, obra prima de armadores mirins detentores de imaginação fértil e alguma habilidade manual.

Finalmente, numa tarde de verão, lá fomos nós ao “Tanque” estrear nossa criação. Primeiro Joel, depois eu, fizemos aventuras rio acima e abaixo no meio da “selva” que, na nossa fantasia assemelhava-se às matas de Bornéu, atrás de cada moita mais densa podia esconder-se um animal perigoso ou um pirata malvado. Sensacional! Não poderia ser melhor, nos sentíamos como incorporando Jim das Selvas. Depois de navegar camuflávamos o barco (na verdade era um bote tão pequeno que comportava apenas um banco) na mata para repetir a façanha outro dia.

Essa “empresa arriscada” durou boa parte do melhor verão de nossas vidas adolescentes, até que, com receio que outros garotos viessem a usar nossa criação escondidos, resolvemos destruí-la a machadadas. Afinal, sonhos e fantasias são intransferíveis. Estava concluída a melhor aventura na selva que jamais imaginamos e não mais havia motivos para manter o barco que havia cumprido sua finalidade com louvor. JAIR, Floripa, 24/04/10.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

O MUNDO PÓS GUERRA NUCLEAR

O texto abaixo foi retirado do livro "Inverno Nuclear" e traduz a abalizada opinião do Dr. Paul R. Ehrlich, professor de ciências biológicas e membro da Associação Americana para o Progresso da Ciência, no caso de uma guerra nuclear entre as duas maiores potências atômicas do Planeta. Minha intenção em publicá-lo é dar apoio ao texto "Armagedon" de meu amigo e guru, R. R. Barcellos:
"Podemos elaborar cenários plausíveis em que os efeitos atmosféricos predominantes, frio e escuridão, se estenderiam virtualmente à totalidade do Planeta. Nessas circunstâncias, a sobrevivência humana se restringiria quase que exclusivamente a ilhas e faixas costeiras do Hemisfério Sul, e a população humana poderia reduzir-se aos níveis da pré-história.
Temos que considerar a possibilidade que o frio e a escuridão se espalhem sobre a Terra inteira e sobre todo o Hemisfério Sul. Ainda que pareça improvável que isso resultasse de pronto na morte de todas as pessoas daquele hemisfério. Imagina-se que em ilhas, por exemplo, longe das fontes de radio atividade e onde as temperaturas sejam moderadas pelos oceanos, alguns habitantes haveriam de sobreviver. De fato, é provável que restassem sobreviventes esparsos em vários pontos do Hemisfério Sul, e mesmo umas poucas pessoas no hemisfério norte.
Mas cabe inquirir sobre a persistência a longo prazo desses pequenos grupos de população, ou de indivíduos isolados. O ser humano é um ser social por excelência. Terá de enfrentar um meio enormemente alterado, que não apenas lhe será estranho senão muito mais adverso do que jamais enfrentou. Os sobreviventes retornarão a uma espécie de estágio de caçador-coletor. Mas caçadores-coletores do passado possuíam sempre um íntimo conhecimento cultural do ambiente em que viviam; sabiam como tirar o sustento da terra. Depois de um holocausto nuclear, populações sem esse espécie de bagagem cultural estarão de repente se esforçando para viver num ambiente que jamais foi experimentado por ninguém em parte alguma. Com toda probabilidade, enfrentarão um meio totalmente novo, condições meteorológicas sem precedentes e altos níveis de radiação. Se forem grupos muito reduzidos, haverá a possibilidade de cruzamentos consanguíneos. E, é claro, os sistemas sociais, econômicos e de valores serão completamente esfacelados. O estado psicológicos dos sobreviventes é impossível de avaliar.

É consenso que, nessas condições, não há como excluir a possibilidade de os sobreviventes dispersos simplesmente não serem capazes de reconstruir suas populações, e, num lapso de dezenas ou mesmo de centenas de anos, acabarem por extinguir-se. Em outras palavras, não há como excluir a possibilidade de uma guerra nuclear causar a extinção do
Homo sapiens".
Qualquer observação torna-se redundante diante da clareza com que o Dr. Ehrlich expõe as mazelas a que estarão sujeitos os sobreviventes humanos de uma guerra nuclear. JAIR, Floripa, 23/04/10.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

SOBRE A HISTÓRIA DO PLANETA


Vou iniciar o texto citando minhas próprias palavras: “Um vulcão islandês com um nome impronunciável (Eyjafjallajokull) até para quem é fluente no idioma daquele país, mostrou quanto o Homo sapiens é impotente e quanto pode ser refém das forças da natureza”. A maioria das pessoas tende a confundir a história do Planeta com a do homem, esquece que a terra tem mais de quatro bilhões de anos e o Homo sapiens ergueu-se sobre suas próprias pernas há menos de um milhão de anos.
Ao longo dessa alentada história o terceiro planeta passou por “fases” em suas características e aparência que, na maior parte dos casos, foram causadas por catástrofes. De novo, repetindo palavras de outro texto meu: “Os continentes, mares, cadeias de montanhas, desertos, florestas e a vida do Planeta, SEMPRE sofreram reveses naturais, ou foram erigidos graças as colossais forças geológicas ou vindas do espaço. O ciclo de vida e morte, de nascimento e extinção de espécies e de reinos da natureza se sucedem graças aos cataclismos e às ocorrências furiosas que acometem o clima e causam mudanças drásticas nos ambientes”.
Esta visão não é nova, ela resulta de paradigma científico amplamente aceito baseado nos processos conhecidos e provados que moldaram o Planeta até sua forma atual que, diga-se, não é e nem pode ser definitiva, ou seja, é apenas a forma atual, diferente do passado e do que vier a ser no futuro.
No século XVIII e início do XIX, acreditava-se que as grandes formações terrestres houvessem resultado de processos catastróficos, infligidos à Terra e seus ocupantes por um Criador iracundo e vingativo. Uma mudança importante sobre essa visão mística, liderada pelo geólogo inglês Charles Lyell, reconheceu a importância de processos graduais como a erosão, a glaciação, a sedimentação e a lenta formação de recifes, em substituição à concepção catastrófica. Essa doutrina denominou-se uniformitarismo. Hoje as ciências da Terra estão passando por uma segunda revolução, deflagrada pelas notáveis descobertas da tectônica de placas, e a ênfase voltou a incidir sobre eventos mais dramáticos, agora livres de misticismos. Por isso, cresce progressivamente a convicção de que grandes intervenções eventuais como erupções vulcânicas e colisões de asteróides tiveram importância fundamental na história do Planeta e na vida nele existente.
Uma teoria cativante e cada vez mais aceita, porque existem fortes indícios de sua ocorrência, é a de que a colisão de um asteróide com a Terra há 65 milhões de anos, e a nuvem de poeira que ela produziu, a qual persistiu durante anos, levou a alterações climáticas que acarretaram a extinção quase total da vida no período Cretáceo. Acredita-se que três quartos da vida deixaram de existir, inclusive os formidáveis dinossauros.
Hoje, porém, é largamente admitido que eventos significativos da mesma natureza, ainda que não da mesma monta, têm ocorrido no tempo histórico por obra de erupções vulcânicas, mais que por qualquer outro fenômeno. Por ordem cronológica, alguns vulcões que causaram mais alterações climáticas e orográficas na face do Planeta, do que qualquer intervenção humana ao longo da existência do homem por aqui; ou de outros fenômenos como maremotos, terremotos, incêndios, enchentes e quedas de asteróides.

79 d.C. Vesúvio (Itália)
1586 Kelut (Indonésia)
1672 Merapi (Indonésia)
1660 Guagua Pichincha (Equador)
1783 Laki (Islândia)
1792 Unzen (Japão)
1815 Tambora (Indonésia)
1883 Krakatoa (Indonésia)
1902 Monte Pelée (Martinica)
1912 Katmai (Alaska)
1929 Santiaguito (Guatemala)
1956 Bezymianny (Rússia)
1963 Surtsey (Islândia)
1980 St. Helens (USA)
1982 El Chichón (México)
1985 Kilauea (Havai)
1985 Nevado del Ruiz (Colômbia)
1991 Pinatubo (Filipinas)
1998 San Cristobal (Nicarágua)
1998 Pacaya (Guatemala)
2002 Etna (Itália)
2002 Shiveluch (Rússia)
2002 Nyragongo (República Democrática do Congo)
2010 Eyjafjallajokull (Islândia)

A manifestação cinematográfica do Eyjafjallajokull na Islândia é apenas a última, aliás, bem pequena em relação a outras, de um desses fenômenos destinados a deixar marca indelével que altera em definitivo o clima de uma grande região densamente habitada, influindo na história do Planeta. Por exemplo, a erupção do Tambora em 1915 causou, em 1916, o que se convencionou chamar de "o ano sem verão", ano em que centenas de milhares de pessoas morreram de fome, na Ásia e na Europa, devido a quebra das lavouras. Esta erupção é mais uma página na história do Planeta que se escreve a fogo, lava e cinzas. Comparando com a história humana, representa algo como a revolução francesa ou a revolução russa, por exemplo. Mesmo que não venhamos a observar de imediato grandes mudanças climáticas a partir dessa erupção, elas vão aparecer a médio e longo prazos. Quem viver verá. JAIR, Floripa, 21/04/10.

terça-feira, 20 de abril de 2010

VAMOS CUIDAR DO PLANETA


Um vulcão islandês com um nome impronunciável (Eyjafjallajokull) até para quem é fluente no idioma daquele país, mostrou quanto o Homo sapiens é impotente e quanto pode ser refém das forças da natureza. A nossa humildade como espécie aflorou debaixo da nuvem de cinzas e detritos que cobriu boa parte do Atlântico norte e da Europa. Se temos o privilégio de ser a espécie dominante do Planeta, também temos que assumir sermos a única espécie que pode contribuir de maneira decisiva para ele continuar habitável a despeito de forças naturais sobre as quais não temos controle. Em nome da civilização não temos o direito de maltratar a Terra a ponto de inviabilizar a vida sobre ela. Temos OBRIGAÇÃO de cuidar dela com carinho.

Até onde se possa enxergar e até onde a ciência pode provar, a Terra é uma anomalia. Em todo o sistema solar, ou qualquer sítio conhecido do cosmos, a Terra é o único planeta habitado. Nós, humanos, somos uma entre milhões de espécies que vivem em um mundo florescente, transbordando de vida. Contudo, a maioria das espécies que povoaram o Planeta, já não existe mais. Depois de pisarem o chão da Terra por mais de 180 milhões de anos os dinossauros foram extintos, não existe um sequer para contar a história. É fácil deduzir que nenhuma espécie tem lugar cativo no Planeta azul, todos somos transitórios. Estamos aqui a apenas um milhão de anos e somos a única espécie que projetou meios para sua autodestruição. É mole? Veja bem, somos raros e preciosos, porque pensamos e por que estamos vivos! Quantas espécies podem dizer que pensam e estão vivas? NENHUMA, a não sermos NÓS, cara pálida! Temos o privilégio de projetar e talvez controlar nosso futuro e o futuro do Planeta. Aliás, mais que isso, temos OBRIGAÇÃO de lutar pela vida na Terra, não apenas pela NOSSA vida, mas pelas demais que coabitam esta grande rocha em forma de laranja. Não há nenhuma causa mais urgente e nobre do que proteger o futuro de nossa espécie e, por tabela, proteger todos os demais seres.

Lembrando, quase TODOS os problemas humanos são provocados pelos humanos e podem ser resolvidos pelos humanos. Nenhuma convenção social, nenhuma hipótese econômica, nenhum dogma religioso é mais importante que nossa sobrevivência.

Ah! Vão dizer. E as forças da natureza como o vulcão de nome impossível de proferir? Lembremos, a Terra tem quatro bilhões de anos e, desde seu nascimento, SEMPRE teve fenômenos naturais de monta. Os continentes, mares, cadeias de montanhas, desertos, florestas e a vida do Planeta, SEMPRE sofreram reveses naturais, ou foram erigidos graças as colossais forças geológicas ou vindas do espaço. O ciclo de vida e morte, de nascimento e extinção de espécies e de reinos da natureza se sucedem graças aos cataclismos e às ocorrências furiosas que acometem o clima e causam mudanças drásticas nos ambientes. O motor da vida em Gaia são as catástrofes, por estranho que pareça. Somos parte do Planeta, e não alienígenas que para aqui vieram com intuito de extrair o que nos interessa e deixar para trás um mundo inabitado e inabitável. Cuidemos da nossa Terra, é a única que temos! JAIR, Floripa, 20/04/10.