domingo, 18 de abril de 2010

SOBRE A PENA DE MORTE




Qualquer discussão sobre pena de morte no Brasil, sob o ponto de vista legal, torna-se inconcludente porque a Constituição de 1988 estabelece como Cláusula Pétrea, entre outros, o direito à vida. Isso significa que não é sequer passível de apreciação projeto que vise suprimir ou inibir esse direito fundamental. “Por cláusula pétrea, entende-se o dispositivo que impõe a irremovibilidade de determinados preceitos. Esse sentido obtém-se a partir do significado de seus signos lingüísticos: "duro como pedra". Na Constituição são as disposições insuscetíveis de ser abolidas por emenda, imodificáveis e não possíveis de mudança formal, constituindo o núcleo irreformável da Constituição, impossibilitando o legislador reformador de remover ou abolir determinadas matérias. Esses preceitos constitucionais possuem supremacia, paralisando a legislação que vier a contrariá-los”.
Ou seja, quando se decidiu promulgar a Constituição atual, estabeleceram-se certos PRINCÍPIOS sobre os quais se iam erigi-la, como se faz uma casa sobre um alicerce. As Cláusulas Pétreas são os alicerces sobre os quais se estruturou a Constituição, se nós subtrairmos seus alicerces ela ruirá, não mais podendo manter-se em pé a partir dai. Resulta que, um Estado sem Constituição é um ajuntamento tribal potencialmente a beira da barbárie.
Então, à luz da atual Carta Magna, ser a favor ou contra é ocioso, não há essa possibilidade porquanto as Cláusulas Pétreas foram baseadas na Declaração Universal dos Direitos Humanos, na ausência dos quais fica a pergunta: Para quê Constituição? Se não há Constituição deixará de existir Estado, sem Estado seremos apenas um bando de seres errantes sem coesão e leis que regulem nosso contrato social; sem freios que inibam os crimes e contravenções; aliás, nem crimes e contravenções existiriam, pois estes, para existirem, têm que alicerçar-se em lei anterior que os defina. Quem gostaria de viver numa sociedade tribal onde não houvesse crimes definidos em lei? Onde um indivíduo poderia entrar na casa do outro, estuprar sua filha, assassinar sua mulher e nada lhe adveria, porque não há crimes definidos em lei?
O Estado brasileiro optou por considerar o ser humano mais importante que a organização social, de modo que esta não tem direito de subtrair a vida daquele. Aliás, ninguém, seja o Estado ou qualquer indivíduo, tem esse direito. Se quisermos estabelecer lei que disponha essa forma de punir o criminoso, teremos que fazer tabula rasa do contrato social atual e começar do zero um novo arcabouço legal que não tenha os Direitos Humanos como fundamento.
Abolir a Constituição para legalizar a morte de cidadãos pelo Estado equivale a colocar fogo na casa para acabar com as baratas. Será que vale a pena? Será que gostaríamos de ter um Estado que pudesse dispor de nossas vidas ao seu talante? Confiaríamos num Estado poderoso que pudesse punir “criminosos” de forma irreversível? Ou seja, se o Estado – que sabemos ser pródigo em injustiças – pudesse eliminar seus possíveis inimigos através da pena capital, seria um Estado confiável? Estaria ele melhor aparelhado para exercer a justiça? Não sabemos, mas é forçoso inferir que um Estado assim não seria o shangri-lá, a história nos prova que experiências de Estados totalitários não foram as melhores: na Itália de Mussolini, na Alemanha de Hitler ou na União Soviética durante o regime comunista, nada de bom resultou para seus cidadãos ou para o mundo civilizado.
É óbvio que um Estado moderno deve servir o cidadão e não ao contrário, sob o risco de sermos apenas peões de um jogo de xadrez nas mãos do governante em exercício, ou, pior, de algum governante golpista e de maus bofes.
Veja bem, não estamos argumentando sobre os regimes de governo ou a forma política de estado, estamos falando da construção do Estado, sobre a forma que ele, independente de governos, partidos ou políticas, se funda, sobre seu “esqueleto” formal sobre o qual se estabelecem as leis e salvaguardas, tantos dos cidadãos quando das instituições. Independente de gostarmos ou não do governo ou de estarmos de acordo ou não com as leis, estas existem e estamos sob sua tutela bem como sob seu jugo, para o bem ou para o mal.
Como falei no início, estas considerações são apenas sob o ponto de vista legal, não cabendo aqui argumentos – a favor ou contra - sociais, econômicos, estatísticos, religiosos, éticos ou filosóficos que poderão ser temas de outros textos. Até lá! JAIR, Floripa, 18/04/10.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

SEMPRE O TEMPO



Muito antes dos tempos existia o ovo cósmico e o TEMPO. Após a mega explosão que a tudo deu início, ele criou a matéria e a dispersou pela infinitude do cosmos. Onde nada existia, agora surgiam galáxias pejadas de estrelas, cometas, quasares, buracos negros, horizonte de eventos e tudo mais. O TEMPO, tendo semeado estrelas, agora se ocupava em orná-las com planetas que as circulavam feito moscas que rodeiam a lâmpada. Ainda que não existissem lâmpadas, tampouco moscas, tanto estas como aquelas teriam que aguardar que o TEMPO as criasse. Planetas eram rochas flamejantes que lembravam estrelas-crianças que, como Peter Pan, se recusavam a crescer. Ele, o TEMPO, se encarregou de jogar água na fervura dos planetas, esfriou-os de modo a se tornarem lugares menos hostis. Por que não? Feito isso, verificou que agora era possível criar um ambiente profícuo, uma espécie de sopa primeva onde moléculas elementares podiam bem se relacionar criando novas e mais complexas moléculas. Isso se deu a 3,7 bilhões de anos, coisa que, para o TEMPO, nada significa. Nesse caldo de cultura, substâncias orgânicas concentravam-se localmente, talvez em gotículas em suspensão, ou espuma que secava nas margens dos mares. Com o TEMPO e a influência da energia dos raios ultravioleta do sol, combinavam-se em moléculas maiores e mais complexas.

O TEMPO a tudo comandava como um mestre perseverante e calmo cuja paciência mede-se, não em décadas ou milênios, mas em milhões de anos. Naquelas eras as grandes moléculas orgânicas podiam boiar livremente no caldo cada vez mais denso sem serem molestadas, o TEMPO estava a seu favor. Num dado momento formou-se por acidente, uma molécula notável, uma molécula que podia replicar-se. O TEMPO havia proporcionado esse fausto acaso. Na verdade, uma molécula que possa fazer cópias de si mesma não é tão difícil de imaginar como parece à primeira vista e só teria de surgir uma única vez e, para isso, basta que exista TEMPO suficiente. Nada tão insólito, portanto. Não terá sido necessariamente a molécula maior ou mais complexa de todas, que adquiriu essa propriedade extraordinária de ser capaz de tirar cópias de si mesma, mas, por certo, terá sido uma molécula que sofreu um acidente singular. Um acidente nem um pouco improvável, no entanto, certamente, um acidente fundamental, desde que houve TEMPO para que acontecesse. Que acidente fantástico seria esse, já que, replicar-se significa reproduzir-se, significa perpetuar-se, deixar descendência, enfim, significa VIDA? Bem, o TEMPO criou-a e soube esperar que raios cósmicos que, em geral, atravessam nossa atmosfera aos bilhões por minuto, atingissem o âmago da molécula e modificassem a estrutura dos átomos que a compunham, proporcionando à sortuda molécula o poder de auto replicar-se. Foram necessários milhões de anos, na verdade um TEMPO enorme, até que grande quantidade de substâncias muito mais complexas que as originais surgissem. Com o TEMPO são encontrados aminoácidos – os blocos de construção das proteínas, classe de moléculas biológicas. Mais TEMPO ainda, e foram surgindo substâncias orgânicas chamadas “purinas” e “pirimidinas” – blocos de construção da molécula de DNA.

E o TEMPO facultou que a vida evoluísse em variedade e complexidade, porque a evolução é um atributo do TEMPO. Milhões de espécies povoaram lagos, rios, ares, mares e terra do Planeta numa variedade infinita graças ao TEMPO. De moneras a plantas e bactérias, de peixes, répteis e aves a mamíferos. Grandes e pequenos, de sequóias a insetos, todos seguiram crescendo e multiplicando-se, variando e ocupando todos os nichos habitáveis, e até os tecnicamente inabitáveis da Terra, ao longo do TEMPO.

Mas, o TEMPO que havia criado a vida também a suprimia, exterminava. Seres que não se adaptassem a novas condições eram, implacavelmente, varridos do Planeta pelo TEMPO. Assim, todas as criaturas estavam agregadas ao TEMPO que dispunham para evoluir ou morrer. O TEMPO as criou, o TEMPO as destrói. Infeliz é a criatura que acredita ser possível driblar o TEMPO, no fim este não a perdoará, transformá-la-á nos elementos que a compõe. O pó ao pó retornará, o TEMPO se encarrega disso.

Bem, agora tudo funcionava como o TEMPO havia determinado, o relógio cósmico andava para frente há bilhões de anos e o universo se expandia para além de fronteiras sequer imagináveis. Só que o TEMPO, cuja dimensão excede o próprio universo, continua, enquanto os efeitos da grande explosão perdem impulso e, finalmente cessam, daí uma força colossal chamada gravidade se encarrega de contrair aquele universo dilatado ao extremo. Novamente, éons se passarão até que o universo se converta naquele ovo onde tudo começou. TEMPO não faltará. JAIR, Floripa, 24/04/10.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A CIÊNCIA TAMBÉM PISA NA BOLA

Huygens

Christianus Huygens foi um matemático, físico e astrônomo holandês, nascido em Haia, em 14 de abril de 1629. Ele é um ícone da tecnologia em progresso representada pela introdução recente de telescópios na observação dos astros; da habilidade experimental e de uma mente cética, criativa e curiosa, sempre aberta a novas ideias. Por abordar os novos desafios com bastante imaginação, foi o primeiro a sugerir que, quando olhamos Vênus, o que vemos são sua atmosfera e suas nuvens; o primeiro a deduzir algo sobre a natureza dos anéis de Saturno – os quais Galileu classificava como “orelhas”; o primeiro astrônomo a registrar em desenho uma marca reconhecível na superfície de Marte; o segundo, depois de Robert Hooke, a reconhecer a Grande Mancha Vermelha de Júpiter.

Em contrapartida, Huygens também era “antenado” com seu tempo, de modo que partilhava das crenças e superstições da sociedade na qual vivia, e olhava o mundo pela ótica da política mercantilista marítima que a Holanda praticava, nada estranho ou inusitado, portanto.

Assim, como “quem lavra pratos, com mais razão também os quebra”, Huygens foi autor de uma das mais notáveis jumentices que se tem notícia na astronomia, uma escorregadela na maionese de dimensões astronômicas por assim dizer. Quando Galileu observou que Júpiter tinha quatro luas, Chistianus Huygens, bem de acordo com sua natureza curiosa, formulou a seguinte pergunta: Por que Júpiter tem quatro luas? Uma sacada sobre essa questão poderia ser obtida respondendo-se a pergunta: por que a Terra tem uma única Lua? Ora, na Terra a função da Lua era, segundo concepção corrente na época, além de proporcionar alguma luz à noite; produzir marés e auxiliar os marinheiros a navegar. Por comparação, se Júpiter tem quatro luas, deve haver muitos marinheiros naquele planeta. Mas marinheiros precisam de barcos, barcos precisam de velas, velas precisam de cordas e, supondo, cordas precisam de cânhamo. Logo, Júpiter tem muito cânhamo. Não duvidem, foi exatamente esse o raciocínio do senhor Christianus!

Depreende-se que Júpiter seria uma espécie paraíso dos fabricantes de cordas e dos maconheiros, já que o cânhamo referido é a mesma Cannabis sativa que se usa para alcançar o tal “barato”. Deixo observações aos senhores leitores, mas, não é insanidade imaginar que o senhor Huygins, ao projetar essa ilação fantasiosa, estava era “viajando” sob efeitos dos eflúvios do tal cânhamo. JAIR, Floripa, 14/04/10.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

VIKTOR NAVORSKI, O PAGADOR DE PROMESSAS


Viktor Navorski é um cidadão da Europa Oriental que viaja a Nova York para cumprir promessa que havia feito a seu pai, - já falecido e grande apreciador de jazz, - de conseguir autógrafo de jazzista americano. Zé do Burro é um pobre camponês do interior da Bahia que tem seu jumento atingido por um raio e acaba indo a um terreiro de candomblé, onde faz uma promessa a Santa Bárbara para salvar o animal. Estes são os argumentos de “O terminal” e “O pagador de promessas”, dois filmes que não poderiam estar mais distantes um do outro, no tempo e no espaço. O “Pagador” filme brasileiro de 1962 dirigido por Anselmo Duarte, baseado em livro de Dias Gomes; o “Terminal” película americana de 2004 com direção de Steven Spielberg, estrelado por Tom Hanks no papel de Viktor Navorski.

Pois bem, por que essas duas referências cinéfilas encontram-se no mesmo texto? Por que estórias de dois mundos tão díspares ocupam o mesmo espaço? Para tais perguntas a resposta pode ser uma só. Desde muito tempo venho prestando atenção nas estórias veiculadas em livros, revistas, cinema e televisão e percebo que não existe estória nova, nada se inventa, nada existe de original, existe apenas reciclagem do que já foi escrito antes. Assim, a mocinha pobre casa com o sujeito rico e boa gente, reciclando a gata borralheira; o sujeito pobre, mas bem intencionado, se dá bem no fim das contas, é o sapo/príncipe; O bem faz contraponto com o mal e sempre o vence; Há justiça no fim do túnel, justiça divina existe e sempre prevalece.

Assim, Navorski e Zé do Burro, embora protagonistas anos-luz distantes um do outro, compartilham a ingenuidade de acreditar na nobreza da alma e na justiça dos céus, suas promessas estão de acordo com essas premissas. O que une seus papeis é a determinação de cumprir promessas mesmo com sacrifício acima do razoável; com ônus que lhes trazem aborrecimentos porque as sociedades nas quais se inserem não conseguem entender essa obstinação com coisa tão sem sentido, tão banal. Carregar uma cruz por quilômetros porque o burro foi salvo? Viajar a Nova Iorque para encontrar um cantor de Jazz que pode até estar morto? Onde está a lógica disso? Cadê a razoabilidade? Não. A sociedade se sente desconfortável com motivações tão pouco sensatas. Contrariando essa ortodoxia exigida pela sociedade, os personagens seguem em frente de acordo com seus desejos ditados por convicções íntimas, não se enquadrando no status quo vigente. Podemos dizer que tanto Viktor do Burro, quanto Zé Navorski encarnam o homem-ideal, o bom selvagem ingênuo de Rousseau, aquele para o qual o mundo é feito de fé e logicidade a qual traz em seu bojo, probidade e ética.

A boa fé e, guardadas as diferenças, a crença “religiosa” de ambos os personagens contrasta com o mundo hostil e cético que os cerca; contrasta com o senso comum o qual assume que não se viaja de um continente a outro para pegar um autógrafo; que não se carrega uma cruz nas costas de uma cidade a outra por causa de um burro. O burro do Zé e a esperança de cura, juntamente com o cantor de Jazz e o autógrafo esperado por Navorski, são os motes que determinam suas buscas obstinadas carregadas de uma simplicidade difícil de entender para o homem médio, na sociedade média na qual vivemos. Contudo, é precisamente aí que se encontra o mais profundo significado da fé do homem... no homem: O mundo é linear e cartesiano, não há embustes ou meandros obscuros que confundem a mente; uma vida minimalista e pura onde tudo é simples determina a conduta do homem-ideal, o bom selvagem sem malícia, cujos sonhos e aspirações são possíveis. E ambos os personagens se fundem formando a essência da criação divina perfeita que irá redimir a humanidade. JAIR, Floripa, 12/04/10.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

O CRIACIONISMO É UMA BOBAGEM ESFÉRICA*


O criacionismo, como qualquer ser inteligente sabe, é um besteirol sem tamanho. É até estranho que tanta gente perca um tempo precioso se dedicando a uma hipótese tão estúpida e absurda. A ciência está careca de provar que os seres vivos encontram-se na face deste Planeta há mais de três bilhões de anos, e que evoluíram para suas formas atuais desde outras formas primitivas. Os criacionistas acreditam que toda a vida que existe foi criada num átimo, nas suas formas atuais, há cerca de seis mil anos (alguns admitem dez mil anos) por uma entidade suprema. Em consequência dessa estultice os criacionistas enxergam homens e dinossauros convivendo ao mesmo tempo. A evolução é um fato comprovado por provas físicas, o criacionismo é uma bobagem que se baseia na fé.

Quero repetir aqui argumento que usei em meu texto “A maravilhosa ciência”: A ciência “aconselha-nos a considerar hipóteses alternativas em nossas mentes, para ver qual se adapta melhor à realidade. Presta-se como ferramenta do cético, do inconformado, do curioso e não daqueles habituados a certezas inquestionáveis”. Por isso, o cientista (e por extensão o evolucionista) é uma mente sempre aberta para ideias e propostas novas, já o criacionista é adepto de “certezas inquestionáveis”.

O livro Why evolution is true, de Jerry Coyne, é uma obra que apresenta de maneira sentenciosa provas irrefutáveis da evolução, oferecidas pela distribuição geográfica. Ele também aborda a característica dos criacionistas de ignorarem evidências, quando estas são contrárias a sua fé; quando são provas que não corroboram aquilo que eles acreditam, aquilo que eles leem nas escrituras. Diz Coyne: “As evidências biogeográficas da evolução agora são tão poderosas que eu nunca vi um livro, artigo ou conferência criacionista tentar refutá-las. Os criacionistas fazem de conta que as evidências não existem”. Os criacionistas agem como se apenas os fósseis fossem evidências da evolução. Realmente, o testemunho dos fósseis é o mais substancial e o mais “visível”, por assim dizer. Incontáveis fósseis foram desencavados desde a época de Darwin, e todas as evidências obtidas a partir deles corroboram ou são compatíveis com a evolução. E, mais importante, nenhum fóssil contradiz a evolução. Se fosse o caso, como o evolucionista “considera hipóteses alternativas”, o edifício evolucionista ruiria fragorosamente e a ciência acataria humildemente uma hipótese que se adequasse a nova realidade.

Não obstante, por mais convincentes que sejam as provas dos fósseis, considera-se que elas não são as mais poderosas que a ciência dispõe. Mesmo que em nenhum momento tivessem encontrado fósseis, as evidências fornecidas pelos animais sobreviventes ainda assim nos impeliriam de maneira inexorável e categórica à conclusão de que Darwin estava certo. A cronoestratigrafia, que é o estudo referente à idade de rochas e de camadas geológicas, torna tão evidente a sequência de eras, que até o pior cego não pode se furtar de reconhecer a idade da Terra e sua evolução.

Com o surgimento da genética e o mapeamento do genoma de plantas e animais, foi possível estabelecer “parentesco” entre os seres de modo a fortalecer ainda mais o que já se sabia de suas ascendências e descendências. A distribuição geográfica dos seres, mais uma vez prova a deriva dos continentes, a existência de placas tectônicas e a antiguidade do Planeta.

O criacionismo empunha a Bíblia como se um tratado de ciência fosse; como se a verdade última da história do universo, do homem e da vida, ali estivesse contida. A Bíblia não pode ser encarada como compêndio de história, muito menos de ciência, quando muito é um apanhado meio desconexo de filosofia doutrinária escrito por vários autores distribuídos no espaço e no tempo, cada um contando à sua maneira estórias e lendas de um povo e de uma região, ouvidas e interpretadas de acordo com os costumes de cada época.

Os autores da Bíblia ao contarem o mito do dilúvio, por exemplo, estavam colocando em letras o que ouviam dos mais velhos que haviam escutado de outros contadores de estórias, algo que estava entranhado na tradição folclórica de povos mais antigos como os mesopotâmicos (Epopéia de Gilgamesh), babilônicos e hassídicos. Lembrando que mito é uma narrativa em forma de história que, por meio de seleção de eventos e atribuição de relevância a situações e personagens, torna um passado virtual em algo significativo, encorajando a coesão social. Depreende-se que os mitos são necessários. É razoável inferir que nem os escribas acreditavam na veracidade de suas estórias, eles provavelmente as escreviam como ficção.

Enquanto a estultice do criacionismo descarta as evidências que a ciência descobre sobre a evolução, e assume como verdade estórias ficcionais e lendas nem tão boas registradas na Bíblia, não haverá como conciliar a boa ciência com a cegueira de quem não quer ver. Lamentável. JAIR, Floripa, 08/04/10.

*Por qualquer ângulo que se olhe é igual.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

NUMISMÁTICA - 5


NOTAS PEQUENAS, GRANDES E ANTIGAS

É mais comum do que se imagina o tamanho das células acompanhar o valor nominal delas, isto é, quanto maior o valor facial maiores dimensões tem o dinheiro. O Brasil já usou esse sistema em várias ocasiões com algum sucesso, aliás, segundo notícias recentes está para ser mudada a cara de nosso Real e será implantada, novamente, a diferenciação por tamanho. Abaixo algumas notas de meu acervo, as quais selecionei pelo tamanho ou pela antiguidade.



NOTAS DE PEQUENAS DIMENSÕES


Cédulas de Anna de 5,5 X 4,2 Cm, décima sexta parte da Rúpia, emitida em 1934. Trata-se de moeda divisionária segundo o costume inglês de dividir seus valores por múltiplos de quatro. Papel e impressão ruins com se pode esperar de notas de tão baixo valor. Há indícios que foram emitidas em papel por falta de metal na época.



Esta é a menor nota de meu acervo, selo postal russo de valor um kopek, centésima parte do Rublo, transformado em cédula através de carimbo na frente e no verso, em 1918. Dimensões 3,0 X 2,3 cm, consta que a inscrição no verso dá garantias ao portador sobre sua validade, algo assim: Se pagará ao portador desta a quantia de um Kopek de acordo com a lei. Não era raro o uso de selos postais como dinheiro em vários países em várias épocas.







Belíssima nota de 1919, impressa em cores no verso. Medindo 4,7 X 3,7, é a menor cédula de Rublo já registrada. Nessa época as cédulas russas cresciam proporcionalmente a seus valores faciais, de modo que mil Rublos, por exemplo, era algo com dimensões bem alentadas.










Esta cédula de um Pfennig, centésimo de Mark, moeda oficial da Alemanha, é de
1918 e mede 3,8 X 3,0 cm. É impressa em papel espesso parecendo cartolina. Uma das menores notas de minha coleção







CÉDULAS GRANDES






Olha aí essa grandona, bela cédula de Libra emitida pelo Banco Real da Escócia em 1914. É uma nota "one face" impressa em papel de palha de arroz de ótima qualidade. Mede 16,2 X 12,2 Cm. Para se ter uma idéia desse tamanho é só lembrar que as notas de Real nossas medem 14,0 X 6,5 Cm.

CÉDULAS ANTIGAS

Cédula de 1865, Peso paraguaio, hoje o dinheiro lá é Guarani. Esta nota de bordas irregulares, assim é porque elas vinham impressas em folhas que continham mais de uma nota e eram cortadas que sem critério pelo banco que as passava para aos clientes. Impressa em apenas um lado do papel, faz parte de uma longa emissão que contemplou o gado vacum como figura de face.


Vinte Mil réis supostamente de 1833 tipo "one face" como a maioria das cédulas daquele tempo. Impressão monocromática, papel de qualidade inferior e bordas irregulares, mas desenho ilustrativo e bordas bem elaborados.




Esta é a cédula mais antiga de minha coleção. Trata-se de uma Libra "one face", de impressão simples e papel bem ordinário, emitida em abril de 1789, ano da revolução francesa. Diferente do dinheiro ao portador, o qual é a norma que conhecemos e usamos, este é um certificado de depósito bancário emitido no nome de Jonathan Olmsted, e deve ser honrado por quem o emitiu, o estado de Connecticut, USA. O que significa isso na prática? Significa que se o senhor Jonathan quiser usá-la na compra de um bem ou serviço, poderá fazê-lo tranquilamente, quem a receber terá garantia do governo, geralmente através de um banco, que existe uma quantia depositada correspondente em metal precioso, a qual poderá ser resgatada no valor facial da "nota de dinheiro", desde que assinada no verso pelo detentor original. Aliás, no verso desta, existe assinatura do senhor Jonathan e mais outra que pode ter sido de algum avalista ou coisa parecida. Curiosidades desta cédula: ela é pré impressa e com lacunas a serem preenchidas pelo emitente com os dados de quem a receberá, e o furo existente significa que ela foi resgatada e não mais tem valor, está anulada para fins fiduciários. JAIR, Floripa, 02/04/10.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A SAGA DA FIDELIDADE




Publiquei um texto “A fidelidade” do qual extraí este trecho: Sobre as ‘grandes palavras’ do vernáculo como: amor, ódio, esperança, virtude, honestidade, patriotismo etc, sempre podemos encontrar exemplos edificantes na história da humanidade, mas, para fidelidade nada, ninguém, nenhuma coisa, nenhum bicho, nenhum homem encarna tão perfeitamente e com tanta justiça o significado dela como o Cão”.

É sobre essa virtude canina elevada ao mais alto grau que trata este texto, baseado em notícias de jornais do Oregon da época. Em agosto de 1923, o collie Bobbie perdeu-se de seus donos enquanto estes viajavam por Indiana, EUA. O cão e a família Smith viviam no Oregon, estado situado a distância de 3700 quilômetros. Em fevereiro de 1924, ou seja, quase cinco meses depois, Bobbie pulou na cama onde seu dono dormia e lambeu-lhe alegremente o rosto. Ele estava esquelético, com as patas tão machucadas que era possível ver os ossos através das almofadas, mas sobrevivera. A Sociedade Humanitária do Oregon acabou rastreando, através de testemunhas, a rota percorrida pelo bicho, e descobriu que ele havia viajado quase cinco mil quilômetros para chegar em casa. O cachorro havia cruzado as Montanhas Rochosas, atravessado o rio Missouri e até mesmo dividido um cozido com legumes com um bando de mendigos, na sua saga. Deduziu-se que Bobbie caçava e comia coelhos, - hábito que ele adquiriu quando vivia com seus donos - e conseguiu evitar a morte certa por ter fugido da carrocinha em pelo menos duas cidades. O mais espantoso, é que no decorrer de sua jornada, não seguiu exatamente a rota que seus donos haviam feito, mas, ao invés disso, atravessou territórios que nunca vira antes, e dos quais não possuía conhecimento algum. Acabou sendo homenageado com uma coleira de ouro simbólica pela sua façanha, e nunca mais se separou de sua família.

Histórias como esta existem às centenas, quase sempre não comprovadas mas, de qualquer forma, interessantes e com certo mistério a ser resolvido. Como os animais conseguem orientar-se nesses deslocamentos? Há quem acredite que animais, mais que humanos até, possuem uma percepção extra-sensorial. Os mais céticos, como eu, admitem que os animais, sejam domésticos ou não, têm uma capacidade de orientação geral, uma espécie tosca de GPS orgânico que se guia pelo sol ou pelas linhas magnéticas da Terra, do tipo: “desloquei-me para direita donde me encontrava, logo, para voltar, tenho que andar para a esquerda”. Feito isso, o bicho vai, grosso modo, no sentido que deve e, por tentativa e erro, acaba chegando em região conhecida, que, geralmente é onde os cheiros lhes são familiares, daí é só “fazer sintonia fina” e achar o local onde mora. E o que o move, o que determina sua vontade de chegar é a fidelidade que dedica a seu dono.

Para ilustrar, uma experiência própria: Quando eu tinha uns doze anos, lá na minha Palmeira natal, recebi a incumbência de abandonar um gato de minha mãe que supostamente estava comendo pintinhos de uma vizinha. Essa história de comer pintinhos não estava bem contada porque o gato gostava mesmo de camundongos, e degustava também lagartixas e até cobras de pequeno porte que encontrava pelas redondezas. Não obstante, lá fui eu, com uma caixa de papelão na garupa da bicicleta onde havia colocado o assustado bichano. Pedalei até onde estava sendo construída uma estrada nos arredores da cidade e, considerando que estava “longe” de casa, soltei o animalzinho. Ele escafedeu-se, ganhou umas moitas de guanxuma ali perto e sumiu, não mais o vi. De volta para casa, pedalando calmamente, fui informar que havia cumprido a missão. Ao chegar, para espanto de todos, lá estava o gato alegre e cheio de saúde lambendo-se todo, sem aparentar qualquer trauma ou desconforto. Pela esperteza, o bicho deixou de ser punido novamente e, para felicidade de todos, não mais almoçou os pintinhos. Provavelmente o meu “longe” era apenas o quintal da casa do felino, daí ele ter voltado com tanta facilidade. Neste caso, a fidelidade do animal seria apenas ao lugar no qual encontrava abrigo e alimento e não a seus donos. JAIR, Floripa, 28/03/10.