terça-feira, 2 de março de 2010

NUMISMÁTICA - 1

MEU HOBBY


Desde quase quarenta anos atrás me dedico à numismática. O Houaiss registra: NUMISMÁTICA - Ciência que tem por objeto de estudo as moedas e as medalhas. Entendendo-se moeda no sentido lato = dinheiro, abrangendo moedas metálicas e notas de papel ou de qualquer outro material que os tempos modernos determinem. É um mundo extremamente fascinante e envolvente, e quem a ele se dedica adentra a história, a geografia, a economia e a organização política dos países. A história do dinheiro é própria história da civilização; os limites geográficos dos países determinam o tipo do dinheiro adotado; a economia e a moeda são irmãs siamesas; e a política muda a cara das notas e moedas na medida em que os governantes e os regimes mudam.
Minha coleção, hoje bem avultada, refere-se somente a notas de valor nominal UM, de todos os tempos e todos os países. Claro que é um projeto não apenas de uma vida, e sim de gerações. Quando eu me for, se meu filhos ou netos quiserem continuar a colecionar terão um campo enorme à frente. E que bons ventos os conduzam.
Bem, hoje não vou falar sobre minha coleção ou sobre coleções, quero apenas apresentar algumas notas brasileiras que, por saírem das configurações normais, pelo valor facial ou pela impressão são curiosas, ou quase isso. Abaixo algumas notas de meu acervo que selecionei e vou dizer alguma coisa sobre elas:


Nos tempos d'antanho (ô palavrinha danada de demodê, que, aliás, também é ultrapassada), mais precisamente durante o Império do Brasil com "S", o Real era a moeda corrente, "réis" era o plural de Real, e o dinheiro tinha tanto valor que o poder podia se dar ao luxo de mandar imprimir notas de quinhentos réis, em 1874 e 1880. Para termos idéia do que isso significa, é como se hoje existissem notas de cinquenta centavos. Estas são cédulas com a efígie do Imperador fabricadas pela American Bank Note Company, maior fabricante de dinheiro do mundo por muitos anos. No século dezenove e início do século vinte era comum a ABNC fabricar notas até para a China e Rússia.


A República, que ainda era "dos Estados Unidos do Brazil" (assim mesmo com "Z") em 1893 e 1901 também emitiu notas de quinhentos réis. Como não havia inflação, era viável emissão de notas de baixo valor.


Na década de vinte o Brasil resolveu fazer experiência com impressão de dinheiro, através da Casa da Moeda do Rio de Janeiro. As notas acima são representativas dessa malograda tentativa de nacionalizar a fabricação do meio circulante. Papel de péssima qualidade, quase papel de jornal, desenho simples e impressão sofrível, notas fáceis de serem falsificadas. Os falsários comemoraram o período favorável ao ofício, tanto dinheiro foi contrafeito nos recônditos da criminalidade que o poder constituído resolveu recolher-se a sua humildade e voltar a American Bank Note. Tenho uma nota falsa dessa época.


Em 1905 a empresa italiana Cartiere P. Miliani - Fabriere, fabricou notas de excelente qualidade para o Brasil. Desenho primoroso, impressão de primeira e resistente papel de arroz tornavam essas notas muitos pontos melhores que as da American Bank Note, mas, por alguma injunção desconhecida, nunca mais foram importadas. A efígie que aparece na marca d'água oval é do Barão do Rio Branco. Mais de um século depois, esta que aparece na foto está em estado de nova.


Getúlio havia empalmado o poder com a revolução de 1930, e os partidários gaúchos não resistindo a tentação, em 1931, emitiram "bonus" com a efigie do ditador que, na prática, representavam duas coisas: Era dinheiro regional que valia para todos os efeitos; e homenageava o homem forte do país. Foram confeccionadas pela Lithographia da Livraria Globo de Porto alegre e não perdiam em qualidade para o dinheiro circulante da época. A Livraria Globo era sediada na rua da Praia até este século.


Nota de Cem mil réis de 1942 onde aparece pela primeira vez Alberto Santos Dumont. O curioso desta emissão é que no mesmo ano o padrão "milréis" foi substituído pelo padrão Cruzeiro, e a homenagem ao grande brasileiro tornou-se pífia. Além dessa homenagem ao pai da aviação esta nota foi fabricada, curiosamente, por Waterlow & Sons Limited, de Londres, concorrente inglesa da American Bank Note Co. de Nova Iorque. Apesar da qualidade do papel e da impressão, parece que a experiência não deu certo porque a American voltou a fabricar notas para nossa República novamente.
Penso em postar mais textos que registrem informações sobre notas de outros países.
JAIR, Floripa, 03/02/10.

segunda-feira, 1 de março de 2010

ARTESANIA, UM DESAFIO



A partir de minha curiosidade natural, andei fazendo uma incursão pelo artesanato. Descobri em uma feira de artesãos um cidadão que cortava moedas e confeccionava pingentes bem originais e bonitos a partir de moedas sem valor. O artesão era muito simpático e me proporcionou informações, de forma que eu pudesse me arriscar na feitura dos artigos. Mesmo sendo um bisonho neófito poderia obter resultado satisfatório. O desafio, mais que qualquer outra coisa, me moveu a tentar alguma coisa no sentido de transformar numismas desprezadas em delicada bijuteria. Minha habilidade manual estava para ser testada. Parti para comprar o material necessário: torno de bancada pequeno, brocas de baixíssimo calibre, furadeira elétrica a bateria, arco de serra tico-tico, serras finas, uma retificadora manual, esmeris pequenos e variados, limas de diversas formas, tudo como mostrado abaixo:




Bem, a delicadeza do trabalho e a mão firme necessária, não facilitam que o iniciante obtenha um resultado ótimo, mas alguma coisa interessante pode aparecer como os exemplos abaixo:
Moeda íntegra, início do recorte
e já vazada faltando acabamento.

Exemplos de moeda recortadas




Moeda de um Balboa de prata



Tiradentes de bronze



Elisabeth II de cobre


Minha preferida

Quero me desculpar pela qualidade das fotografias que, como os leitores podem observar, atestam que não tenho tanta intimidade com a arte de Daguerre. JAIR, Floripa, 02/03/10.


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

AS MAIS BELAS FLORES DO PLANETA



Durante alguns anos, quando morei em casa térrea, fui um apaixonado colecionador de orquídeas. Montei um espaço apropriado em meu quintal ao qual dei o nome de “Orquidário Dedo Verde” em homenagem ao livro “O menino do dedo verde”, de Maurice Druon. Li tudo que podia sobre essas fascinantes plantas, visitei orquidários e exposições, frequentei sociedades orquidófilas, comprei, colhi, plantei, reproduzi, importei e cuidei dessas que são as mais belas flores que a natureza já produziu. Confesso que, por um bom tempo, mergulhei de corpo e alma no hobby, fui um orquidófilo dedicado e imerso até o pescoço na botânica e, especialmente, na família Orchidae, que é onde estão classificadas as orquídeas.
A Orchidae é, provavelmente, a maior família das angiosperma. Lembrando que angiospermas são plantas que produzem sementes em um ovário, como as rosas, por exemplo. A ciência já descreveu, até o momento, 25 mil espécies de orquídeas, sendo atribuída aos orquidófilos a produção da metade desse número, por hibridização.

Vanilla subindo na hospedeira

Mas, o que é uma orquídea? É uma planta superior – que possui raízes, caule, folhas, flores e sementes – distribuída por todos os continentes à exceção da Antártida. Possui flores que além de três pétalas geralmente separadas e coloridas, têm três sépalas, também coloridas, que fazem parte do conjunto. E é essa flor, geralmente muito atraente, que define a planta, TODAS as orquídeas têm flores com estas características.

Flores da Vanilla

A variedade de tamanho da planta, as formas e as cores das flores e os habitats onde elas são encontradas, fascinam o homem desde que este descobriu a existência de tão bela criatura. Existem plantas de mais de três metros de altura como a Selenipedium; com vinte metros ou mais como a Vanilla, – de cujas sementes se extrai o produto baunilha usado na culinária e fabricação de doces - a qual forma uma espécie de cipó que se agarra às arvores; e a Ornithocephalus, por exemplo, que não passa de 5 centímetros a planta, com flores de seis milímetros. Em relação ao ambiente que as orquídeas vivem, pode-se classificá-las em três grupos, embora algumas espécies apareçam em mais de um grupo, às vezes: epífitas ou dendrobatas, são as que nascem em árvores; terrestres, no chão, que pode ser areia, humus ou terra; e as rupestres que se desenvolvem em pedras. Todas são necrófitas, ou seja, suas raízes alimentam-se de matéria morta, não procedendo, portanto, o hábito popular de chamá-las “parasitas”, pois estas são uma família de plantas que prejudicam seu hospedeiro alimentando-se de sua seiva.
Dentro desse universo magnífico e grandioso, fiquei fascinado pelas orquídeas exóticas e pelas mini-orquídeas, e a elas dediquei meus estudos mais profundos, meu tempo mais precioso e minhas buscas mais tenazes.


Dockrillia cucumerina, a jóia da corôa de qualquer orquidário
Nas minhas pesquisas livrescas descobri aquela que a maioria dos orquidófilos considera a mais estranha do mundo, e, para meu gáudio, uma das menores também: Dockrillia cucumerina, anteriormente catalogada como Dendobrium cucumerinum, também chamada “orquídea pepino” porque suas “folhas” têm a forma dessa cucurbitácea. Lembrando que as cucurbitáceas são todas as abóboras, melões, melancias, pepinos e semelhantes. Pois bem, essa raridade só vive numa certa porção de floresta tropical no nordeste da Austrália. Que fazer para consegui-la? A solução é viajar para a Austrália, é claro! Foi o que fiz. Aliei visita a meu filho que, por coincidência, morava no nordeste australiano, ao meu desejo de possuir tal excentricidade, viajei para lá e consegui em um orquidário, quatro mudas da cucumerina, foi o ápice de minha busca, foi como encontrar a pedra filosofal para os alquimistas.


A delicadíssima Ornithocephalus iridifolius
Ainda bem que não é só viajando para o outro lado do mundo que se consegue essas rarezas. Uma das mais fascinantes e estrambóticas orquídeas é a que tem o estranho nome de Ornithocephalus iridifolius, porque suas pequenas flores de seis milímetros têm semelhança extraordinária com a cabeça de um passarinho, daí o ornithocephalus do nome. Pois é, a literatura coloca algumas espécies dessa fugidia criatura no sul do Brasil, sem especificar o tipo de floresta, a preferência climática ou a altitude que as plantas são encontradas. Acontece que eu morava no norte da ilha de Santa Catarina onde existe um trecho bem conservado de mata atlântica, local no qual eu fazia caminhadas ecológicas, buscava material para esculturas e apreciava as inúmeras orquídeas que lá abundam. Numa dessas incursões encontrei a iridifolius em toda sua pequenez e beleza, em um galho caído, praticamente no quintal de minha casa. Trouxe para minha coleção duas mudas e deixei lá mais de uma dúzia de exemplares. Colecionar sim, depredar a natureza não.
Como nem tudo acontece como a gente planeja ou deseja, um dia mudei de casa térrea para apartamento e minhas orquídeas tiveram que ser realocadas para o sítio de uma amiga, onde ora se encontram felizes e saudáveis como merecem estar. JAIR, Floripa, 25/02/10.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O DICIONÁRIO


Acabo de ler a história do maior e mais completo dicionário do idioma inglês, o “Oxford English Dictionary”, conhecido como OED, o qual levou setenta anos, de 1858 a 1928, para ser confeccionado e registra absolutamente todas as palavras da língua. Contém 414.825 termos definidos, cada um com pelo menos um exemplo de utilização retirado da literatura publicada em língua inglesa. Consumiu o esforço intelectual de milhares de pessoas, a maioria, voluntárias anônimas, que participaram da criação conjunta desse monumento.
O conceito que norteou a feitura de algo tão grandioso, tão fundamental e tão impressionante deveria ser o mesmo para qualquer língua de qualquer país: Não há termos bons ou ruins; não deve haver preconceito para com estas ou aquelas palavras; um dicionário deve ser o registro de todos os vocábulos que desfrutam qualquer tempo de vida reconhecível num idioma padrão. No Brasil temos grandes e importantes dicionários, como o Houaiss, por exemplo. Contudo, ainda não nos foi apresentado um que se compare ao OED, e me fascina a ideia que venha a existir um compêndio definitivo que só necessite de atualizações de tempos em tempos para manter sempre o registro preciso, a referência última da Flor do Lácio.
O coração desse hipotético livro, que poderia chamar-se Dicionário Definitivo de Português, o qual possivelmente chamaríamos de DDP, seria a história do período de vida desde o nascimento, passando pela evolução, de toda e qualquer palavra. Lembrando que o nascimento da palavra seria seu uso em qualquer texto desde que a língua iniciou a ser escrita.
Algumas palavras são antigas e ainda existem; outras são novas e desaparecem, têm vida efêmera; outras, ainda, surgem durante um período em que seu emprego se justificou, desaparecem, para surgir mais tarde, às vezes com conotação diferente. Mas todas as palavras constituem partes válidas da língua portuguesa, todas merecem ser conservadas num dicionário. A questão a ser considerada é: Se alguém precisa verificar uma palavra, ela deve estar lá, não importando quando existiu ou se sua vida foi efêmera como a de uma mosca.
É importante saber o momento exato em que o vocábulo apareceu, ter um registro de seu nascimento. Não quando foi pronunciado pela primeira vez, que isso é impossível, mas sim quando foi escrito pela primeira vez. Impraticável? Não. Muito trabalhoso e difícil, sim. O Houaiss já registra com grande sucesso a história de seus verbetes. A exemplo do OED, nosso DDP teria que contar com a adesão de milhares de mentes dispostas a ler e coletar, desde os primeiros registros em Portugal talvez, todas as palavras, com seus significados originais, derivações de uso em locais diferentes, evolução com o tempo e emprego diferenciado de autores. Trabalho ciclópico só possível com um planejamento minucioso, sério e comprometido de autoridades, filólogos, especialistas nas mais diversas áreas, bibliotecas públicas e particulares, escritores, editoras, universidades e, talvez mais importante, colaboração maciça da Academia Brasileira de Letras a qual centralizaria a coordenação e o comando dos trabalhos.

Claro que, o trabalho de pesquisa, coleta, cotejo e registro não se restringiria ao Brasil e Portugal, haveria necessidade de garimpar em todos os países que falam português, seja como língua principal, a exemplo de Angola e Moçambique ou como secundária, como o Timor Leste e a antiga colônia de Goa na Ásia. O Dicionário de Oxford se preocupou em coletar termos em todas as colônias e ex colônias do antigo Império inglês. Assim, desde Austrália e Nova Zelândia como Guiana e Quênia, passando pelo Canadá e Trinidad e Tobago contribuíram com sua cota de garimpo.

Obviamente, nos tempos atuais será muito mais fácil organizar a estrutura de coleta de termos do que foi para os ingleses, a internet está aí para isso. Não haverá necessidade de disponibilizar os livros antigos e raros para os possíveis leitores, basta escaneá-los e colocar em bibliotecas virtuais onde os leitores poderão consultá-los. Assim, muito tempo será poupado e, ao invés dos setenta anos gastos pelos ingleses, que tal aventarmos a hipótese de apenas sete anos?

Na minha concepção, haveria a versão em papel, em CD e virtual on line, de modo a oferecer um leque de opções para os usuários, sejam conservadores apegados ao papel, sejam mais internéticos acostumados à informática e suas facilidades.

Acredito, inclusive, não ser original esta minha ideia, que não sou o primeiro a pensar esse projeto, contudo, mesmo sendo assim, quero cutucar os formadores de opinião e a intelectualidade deste País para tomarem a iniciativa, para que iniciem esse ambicioso empreendimento que, sem dúvida, será a ferramenta máxima a qual tornará possível, enfim, a unificação da Última Flor do Lácio. JAIR, Floripa, 14/02/10.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

ZÉ DIABO, VÍTIMA DA INDIFERENÇA E DO TEMPO

Zé Diabo esculpindo o Paredão
José Fernandes, o Zé Diabo, é um destacado escultor da cidade de Orleans, Santa Catarina. Hoje com 80 anos, já aposentado, afastou-se da escultura, mas curte escrever como atividade lúdica. Zé Diabo ainda vive na pequena cidade e é simpático e acolhedor com turistas que, quase diariamente, o procuram para estabelecer contato com o artista afamado. Os visitantes se extasiam com a obra que Zé confeccionou: mais de 160 metros quadrados de área esculpida em pedra viva, em painéis os quais mostram desde a criação do homem até os últimos profetas do Antigo Testamento. Tive a honra ver a obra e conhecê-lo, bater papo e até ganhei um livro com sua biografia, autografado.
A arte de Zé Diabo também está registrada nas igrejas. Na capela de São Bom Jesus de Iguape, na localidade de Rio Belo, está a mais recente obra: o painel central com a crucificação, morte e ressurreição de Cristo e o altar da igreja. Detalhista, o artista mostra com orgulho as expressões do rosto de cada um de seus personagens.


Interior da igreja de Santo Antonio decorada por Zé Diabo.
Interessante é que o escultor que se dedica à arte sacra seja conhecido por um tão pouco santo apelido, Zé Diabo. Segundo ele mesmo, seu apelido nasceu depois de um de seus trabalhos no qual aparece São Miguel Arcanjo lutando contra Lúcifer, numa antiga capela onde ele criou um diabo hiper realista assustador com chifres, tridente e tudo mais. Para os paroquianos, Zé só podia ter algum acordo com o Demônio para criar obras tão belas e, ainda, colocar o próprio dentro da casa de Deus. O apelido pegou, e Zé sente certo orgulho dele, embora seja um homem temente a Deus e caridoso.


Nascimento de Jesus
A história artística de Zé Diabo começou quando ele, filho de cortador de pedra, auxiliava seu pai numa pedreira próxima ao rio Tubarão. Desenhista intuitivo exímio e religioso praticante, Zé olhava para o paredão de arenito à margem esquerda do rio e imaginava esculturas colossais, como as do Egito antigo, que contassem a história bíblica. Depois de terminar o ginasial, Zé foi contratado para pintar paredes e cenas sacras nas igrejas e capelas da região, coisa que fazia com prazer, mas sempre pensando nas esculturas que queria criar.
Na década de oitenta, Zé recebeu subsídios de industriais da região e pode começar sua obra máxima. Primeiramente, pensava-se que o trabalho do Zé pudesse levar um ano e, para isso, os custos foram calculados. Demorou oito anos.


Os Profetas
Zé, hoje, está meio desiludido pelo pouco caso que a comunidade Orleanense dá a sua obra prima, as esculturas estão sendo tomadas pela natureza e não recebem a menor manutenção, lamentavelmente.
Bromélias, samambaias, líquens e trepadeiras se imiscuem e brotam sobre as figuras bíblicas dando-lhes uma aparência antiga como as ruínas maias do México e da América Central.


A Arca da Aliança
Essa retomada da natureza sobre aquilo que já foi selvagem, embora seja normal, em nada contribui para melhorar a criação humana, pelo contrário, o que o homem criou um dia reverterá para o meio de onde se originou. É uma lei que não pode ser revogada, apenas retardada sua aplicação. Zé, conformado, reconhece que sua obra maior um dia será apenas lembrança, um dia a natureza recuperará o espaço que dela foi roubado.


Passagem do Mar Vermelho
Autodidata, Zé desenvolveu suas técnicas de desenho, pintura e escultura em duas dimensões, como ele mesmo diz, mas agora se dedica apenas a escrever algum conto, alguma crônica e “causos” ouvidos, mas, dentro do que ele escreve, às vezes, vislumbra-se a definição de sua busca pelo meio de expressão que mais usou e que o consagrou como artista: “Tentei escrever na areia, não deu certo, a onda apagou tudo. Tentei na água ela não aceitou, engoliu todas as vírgulas e pontos de interrogação. Experimentei no papel, mas ele se recusou dizendo que nele só escreviam pessoas letradas, e eu não era. Pensei então em escrever no ar, mas este é invisível, logo não se veriam as letras. Então recorri ao fogo, mas ele foi cruel e queimou tudo. Comecei a ficar desesperado, eu tinha que escrever algum recado para o povo, eu sentia que era preciso.
Foi então, que me lembrei da pedra. Deu certo, ela aceitou”.


Zé Diabo e eu na sua casa em fevereiro de 2010.

O que mais entristece quem vê as obras de Zé, não é somente o fato que elas um dia desaparecerão no meio do mato, mas, sobretudo, a realidade que ele não deixou seguidores, discípulos ou imitadores, seu legado morrerá com ele. Nascido numa pequena cidade onde manifestações artísticas de qualquer natureza são como excentricidades ou aberrações, nenhum movimento de esculturismo surgiu a partir de suas obras, ele é único e ninguém o seguirá. O tempo cobrará a indiferença daquela comunidade. JAIR, Floripa, 21/02/10.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A EPIFANIA DE DANTE

Dante Castelani, o qual tenho a honra de considerar amigo, é um artista muito talentoso. Com mais de 20 anos como escultor criando obras com suavidade e movimentos de sensualidade marcante, ele está entre os grandes escultores do País. Radicado em Floripa, onde, numa oficina bem montada executa suas obras, vive exclusivamente de seu trabalho. Dedica-se a memorizar com criatividade e técnica apuradas, principalmente formas femininas, em pedra, madeira e terracota. Suas esculturas em pedra sabão e alabastro são cotadas em dólares e muitas delas encontram-se em casas particulares e órgãos públicos na Europa e nos EUA. Hoje, pode-se dizer, Castelani é homem e artista realizado, mas nem sempre foi assim. Nascido e criado em Porto Alegre, Castelani, de origem modesta, trabalhou desde muito jovem sem escolher onde nem em quê, visto que o trabalho fazia parte da vida e esta só era possível através daquele. Nem de longe tinha qualquer contato com criação e arte.
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Já adulto, de espírito empreendedor que era, montou uma modesta indústria de conservas onde, depois de anos de labuta pesada, já empregava quinze operários. Sua empresa estava andando bem, até que um desses malfadados planos econômicos de “salvadores da Pátria”, a colocou a nocaute. Mais precisamente o Plano Sarney, que congelou preços das mercadorias, confiscou bois no pasto e emitiu moeda em profusão acelerando a inflação, foi o perverso algoz que quebrou as pernas de sua indústria e o colocou na lista dos perdedores.


Sem dinheiro, com dívidas insaldáveis e sem perspectivas, ele caiu em depressão profunda; recolheu-se a sua casa onde vegetou por alguns meses, sem ver pessoas, sem ver televisão, sem ler jornais, sem qualquer atividade. Depois de algum tempo, como terapia ocupacional auto imposta, muniu-se de formão e martelo e, trabalhando pedaços de madeira de demolição, começou a dar formas a esse material. Esculpia figuras, principalmente de mulheres nuas. Por um desses casuais encontros que a vida promove, um colecionador de arte de São Paulo deparou-se com as obras de Castelani e comprou-as todas, com entusiasmo de quem encontrou uma mina de ouro. Foi aí que Castelani teve sua epifania: Ele nunca fora industrial ou comerciante, ele era um ESCULTOR NATO!


Consciente de sua recém descoberta virtude, partiu para aperfeiçoar sua técnica, diversificar o material a ser usado e colocar suas criações “na vitrine”, em exposições coletivas e individuais. Um grande talento, até então insuspeitado que se escondia embaixo do enganoso verniz de empresário, aflorou com toda força.
Igual a um conto de final feliz, a sociedade perdeu o empreendedor frustrado e ganhou o escultor que retira da matéria bruta formas glamurosas e sensuais que lá se escondem.
Para felicidade de Floripa, foi aqui que o Dante encontrou um nicho artístico vago e para onde se mudou com a família, cinzéis, formões, martelos, cabeça cheia de ideias e formas e mãos prontas para a criação. Como estamos carecas de saber, esses planos econômicos malucos normalmente trazem caos e insegurança, mas, excepcionalmente, podem trazer algumas ótimas surpresas. O profícuo escultor Castelani é prova disso. JAIR, Floripa, 13/02/10.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A QUESTÃO CHRISTIE, ou COMO O IMPÉRIO BRASILEIRO ENGOLIU UM SAPO BRETÃO


Em 1860 as relações entre o Império brasileiro e o inglês não eram assim tão cordiais, os ingleses, por puro interesse comercial, exerciam pressão política para que o Brasil abolisse a escravidão no país. Inclusive, o “Império onde o sol nunca se põe” não hesitava em usar sua extraordinária armada que cobria “os sete mares” para exercer pressão do mais forte sobre o mais fraco, esperando manter e até ampliar seu mercado consumidor no território brasileiro com a criação de uma classe de trabalhadores assalariados. Além disso, com o capitalismo industrial se expandindo pela Europa, havia agora concorrentes que abocanhavam fatias de mercado antes pertencentes aos ingleses, e estes lutavam com todos os meios para não perderem consumidores. Até na América do Sul, o Paraguai com suas indústrias de tecidos era visto como uma ameaça ao comércio inglês, e isto era imperdoável, segundo a visão mercantilista do império dono dos mares.
A tensão entre os dois países aumentou quando, em abril de 1861, um navio britânico, o Prince of Wales, encalhou em Albardão, localidade no sul do Rio Grande do Sul. A região de Albardão é conhecida com cemitério de navios porque possui litoral em forma de rampa, traiçoeiros bancos de areia e fortes ventos que empurram os navios para a costa, onde encalham. E, barcos encalhados, passam a ser objeto de saque por parte dos habitantes da região, conhecidos como piratas de terra, que, à noite, costumavam fazer sinais de luzes para atrair os navios. Provavelmente foi assim que o Prince of Wales encalhou. O barco inglês foi depenado de sua carga e dezesseis de seus tripulantes foram trucidados. Os sobreviventes procuraram o cônsul inglês que residia na cidade de Rio Grande, e este se deslocou até o local do encalhe onde encontrou os corpos do capitão, sua esposa e dois filhos.
O incidente era gravíssimo, e a Rainha Vitória que não estava propensa a levar desaforo para casa, ameaçou com sua poderosa marinha se o Brasil não pedisse desculpas e indenizasse o navio saqueado. Mas o Imperador Don Pedro II, com arrogância de monarca ofendido se recusou a qualquer atitude que, remotamente, desse a impressão de submissão. Disse, lá com seus botões, que não pagaria coisa alguma e não pediria desculpas.
No ano seguinte, a situação agravou-se ainda mais. Marinheiros ingleses bêbados, de folga na zona portuário do Rio de Janeiro, entraram em luta corporal armada com cidadãos brasileiros por causa de prostitutas e foram presos. O embaixador inglês, William Dougal Christie, cheio de empáfia que lhe impunha o cargo de embaixador da maior potência marítima do Planeta, exigiu a soltura de seus marinheiros e insistiu na indenização do navio saqueado, no pedido de desculpas oficial e na punição dos policiais envolvidos na prisão. Don Pedro, como seu homólogo bíblico, negou pela segunda vez reconhecer as reivindicações inglesas.
Acontece que a Inglaterra se sentia (e era) tão poderosa que se recusava até a que seus cidadãos se submetessem à justiça brasileira, e, para isso, havia instituído um tribunal no Rio de Janeiro para julgar os britânicos que infligissem as nossas leis.

Em 1863, numa retaliação às inadmissíveis atitudes do Brasil, a poderosa esquadra britânica abordou e arrestou vários navios da nossa frota em alto mar, além de ameaçar bombardear a capital do Império, o Rio de Janeiro.
Diante dessa agressão, o Imperador brasileiro se viu ofendido e rompeu relações diplomáticas com a Inglaterra, bem como solicitou intermediação do rei Leopoldo da Bélgica, sobre a “Questão Christie” que já se arrastava por dois anos. O surpreendente é que, mesmo sendo tio da rainha Vitória, o rei Leopoldo deu ganho de causa para o Brasil, mas, a essa altura, o embaixador Christie já havia obrigado o Monarca a pagar a indenização exigida pela potência maior. Ficou no prejuízo o Imperador que havia, por duas vezes, se negado a reconhecer a exigência dos ingleses.
O insólito desse quid pro quo é que as relações entre o Brasil imperial e seus vizinhos paraguaios se deterioravam dia a dia insuflados pela Inglaterra, de modo que Don Pedro, deglutindo o batráquio, se viu obrigado a reatar relações com os ingleses, sem as quais não poderia adquirir armas para a guerra que se avizinhava. E, a Albion, que não prega prego sem estopa, forneceu armas para as quatro nações beligerantes e ficou assistindo de camarote o desfecho que, qualquer que fosse, lhe seria favorável. E tudo continuou com dantes no quartel d’Abrantes. JAIR, Floripa, 12/02/10.