terça-feira, 13 de outubro de 2009

OS CAMINHOS DO CONHECIMENTO


Eventualmente tenho escrito sobre o hábito da leitura, o qual me acompanha desde quando aprendi a ler aos sete anos. Desde os sete anos adentrei, com Monteiro Lobato inicialmente, o mundo mágico das letras que me conduziu da imensidão do cosmos ao âmago do átomo; passando pelas mentes criativas dos maiores pensadores, filósofos, escritores e poetas; vi o universo, num átimo, ser criado do nada; presenciei, a quatro bilhões de anos, a vida surgir na Terra; sofri quando os magníficos dinossauros extinguiram-se depois que o Planeta foi atingido por um asteróide; acompanhei a evolução de primatas que, após milhares de anos, acabaram gerando o homo sapiens; sobrevoei florestas úmidas, desertos inóspitos, terras perdidas, pântanos insalubres, mares revoltos e geleiras implacáveis; mergulhei no oceano profundo cheio de seres esquivos e misteriosos; convivi com civilizações na África, na Europa, na Ásia e na América; assisti a construção de pirâmides no Egito e a destruição de Herculano e Pompéia na Itália; cidades, como Roma e Cartago foram erigidas na minha presença; religiões foram criadas na Galiléa, no oriente e no ocidente quando lá estive; descobri continentes e ilhas distantes e conheci povos e animais estranhos; tomei conhecimento da História e convivi com homens e mulheres importantes, cujas ideias influíram no rumo dos acontecimentos humanos; me inteirei das mazelas e dificuldades da vida de pessoas comuns em todo o Planeta; conversei com Platão, Aristóteles, Demócrito, Schopenhauer, Kant e Sartre; temi guerras, massacres, pestes e catástrofes que dizimaram milhões; acompanhei conquistas da ciência e exultei com descobertas da medicina; aprendi a refletir, me emocionei, fantasiei e cogitei imagens vivas de coisas que nunca vi e de lugares que nunca estive; concebi utopias, sonhei sonhos impossíveis, construí castelos inverossímeis, imaginei mundos irreais; viajei rumo ao futuro voltei ao passado e me deleitei com o presente; abri minha mente para ideias novas e conceitos originais; vivi com intensidade e desfrutei quase tudo, bem mais do que minha idade cronológica permite. Assim, das primeiras leituras para cá, muita, mas muita água mesmo, passou sob a ponte e centenas de milhares de páginas sob meus olhos. Não tenho dúvidas que essa atividade prazerosa trouxe-me, além dos momentos agradáveis em que os autores e eu percorremos mundos paralelos cheios de vida e descobrimentos, a “mais valia” do conhecimento geral nas horas oportunas. Sempre que a vida acadêmica ou profissional exigiu aquele “algo mais” numa prova, num teste, num concurso ou numa avaliação, meus conhecimentos leiturais vieram em meu socorro. Milhares de horas de leitura, além de deleitosas, impregnam meu dia-a-dia com conteúdo aproveitável sob todos os aspectos, seja para ilustrar conversa informal, seja para embasar argumento decisivo de uma tese importante. Só tenho a agradecer a meu pai, quase analfabeto que, por ser adepto da leitura, incutiu nos filhos esse saudável hábito. Todos os cinco filhos de seu Ananias leem porque gostam e aproveitam os resultados da leitura em suas vidas profissionais, familiares e acadêmicas.
Desde muito tempo tenho o hábito de marcar os livros que compro com assinatura e data, porque a marca assinala que aquele livro foi lido por mim. Como costumo doar os livros que leio, não os tenho em casa em quantidade, somente algumas dezenas que, quando estão ocupando muito espaço nas prateleiras, tomam rumo de outros leitores, de algum sebo ou biblioteca. Pois é, aqui perto donde moro existe um sebo bem fornido onde adquiro alguns livros por mês, porque intercalo minhas leituras com livros novos e usados. Hoje atravessei a rua e fui ao sebo onde comprei vários livros, entre eles “Os silêncios do Dr Murke” de Henrich Böll. No exato instante em que olhei o título tive a impressão que o livro era um velho conhecido, contudo, como a orelha indicava uma estória interessante comprei-o. Já em casa, ao abri-lo, lá estava a marca: meu nome seguido da data: 02/07/69. Nada de muito peculiar ou maior interesse se fosse apenas isso, uma data e meu nome, mas, para conferir certo mistério ao fato, no ano de 1969 me encontrava na cidade de Guaratinguetá no estado de São Paulo. Cheguei a Floripa em 72, e, como era solteiro e minha bagagem se resumia ao que cabia em meu carro, um karmanguia, não carregava livros comigo, sem contar que depois mudei da cidade em 79 só retornando em 2000. É possível inferir que, por uma estranha razão, e por caminhos desconhecidos o livro percorreu quase mil quilômetros desde Guaratinguetá até Floripa e veio parar na esquina da rua onde moro a apenas trinta metros de distância, possivelmente tendo passado por muitas mãos de leitores interessados. Fico feliz em saber que após quarenta anos o livro continua em bom estado e pronto a ser adquirido por outro leitor; pronto para proporcionar horas agradáveis a quem comprá-lo. Como este livro, os caminhos que o conhecimento percorre podem ser indistintos, desconhecidos, misteriosos mas, sejam quais forem, trazem luz, ciência e prazer a quem os acompanha. O caminho mais curto entre o homem e o conhecimento é o livro. JAIR, Floripa, 13/10/09.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

VIOLÊNCIA GRATUITA


Aos que assistiram e aos que não assistiram: Alguns autores, como Glauber Rocha por exemplo, fazem questão de se colocar acima dos espectadores dizendo implicitamente com suas obras: "Sou inteligente, vejo mundo desta maneira e vocês que são burros que se danem. Não tenho obrigação de lhes dar explicações, nem me preocupo com suas opiniões". Como arte não se define, aos artistas tudo é permitido e a nós, mortais, só nos resta aceitar ou não, aplaudir ou não. Ficar falando sobre a obra do artista é imortalizá-lo. (Falem bem ou falem mal, mas falem de mim!). Todos que comentamos fazemos o jogo dele, do autor. Por isso, o filme “Violência gratuita” (2007), remake da obra do próprio autor, Michael Haneke, entra no rol dos filmes que vieram para polemizar e acrescentar milhares de palavras ao currículo de Heneke, sem que os espectadores saiam da sala de cinema contentes com o que viram. O filme, como o nome em português explicita, trata do comportamento violento praticado por uma dupla de psicopatas que, valendo-se de desculpa fútil, adentram a casa de veraneio de uma família em férias, torturam e matam usando linguagem e gestos educados o tempo todo. Acrescente-se que o visual da dupla é o mais clean possível: bermudas, camisetas, luvas e tênis imaculadamente brancos, penteados e bem barbeados, em completo desacordo com estereótipos hollywoodianos de vilões, estes, geralmente mal encarados, mal vestidos, feios etc. Sintonizados com o atual momento da criminalidade humana mundial, os psicopatas do filme não apresentam justificativas para tamanha brutalidade. Pelo contrário, em determinada cena, eles fazem chacota dos motivos comumente apresentados pela sociedade para tentar justificar a violência de seus componentes. Brincam com as frases como ”eu sou assim porque fui abusado quando criança” ou “sou assim porque meu pai é alcoólatra e minha mãe prostituta” e assim por diante. E mais: com naturalidade cínica, tentam vender a idéia de que só estão sendo violentos porque foram obrigados a isso pela “falta de maneiras” das próprias vítimas. Algo assim: “Você não foi educado, não pediu ‘por favor’; fui obrigado a te matar”. Foi um dos piores filme que assisti nos últimos vinte anos, salvando as interpretações impecáveis de todo o elenco. Parece que a ideia de Haneke é mostrar que a platéia é cúmplice da violência, sente um desejo insano por sangue. Essa visão demonstra que atualmente, na pós modernidade, a agressividade se tornou um complemento da sociedade em sua brutalidade real do dia-a-dia e na forma crua como é retratada nas mídias, principalmente nos filmes. Só isso. No mais, não aconselho ninguém assisti-lo, passem longe do local ou do canal que estiver sendo exibido. O filme é uma violência gratuita à inteligência e sensibilidade do espectador. JAIR, Floripa, 12/10/09.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA


Não costumo comentar filmes aqui neste espaço porque não sou crítico de cinema, e porque acho opinião a respeito de uma obra de arte, com toda a carga de subjetividade implícita, uma coisa muito pessoal, intransferível. De modo que o que eventualmente eu diga pode colidir frontalmente com a opinião de outros, não surgindo daí nenhum benefício para quem escreve nem para quem lê. Contudo, depois de assistir “Doze homens e uma sentença” me vi compelido a escrever sobre essa obra que considero o mais perfeito filme que assisti nos últimos vinte anos. O filme trata da estória de um garoto de origem latina que está sendo julgado por ter assassinado a facadas seu pai, depois de uma briga no quarto de casa. Deve se considerar que depoimentos de testemunhas incriminam cabalmente o garoto. Ele foi “visto” e “ouvido” cometendo o crime. Complementarmente, o rapaz não é “flor que se cheire”, foi criado num bairro pobre, sem mãe, sofreu influência da marginalidade local desde muito cedo, e tem passagens por reformatórios por agressão e pequenos furtos. Pois bem, ele vai a julgamento e o filme inicia com o juiz pedindo para o Júri decidir se é culpado ou inocente. Doze Homens vão decidir o destino do adolescente, eles vão escolher se este vai para a cadeira elétrica ou se vai ser inocentado. De acordo com a lei, a decisão dos jurados deve ser por unanimidade, só cabendo resultado de doze a zero a favor ou contra a inocência do acusado. Doze homens em uma sala decrépita. O calor e a falta de ventilação, causados pelo ar condicionado quebrado e portas que devem ser mantidas fechadas, criam um clima opressivo. Eles não se conhecem e não sabem nada um sobre o outro. Cada um dos jurados tem origem, condição social e idades diferentes e, como não podia deixar de ser, diversos tipos de personalidade: entre os doze, há o tímido, o intelectual, o fanfarrão inconsequente, o idoso, o de origem humilde, o imigrante, três negros de origens e vidas diferentes, dois WASP cada um com formação diversa; cada homem é um ser único que está ali para decidir sobre o destino de outro ser humano. De acordo com a praxe, o jurado número um pergunta quem considera o réu culpado, onze mãos ao alto, apenas um jurado discorda. Um homem, Davis, O Senhor Número Oito, interpretado magistralmente por Jack Lemon, - no remake de 1997, pois no original de 1957, Davis era interpretado por Henry Fonda - não levanta a mão, ele não o considera culpado, acha que existem dúvidas razoáveis que o impedem de culpar o garoto. Daí, surge no filme uma verdadeira batalha de tensões, onde homens com interesses diversos, justificativas as mais variadas e diferentes personalidades confinados num lugar acanhado, devendo tomar uma decisão de vida ou morte, colidem opiniões e convicções. Inicialmente os onze que concordam com a condenação, começam a atacar furiosamente o Senhor Davis, indignados com a sua complacência. Como inocentar um marginal que assassinou fria e cruelmente seu próprio pai? Onde está a justiça? Davis, com calma, começa então uma elegante e persuasiva batalha verbal, onde tenta mostrar que não existe verdade absoluta e que pode haver um engano em todo esse processo. O modo como este argumenta e mostra suas idéias de maneira ordenada e metódica conquista a atenção do espectador, e influi na posição dos demais jurados. Davis não enfrenta apenas as dificuldades de interpretação dos fatos para provar a inocência do réu, mas também a má vontade e os rancores dos outros jurados, com vontade de encerrarem o processo e irem embora logo para suas casas, e absolutamente certos da culpa do réu. Quando Davis, com sua clareza de raciocínio e persuasão, vai fazendo com que cada um reveja os seus votos, passam a emergir no grupo os aspectos individuais. Ao mudar o seu voto, cada um terá evidentemente que rever conceitos e convicções e vai querer que sua decisão seja respeitada. No decurso, é inevitável que as características da personalidade de cada um comecem a aflorar, surgindo então os conflitos e as emoções que exercem influência no comportamento das pessoas, bem como as variáveis que normalmente permeiam as relações dentro de um grupo tão heterogêneo. A trama prossegue sem se preocupar em mostrar se o réu é culpado ou não, mas sim se uma pessoa pode ser julgada por seus semelhantes com base apenas em evidências circunstanciais e suposições. O filme mostra a fragilidade estrutural e a complexidade de um grupo constituído de pessoas comuns; os comportamentos e padrões éticos influenciados pelas suas histórias pessoais e a catarse resultante dessa provação. A tensão crescente que permeia cada minuto da fita vem muito mais do conflito de personalidades entre os personagens e do atrito dos preconceitos e ideias, do que propriamente da ação. O filme dá um genial exemplo do comportamento humano em grupo, através do enfoque do procedimento dos doze jurados com suas diferenças culturais, pessoais e de formação, expressas em seus valores, preconceitos e falsas certezas. O filme merece ser assistido várias vezes para que releituras façam emergir os conflitos e fatores críticos envolvidos no processo decisório e o drama humano que cada um traz dentro de si. Recomendo +++++. JAIR, Floripa, 06/10/09.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

OLIM-PIADAS


Um oba-oba geral selou a consagração do Brasil como sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Chorou lágrimas televisas copiosas, o presidente, não lhe ficando atrás Pelé e a plêiade de áulicos que, a custa do dinheiro público, lotou hotéis em Copenhagen onde se realizou o último confronto das cidades, Chicago, Tóquio, Madri e Rio de Janeiro, candidatas a sediarem aquele encontro esportivo mundial. O quê, realmente, quer dizer o fato de a cidade do Rio ter sido escolhida? Podemos nos considerar inseridos entre aqueles países que, por sua tradição em esportes olímpicos, capacidade organizacional comprovada em eventos mundiais ou desenvolvimento econômico e social notáveis, podem se dar ao luxo de gastar milhões para um evento desse porte, sem consequências danosas para seus contribuintes? Bem, uma coisa ficou comprovada: temos capacidade de convencer os outros que somos os melhores, os mais bem preparados para abrigar os jogos. Por outro lado, a reação das pessoas de ponta a ponta do País, provou que somos emocionais, sabemos comemorar e estamos felizes com a conquista. Mas isso é o bastante? Esse entusiasmo e essa energia demonstrados são suficientes para garantir um acontecimento organizado, seguro e que, no fim das contas, traga algum lucro para o País? Infelizmente, caros leitores, a tradição de eventos custeados pelo dinheiro público nesta nação, demonstra o contrário. Estima-se que serão gastos 30 bilhões de reais, na consecução de infra-estrutura, segurança e instalações necessárias. (É bom lembrar que as cidades derrotadas gastariam uma média de 10 bilhões cada uma). Neste Brasil varonil de obras superfaturadas e inacabadas, onde o dinheiro público some pelo ralo e aparece em palacetes, iates e carros importados dos donos de empreiteiras, é de se duvidar deste valor, deverão ser gastos algo em torno de 100 bilhões tranquilamente. Baseando-se no orçamento dos jogos do PAN, também no Rio, onde eram estimados gastos de 300 milhões, mas foram gastos mais de 4 bilhões de reais, a quantia de 100 bilhões é um cálculo bem conservador até. Com saúde pública, educação e segurança necessitando de investimentos para tornar o país menos “terceiro mundo” um pouco só, os mais realistas podem pensar que jogos olímpicos não são prioridade. E o pior, das instalações construídas para o PAN quase nada foi aproveitado. Foram construídas várias obras, hoje verdadeiros “elefantes brancos", locais abandonados, dinheiro do contribuinte tragado pelo sumidouro político de homens públicos e empresários desonestos. Além desse lado econômico duvidoso, ainda temos o lado esportivo da coisa. Neste país que nunca valorizou o atleta; onde o atleta que conquistou medalhas o fez por esforço e com recursos próprios; que não acumulou conquistas notáveis em olimpíadas; o qual não tem uma política voltada para a educação física e prática esportiva nas escolas, é de se duvidar que daqui para 2016 esse quadro mude tanto, que se reverta para o bem de nossa juventude atlética. A politicalha e os dirigentes esportivos se disseram “de alma lavada” pela conquista, o povão fez carnaval e se auto decretou de feriado sine die, mas, parece, ninguém parou para pensar que só faltam sete anos para se fazer absolutamente TUDO. Sete anos são menos que dois mandatos consecutivos de presidente. Faltam apenas sete anos para as obras necessárias; para convencer os marginais que, pelo menos durantes os jogos, deem uma folga, tirem férias e deixem os visitantes em paz; para, minimamente, disciplinar o trânsito caótico do Rio de Janeiro; para preparar, com apoio financeiro, psicológico, técnico, físico, tempo e instalações adequadas, os atletas que tentarão ganhar medalhas. Poucas medalhas que sejam para que o país sede não dê vexame. Alegria e entusiasmo desopilam o fígado e contribuem para a saúde mental, mas não concorrem para organizar um empreendimento sério destinado a acolher atletas, jornalistas e visitantes de todo o mundo. Sorrisos, abraços, dança e música transformam o país num sitio amigável e acolhedor, mas não concretizam projetos, não constroem estradas nem desentopem ruas e avenidas apinhadas e intransitáveis. Resumo da ópera, sem muito empenho, sem compromisso com a seriedade que o momento exige, sem a grana necessária, as olimpíadas de 2016 correm o risco de serem conhecidas como OLIM-PIADAS brasileiras. Quem viver verá. JAIR, Floripa, 05/10/09.

sábado, 3 de outubro de 2009

SALVEMOS OS URUBUS


A foto que ilustra este post é de uma mãe urubu e seu filhote, SUPÉRSTITE*, com apenas alguns dias, nascido no mês setembro deste ano na cidade de Sorocaba, em uma floreira de um edifício comercial. Prova de resiliência de uma ave que se recusa abandonar seus hábitos de nidificar em lugares altos apesar de árvores de porte serem coisas do passado na região. Urubus de cabeça preta como estes, muitas vezes vivem na periferia das grandes e médias cidades que, por incúria humana, acumulam dantescos lixões onde matéria orgânica em decomposição atrai as incautas aves que não têm onde procurar alimento, porque seu habitat foi invadido pelo homo sapiens. A propósito desses soberbos animais, publiquei em julho deste ano um texto “URUBUS”, cujo trecho reproduzo abaixo:
"Os urubus, aves da família Cathartidae, primos pobres dos condores, são animais de extrema importância na natureza por serem necrófagos, ou seja, são aves que se alimentam de restos de animais já mortos. Apesar de feioso e com má fama, o urubu tem papel essencial na natureza. Como é um animal necrófago, que se alimenta de carne em putrefação, faz uma espécie de “faxina” nos locais onde vive, pois elimina do meio ambiente a matéria orgânica em decomposição”.
Artigo que suscitou da leitora Letícia, mensagem solicitando informação de como salvar o bebê urubu que nasceu na floreira do edifício no qual ela trabalha, e que corre perigo de ser morto por funcionários “zelosos”, por causa do barulho que pode vir a fazer. Os funcionários já haviam removidos ovos da mãe urubu para impedir sua reprodução, e um dos filhotes nascidos morreu devido à chuva, daí o nome SUPÉRSTITE do único sobrevivente. Reproduzo abaixo a mensagem de SOS pela vida do pequerrucho que ela enviou:
"Estive procurando no Google sobre urubus e vi um interessante artigo seu. Mas ele não respondeu minha dúvida, nem algum outro daí resolvi escrever! Tenho urubus, mãe e filho, morando na floreira de minha sala num edifício comercial, onde várias vezes ela pôs ovos que foram vistos e retirados, fato que reprovo totalmente, mas, desta vez o filhote está lá forte e aparentemente saudável! Contudo, eles, para o condomínio, não são bem vindos, e estou querendo saber até quando o filhote fica no ninho, pois, aparentemente, logo começará fazer barulho e teremos problemas se isto acontecer, a quem poderei pedir ajuda, mas que o mantenha em lugar seguro com a mãe? Agradeço atenção e aguardo resposta!"
Letícia.
Confesso que fiquei lisonjeado com a solicitação feita pela Letícia, mas, ao mesmo tempo, triste por me saber ignorante e incapaz de lhe dar uma resposta adequada que salve a avezinha. Como meu conhecimento sobre urubus se limita a pouco mais do escrevi no post, optei pelo mais óbvio: Aconselhei-a a brigar contra a remoção do bicho de seu local de nascimento, e colocar o IBAMA ou outro órgão ligado à preservação do meio ambiente na cola de quem quisesse prejudicá-lo. Feito isso, resolvi postar este texto com a intenção de, mais uma vez, lembrar aos leitores que nós somos responsáveis pelo mal que causamos ao meio ambiente, e que ainda há tempo de tentar alguma coisa no sentido de reverter o atual quadro de deterioração a que chegamos no Planeta azul. Podemos começar salvando os urubus, por exemplo. Pois bem, primeiro é edificante saber que um texto tão despretensioso tenha atingido a leitora sensível preocupada com a avezinha inocente. Depois, como já algumas vezes escrevi, o homem ocupa os locais que antes era domínio dos animais e depois culpa estes por “invasão” de espaço humano. Não poderia haver maior absurdo, os animais apenas tentam sobreviver num espaço que antes era deles. Mas, já que o modo que a maioria das pessoas vê as coisas não admite animais “selvagens” convivendo com humanos, o mínimo que podemos fazer é respeitarmos os espaços que eles eventualmente ocupam ao nosso lado. É imperioso que não vejamos os animais, quaisquer animais, como inimigos, devemos colocá-los no exato lugar que ocupamos na natureza: Seres com direito à vida. Assim, se a ave faz ninho na sua varanda, respeite-a, mantenha uma certa distância, deixe-a criar seus filhotes em paz. Depois ela irá embora e você continuará com sua vida normal, aliás, normal não, uma vida com a grandeza de quem realizou uma obra pela qual pode se orgulhar para sempre: agora você pode contar para todos que salvou uma vida, ou melhor, que salvou a humanidade. Surpreso? Para esclarecer reproduzo palavras de Leonardo da Vinci que vêm bem a calhar: "Chegará o dia em que todo homem conhecerá o íntimo de um animal. E neste dia, todo o crime contra o animal será um crime contra a humanidade." JAIR, Floripa, 03/10/09.
*Que sobrevive, sobrevivente, subsistente.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

VENTO


Mais que massa de ar em movimento é transparência que se desloca, é espírito invisível que se move pressuroso. É fluido etéreo que passeia alegre sobre campinas verdes, escala montanhas, levanta poeira e varre desertos. Enfuna a vela do barco inocente que singra as águas mansas da lagoa azul; sustenta ave de papel colorido do garoto caçador de pipas; refresca o camponês solitário, concentrado no amanho da terra; cria ondulações regulares no pasto do gado preguiçoso. É imanente com traços de eterno; não pede passagem nem se desculpa; ultrapassa artefatos confeccionados pelo homem e tem personalidade (ou seria ventalidade?). Seguro de si, estável e presunçoso não respeita obstruções edificadas em seu caminho, a tudo acomete sem indulgência ou temor. Se condições de umidade, pressão e temperatura lhe forem favoráveis, avoluma-se em massas compactas e espetaculares, as quais o homem nomeia furações, ciclones ou tufões, não importa. Colunas gigantescas e de extensões ciclópicas, deslocam-se com fúria avassaladora a centenas de quilômetros por hora erigindo, sobre a água, vagalhões mortais que danificam navios, afundam barcos mais frágeis e transformam o oceano de chumbo em cadeias de montanhas fluidas e fatais. Na terra seca, avança sem se deter carregando adiante pontes, casas, carros e objetos de fabricação humana; como catadupa infernal, despeja zilhões de galões mortais, num átimo, em espaço mínimo; só respeita montanhas eternas, campinas e vales perenes, pois estes, construções sólidas da natureza, têm caráter permanente e feições que lhes são análogas. Impetuoso no grau máximo varre, literal e metaforicamente, vilas e cidades, mostrando ao homem soberbo sua descomunal potência capaz de esmigalhar tudo e todos que se interponham no seu caminho, quase sempre errático. Se o furacão espraia seu poder destruidor por amplo espaço geográfico e atua por tempo dilatado de vários dias, existe sua versão mais breve, porém muito mais aguda e percuciente, autêntico pacote de violência concentrada: o tornado. Verdadeira verruma colossal e impiedosa, em minutos, corta cicatrizes no flanco da terra, desgalha árvores centenárias, dizima florestas e destrói patrimônios. Causa danos materiais, tira vidas e modifica a paisagem, exibe-se como se fora saltimbanco de má índole, movido de furor assassino. Após tornar patente sua força extraordinária, vai diluindo-se – consonante sua posição geográfica - em siroco, alíseo ou monção, sopros mais moderados que não causam maiores danos. Já agora, tendo cumprido seu destino de força da natureza, atenua-se ainda mais e torna-se fraca brisa, viração, corrente branda de ar. Aragem que acaricia o cabelo da criança distraída na calçada; que eleva levemente a saia rosa da moça alegre que cruza a rua; que seca o suor do atleta que corre no parque; que empurra com suavidade o ciclista afogueado; que balouça com languidez a roupa colorida no varal doméstico; que ondula o trigal maduro na campina distante; que ampara a queda suave da folha outonal; que empurra nuvens de algodão rumo ao horizonte remoto; que sustenta a aeronave tranquila no céu cerúleo. Agora é amigo, é companheiro e camarada. Agora, sabe-se útil, precioso, vital, mais até, fundamental. Adentra, benfazejo, os pulmões e outros órgãos de todos os seres que respiram, e é primordial para sustentar a vida que a natureza criou. Tem consciência plena que se não existisse, a vida no Planeta azul seria uma impossibilidade, a Terra seria uma rocha estéril e fria vagando solitária no espaço insondável. Vento que venta viçoso é vetor vital que vai levando vida ao viúvo vivaz que verseja e ao vetusto velhinho visionário. JAIR, Floripa, 02/10/09.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

RATOS


Ninguém morre de amores por eles, talvez sejam os mamíferos mais execrados do Planeta. Mulheres sobem em cadeiras e berram sem controle a visão desses roedores, e homens, movidos por um estímulo amoque, tomam providências imediatas para eliminá-los. A curto prazo chinelos e vassouras se prestam para a execução; a médio prazo, ratoeiras; e, a longo, venenos e iscas tóxicas os eliminam às pencas. Rato bom é rato morto. Não se tem notícia que sejam admirados ou tolerados a não ser na cidade de Bikaner na Índia onde existe um templo dedicado a sua adoração, e onde são criados e alimentados com o carinho que se dispensa a um animal de estimação. Fora essa excrescência do comportamento humano em relação a esses animais, todas as culturas, países, civilizações e povos sempre os consideraram nojentos, promíscuos, nocivos à saúde humana, sujos, feios e predadores. O que não está longe da verdade, entretanto, a ciência vale-se de ratos como cobaias de pesquisas importantes no desenvolvimento de medicamentos e métodos de combate a doenças que, de outro modo, estariam fora da possibilidade de cura sem colaboração dos roedores de laboratório. Ao lado dessa franca utilidade dos bichos há o desprezo que calunia: rato, na linguagem popular, costuma-se chamar ao ladrão, ao malfeitor que se apodera do alheio. Camundongo é a designação dada, no Brasil, à espécie mus musculus, um pequeno roedor da família dos murídeos, encontrado originalmente em Portugal. É o animal mais utilizado como cobaia em laboratórios de biologia como um modelo aproximado do organismo humano, além de ter uma gestação curta que contribui para estudo das mudanças genéticas. Pois é, Rato é o nome genérico dos mamíferos roedores da família muridae. É a maior família de mamíferos existente na atualidade, cerca de 650 espécies, classificadas em cerca de 140 gêneros e em cinco ou seis subfamílias. Uma grande quantidade de informações sobre a anatomia, fisiologia, comportamento e doenças estão disponíveis devido à sua popularidade como animais de laboratório. E esta popularidade se dá por conta de em muitos aspectos assemelharem-se ao humano, sendo fundamental o imunológico que o faz a melhor escolha para laboratório e vetor de muitas doenças. Os ratos silvestres foram, aparentemente, originados nas regiões temperadas da Ásia Central. Através de migrações pelas rotas comerciais e militares, o rato se espalhou pelo mundo, na Austrália, depois de desembarcar de navios dos colonos, tornou-se praga inextinguível por falta de predadores. Muitos tipos de rato transformaram-se em espécies invasoras e causaram estragos nos ecossistemas ocupados através da sua migração. Os ratos são conhecidos especialmente pelo risco à saúde, são portadores de variadas doenças transmissíveis ao homem, como a leptospirose, o hantavírus e a peste bubônica, além de ser hospedeiro para outras doenças. Paradoxalmente a este lado pernóstico do animal que o torna impopular e até odiado pelo homem, a figura do roedor é explorada ad nauseum pelas indústrias de entretenimento, tornando-se fonte que gera milhões de dólares para aqueles que a usam. Refiro-me ao Mikey Mouse e similares. O fato comprovado é que o comportamento social desses bichos é extremamente adaptado ao convívio humano, nossas cidades, labirínticas e cheias de nichos, fendas e vãos, lixos orgânicos em abundância, oferecem o que há de mais adequado para sua segurança, alimentação e procriação. Verdadeiros paraísos feitos sob encomenda para que os murídeos tornem-se nossos incômodos sócios parasitas que roem nossas roupas e móveis, urinam e defecam na nossa comida. Por isso, o termo rato doméstico, criado para nomear aqueles animais os quais vivem nas proximidades dos homens, é a designação que define melhor os roedores cujos modus vivendi estão atrelados a nós, pelo visto para sempre. Enquanto houver homens haverá RATOS. Mais até, para aqueles que se julgam muito superiores a esses mamíferos, veio-me à mente que, a propósito do término do "Projeto Genoma", o qual depois de consumir milhões de dólares e milhares de horas das cabeças pensantes mais poderosas do planeta e, de tempos em tempos, movimentar a mídia com notícias sensacionais a respeito de descobertas fantásticas, chegou à conclusão que: contados todos os genes do homem, estes não passam de uns meros trinta mil, o mesmo número de genes do rato. Para a ciência, que achava que os genes do homem chegariam à casa dos cem mil, foi um balde água fria esta conclusão, pois, se depender dos genes, o arrogante bicho-homem é apenas um rato que fala. JAIR, Floripa, 01/10/09.