domingo, 13 de setembro de 2009

MORTE


Ao longo da existência, digamos no processo de adquirir maturidade, nos tornamos conscientes da morte, do fato que as pessoas que conhecemos e amamos morrem; e do fato que algum dia nós também morreremos. Contudo, nossa cultura judaico-cristã não nos facilita essa tomada de consciência, para todos os efeitos somos imortais, a morte é evento fortuito que atinge apenas os outros. Enquanto isso, de modo que entendemos apenas escassamente, se é que entendemos alguma coisa, abraçamos identidades e a ilusão de auto-suficiência. Chamamos de busca da felicidade os caminhos que adotamos e os rumos que seguimos e que preenchem nossos sonhos, metas e anseios. Buscamos atividades, tanto construtivas como negativas, com as quais esperamos nos elevar acima dos fatos da vida comum e que talvez permaneçam depois que nos tivermos extinguido. Fazemos isso num esforço desesperado contra a certeza de que a morte é nosso destino final. Muitos buscam o poder e a riqueza, outros, o amor romântico, a fama, o prazer, o sexo, ou as conquistas esportivas: sou o mais forte, o mais rápido, o mais sábio, o melhor. Para quase todos, suas obras e feitos durante a vida lhes garantem reconhecimento e boas lembranças depois de mortos. Quer sejamos bem-sucedidos ou fracassemos, de qualquer modo vamos morrer, todos teremos o mesmo fim. O único consolo, certamente, é acreditar que, já que somos criaturas, deve haver um criador que gosta de nós e o qual nos receberá quando morrermos. As religiões, de um modo geral, tentam explicar que morte não é contrário de vida, é um rito de passagem, uma espécie de portal daqui para lá, e que o fim da matéria significa o início da vida eterna a qual realmente interessa; do início de um ciclo eterno de bem aventurança, de prazer elevadíssimo e sem limites. Desse modo, a inevitabilidade da morte é amenizada já que depois dela nos espera algo melhor, assim, o viver, ainda que extremamente doloroso para alguns, torna-se apenas a passagem, a via de acesso para a verdadeira glória que é vida após a morte. Eufemismo que suaviza a irrevogabilidade da morte eterna, esta sim inquestionável e definitiva. JAIR, Floripa, 07/09/09.

sábado, 12 de setembro de 2009

FIO CONDUTOR



Seja na imensidão do cosmos onde todos os astros são regulados e mantém o equilíbrio de suas órbitas rigorosas, como um relógio formidável, a despeito das imperiosas forças, - como ventos estelares, campos magnéticos e a espantosa gravidade - que, em constante interação umas com as outras e, como para provar a teoria, os puxam e empurram na direção do caos; ou seja no íntimo da matéria, no interior das partículas que a compõe, onde as regras são seguidas em perfeita consonância com o como e o porquê daquela física ou química que determina a forma, a cor, o peso e a densidade do objeto, está presente um fenômeno de ação constante que determina e permite essas manifestações. O ajuste perfeito integrado à matéria em todos os níveis; as leis invisíveis que regem os movimentos e o equilíbrio estático de todos os objetos; a luz que emana das fontes naturais; e a percepção que tudo está no universo cumprindo perfeitamente algum fim, - embora este nos escape à compreensão o mais das vezes, - são prova cabal e insofismável que existe algo presente, que permeia o íntimo de todas as criações, e até mesmo o “vazio” das regiões cósmicas não ocupadas por galáxias. A ciência, na sua erudita ignorância, concorda que existe uma ligação entre todos os eventos da natureza, façam eles parte do macro ou do micro cosmos. Algo assim como um “fio de Ariadne” transcendental que une os eventos não só na sua singularidade, mas também na sua gênese: o que mantém a máquina cósmica funcionando e o âmago das partículas de matéria coeso seria o FIO CONDUTOR universal que nós conhecemos por TEMPO. Insofismável e misterioso TEMPO, este imparcial juiz de sentenças irrecorríveis. JAIR, Floripa, 27/08/09.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

NÓS E O TEMPO


Nós estamos apenas de passagem, nosso papel de seres pensantes é viver da melhor maneira possível e pelo maior período de tempo que formos capazes, além de ajudar os outros a fazerem o mesmo. O Que acontece depois disso, e como somos julgados pelos demais, escapa ao nosso controle, a posteridade é resultado do que fizermos hoje, assim como o presente é o somatório de nosso passado. O tempo é como um rio que a tudo arrasta impiedosamente, sem que nós tenhamos ascendência sobre ele, ou que possamos influir na sua marcha obtusa e implacável. Tudo que existe é apenas o presente, e é a ele que nos devemos ater independente do que fizemos ou fomos no passado e de como desejamos ser ou fazer no futuro. O homem, às vezes, tem a veleidade de atribuir ao tempo boas ou más influências em sua vida, em sua mesquinhez ou em suas virtudes, mas, ao que parece, esta é apenas atitude de quem desconhece a verdadeira natureza da entidade TEMPO. Tenhamos consciência que o TEMPO não espera, não apressa, não pára e não contempla dúvidas e vacilações, ele desconhece nossas incertezas, desejos e aspirações, ele não nos adula mas, também não nos pune, nós é que somos instrumentos e alvos de nossas falhas e sucessos, o tempo apenas observa indiferente as ações de suas imperfeitas e presunçosas criaturas, que somos nós. JAIR, Floripa, 09/09/09.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

VERTEDOURO


Etéreo e ubíquo verte, num jorro copioso, a totalidade das criaturas sem nada ter ingerido, sem prévia deglutição do mais ínfimo átomo que seja. Cria do amálgama de pó virtual, a matéria, a luz e o pensamento. Este, o único que tenta dimensioná-lo, convertê-lo à razão, contudo, sem jamais compreendê-lo na sua plenitude, sem jamais equacioná-lo em forma de teorema ao alcance de mentes matemáticas. Pródigo na virtude de criar esbanja crueldade que, com indiferença, aplica às coisas que criou de forma a retorná-las ao pó de onde vieram; coisas que nasceram e acabam como começaram. Sabe, sem esforço de pensar, tudo, do infinitesimal ao imensurável; transcende a finitude do perceptível e se perde na amplidão onde apenas a imaginação alcança; desdenha sentimentos, idéias e a própria vida; perene, não possui início e não terá fim, existiu antes e existirá depois. É a gênese do universo e só poderá ser vislumbrado no exato microponto onde o infinito cruza com o eterno. É o TEMPO. JAIR, Floripa, 24/08/09.

sábado, 5 de setembro de 2009

TENTANDO ENTENDER


O ser humano, criatura do TEMPO, angustiado, tenta entender tudo a sua volta, e o faz movido pela busca incessante do saber que, na sua santa ignorância, admite como único caminho para obter respostas para as perguntas: Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Para chegar ao entendimento, o homem empreende busca insana e desesperada no âmago das partículas atômicas; se perde nas profundezas abissais do oceano; flutua indagativo no espaço etéreo e não dimensionável; contempla curioso o interior de seu próprio organismo; explora expectante o funcionamento das leis da natureza. Incansável, usa a melhor ferramenta a seu alcance, o cérebro, para observar tudo que o cerca, coletar dados, analisá-los e tirar conclusões. Buscando, obtém certo grau de sucesso com coisas físicas, perceptíveis e manipuláveis, mas com o tempo não, este o desafia como ente acima da sua medíocre compreensão. O homo sapiens filosofa, medita, reflete e culpa o tempo, mas não tem controle sobre ele; atribui a ele todos os males que o afligem e agradece todas as curas que o salvam, mas não o entende; sofre as conseqüências da sua eterna marcha, mas não o manipula; vive sob o império de seu jugo implacável, mas não o conquista. O impalpável e ubíquo tempo escapa a qualquer tipo de conceituação rigorosa e, se resta consolo ao buscador de respostas, o homem apenas consegue quantificá-lo, colocar rótulos, criando a ilusão que pode ter alguma influência sobre ele: segundos, minutos, dias, anos, séculos, milênios, eras etc. Enquanto isso, desprezando todos os esforços do homem e até ignorando-o, o tempo caminha reto, decidido, para frente, traçando a linha condutora de todas as coisas vivas e inanimadas ao fim inelutável. JAIR, Floripa, 02/09/09.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A QUARTA DIMENSÃO


Ao contrário do que possa parecer, antes de ser considerado recurso literário vazio, ou expressão de efeito para ilustrar conversa pseudo científica, a quarta dimensão é uma realidade, é um fato incontestável. Imaginemos um objeto qualquer definido dentro das três dimensões clássicas, altura, largura e profundidade, mas sem duração, sem o intervalo de tempo que determine seu início e término; o mesmo se aplica a um evento também, é impossível imaginar a vida sem nascimento e sem morte no final, por exemplo. Ao se considerar um ser que não passou pela vida tempo algum, não se pode afirmar que viveu, portanto, nunca existiu. Se não começa e não termina, não existe. Tão óbvia é esta afirmação que é difícil até concebê-la. Sejam eventos ou coisas, não há possibilidade de existirem sem duração, portanto, o tempo é uma dimensão fundamental na existência de coisas ou eventos, ainda que, admissível, em tese, coisas com apenas duas dimensões como um desenho no papel, onde a profundidade não tem importância, só sendo consideradas largura e altura. Esse mesmo desenho para existir tem que ter intervalo entre o momento de sua criação até o dia em que for apagado ou destruído de outra maneira, daí podermos afirmar que a quarta dimensão, o TEMPO, é até mais importante que as outras. O TEMPO é, sem qualquer possibilidade de contestação, a quarta dimensão da totalidade das coisas, já que sem duração, sem o intervalo entre o “Big bang” e o fim dos tempos, o universo, na prática, passa a ser uma impossibilidade. JAIR, Floripa, 03/09/09.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

INEXORABILIDADE


O definhar da vida e o degradar das coisas inanimadas é a marca cabal da passagem do TEMPO que, como um mago, conduz com precisão absoluta o movimento uniforme de tudo que existe rumo ao fim insondável. Esse mesmo tempo que foi a gênese de todos os entes que povoam o universo, e que, inexorável, destrói suas criações de cuja matéria formará novas vidas e novas coisas, de átomos a estrelas. Implacável, o tempo soma as partes, diminui espaços, divide a matéria e multiplica seres. O tempo criou a matemática, a geografia e a história; o tempo é maestro invisível da graciosa dança passiva dos astros no espaço imensurável; assim como, condutor imparcial da vida terrena, desde a bactéria microscópica até a imensa baleia azul; passando pelas espécies da ordem dos primatas na qual se enquadra o pretensioso bípede humano. Permanente, cruel e radical, contempla o infinito com a intimidade e segurança de quem o criou e dele ri, como um pai satisfeito ri do filho que mal despontou na vida. Nada o intimida ou incomoda dentro da realidade a qual gerou com naturalidade de quem criou, num notável Big Bang, milhões de bilhões de coisas num piscar de estrela, ou num átimo de trilhonésimo de segundo. A emoção, a paixão, a vida e a morte não passam por ele, não pertencem ao acervo de seus adventos, nada significam, na medida em que são apenas sentimentos e eventos de entes que não tem a marca da inexorabilidade, a qual só ao tempo pertence. JAIR, Floripa, 25/08/09.