terça-feira, 9 de junho de 2009

CASA DE MADEIRA



Nasci e fui criado numa casa de madeira sem atrativos, pequena, paredes de tábuas verticais, janelas e portas de madeira maciça pintadas de vermelho, assoalho de tábuas corridas quase brutas, caiada por fora e por dentro, cobertura em duas águas de telhas francesas. A casinha de três quartos, sala e copa/cozinha, tinha uma pequena varanda nos fundos era muito aconchegante, não quente em excesso no verão, nem fria demais no inverno, e constituía o abrigo no qual, normalmente, uma família bem pobre podia morar naquele tempo e lugar. Casas como aquela eram comuns no sul do Paraná onde a abundância de madeira permitia construções bastante duradouras de qualidade razoável a baixo custo. Ainda hoje na região é normal encontrarmos grande quantidade de casas de madeira, modestas nas bem conservadas, que foram construídas há décadas por pessoas de baixo poder aquisitivo. Essas casas ainda são uma opção barata de moradia para pobres e também possibilidade de sofisticação para quem quiser gastar bastante numa casa de paredes duplas, avarandada, grande e confortável, como quase a totalidade das casas de moradia na cidade de Brisbane na Austrália. Nos primórdios o homem vivia em cavernas e reentrâncias de rochas. Era ali que se abrigava das intempéries, se defendia de animais selvagens, dormia e praticava os atos comuns da vida familiar. Há indícios que, assim que saiu dos buracos, a madeira foi a primeira matéria prima a ser utilizada pelo homo sapiens para construção de abrigos mais ou menos permanentes. Em qualquer lugar que fosse possível encontrar com facilidade materiais vegetais aptos para a construção, eles eram aproveitados para serem utilizados sobre qualquer tipo de estrutura de madeira. Deste modo, as escassas exigências de um abrigo para algumas tribos paleolíticas, ficavam satisfeitas com uma simples armação de ramos ou pequenos troncos, que se cobriam com folhas, capim, peles de animais ou cascas de árvores. Troncos e galhos que serviam de apoio e suporte para coberturas simples, foram os precursores das estruturas de madeira atuais cuja evolução técnica foi gradualmente e ao longo dos séculos servindo as exigências do homem de acordo com o clima e outros fatores que influenciavam na construção dos abrigos. Os diversos modos com que se realizavam os encaixes das distintas partes da estrutura de uma casa foram determinados pela qualidade das ferramentas, mais ou menos sofisticadas, que os diversos povos desenvolveram ao longo do tempo. Assim como, a complexidade das construções e a durabilidade dos materiais empregados estavam de acordo com a intenção de maior ou menor permanência no local, em geral determinada pela disponibilidade de alimentos e a inclemência do clima da região. Como atestam as habitações de tribos seminômades ainda remanescentes, em muitos locais a união das peças de madeira era realizada apenas com o auxílio de cordas tecidas com as fibras de folhas e cipós. Estas uniões eram muito resistentes e graças a sua grande flexibilidade, resistiam a ventos fortes e mesmo a vendavais violentos. Na cobertura destas habitações, eram utilizados materiais de origem vegetal, que aos poucos foram substituídos por outros, (tecidos fortes e esteiras feitas com fibras de palmeiras) que mais tarde serviram de suporte a camadas de barro e argila, que, posteriormente, deram origem as telhas, mais transportáveis e de fácil reposição. A grande variedade de casas construídas a base de peças de madeira unidas entre si com fibras vegetais, fala por si mesmo da solidez da sua construção e da sua segurança estrutural, constituindo e talvez desde sempre o método mais eficaz e mais econômico de utilização de materiais naturais que se encontram em toda a parte do mundo. Algumas dessas estruturas como as das casas da Ásia central alcançaram um nível tão grande de desenvolvimento que dificilmente a tecnologia moderna terá algo a acrescentar. Estas construções chegaram até hoje, como testemunho da sua extraordinária tecnologia. Mesmo quando a intenção do homem sedentário, ou a abundância de material lhe impunham construção de algo mais sólido e duradouro como casas de pedra, alvenaria ou de barro, a casa de madeira ainda era uma alternativa a que muitos povos recorriam em função de sua praticidade e rapidez de construção. Assim, ao longo dos séculos, casas construídas com os mais variados materiais conviveram mais ou menos harmoniosamente, apresentando arquiteturas próprias, antagônicas, complementares e até misturadas mas, quase sempre, o que definia se a casa seria de madeira ou de alvenaria, por exemplo, era o poder aquisitivo do proprietário. Madeira para os pobres, materiais mais nobres para os aquinhoados. Há dois problemas para quem mora em casas de madeira: o estigma e as dificuldades de manutenção. As pessoas normalmente vêem a casa de madeira como demérito e sinal de pobreza. Há um preconceito que envolve o assunto. A outra questão é a dificuldade de manutenção das casas, se a manutenção é cara ou difícil as casas deterioram-se sem que os a ocupantes façam algo para mantê-las bem, atraentes e funcionais. No mundo ocidental em que vivemos, onde nos é permitido verificar os desníveis sociais naturais da sociedade capitalista, no qual existe uma maioria de despossuídos, e uns poucos ricos e poderosos, as casas de madeira como aquela na qual nasci, tornaram-se símbolo do operariado que vive de salário mínimo. Não por saudosismo gratuito ou nostalgia indefinida ainda guardo boas lembranças da casinha humilde que passei minha infância. A madeira parece ter vida. Nos veios e nos nós, você lê a história e nobreza dela. Os mais sensíveis, até sentem as vibrações do ambiente onde ela esteve no passado, sentem a alma da árvore que lhe deu origem. Não chego a tanto, mas sinto que minha infância não teria sido a mesma sem aquela casinha simples, teria sido menos alegre e despreocupada por certo, e, talvez, menos interessante. O fato de a moradia ser singela, desprovida de ornatos, "clean" como se diria hoje, influi nos espíritos das pessoas de modo a tornar suas vidas menos complicadas, casa de madeira é um importante componente minimalista, só quem viveu numa delas é que sabe do que estou falando, abraços. JAIR, Canoas, 09/06/09.

domingo, 7 de junho de 2009

A MINHOCA


Um dos mais importantes e incompreendidos animais da natureza é a minhoca. As coitadas, o mais das vezes, são lembradas só pelo potencial que representam na hora de pescar uns lambaris. Contudo, elas são particularmente sensíveis ao frio, ao excesso de umidade e a ambientes muito ácidos ou muito alcalinos, não são animais resistentes, mas são extremamente úteis. Portanto, pode guardar a vara de pescar, porque esse bicho é muito mais do que um simples ajudante na captura de peixes. A minhoca é um anelídeo, isto é, seu corpo é formado por segmentos em forma de anéis, que variam de número entre sete para as minhocas menores de quatro centímetros, e quinhentos para as minhocoçus que podem chegar a dois metros de comprimento. Mas, a maior minhoca encontrada até o presente é a gigante australiana que chega a três metros e meio, e está em processo de extinção. A minhoca não possui sistema auditivo nem visual, mas tem um sistema digestivo completo, numa extremidade fica a boca sem dentes ou mandíbulas e na extremidade inversa da cabeça está o orifício anal por onde excretam o húmus. Ela respira pela pele. Se você cortá-la em dois pedaços ela se transforma em duas, cada parte cria a extremidade faltante e se transforma em outro ser vivo, resultando que uma minhoca cortada é igual a duas minhocas. A esse processo se dá o nome de regeneração. Ao longo da evolução a minhoca tornou-se, na vida real, o bicho que traduz aquilo que os escritores de ficção científica criaram na imaginação, um animal que se reproduz a partir de restos do ser original. Elas são hermafroditas, pois cada uma possui testículos e ovários. Porém, uma minhoca não é capaz de se reproduzir sozinha, necessitando sempre de outra para a troca de espermatozóides. Na cópula, se unem pelo clitelo (órgão reprodutor) e se separam depois da troca de espermatozóides. Cada verme produz um casulo cheio de ovos depositando-o no solo. A urina é excretada pelos poros próximos aos anéis e o muco viscoso que sai pela pele, além de impermeabilizar as paredes das galerias, tem propriedades imunizadoras. Embora se desloquem para frente e para trás, elas não têm sentido de direção e a lógica de seu deslocamento se deve à capacidade de captar vibrações do meio ambiente onde se encontram. Passando o dedo na sua região ventral, de trás para frente, sentimos que a pele do animal é áspera, devido à presença de fileiras de microscópicas cerdas de quitina. As minhocas fixam as pontas das cerdas no solo, facilitando o seu arrastamento, quando contrai a forte musculatura da parede do corpo. Em geral se pensa que o alimento da minhoca é somente terra. É verdade, grande parte das espécies de minhocas vive em solos mais profundos constituídos essencialmente por terra, que elas engolem para se alimentar. Outras, entretanto, habitam as camadas superiores do solo, abundantemente ricas de restos orgânicos e escassos de partículas minerais. As minhocas de ambos os grupos, alimentando-se de terra ou não, ingerem o substrato em que habitam para se sustentarem de nutrientes que constituem a matéria-orgânica, são capazes de ingerir seu peso em alimentos diariamente. Podem ser consideradas onívoras por se alimentarem de restos vegetais e animais em diferentes graus de decomposição, depostos em diversas profundidades do solo. O exame do conteúdo da parte do tubo digestivo que antecede à moela permite discriminar as duas categorias. Se houver restos orgânicos com estrutura celular reconhecível, a espécie é uma minhoca detritívora (que se alimenta de detritos animais e vegetais). Por outro lado, se contiver restos orgânicos amorfos, sem estrutura celular reconhecível, misturados a partículas minerais, trata-se de uma minhoca geófaga (que come terra). Mas, independente dessas características, digamos, exóticas, o vermezinho é um ser fascinante pelo modo de vida simplesmente. Todo mundo conhece as minhocas e a maioria, talvez, já pescou usando-as como isca, mas a minhoca contribui de várias maneiras para melhorar as propriedades do solo. Para começar, os buracos que ela faz na terra ajudam a arejá-la e permitem que a água circule melhor por ali. Além disso, suas fezes são cheias de nutrientes que enriquecem o solo. Tudo isso é bom para as plantas, que retiram da terra a água e os nutrientes que precisam para crescer. Algumas minhocas adoram metais pesados sob minas abandonadas na Grã-Bretanha e devoram chumbo, zinco, arsênico e cobre. Estas minhocas excretam compostos levemente diferentes destes metais, fazendo com que as plantas que necessitam deles para seu metabolismo, possam absorvê-los mais facilmente. Cultivando e colhendo estas plantas, pode-se deixar este solo mais limpo. Não obstante essas qualidades, as minhocas são uma importante fonte de proteínas, pássaros, peixes e pequenos mamíferos que o digam. Vejamos, portanto: Neste mundo preocupado com qualidade de vida; voltado para consumo preferencial de alimentos orgânicos; inquieto com a deterioração do solo e da água pelo uso excessivo de pesticidas; consciente que, se não fizer alguma coisa para conservar a qualidade da terra agriculturável, poderá desaparecer da face do planeta por falta de alimentos; certo que o maior risco à estabilidade global é o potencial da crise gerada pela escassez alimentar, a minhoca parece fazer parte da solução. Para isso, minhocários em todo o mundo estão produzindo milhões desses vermezinhos com a finalidade de melhorar a qualidade de nossa agricultura e, quem sabe, perpetuar a vida do homo sapiens no planeta. Viva a MINHOCA! JAIR, Canoas, 07/06/09.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

BARATAS



Costuma-se ouvir por aí que os únicos animais que resistiriam a uma explosão atômica seriam as baratas, e até mais, no caso de hecatombe nuclear, enquanto os demais seres vivos do planeta sucumbiriam pela radiação resultante, as baratas se adaptariam e tornar-se-iam os animais dominantes na face da terra, em decorrência da ausência de predadores e competidores naturais. Essas afirmações não estão muito longe da verdade, as baratas, insetos da ordem das Blattaria, estão entre os animais mais resistentes e adaptáveis da fauna mundial. Há mais de 400 milhões de anos vivendo sob as mais diversas condições de climas, competindo com outros seres e tendo tempo suficiente para evoluir e adaptar-se, as baratas tornaram-se campeãs de sobrevivência. Comparando as baratas de hoje com as do passado elas mudaram muito pouco, permanecendo como insetos não especializados, ou seja, comem de tudo e não têm exigências especiais quanto ao ambiente em que vivem. Das tantas características desse inseto, pode-se relatar a capacidade de sobrevivência sem se alimentar durante até um mês, sem ingerir água durante até uma semana, ficar até 40 minutos submersa e se deslocar por fendas muito pequenas de até 1,6 mm, há indícios, inclusive, que algumas espécies chegam a se aliementar do próprio inseticida usado para matá-las. Como os demais, é um inseto ovíparo, que dizer, que se reproduz colocando ovos, e o faz na ooteca que é uma estrutura em forma de cápsula hermética que tem a função de proteger os ovos das variações do ambiente, inclusive dos inseticidas, garantindo assim, a perpetuação da espécie. O corpo das baratas tem formato ovular achatado. A cabeça é curta, subtriangular, apresentando olhos compostos grandes e geralmente dois ocelos (olhos simples). Em geral são de coloração parda, marrom ou negra, porém existem espécies coloridas. Nas zonas tropicais, predominam as de cor marrom avermelhada, além das cores verde e amarela. O formato e o tamanho variam dependendo da espécie, mas em gênero podemos dizer que as fêmeas são maiores que os machos, porém os machos têm as asas mais desenvolvidas. A maior barata tem aproximadamente 20 centímetros de comprimento, já, a menor, cerca de 4 milímetros e por ser tão pequena, vive em ninhos de formigas. As baratas gostam de ambientes úmidos e algumas espécies preferem lugares quentes. A alimentação é variada. As baratas são insetos onívoros, ou seja, comem qualquer coisa, tendo principal atração por doces, alimentos gordurosos e de origem animal, por certo não se preocupam com o colesterol, o diabetes nem com a balança. Conseguem perceber o perigo através de mudanças na corrente do ar à sua volta. Elas possuem pequenos pelos nas costas que funcionam como sensores, informando a hora de correr. As baratas domésticas podem ser vetores mecânicos de doenças e são responsáveis pela transmissão de vários microorganismos nocivos através das patas e fezes. Por isso, são consideradas perigosas para a saúde dos seres humanos, contudo, o maior óbice de sua convivência com os homens refere-se à repugnância real ou suposta que as pessoas por ela sentem, por se tratar de animais que vivem em esgotos e ambientes contaminados, ou seja, são insetos “sujos”. Os seres humanos também odeiam baratas porque pode ser extremamente difícil acabar com elas em razão de seu comportamento natural. Elas se reproduzem rapidamente e são difíceis de matar. Como elas são noturnas, muitas pessoas não percebem sua presença até que sejam tantas que acabaram sem lugares para se esconder. As baratas são particularmente boas para se esquivar e fugir de chinelos, jornais e outras armas domésticas, e várias espécies se tornaram resistentes aos inseticidas. Das 4 mil espécies de baratas que existem no mundo, porém, apenas algumas infestam casas e pontos comerciais. Na verdade, em muitas partes do mundo apenas uma espécie - a barata alemã - é responsável pela maioria das infestações. Infelizmente, as pessoas têm uma boa parte da culpa por essa prevalência mundial. A maioria das pragas de baratas se espalhou pelo planeta pegando carona em barcos, aviões, caminhões a até mesmo em caixas de mudança e sacolas de supermercado. Não importa se estão digerindo madeira decomposta em uma floresta tropical, saboreando restos numa lata de lixo industrial ou se escondendo debaixo de uma geladeira, as baratas são fascinantes. Elas são insetos primitivos extremamente adaptados e nada indica que venham a se tornar extintas algum dia. Apesar de sua natureza imutável, elas sobreviveram quando outras espécies não conseguiram. Por exemplo, os dinossauros foram extintos há 65 milhões de anos, mas as baratas continuaram prosperando até os dias de hoje. Entretanto, mesmo apresentando o status de superinsetos que podem parecer indestrutíveis, elas servem de alimento para uma variedade de outros animais. Algumas espécies de vespas usam as baratas como incubadoras para seus ovos. Uma vespa fêmea pica a barata ou retira suas antenas para deixá-la paralisada. Depois, ela deposita seus ovos dentro da barata, onde os filhotes irão crescer alimentando-se das proteínas baratais até a fase adulta, quando abandonam o local e vão reiniciar o ciclo de vida vespal em outra barata. Além disso, outra praga caseira, as comuns centopéias, comem as ninfas das baratas. Algumas espécies de pássaros como o anu e o bem-te-vi também se alimentam de baratas na falta de melhor prato, supõe-se. Pelo fato de as baratas serem tão resistentes e adaptáveis estuda-se seu organismo com a finalidade de descobrir quais os mecanismos que permitem seu sucesso, e se esses mecanismos são passíveis de serem aproveitados em favor da sobrevivência humana. Cientistas chineses afirmam que componentes químicos encontrados no sistema imunológico das baratas poderão ter um efeito tão benéfico quanto ao AZT no tratamento da AIDS, e isso, por si só, já é uma notícia que justifica olharmos o inseto com menos repugnância e com mais praticidade no sentido de aproveitá-lo para pesquisas médicas. Pelo sim pelo não, vamos dar o benefício da dúvida às baratas! JAIR, Canoas, 05/06/09.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A ERA ATÔMICA


A era atômica começou com uma frase: "Somos uns filhos das putas". Foram estas as palavras pronunciadas no sentido chulo no dia 16 de Julho de 1945, às 5 horas, 29 minutos e 45 segundos, pelo doutor Kenneth Bainbridge. Acabara de ser testemunha da primeira explosão nuclear no local designado Alamogordo, no deserto do Novo México, exatamente no lugar que tinha o nome que, traduzido da lingua nativa, significa a adequada expressão, "Jornada do Morto". Ali, e naquele momento, a humanidade entrou na denominada "era atômica". Com aquela explosão chegava ao pico o Projeto Manhattan, a maior operação militar secreta de todos os tempos. Sem dúvida, grande parte do mérito daquele feito devia ser creditado ao doutor Julius Robert Oppenheimer, que tinha conseguido levar a bom termo a empresa de que fora encarregado em 1942: fabricar a bomba atômica, “arma que poria fim a todas as guerras”. Apenas um mês depois deste teste, cerca de duzentas mil pessoas pereceriam queimadas, politraumatizadas ou volatizadas nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasáki. Foram elas as vítimas transformadas em mártires de uma "causa nobre" para encurtar a guerra, e que passaram oficialmente à história como as primeiras vítimas do armamento nuclear. No entanto, os primeiros seres humanos que sofreram na carne os efeitos da radiação de uma bomba atômica foram na realidade norte-americanos. Não havia precedentes, assim teve de se improvisar, o que fez com que em Alamogordo se cometessem os primeiros, embora nem por isso menos graves, erros nos ensaios nucleares. Por exemplo, a estrada nacional 380, que passava apenas a quinze quilômetros do local da explosão, foi atingida por uma considerável dose de radiação sem que se interditasse a passagem de pessoas por lá. Uma dose semelhante de radiação abateu-se sobre as propriedades de duas famílias na cidade vizinha de Bingham, as quais não foram nem alertadas nem evacuadas pelas autoridades militares. Também em locais mais distantes se puderam perceber efeitos da detonação sobre o gado de alguns ranchos dos arredores, já que muitos destes animais apresentavam graves queimaduras produzidas pela radiação beta. Sabe-se que a segurança não foi o aspecto mais brilhante do Projeto Manhattan, em que pese a manutenção do segredo até de sua existência para quem não fosse integrante do projeto. Em 1945, Klaus Fuchs, cientista britânico que participava no projeto, reuniu-se em duas ocasiões com um agente soviético cujo nome de código era Raymond, fornecendo-lhe importantes informações técnicas sobre a explosão experimental de Alamogordo e lançando a semente do programa nuclear soviético. A prisão de Fuchs e sua posterior confissão seriam o tiro de partida da caçada anticomunista do senador Joseph McCarthy. Apesar de terem acontecido essas lambanças, em 1975, o lugar mereceu a designação de monumento histórico nacional, e uma equipe de trabalhadores (os quais receberam uma gratificação extraordinária por trabalharem ali) ergueram um obelisco comemorativo no local exato onde se deu a explosão. Não se tinha passado um ano desde Hiroshima e Nagasáki quando a marinha de guerra norte-americana começou a perguntar-se até que ponto a nova arma também lhes poderia ser útil. Para dar resposta a essa indagação, planejou-se a chamada Operação Crossroads. A data marcada para este novo teste foi o dia 1 de Julho de 1946. Talvez porque os horrores de Hiroshima e Nagasáki ainda eram recentes e mal digeridos, o planeta encontrava-se em plena idade da inocência nuclear. A Operação Crossroads consistia basicamente em comprovar os efeitos que teria uma detonação nuclear sobre uma frota naval, navios e ocupantes. O lugar escolhido para a quarta explosão nuclear da História foi o atol de Bikini, no arquipélago das ilhas Marshall, cenário de uma das mais sangrentas batalhas da guerra do Pacífico. O atol de Bikini ficou tão famoso que deu nome ao maiô, de duas peças bem reduzidas, lançado naquela época. Em Fevereiro de 1946, o Comodoro Ben H. Wyatt, governador militar das ilhas, comunicou oficialmente aos seus habitantes que deveriam abandonar temporariamente as suas casas, já que o Governo dos Estados Unidos tinha previsto efetuar ali uma prova nuclear. O seu sacrifício contaria com a gratidão de toda a humanidade, já que esta prova seria uma peça fundamental no futuro desenvolvimento tecnológico e no fim definitivo de todas as guerras. Assim, em Março de 1946, começou o penoso êxodo dos 167 habitantes de Bikini, com o seu rei à frente, que foram deportados para outro atol a 200 quilômetros de distância, Rongerik, um lugar muito pequeno, com escassez de recursos hídricos e alimentares. Para cúmulo das humilhações e contraridade dos habitantes de Bikini, Rongerik era tradicionalmente considerado como um lugar maldito, local que nem sequer eles visitavam. Tudo isto contribuiu para que os nativos se arrependessem de ter acatado tão docilmente a decisão dos americanos, decisão esta que era mais uma expulsão, não admitia contestação. O certo é que Bikini era o lugar perfeito para aquele objetivo; isolado, deserto (uma vez deportada a população aborígine, claro) e afastado das rotas marítimas habituais. Durante dias espalhou-se pela área circundante uma sinistra frota de barcos fantasmas, formada por embarcações de todos os tipos e tamanhos, - a maior parte capturadas aos inimigos japoneses, - que se encontravam prestes a serem desmanteladas e que serviam de "alvo", levando a bordo uma tripulação formada por 5400 porcos, ratos, cabras e ovelhas que substituiriam os marinheiros e permitiriam estudar os efeitos da radiação sobre os organismos afetados pela detonação. O principal resultado daquela experiência foi que os habitantes de Bikini jamais regressaram à sua ilha, convertendo-se no primeiro povo da História a ter sofrido um êxodo nuclear. Hoje em dia, levam uma vida errante, dependendo da hospitalidade de outros povos e sonhando em regressar um dia a um paraíso que já não existe.O ano de 1951 foi quando os Estados Unidos conceberam um arsenal nuclear tal como o entendemos na atualidade, o qual foi testado ao longo de uma série de ensaios coletivamente conhecidos como Buster/Jangle e que decorreram num campo de testes instalado no deserto de Nevada para tal efeito. Yucca Flat, um antigo território de garimpeiros situado a menos de cem quilômetros a norte de Las Vegas, foi o local escolhido para as detonações nucleares que foram executadas enquanto durou o projeto. Nessa altura, cientistas e militares tinham interesses diferentes e os testes tiveram de ser planejados para satisfazer as expectativas de ambos. Aos cientistas interessava afinar os aspectos tecnológicos, como o aperfeiçoamento de dispositivos de detonação (espoletas) mais confiáveis, ou encontrar formas de obter uma energia maior com a mesma quantidade de material físsil. Pelo seu lado, os generais precisavam de desenvolver a tática da guerra nuclear, um estilo de combate inédito que necessitaria de procedimentos próprios, além de, é claro, demonstrar ao inimigo o potencial que dispunham no caso de uma guerra. Para desenvolver estas táticas, efetuaram-se uma série de manobras militares que coincidiam com os testes e em que milhares de soldados foram expostos à radiação das explosões nucleares. A primeira destas desafortunadas cobaias foi o 354th Engineer Combat Group, que foi a encarregada de preparar o campo para as primeiras manobras atômicas da História. Se verificarmos as circunstâncias históricas não é de estranhar tanta pressa. No Outono de 1950, a guerra da Coreia encontrava-se no seu apogeu e os Estados Unidos tinham perdido o monopólio nuclear ao ter sido detonado com êxito o primeiro artefato atômico soviético. A guerra fria era um fato e o fantasma de um apocalipse radioativo abatia-se sobre o mundo. A única maneira viável para que o arsenal termonuclear não fosse uma ameaça inútil era conseguir que a sua utilização não fosse um sinônimo do fim do mundo, quebrando a doutrina da suposta "destruição mútua assegurada" que mantinha o precário equilíbrio entre as superpotências. Tratava-se de desenvolver armas menores que fossem suscetíveis de ser utilizadas de modo "seguro" numa batalha real. No entanto, os cientistas não se encontravam ali para testar uma arma, mas sim uma teoria. Concretamente estavam muito mais interessados nos efeitos da radiação sobre os organismos vivos, algo que já tinha começado a ser estudado no atol de Bikini. Desta vez, a novidade era que as centenas de animais que deram as suas vidas pelo progresso atômico foram piedosamente anestesiados, antes de serem expostos aos efeitos da explosão e mais tarde dissecados. Contudo, se na verdade queriam conhecer os efeitos da radiação sobre o corpo humano, podiam ter recorrido aos 75 mil doentes de câncer da tiróide devido, segundo o Instituto Nacional do Câncer, às provas nucleares de Nevada ou às vítimas do aumento de 40% dos casos de leucemia infantil que aconteceram no vizinho Estado de Utah entre 1951 e 1958. O fato concreto é que a era atômica, inaugurada em 1945, estendeu seus testes até 1992. Os americanos admitem oficialmente terem explodido 1054 artefatos nesse período. Fica para outro post os testes concretizados pelas outras potências. JAIR, Floripa, 01/06/09.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

FABRICANDO A BOMBA


No post anterior o enfoque foi sobre o terror que a BOMBA incutia na mente da geração que estreou no planeta juntamente com ela. Para explicarmos o que é e como funciona o artefato fizemos uma pequena digressão sobre o átomo e os primeiros movimentos no sentido de tornar a bomba viável para uso ainda na segunda grande guerra. Também falamos na “banalização” do conhecimento da fórmula simples que permite a fissão de matéria radioativa e a conseqüente explosão nuclear. Como houve menção ao Projeto Manhatam e suas dificuldades na consecução das pilhas atômicas e do artefato propriamente, aqui o objetivo é explicar como foi percorrido o longo e tortuoso caminho desde a teoria que dizia ser possível a explosão até o momento em que na localidade de Alamogordo no Novo México se deu a primeira reação explosiva, provando que teoria e prática estavam alinhadas. Para chegar ao Projeto Manhattan é preciso compreender os avanços conquistados pela física nos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial. Entre 1919 e o início dos anos 30, os cientistas estavam começando a entender a estrutura do átomo. Em 1919, na Universidade de Manchester, Inglaterra, o físico Ernest Rutherford, da Nova Zelândia, descobriu os prótons, partículas de carga positiva localizadas no núcleo do átomo, as quais, em companhia dos elétrons, partículas de carga negativa que orbitam em torno do núcleo, formam o átomo. Contudo, os físicos não conseguiam explicar por que diversos elementos apresentavam átomos de pesos diferentes. O mistério só foi resolvido em 1932, quando James Chadwick, um dos colegas de Rutherford, descobriu o nêutron, a terceira partícula subatômica. Como o nome diz, nêutrons não possuem carga elétrica e, junto com os prótons, formam o núcleo atômico. Embora o número de prótons e de elétrons seja constante em cada determinado elemento, o número de nêutrons pode variar, passam a ter um número de massa diferente. Os átomos de um mesmo elemento, diferentes quanto ao número de massa, são conhecidos como isótopos. Nessa época, os cientistas começaram a usar aceleradores de partículas com o objetivo de criar energia a partir do bombardeio de núcleos atômicos, - os primeiros acelerados disparavam prótons e partículas alfa que, devido à carga positiva, eram repelidos pelos átomos bombardeados. Contudo, quando o físico italiano Enrico Fermi concebeu a idéia de usar nêutrons nos bombardeios, em 1934 que, sendo desprovidos de carga não eram repelidos pelo núcleo do átomo, a coisa mudou de figura. Os cientistas alemães, Otto Hahn e Fritz Strassmann, foram os primeiros a reconhecer formalmente o processo, em 1938, ao dividirem átomos de urânio em duas ou mais partes, em suas experiências. Haviam descoberto a FISSÃO NUCLEAR, termo criado por eles. O urânio, elemento natural mais pesado do planeta, foi utilizado em muitas dessas experiências iniciais, e se tornou tema de grande interesse para a física, por diversas razões. O urânio é o elemento natural mais pesado, com 93 prótons. O mais interessante quanto ao urânio, porém, não é tanto o número de prótons, nem o número elevado de nêutrons em seus isótopos. Um isótopo de urânio, encontrado na ordem de menos de um por cento no meio do urânio 238, o urânio-235, tem 143 nêutrons, e é particularmente instável, emite radioatividade em condições normais e entra em fissão induzida com grande facilidade. O mais importante é que durante a fissão de um átomo de urânio a energia liberada é na ordem de duzentos milhões de elétrons-volts, enquanto a queima comum de um átomo libera cerca de um elétron-volt apenas. As informações sobre a fissão nuclear se difundiram rapidamente da Europa para os Estados Unidos e, em 1939, vários dos principais laboratórios de Física dos EUA estavam testando a possibilidade de gerar energia com a fissão do urânio. Em 1942 os EUA já haviam entrado na guerra e muitos cientistas importantes como Leo Szilard, Edward Teller e Eugene Wigner, todos europeus que haviam migrado para os Estados Unidos a fim de escapar da guerra, sentiram a necessidade de alertar o governo norte-americano sobre o risco que o mundo corria caso a Alemanha desenvolvesse armas nucleares primeiro. Assim, liderados por Einstein e Szilard escreverem uma carta ao presidente Franklin Roosevelt, descrevendo a possibilidade dos alemães virem a construir armas poderosas com material físsil O presidente, depois de consultar outros cientistas, entre eles Julius Robert Oppenheimer, deu carta branca para que o competente e disciplinador Coronel Leslie Groves – que havia supervisionado a construção do Pentágono - iniciasse o projeto para "construir o armamento que acabaria com a guerra". Daí nasceu o Projeto Manhatam, em Alamogordo, uma região seca e arenosa, habitat de escorpiões e cobras, quase deserta de gente. No início, juntando cientistas, técnicos e soldados, a população chegava a 200. Vida duríssima e sigilo absoluto. Ninguém podia telefonar para fora sem autorização. Nem sair do alojamento, um punhado de barracos levantados às pressas pelo exército em 1.944. Aí, durante 10 meses, os pesquisadores trabalharam arduamente, sem qualquer conforto mas, consta, com grande vontade e empenho. Até cidades foram construídas. Algumas saíram do nada, em locais isolados, justamente para garantir o segredo. Existem até hoje. Outras, que também permanecem, foram refeitas. Hanford, então um povoado insignificante e perdido do mundo no estado de Washington, foi invadida, em 1.943 por 25.000 trabalhadores. Em menos de um ano, construíram 250 quilômetros de ferrovias, 600 quilômetros de estradas, casas para 40.000 operários e suas famílias, e uma fábrica de plutônio, combustível nuclear como o urânio. As cidades cresceram em diversos pontos do país, sempre com o mesmo fim: Construir a superbomba. Das novas fábricas, saíam peças ou combustível. Dos laboratórios, números e medidas. Quantos quilos de urânio ou plutônio seriam necessários? Como detonar a explosão no momento exato? Até que ponto o urânio comum, extraído das minas, precisaria ser misturado com o urânio-235, mais radioativo? Em resumo, os cientistas já não faziam Física pura, estavam empenhados em construir na prática aquilo que a teoria dizia ser possível. Depois de milhões de homens-hora de trabalho, milhões de dólares gastos e de superar problemas técnicos que até então cientistas nem suspeitavam que existissem, a primeira explosão nuclear da História aconteceu na madrugada chuvosa do dia 16 de julho de 1.945, numa área de testes de bombardeios do exército americano, em Alamogordo, Novo México. Uma luz dura, vinte vezes mais brilhante que a do Sol, acendeu a noite e fez o céu, o deserto e as montanhas próximas parecerem brancos como papel sulfite. Apesar da hora, milhares de pessoas, em cinco estados vizinhos, viram o flash sem ter idéia do que estava acontecendo. Para a humanidade estava nascendo: a era que seria a mais importante com relação a forma que as guerras poderiam ser travadas; o ponto de inflexão na geopolítica global onde Ocidente e Oriente definiriam áreas de influência de acordo com seu suposto poderio nuclear; e uma nova possibilidade de uso de energia nuclear para fins pacíficos. Medo do desconhecido e esperança de dias melhores passaram a coexistir de maneira nunca antes experimentada pelo ser humano. JAIR, Floripa, 29/05/09.

terça-feira, 26 de maio de 2009

A BOMBA


Toda uma geração nascida pouco antes, durante ou pouco depois da década de quarenta do século passado passou a infância e a juventude sob ameaça aterrorizante da Bomba atômica. Desde que a primeira bomba explodiu no deserto do Novo México seguida das explosões sobre Iroshima e Nagasaki no Japão, nos dias seis e nove de agosto de 1945, possibilidade de que a Bomba atômica fosse utilizada novamente passou a ser uma realidade atemorizante. Logo depois da guerra, quando a figadal inimiga do ocidente, a União Soviética, também desenvolveu a tecnologia que lhe permitiu fabricar o artefato nuclear, o mundo pareceu mais inseguro ainda. Minha geração seguia os noticiários da imprensa com justificável temor, ciente que se algum dirigente afogueado pelo poder que detinha, e temeroso que o outro lado tomasse a iniciativa, apertasse o botão, detonaria a guerra definitiva, a guerra sem vencedores ou vencidos. Na verdade, a BOMBA era uma espécie de entidade misteriosa, malévola e onipresente que permeava nossas mentes, intranqüilizava nossos dias e nos perturbava o sono, pois, como sabíamos, não havia quaisquer defesas ou abrigos que nos protegessem de seus efeitos mortais. O imaginário de minha geração impregnara-se do enigma que envolvia algo tão definitivo e ameaçador; até o vernáculo incorporou o termo ATÔMICO como um superlativo absoluto, alguma coisa atômica estava infinita e transcedentalmente além e acima das outras; ATÔMICO ultrapassava o simples IMAGINÁVEL, o simples CONCEBÍVEL, era o imperativo categórico kantiano aplicado à tecnologia. Além de seu poder destrutivo imensurável, o que nos assombrava também era sua feição, por assim dizer. O que era uma Bomba atômica? Como era fabricada? Donde vinha seu poder? Essas e outras perguntas surgiam naturalmente na medida em que mais se sabia sobre seus efeitos quando das experiências no atol de Bikini, nas estepes geladas da Rússia, no arquipélago de Mururoa e até na distante e pacífica Austrália. Os noticiosos não se cansavam de descrever os incríveis e devastadores resultados sobre as populações das cidades japonesas atingidas e, também, sobre instalações, navios, aviões e prédios colocados ao alcance das explosões experimentais feitas pelos EUA, URSS, França, Inglaterra e, mais tarde, China também. Com o passar do tempo ficamos mais informados sobre as dificuldades colossais que o Projeto Manhatam havia enfrentado para fabricar as primeiras bombas, o qual teve que desenvolver, na prática, equipamentos que permitissem criar fatos que apenas a teoria dizia serem possíveis. Contudo, ainda que acabasse saindo na imprensa todas as démarches políticas e estratégicas sobre o domínio do conhecimento nuclear que permitia outras nações fabricarem a bomba, esta continuava sendo, para o homem comum, vedete indevassável ainda. De tanto se falar nela, de tanto outros países acabarem produzindo-a, a BOMBA acabou perdendo o charme de grande diva maldita; acabou levantando o véu de mistério tecnológico que a envolvia, sua fórmula passou a ser conhecida, quase banalizada. Hoje, praticamente qualquer país e até uma organização de grande porte, com algum esforço e dinheiro podem construí-la. Para entendermos tecnicamente como é possível que um artefato de tal poder de destruição e, talvez, de custo proibitivo, possa ser construído por países como o Paquistão (que tem a bomba) ou o Irã (que pretende ter), é necessário que comecemos pelo átomo. O átomo, para efeito didático e num conceito bem elementar, pode ser considerado a menor partícula dos elementos, a menor porção que não perde as características de um elemento. Compõe-se de um núcleo formado por nêutrons e prótons e uma “nuvem” de elétrons que envolve esse núcleo. Pois bem, o que diferencia um elemento do outro são os átomos que o compõe. Os átomos do hidrogênio, por exemplo, têm apenas um próton e um nêutron no núcleo e um elétron em órbita. Elementos outros são compostos de átomos com mais neutros, prótons e elétrons. Assim, na outra ponta da tabela periódica há os elementos “pesados”, como o urânio, - elemento natural mais pesado que existe - que tem peso atômico 238 significando que o somatório de nêutrons e prótons que formam seu núcleo é 238. Acontece que os elementos pesados, por vezes, apresentam isótopos, isto é, têm número diferente de nêutrons no núcleo o que os torna instáveis, passam a emitir nêutrons para se equilibrarem. A essa emissão de nêutrons corresponde uma liberação de energia fantástica que a ciência chama de radioatividade. Juntamente com o minério natural estável de urânio 238 existe uma pequena quantidade, na ordem de menos de um por cento, de urânio 235 altamente instável, isto é, radioativo, que emite nêutrons. É esse urânio que, teoricamente, poderia ser usado como fonte de altíssima energia, e da bomba atômica naturalmente. O processo se dá do seguinte modo: Em condições normais, o urânio 235 emite nêutrons (radioatividade) e decai para um nível mais baixo de energia, os nêutrons se perdem. Acontece que se houver outros átomos de urânio 235 por perto, os nêutrons emitidos por um átomo podem atingir os núcleos de seus vizinhos e estes, por sua vez, emitirão outros nêutrons que atingirão outros átomos que se desintegrarão gerando uma REAÇÃO EM CADEIA a qual se dá o nome de FISSÃO NUCLEAR. A fissão nuclear libera energia em forma de calor na ordem de milhões de graus, várias vezes mais quente que o sol. Para que haja a fissão, para que os nêutrons iniciais não se percam, deve existir uma quantidade mínima de urânio 235, quantidade a qual se dá nome de MASSA CRÍTICA. Teoricamente, uma bomba atômica nada mais é que a reunião de uma quantidade de urânio 235, ou de outro elemento físsil, de modo a formar uma massa crítica. Como é impossível manter a massa crítica estável, o desafio da construção de um artefato nuclear está em reunir a quantidade de urânio necessária somente na hora da explosão. Assim, dentro das primeiras engenhocas nucleares existia um tubo em que numa ponta encontrava-se a metade da quantidade do urânio necessário para formar a massa crítica em forma de meia esfera, na extremidade oposta, outra meia esfera do mesmo material. Na hora aprazada para a fissão, uma carga convencional de TNT explodia arremessando uma metade sobre a outra formando uma esfera que fissionava em milésimos de segundo causando a explosão nuclear. Essas primeiras bombas, como se vê, embora tenham incorporado tecnologia desconhecida até então, eram mecanismos rudimentares. Fora o grande trabalho preliminar necessário ao desenvolvimento de pilhas atômicas que permitissem descobrir as quantias exatas de material radioativo necessário à criação de massa crítica, e as técnicas apropriadas à confecção da bomba propriamente, e ao enriquecimento do urânio, que era aumentar a porcentagem do elemento 235 numa porção de matéria; não havia grande mistério sobre como elas funcionavam, não havia computadores ou qualquer componente eletrônico de alguma complexidade no seu interior, quando muito apenas um receptor que recebia sinal externo, tudo era muito simples. Além disso, toda a teoria que envolvia o conhecimento de como chegar à fissão de elementos radioativos já era conhecida dos físicos da época e, a partir do Relatório Schmidt emitido pelo Departamento de Defesa americano em 1946, qualquer secundarista interessado passou a conhecer os passos necessários à confecção da BOMBA. Era uma questão de tempo e dinheiro para que outros países viessem a construí-la, e isso aconteceu, já de início, com alguns países europeus, a Rússia e a China, e mais recentemente, Índia, Paquistão, Israel e Coréia do Norte. Até o governo brasileiro, num surto de megalomania aguda, intencionou criar o aparelho e, para isso, mandou construir um profundo buraco no Destacamento de Xingu onde seriam feitas as primeiras explosões. Com o fim da guerra fria e o início do desarmamento nuclear, o nível de ameaça e, em consequência, do temor pelo fim da civilização, diminuiu a ponto de não mais tirar o sono da geração criada à sombra virtual do guarda-chuva atômico. Hoje, o funesto dispositivo, agora desprovido de sua aura maligna, serve apenas como tema de blog para este escriba com algum grau de morbidez, saudoso dos tempos que sofria pesadelos causados pelo pavor que a BOMBA trouxesse o armagedon. JAIR, Floripa, 25/05/09.

sábado, 9 de maio de 2009

CACHORROS DO BRASIL


Sempre fui fissurado por caninos, canídeos, cachorros ou cães, tudo a mesma coisa. Daí, interessei-me também pela história e origens desses animais junto aos humanos, como já escrevi em posts anteriores. O passo seguinte foi acrescentar algum conhecimento sobre canídeos brasileiros, ou seja, animais dessa família (Canidae) que vivem em estado selvagem no nosso país. Desde criança sempre soube por ouvir falar, que existiam “Guarás”, “Cachorros-do-mato” e um tal de “Graxaim”, animais que, mais ou menos, se enquadravam na categoria cachorral segundo a concepção meio simplória dos naturais da cidade em que nasci. Pois é, em todos os continentes, exceto na Antártida naturalmente, encontramos canídeos, seja sob a versão de lobos, raposas, coiotes, chacais ou outras denominações quaisquer. Na África, local onde é mais abundante a existência desses animais, temos as Raposas orelhudas, Raposas do Cabo, Cães selvagens de várias espécies, Chacais e um bicho chamado Feneco que seria o lobo africano. Existem lobos e raposas na Europa, na Ásia e na América do Norte onde também encontramos os coiotes. Na Austrália os canídeos estão representados por uma única espécie, o Dingo, que é considerado um cão que se tornou selvagem a partir de uma espécie doméstica trazida pelos imigrantes polinésios, vinte mil anos atrás. No Brasil foram descritas seis espécies de canídeos vivendo em nossas matas, campos, várzeas e cerrados. Todas essenciais ao equilíbrio do Cerrado, da Mata Atlântica e da Amazônia. Lamentavelmente todas em risco de extinção. O mais conhecido desses carnívoros é o Lobo-Guará (Chrysocyon Brachyurus), cujo adulto macho pode pesar até vinte quilos, costuma viver nos subsistema de campo, cerrado e mata ciliar, é de hábitos solitários. Noturno e crepuscular, repousa durante o dia em bosques espessos. Habita campos, cerrados e a caatinga de Rondônia e do Piauí ao Rio Grande do Sul e nordeste da Argentina, passando pelo Pantanal, Paraguai e Leste da Bolívia e margens da Floresta Atlântica na Bahia e Minas Gerais. Tem pernas muito altas e esguias, a cabeça alongada e as orelhas grandes, eretas e com o pavilhão aberto para diante. Sua cor geral é parda avermelhada, mais clara na região ventral e mais escurecida na dorsal. As patas são inteiramente negras. Parece-se mais com uma raposa de patas muito longas do que um lobo. Sua principal vocalização é um latido simples, que usa como chamado de longa distância; ameaçado, pode rosnar e os filhotes fazem pequenos gemidos. É um animal surpreendentemente arisco, furtivo e silencioso para o seu tamanho. Além de se alimentar de pequenos mamíferos e aves e, por isso, ser importante na manutenção do equilíbrio da cadeia alimentar, o lobo-guará come frutas e tem papel fundamental na dispersão de sementes de árvores e outras plantas. Este tímido animal é uma vítima da expansão da agricultura no Cerrado, um dos biomas mais ameaçados do país. O Cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) é um canídeo de porte médio, que costumava ocorrer em quase todo Brasil, agora só é encontrado em algumas partes do cerrado goiano e mineiro e nas matas de transição no Mato Grosso. É extremamente versátil por se adaptar a diversos ambientes, inclusive antropizados, (ocupados pelo homem) e utilizar uma grande variedade de alimentos. Está ameaçado de extinção pela destruição de seus habitats. O Cachorro-vinagre (Speothos venaticus) é um canídeo nativo da América do Sul, que habita as florestas e pantanais entre o Panamá e o norte da Argentina. Espécie de hábitos e aparência à altura do estranho nome que recebeu. Ninguém sabe exatamente por que ele recebeu esse nome, uma das hipóteses é porque sua urina tem um cheiro semelhante ao do vinagre, outra seria em razão do pêlo do indivíduo jovem ser de cor parecida à do vinagre. São animais noturnos, tímidos e semi-aquáticos que conseguem nadar e mergulhar com grande facilidade. Arredio, ele raramente se deixa ver, anda sempre rastejando sob a mata ou em tocas. Como quase nunca é visto, ganhou aura de lenda entre populações dos locais onde é encontrado. Originalmente, o animal existia em praticamente todo o país, exceto no Sul. Hoje, acredita-se que esteja extinto em grande parte do território nacional. Dos cães selvagens brasileiros, é o único exclusivamente carnívoro. Também apenas ele desenvolveu a sofisticada estratégia de caçar em matilha e compartilhar alimento. Membranas entre os dedos os ajudam a nadar e a pegar peixes, as vezes sua principal fonte de proteínas. O Guaraxaim-do-campo (Pseudalopex gymnocercus) habita os campos da Argentina, em direção ao norte, chegando ao Brasil até o estado de São Paulo. De acordo com biólogos, só existem pouquíssimos exemplares dessa espécie em cativeiro, em zoológicos e criadouros do Rio Grande do Sul. Tem corpo cinza-amarelado, com queixo preto, pêlo curto e orelhas eretas. Mede cerca de setenta centímetros de comprimento, e sua cauda, de trinta a quarenta centímetros, vai engrossando até a extremidade, o que o diferencia dos outros cães selvagens. De hábitos noturnos, alimenta-se de pequenos mamíferos, aves e lagartos. Recebe também os nomes de graxaim, guaraaim ou graaim e cachorro-do-mato. A Raposa-do-campo (Pseudalopex vetulus) é um canídeo nativo do Brasil, que habita os campos e cerrados do Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e São Paulo. A raposa-do-campo é classificada às vezes como Lycalopex vetulus ou Dusicyon Vetulus. É mais ativa à noite, mas também sai de sua toca durante o dia. Os animais dessa espécie vivem sozinhos. O corpo tem sessenta centímetros e a cauda mede trinta centímetros. É carnívora e caça aves, pequenos roedores e insetos (gafanhotos). A fêmea escolhe um local protegido, geralmente uma toca abandonada ou um buraco em um cupinzeiro. Após dois meses de gestação, dá à luz a quatro ou cinco filhotes e torna-se muito feroz quando precisa defender a prole. É um animal muito atento e percebe tudo o que ocorre ao seu redor. A visão, a audição e o olfato são bastante desenvolvidos. É um dos menores cachorros selvagens brasileiros. A cor de sua pele é cinzento-escura, com a barriga amarelada e a ponta da cauda negra. Tem o costume de atacar galinheiros e rondar casas e acampamentos em busca de comida. O menos conhecido dos canídeos brasileiros é o Cachorro-do-mato-de-orelha-curta (Atelocynus microtis), da Amazônia. Há até dois anos, não se tinha sequer uma foto do animal. Não há nenhum indivíduo dessa espécie em cativeiro. Somente agora, uma equipe de pesquisadores brasileiros que trabalha na Amazônia peruana conseguiu localizar um grupo e colocar coleiras com rádio em alguns deles. A maior ameaça para os canídeos brasileiros (assim como para a maior parte de nossa fauna) é a destruição de habitats. Pouco resta da Mata Atlântica e o Cerrado está indo pelo mesmo caminho. Doenças normalmente transmitidas por cães domésticos e a caça, muitas vezes em retaliação à predação de animais domésticos, são outras grandes ameaças. Muitas vezes os animais levam fama injustificada de predadores de criações. Conhecer melhor os hábitos dos nossos canídeos, animais ainda tão misteriosos, é a única forma de salvá-los da extinção, para que as gerações futuras tenham a oportunidade de viver num planeta habitável. JAIR, Guarulhos, 09/05/09.