sexta-feira, 29 de maio de 2009

FABRICANDO A BOMBA


No post anterior o enfoque foi sobre o terror que a BOMBA incutia na mente da geração que estreou no planeta juntamente com ela. Para explicarmos o que é e como funciona o artefato fizemos uma pequena digressão sobre o átomo e os primeiros movimentos no sentido de tornar a bomba viável para uso ainda na segunda grande guerra. Também falamos na “banalização” do conhecimento da fórmula simples que permite a fissão de matéria radioativa e a conseqüente explosão nuclear. Como houve menção ao Projeto Manhatam e suas dificuldades na consecução das pilhas atômicas e do artefato propriamente, aqui o objetivo é explicar como foi percorrido o longo e tortuoso caminho desde a teoria que dizia ser possível a explosão até o momento em que na localidade de Alamogordo no Novo México se deu a primeira reação explosiva, provando que teoria e prática estavam alinhadas. Para chegar ao Projeto Manhattan é preciso compreender os avanços conquistados pela física nos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial. Entre 1919 e o início dos anos 30, os cientistas estavam começando a entender a estrutura do átomo. Em 1919, na Universidade de Manchester, Inglaterra, o físico Ernest Rutherford, da Nova Zelândia, descobriu os prótons, partículas de carga positiva localizadas no núcleo do átomo, as quais, em companhia dos elétrons, partículas de carga negativa que orbitam em torno do núcleo, formam o átomo. Contudo, os físicos não conseguiam explicar por que diversos elementos apresentavam átomos de pesos diferentes. O mistério só foi resolvido em 1932, quando James Chadwick, um dos colegas de Rutherford, descobriu o nêutron, a terceira partícula subatômica. Como o nome diz, nêutrons não possuem carga elétrica e, junto com os prótons, formam o núcleo atômico. Embora o número de prótons e de elétrons seja constante em cada determinado elemento, o número de nêutrons pode variar, passam a ter um número de massa diferente. Os átomos de um mesmo elemento, diferentes quanto ao número de massa, são conhecidos como isótopos. Nessa época, os cientistas começaram a usar aceleradores de partículas com o objetivo de criar energia a partir do bombardeio de núcleos atômicos, - os primeiros acelerados disparavam prótons e partículas alfa que, devido à carga positiva, eram repelidos pelos átomos bombardeados. Contudo, quando o físico italiano Enrico Fermi concebeu a idéia de usar nêutrons nos bombardeios, em 1934 que, sendo desprovidos de carga não eram repelidos pelo núcleo do átomo, a coisa mudou de figura. Os cientistas alemães, Otto Hahn e Fritz Strassmann, foram os primeiros a reconhecer formalmente o processo, em 1938, ao dividirem átomos de urânio em duas ou mais partes, em suas experiências. Haviam descoberto a FISSÃO NUCLEAR, termo criado por eles. O urânio, elemento natural mais pesado do planeta, foi utilizado em muitas dessas experiências iniciais, e se tornou tema de grande interesse para a física, por diversas razões. O urânio é o elemento natural mais pesado, com 93 prótons. O mais interessante quanto ao urânio, porém, não é tanto o número de prótons, nem o número elevado de nêutrons em seus isótopos. Um isótopo de urânio, encontrado na ordem de menos de um por cento no meio do urânio 238, o urânio-235, tem 143 nêutrons, e é particularmente instável, emite radioatividade em condições normais e entra em fissão induzida com grande facilidade. O mais importante é que durante a fissão de um átomo de urânio a energia liberada é na ordem de duzentos milhões de elétrons-volts, enquanto a queima comum de um átomo libera cerca de um elétron-volt apenas. As informações sobre a fissão nuclear se difundiram rapidamente da Europa para os Estados Unidos e, em 1939, vários dos principais laboratórios de Física dos EUA estavam testando a possibilidade de gerar energia com a fissão do urânio. Em 1942 os EUA já haviam entrado na guerra e muitos cientistas importantes como Leo Szilard, Edward Teller e Eugene Wigner, todos europeus que haviam migrado para os Estados Unidos a fim de escapar da guerra, sentiram a necessidade de alertar o governo norte-americano sobre o risco que o mundo corria caso a Alemanha desenvolvesse armas nucleares primeiro. Assim, liderados por Einstein e Szilard escreverem uma carta ao presidente Franklin Roosevelt, descrevendo a possibilidade dos alemães virem a construir armas poderosas com material físsil O presidente, depois de consultar outros cientistas, entre eles Julius Robert Oppenheimer, deu carta branca para que o competente e disciplinador Coronel Leslie Groves – que havia supervisionado a construção do Pentágono - iniciasse o projeto para "construir o armamento que acabaria com a guerra". Daí nasceu o Projeto Manhatam, em Alamogordo, uma região seca e arenosa, habitat de escorpiões e cobras, quase deserta de gente. No início, juntando cientistas, técnicos e soldados, a população chegava a 200. Vida duríssima e sigilo absoluto. Ninguém podia telefonar para fora sem autorização. Nem sair do alojamento, um punhado de barracos levantados às pressas pelo exército em 1.944. Aí, durante 10 meses, os pesquisadores trabalharam arduamente, sem qualquer conforto mas, consta, com grande vontade e empenho. Até cidades foram construídas. Algumas saíram do nada, em locais isolados, justamente para garantir o segredo. Existem até hoje. Outras, que também permanecem, foram refeitas. Hanford, então um povoado insignificante e perdido do mundo no estado de Washington, foi invadida, em 1.943 por 25.000 trabalhadores. Em menos de um ano, construíram 250 quilômetros de ferrovias, 600 quilômetros de estradas, casas para 40.000 operários e suas famílias, e uma fábrica de plutônio, combustível nuclear como o urânio. As cidades cresceram em diversos pontos do país, sempre com o mesmo fim: Construir a superbomba. Das novas fábricas, saíam peças ou combustível. Dos laboratórios, números e medidas. Quantos quilos de urânio ou plutônio seriam necessários? Como detonar a explosão no momento exato? Até que ponto o urânio comum, extraído das minas, precisaria ser misturado com o urânio-235, mais radioativo? Em resumo, os cientistas já não faziam Física pura, estavam empenhados em construir na prática aquilo que a teoria dizia ser possível. Depois de milhões de homens-hora de trabalho, milhões de dólares gastos e de superar problemas técnicos que até então cientistas nem suspeitavam que existissem, a primeira explosão nuclear da História aconteceu na madrugada chuvosa do dia 16 de julho de 1.945, numa área de testes de bombardeios do exército americano, em Alamogordo, Novo México. Uma luz dura, vinte vezes mais brilhante que a do Sol, acendeu a noite e fez o céu, o deserto e as montanhas próximas parecerem brancos como papel sulfite. Apesar da hora, milhares de pessoas, em cinco estados vizinhos, viram o flash sem ter idéia do que estava acontecendo. Para a humanidade estava nascendo: a era que seria a mais importante com relação a forma que as guerras poderiam ser travadas; o ponto de inflexão na geopolítica global onde Ocidente e Oriente definiriam áreas de influência de acordo com seu suposto poderio nuclear; e uma nova possibilidade de uso de energia nuclear para fins pacíficos. Medo do desconhecido e esperança de dias melhores passaram a coexistir de maneira nunca antes experimentada pelo ser humano. JAIR, Floripa, 29/05/09.

terça-feira, 26 de maio de 2009

A BOMBA


Toda uma geração nascida pouco antes, durante ou pouco depois da década de quarenta do século passado passou a infância e a juventude sob ameaça aterrorizante da Bomba atômica. Desde que a primeira bomba explodiu no deserto do Novo México seguida das explosões sobre Iroshima e Nagasaki no Japão, nos dias seis e nove de agosto de 1945, possibilidade de que a Bomba atômica fosse utilizada novamente passou a ser uma realidade atemorizante. Logo depois da guerra, quando a figadal inimiga do ocidente, a União Soviética, também desenvolveu a tecnologia que lhe permitiu fabricar o artefato nuclear, o mundo pareceu mais inseguro ainda. Minha geração seguia os noticiários da imprensa com justificável temor, ciente que se algum dirigente afogueado pelo poder que detinha, e temeroso que o outro lado tomasse a iniciativa, apertasse o botão, detonaria a guerra definitiva, a guerra sem vencedores ou vencidos. Na verdade, a BOMBA era uma espécie de entidade misteriosa, malévola e onipresente que permeava nossas mentes, intranqüilizava nossos dias e nos perturbava o sono, pois, como sabíamos, não havia quaisquer defesas ou abrigos que nos protegessem de seus efeitos mortais. O imaginário de minha geração impregnara-se do enigma que envolvia algo tão definitivo e ameaçador; até o vernáculo incorporou o termo ATÔMICO como um superlativo absoluto, alguma coisa atômica estava infinita e transcedentalmente além e acima das outras; ATÔMICO ultrapassava o simples IMAGINÁVEL, o simples CONCEBÍVEL, era o imperativo categórico kantiano aplicado à tecnologia. Além de seu poder destrutivo imensurável, o que nos assombrava também era sua feição, por assim dizer. O que era uma Bomba atômica? Como era fabricada? Donde vinha seu poder? Essas e outras perguntas surgiam naturalmente na medida em que mais se sabia sobre seus efeitos quando das experiências no atol de Bikini, nas estepes geladas da Rússia, no arquipélago de Mururoa e até na distante e pacífica Austrália. Os noticiosos não se cansavam de descrever os incríveis e devastadores resultados sobre as populações das cidades japonesas atingidas e, também, sobre instalações, navios, aviões e prédios colocados ao alcance das explosões experimentais feitas pelos EUA, URSS, França, Inglaterra e, mais tarde, China também. Com o passar do tempo ficamos mais informados sobre as dificuldades colossais que o Projeto Manhatam havia enfrentado para fabricar as primeiras bombas, o qual teve que desenvolver, na prática, equipamentos que permitissem criar fatos que apenas a teoria dizia serem possíveis. Contudo, ainda que acabasse saindo na imprensa todas as démarches políticas e estratégicas sobre o domínio do conhecimento nuclear que permitia outras nações fabricarem a bomba, esta continuava sendo, para o homem comum, vedete indevassável ainda. De tanto se falar nela, de tanto outros países acabarem produzindo-a, a BOMBA acabou perdendo o charme de grande diva maldita; acabou levantando o véu de mistério tecnológico que a envolvia, sua fórmula passou a ser conhecida, quase banalizada. Hoje, praticamente qualquer país e até uma organização de grande porte, com algum esforço e dinheiro podem construí-la. Para entendermos tecnicamente como é possível que um artefato de tal poder de destruição e, talvez, de custo proibitivo, possa ser construído por países como o Paquistão (que tem a bomba) ou o Irã (que pretende ter), é necessário que comecemos pelo átomo. O átomo, para efeito didático e num conceito bem elementar, pode ser considerado a menor partícula dos elementos, a menor porção que não perde as características de um elemento. Compõe-se de um núcleo formado por nêutrons e prótons e uma “nuvem” de elétrons que envolve esse núcleo. Pois bem, o que diferencia um elemento do outro são os átomos que o compõe. Os átomos do hidrogênio, por exemplo, têm apenas um próton e um nêutron no núcleo e um elétron em órbita. Elementos outros são compostos de átomos com mais neutros, prótons e elétrons. Assim, na outra ponta da tabela periódica há os elementos “pesados”, como o urânio, - elemento natural mais pesado que existe - que tem peso atômico 238 significando que o somatório de nêutrons e prótons que formam seu núcleo é 238. Acontece que os elementos pesados, por vezes, apresentam isótopos, isto é, têm número diferente de nêutrons no núcleo o que os torna instáveis, passam a emitir nêutrons para se equilibrarem. A essa emissão de nêutrons corresponde uma liberação de energia fantástica que a ciência chama de radioatividade. Juntamente com o minério natural estável de urânio 238 existe uma pequena quantidade, na ordem de menos de um por cento, de urânio 235 altamente instável, isto é, radioativo, que emite nêutrons. É esse urânio que, teoricamente, poderia ser usado como fonte de altíssima energia, e da bomba atômica naturalmente. O processo se dá do seguinte modo: Em condições normais, o urânio 235 emite nêutrons (radioatividade) e decai para um nível mais baixo de energia, os nêutrons se perdem. Acontece que se houver outros átomos de urânio 235 por perto, os nêutrons emitidos por um átomo podem atingir os núcleos de seus vizinhos e estes, por sua vez, emitirão outros nêutrons que atingirão outros átomos que se desintegrarão gerando uma REAÇÃO EM CADEIA a qual se dá o nome de FISSÃO NUCLEAR. A fissão nuclear libera energia em forma de calor na ordem de milhões de graus, várias vezes mais quente que o sol. Para que haja a fissão, para que os nêutrons iniciais não se percam, deve existir uma quantidade mínima de urânio 235, quantidade a qual se dá nome de MASSA CRÍTICA. Teoricamente, uma bomba atômica nada mais é que a reunião de uma quantidade de urânio 235, ou de outro elemento físsil, de modo a formar uma massa crítica. Como é impossível manter a massa crítica estável, o desafio da construção de um artefato nuclear está em reunir a quantidade de urânio necessária somente na hora da explosão. Assim, dentro das primeiras engenhocas nucleares existia um tubo em que numa ponta encontrava-se a metade da quantidade do urânio necessário para formar a massa crítica em forma de meia esfera, na extremidade oposta, outra meia esfera do mesmo material. Na hora aprazada para a fissão, uma carga convencional de TNT explodia arremessando uma metade sobre a outra formando uma esfera que fissionava em milésimos de segundo causando a explosão nuclear. Essas primeiras bombas, como se vê, embora tenham incorporado tecnologia desconhecida até então, eram mecanismos rudimentares. Fora o grande trabalho preliminar necessário ao desenvolvimento de pilhas atômicas que permitissem descobrir as quantias exatas de material radioativo necessário à criação de massa crítica, e as técnicas apropriadas à confecção da bomba propriamente, e ao enriquecimento do urânio, que era aumentar a porcentagem do elemento 235 numa porção de matéria; não havia grande mistério sobre como elas funcionavam, não havia computadores ou qualquer componente eletrônico de alguma complexidade no seu interior, quando muito apenas um receptor que recebia sinal externo, tudo era muito simples. Além disso, toda a teoria que envolvia o conhecimento de como chegar à fissão de elementos radioativos já era conhecida dos físicos da época e, a partir do Relatório Schmidt emitido pelo Departamento de Defesa americano em 1946, qualquer secundarista interessado passou a conhecer os passos necessários à confecção da BOMBA. Era uma questão de tempo e dinheiro para que outros países viessem a construí-la, e isso aconteceu, já de início, com alguns países europeus, a Rússia e a China, e mais recentemente, Índia, Paquistão, Israel e Coréia do Norte. Até o governo brasileiro, num surto de megalomania aguda, intencionou criar o aparelho e, para isso, mandou construir um profundo buraco no Destacamento de Xingu onde seriam feitas as primeiras explosões. Com o fim da guerra fria e o início do desarmamento nuclear, o nível de ameaça e, em consequência, do temor pelo fim da civilização, diminuiu a ponto de não mais tirar o sono da geração criada à sombra virtual do guarda-chuva atômico. Hoje, o funesto dispositivo, agora desprovido de sua aura maligna, serve apenas como tema de blog para este escriba com algum grau de morbidez, saudoso dos tempos que sofria pesadelos causados pelo pavor que a BOMBA trouxesse o armagedon. JAIR, Floripa, 25/05/09.

sábado, 9 de maio de 2009

CACHORROS DO BRASIL


Sempre fui fissurado por caninos, canídeos, cachorros ou cães, tudo a mesma coisa. Daí, interessei-me também pela história e origens desses animais junto aos humanos, como já escrevi em posts anteriores. O passo seguinte foi acrescentar algum conhecimento sobre canídeos brasileiros, ou seja, animais dessa família (Canidae) que vivem em estado selvagem no nosso país. Desde criança sempre soube por ouvir falar, que existiam “Guarás”, “Cachorros-do-mato” e um tal de “Graxaim”, animais que, mais ou menos, se enquadravam na categoria cachorral segundo a concepção meio simplória dos naturais da cidade em que nasci. Pois é, em todos os continentes, exceto na Antártida naturalmente, encontramos canídeos, seja sob a versão de lobos, raposas, coiotes, chacais ou outras denominações quaisquer. Na África, local onde é mais abundante a existência desses animais, temos as Raposas orelhudas, Raposas do Cabo, Cães selvagens de várias espécies, Chacais e um bicho chamado Feneco que seria o lobo africano. Existem lobos e raposas na Europa, na Ásia e na América do Norte onde também encontramos os coiotes. Na Austrália os canídeos estão representados por uma única espécie, o Dingo, que é considerado um cão que se tornou selvagem a partir de uma espécie doméstica trazida pelos imigrantes polinésios, vinte mil anos atrás. No Brasil foram descritas seis espécies de canídeos vivendo em nossas matas, campos, várzeas e cerrados. Todas essenciais ao equilíbrio do Cerrado, da Mata Atlântica e da Amazônia. Lamentavelmente todas em risco de extinção. O mais conhecido desses carnívoros é o Lobo-Guará (Chrysocyon Brachyurus), cujo adulto macho pode pesar até vinte quilos, costuma viver nos subsistema de campo, cerrado e mata ciliar, é de hábitos solitários. Noturno e crepuscular, repousa durante o dia em bosques espessos. Habita campos, cerrados e a caatinga de Rondônia e do Piauí ao Rio Grande do Sul e nordeste da Argentina, passando pelo Pantanal, Paraguai e Leste da Bolívia e margens da Floresta Atlântica na Bahia e Minas Gerais. Tem pernas muito altas e esguias, a cabeça alongada e as orelhas grandes, eretas e com o pavilhão aberto para diante. Sua cor geral é parda avermelhada, mais clara na região ventral e mais escurecida na dorsal. As patas são inteiramente negras. Parece-se mais com uma raposa de patas muito longas do que um lobo. Sua principal vocalização é um latido simples, que usa como chamado de longa distância; ameaçado, pode rosnar e os filhotes fazem pequenos gemidos. É um animal surpreendentemente arisco, furtivo e silencioso para o seu tamanho. Além de se alimentar de pequenos mamíferos e aves e, por isso, ser importante na manutenção do equilíbrio da cadeia alimentar, o lobo-guará come frutas e tem papel fundamental na dispersão de sementes de árvores e outras plantas. Este tímido animal é uma vítima da expansão da agricultura no Cerrado, um dos biomas mais ameaçados do país. O Cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) é um canídeo de porte médio, que costumava ocorrer em quase todo Brasil, agora só é encontrado em algumas partes do cerrado goiano e mineiro e nas matas de transição no Mato Grosso. É extremamente versátil por se adaptar a diversos ambientes, inclusive antropizados, (ocupados pelo homem) e utilizar uma grande variedade de alimentos. Está ameaçado de extinção pela destruição de seus habitats. O Cachorro-vinagre (Speothos venaticus) é um canídeo nativo da América do Sul, que habita as florestas e pantanais entre o Panamá e o norte da Argentina. Espécie de hábitos e aparência à altura do estranho nome que recebeu. Ninguém sabe exatamente por que ele recebeu esse nome, uma das hipóteses é porque sua urina tem um cheiro semelhante ao do vinagre, outra seria em razão do pêlo do indivíduo jovem ser de cor parecida à do vinagre. São animais noturnos, tímidos e semi-aquáticos que conseguem nadar e mergulhar com grande facilidade. Arredio, ele raramente se deixa ver, anda sempre rastejando sob a mata ou em tocas. Como quase nunca é visto, ganhou aura de lenda entre populações dos locais onde é encontrado. Originalmente, o animal existia em praticamente todo o país, exceto no Sul. Hoje, acredita-se que esteja extinto em grande parte do território nacional. Dos cães selvagens brasileiros, é o único exclusivamente carnívoro. Também apenas ele desenvolveu a sofisticada estratégia de caçar em matilha e compartilhar alimento. Membranas entre os dedos os ajudam a nadar e a pegar peixes, as vezes sua principal fonte de proteínas. O Guaraxaim-do-campo (Pseudalopex gymnocercus) habita os campos da Argentina, em direção ao norte, chegando ao Brasil até o estado de São Paulo. De acordo com biólogos, só existem pouquíssimos exemplares dessa espécie em cativeiro, em zoológicos e criadouros do Rio Grande do Sul. Tem corpo cinza-amarelado, com queixo preto, pêlo curto e orelhas eretas. Mede cerca de setenta centímetros de comprimento, e sua cauda, de trinta a quarenta centímetros, vai engrossando até a extremidade, o que o diferencia dos outros cães selvagens. De hábitos noturnos, alimenta-se de pequenos mamíferos, aves e lagartos. Recebe também os nomes de graxaim, guaraaim ou graaim e cachorro-do-mato. A Raposa-do-campo (Pseudalopex vetulus) é um canídeo nativo do Brasil, que habita os campos e cerrados do Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e São Paulo. A raposa-do-campo é classificada às vezes como Lycalopex vetulus ou Dusicyon Vetulus. É mais ativa à noite, mas também sai de sua toca durante o dia. Os animais dessa espécie vivem sozinhos. O corpo tem sessenta centímetros e a cauda mede trinta centímetros. É carnívora e caça aves, pequenos roedores e insetos (gafanhotos). A fêmea escolhe um local protegido, geralmente uma toca abandonada ou um buraco em um cupinzeiro. Após dois meses de gestação, dá à luz a quatro ou cinco filhotes e torna-se muito feroz quando precisa defender a prole. É um animal muito atento e percebe tudo o que ocorre ao seu redor. A visão, a audição e o olfato são bastante desenvolvidos. É um dos menores cachorros selvagens brasileiros. A cor de sua pele é cinzento-escura, com a barriga amarelada e a ponta da cauda negra. Tem o costume de atacar galinheiros e rondar casas e acampamentos em busca de comida. O menos conhecido dos canídeos brasileiros é o Cachorro-do-mato-de-orelha-curta (Atelocynus microtis), da Amazônia. Há até dois anos, não se tinha sequer uma foto do animal. Não há nenhum indivíduo dessa espécie em cativeiro. Somente agora, uma equipe de pesquisadores brasileiros que trabalha na Amazônia peruana conseguiu localizar um grupo e colocar coleiras com rádio em alguns deles. A maior ameaça para os canídeos brasileiros (assim como para a maior parte de nossa fauna) é a destruição de habitats. Pouco resta da Mata Atlântica e o Cerrado está indo pelo mesmo caminho. Doenças normalmente transmitidas por cães domésticos e a caça, muitas vezes em retaliação à predação de animais domésticos, são outras grandes ameaças. Muitas vezes os animais levam fama injustificada de predadores de criações. Conhecer melhor os hábitos dos nossos canídeos, animais ainda tão misteriosos, é a única forma de salvá-los da extinção, para que as gerações futuras tenham a oportunidade de viver num planeta habitável. JAIR, Guarulhos, 09/05/09.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

O VIRA-LATAS


Texto retirado pelo autor devido a erro involuntário. O autor pede desculpas a Alessando Martins autor de texto anterior sobre mesmo assunto publicado em: http://www.cracatoa.com.br/cachorro-vira-lata-um-ser-especial

sexta-feira, 24 de abril de 2009

CACHORRO VIRA-LATAS


Ao cão, quando abandonado pelo dono ou apenas sem moradia, costumamos chamá-lo de vira-latas. Mas o que é, realmente, um vira-latas? Na verdade e antes de tudo é um sobrevivente, é o animal que a despeito da fome, do frio, do calor, da chuva, da falta de vacinas e dos cuidados mais elementares, sobrevive, multiplica-se e se perpetua saudável se for deixado a vontade. É o animal que os veterinários costumam classificar como SRD – Sem Raça Definida – mas que tem os melhores requisitos genéticos para sobrevivência sob quaisquer condições, é o cão primordial. Desde que o homem, provavelmente há mais de dez mil anos, domesticou o lobo asiático, procurou desenvolver nos descendentes obtidos a partir das matrizes lupinas, características ou qualidades tais que cumprissem certos requisitos como tamanho, agilidade, força, beleza, inteligência ou resistência, os quais se destinavam a auxiliar o homo sapiens na sua difícil tarefa de sobreviver. Essa manipulação do cão original, o qual, pelas características, poderíamos chamar de vira-latas, originou as centenas de raças que conhecemos. Naturalmente em épocas e locais distintos, plantas as mais diversas e outros animais como o boi, o cavalo, o asno, a galinha, o porco e o peru também foram domesticados e utilizados como alimento, como fonte de matéria prima para vestimentas ou confecção de abrigos ou, ainda, como “ferramenta” nas mais diversas atividades relacionadas com a sobrevivência, construção da civilização ou com a guerra. Mas, afinal, o que é domesticar e como se obtêm espécimes diferenciados e úteis para os fins desejados? Domesticar significa, “adotar” o animal ou vegetal selvagem, criá-lo em condições controladas sob supervisão de modo a torná-lo dependente do ser humano para sobreviver, ao mesmo tempo em que se reproduz até com mais facilidade e fertilidade do que na natureza. Já, para se obter variedades de animais ou vegetais diferenciados e úteis para uso humano, usa-se o cruzamento seletivo. Dos descendentes nascidos de animais ou vegetais domesticados, escolhem-se aqueles indivíduos os quais têm as qualidades que desejamos. Assim, para exemplificar: de várias ninhadas de gatos, escolhemos aqueles que tem pelagem maior, mais abundante, os quais, supostamente, estão melhores aparelhados para enfrentar climas frios. Cruzando-se esses animais peludos, com o tempo, depois de muitas gerações sempre cruzando os mais peludos entre si, obtemos uma nova “raça” de gatos que chamaremos de Angorá, por exemplo. No paleolítico, quando as tribos humanas de caçadores/coletores começaram a fixar-se na terra tornando-se criadores/agricultores o fator domesticação não só esteve presente como foi fundamental para a criação dos primeiros aglomerados que se tornariam vilas e depois cidades, no decorrer. Da domesticação para a seleção genética ou cruzamento seletivo o passo foi quase automático, se impôs que os homens selecionassem os melhores dentre os disponíveis, ou seja, cruzavam-se os cavalos e éguas mais fortes; escolhiam-se para o plantio as sementes maiores das espigas mais robustas; plantavam-se as mudas mais resistentes ao inverno rigoroso; cruzavam-se plantas com características diferentes esperando obter-se uma variedade descendente melhor que os pais, por exemplo. Desses cruzamentos forçados e plantios escolhidos nasciam os rebentos que se tornariam as variedades predominantes e que atendiam melhor as necessidades humanas. E o homo sapiens viu que isso era bom. Será que, a longo prazo, era bom mesmo? Vejamos: O homem, sem saber, ao fazer a escolha de uma ou mais qualidades de uma espécie, estava selecionando os genes responsáveis por essas qualidades e negligenciando outros genes, ou seja, pode ser que ao selecionar a variedade de trigo que tem as sementes maiores e as espigas mais robustas, estará sacrificando a resistência à seca dessa mesma planta; o cavalo mais forte, aquele que puxa o arado o dia todo sem cansar, pode ser suscetível à gripe ou ser infértil; a galinha que põe todos os dias pode ser aquela que não resiste ao frio do inverno; e assim por diante. Na seleção genética não há almoço de graça, “ganha-se” de um lado e perde-se de outros, é como vender a alma ao Diabo. É facilmente compreensível essa assimetria entre as qualidades das espécies artificialmente escolhidas. Durante milhões de anos a natureza “escolheu” através da seleção dos mais aptos, os melhores elementos das espécies, de forma que esses indivíduos passaram seus genes para os descendentes sempre melhorando a linhagem; se um rebento da espécie não resiste ao calor, por exemplo, tende a morrer no verão e, geralmente, não deixa descendentes. Por muitos milhões de anos o frio, o calor, o sol, os ventos, as chuvas, as erupções vulcânicas, os movimentos sísmicos, as marés, a competição entre espécies, os solos áridos e fracos, os solos úberes, os microorganismos nocivos, os insetos, os predadores, as secas, moldaram as espécies existentes, que são as melhores porque estão perfeitamente aptas a viver e se reproduzir nas condições existentes, e não porque produzem a fruta maior e mais suculenta, ou porque têm altura exata para serem colhidas pelas colheitadeiras equipadas com GPS. A natureza dotou suas criações de um “pacote” genético com todas as melhores qualidades possíveis, criou o cachorro vira-latas de todas as criaturas da fauna e da flora. Já, a “melhoria” das espécies feitas pelo homem, que se desenvolveu e permeou a civilização do começo da sociedade até os dias modernos, nada mais é do que a fragmentação do “pacote” criado pela natureza, de modo a aproveitar algumas partes e descartar outras. Resulta que hoje são milhões de novas variedades de animais e vegetais muitíssimo produtivos, mas extremamente “especializados”, seres perfeitamente adaptados a um clima específico, a um solo específico, a um ciclo sazonal específico, a uma geografia específica. Mais ainda, nos anos sessenta do século vinte, o movimento científico “Revolução verde” iniciou o maior esforço mundial no sentido de desenvolver novas variedades adaptadas aos mais diversos climas, com o intuito de “debelar a fome” no planeta. Novas variedades de trigo, aveia, arroz, grão-de-bico, soja, centeio, sorgo, milho, tomate, batata e girassol foram criadas, milhares de cultivares artificiais dessas espécies inundaram as lavouras em todos os continentes. Se acabou com fome em algum lugar deve ser num planeta desconhecido, porque na Terra não foi. Acontece que, seja pela incúria e falta de visão da raça humana, seja porque a temperatura planetal está mudando para obedecer a uma apenas suspeitada oscilação climática natural que acontece a cada dezena de milhares de anos, muitas espécies criadas através da seleção genética estão morrendo, não têm capacidade adaptativa para enfrentar mudanças não programadas, as pequenas variações espúrias que estão ocorrendo no clima são o bastante para exterminar essas variedades ultra produtivas, mas “fracas” geneticamente, criadas pela mão do homem. Nos Estados Unidos, Austrália, Japão, Inglaterra e França já foram registrados inúmeros cultivares que não conseguem produzir, ou tem a produção reduzida por causa das mudanças climáticas e alterações na salinidade do solo. E não adianta desenvolver novas espécies a partir destas, estas não têm “memória” climática de longo alcance, os genes que as tornavam imunes às oscilações milenares de clima, perderam-se em algum ponto de sua história moderna a mercê da manipulação humana. Que fazer então? Procurar o CACHORRO VIRA-LATAS! Procurar aquelas espécies selvagens que deram origem a essas modernas, espécies que têm, na sua carga genética, todas as informações necessárias à sobrevivência de longo alcance em quaisquer condições climáticas e adversas. Existem vários órgãos civis preocupados com a perda definitiva das sementes antigas, botânicos, geneticistas e outros cientistas estão numa corrida dramática em busca de sementes das espécies selvagens em todo o mundo. Sementes que foram conservadas através das gerações pelo mundo afora, passando dos avós para os filhos, destes para os netos, dos vizinhos para outros vizinhos e assim por diante, as vezes por centenas de anos. Os cientistas esperam encontrar e preservar as amostras das sementes que puderem fornecer os traços genéticos necessários à luta contra a mudança do clima, do solo e ao ataque de doenças que causam extermínio. A Noruega inaugurou no arquipélago de Svalbard, no Ártico, aquilo a que chama a “Arca de Noé” do reino vegetal, para preservar a diversidade vegetal do planeta, ameaçada por catástrofes naturais, guerras e alterações climáticas. Escavado na rocha gelada, a mil quilômetros do Pólo Norte, este “cofre” pode guardar sementes congeladas por 200 anos, mesmo no pior cenário de alterações climáticas e se os sistemas mecânicos de refrigeração falharem. Jens Stoltenberg, primeiro-ministro norueguês, disse que esta medida defende “os blocos de construção da civilização” de forças que estão ameaçando a “diversidade da vida que sustenta o nosso planeta”. Mais de cem países já enviaram cem milhões de sementes para Svalbard: arroz, milho, trigo, alface, batatas, grão-de-bico, entre outras espécies. As sementes antigas encontradas nos mais esconsos lugares do planeta estão sendo divididas em três partes: uma vai para o plantio normal para preservação das espécies através da produção de mais sementes; outra é dirigida a laboratórios que estudarão sua herança genética e tentarão aproveitar suas qualidades hibridizando-as a outras variedades modernas, melhorando estas; a última destina-se à “Arca de Noé Botânica”, onde, espera-se que elas permaneçam preservadas por 200 anos, como uma espécie de depósito bancário de emergência, que será usado no caso de perda da diversidade biológica. Na verdade, o homem encontra-se olho-no-olho com o monstro de fauces escancaradas que criou. Uma catástrofe inimaginável que pode dizimar a civilização está para acontecer e o ser humano conta apenas com o CACHORRO VIRA-LATAS para salvá-lo. Isso, que nem falamos ainda das plantas geneticamente modificadas que podem vir a ser outra ameaça num futuro próximo! JAIR, Floripa, 23/04/09.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

VAMOS COMER BANANAS!


Embora alguns portugueses que aportaram no Brasil recém descoberto tenham reportado que observaram índios alimentando-se de bananas, isso deve ser um equívoco, pois, como está registrado, a banana é originária do sul da Ásia e da Indonésia. Indícios arqueológicos e paleoambientais indicam que nas terras altas da Nova Guiné, já se cultivavam bananais, enquanto que na Malásia e Filipinas existem muitas espécies de bananas selvagens, ao passo que no Brasil existe apenas uma variedade da planta chamada pacova que não dá frutos comestíveis, serve tão somente para fins ornamentais. Umas das melhores técnicas para determinar onde uma planta foi domesticada pela primeira vez, é descobrir onde existem seus antepassados selvagens, sendo assim, o Brasil não é bom local candidato a origem das musaceas. A banana é mencionada em documentos escritos, pela primeira vez na história, em textos budistas cerca de 600 aC. Sabe-se que Alexandre, o Grande comeu bananas em 327 aC. Contudo a palavra Banana originou-se na África ocidental para onde a planta foi levada pelos povos árabes que a haviam conhecido na Palestina, onde a banana havia chegado pelas mãos dos conquistadores islâmicos que a trouxeram da Ásia em 650 dC. No século XV, os portugueses que haviam conhecido a banana na África, começaram plantações sistemáticas de bananais nas ilhas atlânticas e no Brasil. A partir daí a musacea adaptou-se ao clima e a geografia brasileira de tal forma que hoje é o fruto mais popular do país e o segundo do planeta, só ficando atrás da maçã, e o Brasil é o terceiro maior produtor da fruta, perdendo apenas para o Equador e para a Índia. Tornou-se tão brasileira a banana, que incorporou-se ao anedotário e folclore do país e daí gerou inúmeros provérbios, ditos e anedotas, como por exemplo: “A preço de banana”, “Dou uma banana para isso”, “República das bananas” e muitos outros. A bananeira é uma planta de caule subterrâneo que se desenvolve no sentido horizontal, e do qual saem folhas que crescem para fora da terra, formando um falso tronco. Ao contrário do que muita gente pensa, a bananeira não é uma árvore apesar do tamanho, trata-se de um arbusto com tronco oculto debaixo da terra. Observe-se que o falso caule da bananeira dá frutos apenas uma vez, daí morre e é substituído por novo caule, repetindo-se o processo anualmente. Dada essa característica de emitir sempre novos rebentos, o bananal torna-se permanente na área, porém com plantas renovadas a cada ciclo. Quando imatura, a banana é uma fruta de cor verde, ao madurar apresenta cor amarela ou, raramente, vermelha. Existem mais de 500 variedades de banana em todo o mundo, contudo, apenas pouco mais de uma dezena é comestível e aproveitada comercialmente. As cinco variedades principais são: banana prata, banana maçã, banana ouro, caturra e banana terra. A banana é um alimento energético, sendo composta basicamente de água e carboidratos, contém pouca proteína e gordura. É rica em sais minerais como sódio, magnésio, fósforo e, especialmente, potássio, sendo de fácil acesso e tornando a refeição ligeira, passou a ser o alimento ideal para os desportistas sujeitos aos grandes desgastes nos esforços físicos. Comparando-a com a maçã, tem o quádruplo das proteínas, o dobro dos hidratos de carbono, três vezes mais fósforo, cinco vezes mais vitamina A e ferro e o dobro das outras vitaminas e minerais. É um fruto rico em vitaminas e uma das mais saudáveis comidas existentes. É uma fruta flexível, grandemente consumida in natura, também pode ser transformada em cachaça, doces, licores, geléias e até vinagres. Além disso, a bananeira tem folhas grandes e caule fibroso que podem servir para cobrir abrigos provisórios, ou como embalagens de boa qualidade, ser utilizados como ataduras de emergência, resultar em certo tipo de papel e na confecção de artesanatos como chapéus, bolsas, cordas, peneiras, objetos de decoração e até no fabrico de móveis sofisticados. O líquido acumulado entre as folhas e o caule, é utilizado para aliviar dores resultantes do ataque das aranhas, vespas, escorpiões e até de cobra. O fruto é uma verdadeira panacéia, pode auxiliar no tratamento de certas enfermidades, tais como: tuberculose, paralisia, reumatismo, artrite, prisão de ventre, diarréia, desidratação, e, ainda, doenças de estômago, rins, fígado, intestinos e nervos, úlceras da pele, dermatites, queimaduras de sol, feridas, fraqueza pulmonar, resfriados, tosse crônica, tosse de fumante, bronquite crônica. De acordo com recentes estudos, a maioria das pessoas que habitualmente sofrem com depressões sentiram-se substancialmente melhor depois de comerem uma banana. No Brasil, o setor bananeiro gera mais de 500.000 empregos diretos. Segundo dados do IBGE, no ano de 2004, a cultura foi a segunda mais produtiva, ficando atrás somente da laranja. Creio que depois de ler este texto, o leitor nunca mais vai olhar a banana com os mesmos olhos, vai reconsiderar seus conceitos bananais para sempre. JAIR, Floripa, 22/04/09.

terça-feira, 21 de abril de 2009

PLANTANDO A MANDIOCA


No dia 22 de abril comemora-se o dia da mandioca. Essa fabulosa planta encontrava-se aqui no Patropi quando as caravelas de Cabral chegaram. Na história da ocupação dos continentes pelo homem paleolítico, vários fatores influenciaram na velocidade e delimitação dos deslocamentos, determinando a densidade populacional das tribos nômades que ocupavam uma nova terra. Clima e geografia do terreno eram fatores importantes para que os humanos resolvessem se estabelecer num local, contudo, os fatores fundamentais eram água, animais e plantas comestíveis disponíveis. De nada adiantava haver ótimo clima com terreno favorável se não houvesse o que comer e beber. Desde que as tribos de homens caçadores-coletores, oriundos da África, iniciaram o nomadismo motivados, talvez, pela busca de lugares mais favoráveis à perpetuação da espécie, a história humana é uma reprodução exata da história dos alimentos. Tão precisa é essa justaposição de histórias que existe até um ramo da ciência chamado etnobotânica que estuda as relações homem/planta em suas diferentes dimensões, que visa resgatar dos grupos humanos o saber quanto aos papéis que as plantas representam para os diferentes ambientes culturais e os significados que os grupos sociais lhes atribuem. Talvez com apenas uma exceção, a Austrália, todos os demais continentes e locais ocupados pelo homem primitivo eram úberes, isto é, possuíam meios abundantes de sobrevivência. Não é por acaso que a civilização humana surgiu primeiro no chamado Crescente Fértil, região da então Mesopotâmia e entorno, hoje Síria, Irã, Iraque, Egito, Jordânia, Israel e parte da Turquia. A Mesopotâmia caracterizava-se, claro, pela abundância de água fornecida pelos rios Tigre e Eufrates e pela existência das primitivas gramíneas que, domesticadas, deram origem ao trigo, ao centeio e a cevada. Provavelmente o Asno é oriundo dessa região, onde foi domesticado contribuindo também para a fixação dos homens primitivos. As tribos primitivas continuaram se deslocando e fixando-se em todos os continentes habitáveis sempre que as condições fossem benévolas, indícios paleontológicos indicam que há vinte mil anos o homem, depois de ocupar o leste da Ásia, atravessou o estreito de Bhering e adentrou as Américas por onde hoje é o Alasca. Vindo para o sul onde o clima era mais favorável, os primitivos foram se fixando e formando nações em áreas nas quais havia alimento na forma de animais e plantas domesticáveis. Portanto, não é surpresa alguma que os impérios Inca e Asteca tenham se desenvolvido no Peru e no México, locais onde havia as plantas que deram origem à batata e ao milho. A equação abundância de alimento disponível + água + clima = civilização, se fechava novamente. A leste da cordilheira dos Andes surgiram inúmeras nações, mais uma vez atraídas pela uberdade das terras. Não é a toa que tornou-se célebre a frase de Caminha, “em se plantado tudo dá”. Havia em abundância frutas tropicais, peixes, aves, mamíferos, e, principalmente, mandioca. A mandioca, Manihot esculenta Crantz, é uma planta perene, arbustiva, pertencente à família das Euforbiáceas. Na sua origem a planta é uma falsa trepadeira, falsa porque as verdadeiras possuem gavinhas, coisa que a mandioca não tem. A parte mais importante da planta está sob a terra, os tubérculos. Rica em fécula, utilizada na alimentação humana e animal ou como matéria prima para diversas indústrias. Originária provavelmente do Brasil, a mandioca era cultivada pelos índios, por ocasião da descoberta do país. No Nordeste, ela é conhecida como macaxeira. No sul, como aipim. Mas tem ainda muitos outros nomes: candinga, castelinha, maniva, mandioca-brava, xagala, mandioca-doce, mandioca-mansa, maniveira, moogo, mucamba, pão-da-américa, tapioca, pão de pobre, macamba, uaipi e pau de farinha. Mandioca, palavra de origem tupi batiza, com mais freqüência, essa planta da qual somos, orgulhosamente, o maior produtor do mundo, trinta por cento da produção do planeta podem ser postos na nossa conta. Lendo os cronistas que andaram pelo Brasil por diferentes épocas e regiões, percebe-se que as técnicas do plantio da mandioca por eles descritas, sofriam pequenas variações, levando-nos a crer que essa quase uniformidade em tais costumes de lidar com a terra e manejo com as mudas denuncia uma origem comum, tanto das diversas variedades da planta como dos povos que as descobriram. A mandioca, depois de conhecida dos portugueses, passou a ser considerada por Portugal um elemento de fundamental importância para o desenvolvimento de suas atividades relacionadas não só às conquistas de novas terras, como ao desenvolvimento do tráfico negreiro. Dessa forma, tal importância recaía no valor nutricional desses tubérculos que permitiam alimentar não só os portugueses que iam se fixando nos pontos da costa africana onde eram instaladas feitorias, como também servia de alimentação dos escravos, tanto nos navios como nos diferentes pontos do Brasil, onde eram negociados e levados por seus compradores para diferentes áreas do país. O componente nutricional mais importante do tubérculo da mandioca é a fécula (amido), cujo teor nas raízes frescas varia de 25 a 35%. Dependendo do vegetal de origem, o amido possui uma denominação: Amido (propriamente dito) - Reservado para o de origem de sementes ou grãos como milho, trigo, arroz. Fécula - Quando extraído de raízes, tubérculos e rizoma. Sagu - O verdadeiro sagu é obtido da parte central ou da medula de certas palmeiras. A fécula, amido da mandioca, é mais conhecida como polvilho ou goma, extraído com a decantação da água de lavagem da mandioca ralada. Vários tipos de farinha são obtidos da mandioca, a farinha branca de mesa, puba, tapioca (transformação do polvilho) e outros, além de bolos, caldos e o tucupi, líquido extraído durante a produção da farinha e polvilho, originariamente típicos da culinária indígena. A mandioca também é usada como forragem na alimentação animal, as folhas, ramas e restos de casca ou os desperdícios industriais do processamento da mandioca dão ótima ração. Através de processos de fermentação e ação enzimática, além de outras reações químicas, as indústrias extraem da mandioca vários produtos químicos dentre os quais o principal é o álcool combustível. Ao contrário dos cereais considerados nobres como o trigo e a cevada, a mandioca não é listada como alimento de importância mundial, no entanto, nós tupiniquins sabemos que sem esse vegetal a história de nosso país provavelmente teria sido muito diferente, e até o anedotário nacional sofreria algum dano, seria mais pobre. Lembrando que a forma cilíndrica do tubérculo torna óbvia sua comparação com o membro masculino, a gaiatice brasileira criou inúmeras anedotas explorando essa conotação. Vejamos uma conhecida piada, que por ser velha não deixou de ser boa: “Você sabe qual a melhor lua para plantar a mandioca?”. A lua-de-mel, é claro! JAIR, Floripa, 21/04/09.