quarta-feira, 25 de março de 2009

ABORÍGINES


No post anterior, “TERRAE AUSTRALIS” intencionei mostrar alguma coisa daquele país e, en passant, dei uma pincelada na existência dos aborígines, nome como são conhecidos os nativos australianos. Para começar vamos referir ao evento do “descobrimento”, palavra usual com a qual os navegadores costumam nomear a primeira chegada em uma terra antes desconhecida por eles. O descobridor europeu oficial da Austrália foi o Capitão James Cook, que reivindicou o vasto continente para a coroa do Reino Unido no dia 21 de Agosto de 1770 ao qual chamou Nova Gales do Sul. Entretanto, mesmo desconsiderando a colonização aborígine acontecida há dezenas de milhares de anos, a “descoberta” do Capitão Cook foi apenas uma das chegadas àquele continente, porquanto navegadores portugueses, espanhóis e holandeses em datas anteriores haviam triscado suas bordas sem desembarcarem, porque a terra era muito inóspita e muito longínqua, não valia à pena nem desembarcar quanto menos colonizá-la. Como os demais continentes “descobertos” pelos europeus, a Austrália também não era uma terra vazia de gente, existia um número bastante expressivo (cerca de 300 mil) de nativos embora estes fossem considerados, pelos descobridores, uma raça em extinção, chamando-os de remanescentes do Neolítico, numa evidente demonstração de desprezo e suposta superioridade dos brancos descobridores, frente a esses "primatas". Começo nada auspicioso para aquele povo que havia sobrevivido por cerca de quatrocentos séculos e desenvolvido uma cultura própria a despeito das condições adversas extremas das terras australianas. Na época da chegada dos ingleses o povo indígena estava dividido em 500 grupos, vivendo em bandos como caçadores-coletores e falando 200 tipos de dialetos diferentes. Não detinham conhecimento para confeccionar cerâmica, arcos e flechas, casas ou abrigos elaborados, objetos simples de madeira ou armas, a não ser o bumerangue que era usado principalmente na caça aos cangurus, e o didgeridoo instrumento musical feito de galho oco e que produz um som primevo e único, o qual remete à natureza, ao voo dos pássaros, ao vento e aos ruídos dos insetos e outros animais. Os habitantes originais daquele continente eram tão desprezados pelos europeus que a Constituição do país fazia apenas duas referências a eles: a que os excluía do censo e a que os deixava sob poder dos estados e não do Governo Federal. Visível aí o raciocínio deturpado do legislador, não eram GENTE então não precisavam ser contados como tal; não eram IMPORTANTES, logo, o que os estados decidissem ou não a respeito deles estava correto, não havia necessidade da União defendê-los ou tutorá-los. Diante dessa omissão do estado, os nativos eram caçados a tiros como esporte de fim-de-semana dos colonizadores. Em 1940, usando a lógica: “o mais forte sempre tem razão”, os aborígines foram catequizados e integrados à vida rural e urbana como trabalhadores braçais mal pagos e sem direitos trabalhistas. As crianças eram tiradas dos pais e dadas a famílias brancas com o intuito de promover uma melhor interação delas com a sociedade dita “moderna” e de usá-las com empregados não remunerados (escravos) nos serviços caseiros mais sujos e degradantes. Toda uma geração de nativos se viu forçada a uma convivência não desejada e perdeu sua identidade aborígine sem conseguir outra em troca, já que os brancos continuavam a considerá-los inferiores raciais. A partir de 1967 o cenário da vida do povo aborígine começou a melhorar um pouquinho só. A população australiana votou pela inclusão dos aborígines no censo. Aleluia! Finalmente são GENTE! Agora só lhes falta serem reconhecidos como cidadãos. Em 1969 o geólogo australiano Jim Bowler descobriu o “Mungo Man”, fóssil de um aborígine que teria vivido há 40 mil anos atrás, o que comprovou os habitantes nativos como o povo mais antigo a seguir uma cultura no mundo. Suas línguas e dialetos seriam os mais antigos do planeta, assim como seu sistema de crenças. Que crenças seriam essas? “O Sonhar”, ou “The Dreaming” engloba a base da cultura, filosofia, folclore, leis, rituais e lendas do povo aborígine. Para eles, essa filosofia é uma espécie de bíblia vocal que explica a criação do Universo. Em 1983 o Parlamento australiano reconheceu-lhes o direito à terra já que, para eles esta é sagrada, em conseqüência passaram a receber indenização em forma de pagamentos semanais como uma espécie de compensação pelo uso que os brancos fazem de sua propriedade. No entanto, apesar de já integrados e tendo suas crenças e direitos reconhecidos, os aborígines ainda eram considerados um povo em vias de extinção. Só que para um povo à beira da extinção, os aborígines resistem muito. Continuam rebeldes, são contrários a sistemas hierárquicos e segundo as autoridades australianas, é difícil governá-los. Destituídos de seus valores culturais, afastados de seu modus vivendi e não integrados cultural, econômica e socialmente ao mundo branco que os cerca, muitos acabam se rendendo ao alcoolismo e possuem qualidade de vida muito inferior ao restante da população australiana. A expectativa de vida do povo aborígine chega a ser 20 anos menos que a dos colonizadores brancos. A exemplo do que ocorre com todos os povos subjugados pelo horror da colonização, aliado ao desprezo que os donos do poder dedicam aos povos submetidos ao seu jugo, muitos aborígines são hoje mera atração turística nas ruas de grandes cidades, tocando didgeridoo ou deixando-se fotografar a troco de “golden coins”, moedas de um e dois dólares australianos. O único consolo que ocorre a quem, como eu, torce pela perpetuação de um povo tão tripudiado e sofrido quanto pertinaz e interessante, é saber que no caso de hecatombe nuclear ou desastre de proporções tais que todas as fontes de alimentos desapareçam e a civilização venha a ser exterminada pela fome, os aborígines vão continuar vivos e saudáveis, provavelmente tornar-se-ão os donos do Planeta. JAIR, Floripa, 25/03/09.

segunda-feira, 23 de março de 2009

TERRAE AUSTRALIS


Nada mais previsível e natural que minha atividade de beletrista eventual me compulsasse escrever sobre a Austrália, esse país continente que fascina pela exoticidade da fauna e espanta pela distância aos demais países ditos civilizados, e que tive oportunidade de visitar por três vezes em sua porção territorial leste, nordeste e sudeste. A Austrália é o único país onde, nos tempos modernos, ou seja, quando do “descobrimento”, todos os povos nativos ainda viviam sem qualquer marca da chamada civilização – desprovidos de agricultura, gado bovino, metal, arcos e flechas, construções significativas, aldeias, escrita, tribos centralizadas ou organizações sociais complexas. Ao contrário, os aborígines australianos eram (são) nômades ou caçadores-coletores seminômades organizados em bandos – mais antiga organização social humana, pelo que se sabe através de estudos arqueológicos – e vivendo em abrigos temporários ou cabanas e usando apenas instrumentos de pedra polida, como homens primitivos de quarenta ou cinqüenta mil anos atrás. Durante os últimos treze mil anos, menos mudanças culturais ocorreram na Austrália do que em qualquer outro continente. Esse estágio, aparentemente estacionário dos aborígines, levou um explorador francês, com evidente conotação racista, a dizer: “Eles são a gente mais miserável do mundo, e seres mais próximos das bestas selvagens”. Diga-se, a maior parte dos exploradores europeus que lá chegou por consequência da colonização assim pensava e agia de acordo, isto é, considerava os nativos não humanos, os quais podiam ser (e eram) caçados como se animais selvagens fossem. Dos estimados trezentos mil habitantes originais do país, restavam menos de trinta mil quando, em 1983, o Parlamento australiano os reconheceu, ainda que tardiamente, como seres humanos e, mais ainda, reconheceu-os como proprietários legítimos das terras australianas, de modo que a partir daí, o Estado paga uma indenização a cada aborígine pela ocupação que os brancos fazem de suas propriedades. Mais de quarenta mil anos atrás, sociedades nativas australianas desenvolveram as ferramentas de pedra mais antigas que se conhece e as primeiras embarcações, e isso lhes dava uma dianteira tecnológica frente a outros povos que habitavam a Europa e a Ásia, contudo, estagnaram, permaneceram no estágio da pedra polida, sequer passaram para o arco e flecha. O que teria acontecido com esses promissores povos de modo que não mais conseguiram avançar no sentido da civilização como outras populações o fizeram, de tal forma que os europeus acabaram conquistando a Austrália e não ao contrário? Por que os astralianos não fabricaram ferramentas de metal, não inventaram a escrita nem desenvolveram sociedades politicamente complexas? É, minha gente, a resposta está na aridez do solo, na esterilidade dos ambientes e na imprevisibilidade do clima das terras australianas que são uma realidade cruel onde inexistem plantas e animais domesticáveis, o que limitou a população de caçadores-coletores em trezentos mil habitantes, comparada com milhões na Eurásia, mais de dois terços do país – sua porção central – são desertos hostis onde não existe água e nada cresce, e é impossível criar tecnologia onde nada existe. Por falar em nada, a paisagem na maior parte da Austrália, descontando o Out Back que é deserto puro e inóspito, consta de regiões planas cobertas de enormes florestas secas e bem ralas de eucaliptos – existem mais de duzentas espécies dessa planta, desde pequenos arbustos até aquelas árvores grandonas que conhecemos – cortadas por pequenos córregos (creeks) que permanecem sem água nove ou dez meses por ano, e sofrem enchentes extremamente rápidas e letais na época das chuvas. A paisagem se parece muito com os sertões nordestinos e o serrado do Brasil central, é uma espécie de mistura dos dois sistemas. Se bem que, os agricultores fazendo uso de tecnologia para obter água do subsolo e criatividade, transformam vastas regiões desertas em grandes “plantations” de cana-de-açúcar, girassol e trigo, como bem vi em minhas andanças por lá. Quando se fala daquele país, as primeiras coisas que nos vêm à mente são cangurus e bumerangues, nada mais lógico já que é isso que a propaganda turística explora. Contudo, mesmo lembrando que bumerangues e cangurus são importantes fontes de atração turística, a Austrália possui outros itens que a tornam um país bem colocado no chamado concerto das nações. Maiores reservas de ferro, cobre, alumínio, zinco, carvão, ouro, pedras preciosas como diamantes, safiras e opalas. Aliás, tive oportunidade de conhecer uma região de garimpos. Vale pela curiosidade, fomos a uma cidadezinha apropriadamente chamada Saphire, onde se encontra a maior concentração safiras do planeta. Lá, mediante um pequeno pagamento pode-se garimpar um pouco. O resultado foi um monte de lixo em forma de pedrinhas não aproveitáveis comercialmente e umas cinco ou seis de boa qualidade que puderam ser lapidadas. Mandei lapidá-las aqui no Brasil e guardei como lembrança da minha primeira experiência como garimpeiro. Duas das pedrinhas têm mais de quilate e meio de peso, lembrando que um quilate vale um quinto do grama, ou seja, um grama equivale a cinco quilates. Além das belezas naturais como a maior barreira de corais do planeta, a Austrália e a Nova Zelândia são os únicos países de primeiro mundo do hemisfério sul que têm uma distribuição de renda das melhores, só perdendo para o Canadá. Longe de mim fazer apologia gratuita das virtudes de um país o qual está tão distante tanto física como culturalmente do Brasil varonil como a Terra está da Lua, mas, acontece que tenho um filho e uma nora australianos, e, quem sabe, terei um neto também num futuro próximo, e eu mesmo me sinto como pertencendo um pouco àquela terra. Abraços, JAIR. Floripa, 23/03/09.

quinta-feira, 19 de março de 2009

A LEGIÃO E O GAROTO

Anos sessenta, para ser exato, 1961. Palmeira, cidade do interior do Paraná. Protagonista, um garoto que gostava de ler gibis e tinha muita imaginação, eu. Pois é, os gibis, nome das revistas em quadrinhos naquela época, que depois passaram a ser HQs, quase sempre publicavam na segunda contracapa as propagandas mais variadas, entre elas, uma que tocava no imaginário do garoto que lia e gostava de estórias de aventuras como “Beau Geste”: Conto que tratava de um jovem que assumia roubo feito pela mãe adotiva e alistava-se na Legião Estrangeira para não denunciá-la. Lá estava a propaganda da Legião, mais ou menos nestes termos: “Quer romper com o seu passado, começar uma vida nova? A Legião Estrangeira oferece a você uma oportunidade única. Sejam quais forem as suas origens, religião, cor, nacionalidade, os seus diplomas e nível escolar, sua situação familiar ou profissional, a Legião estrangeira lhe oferece nova oportunidade para uma vida nova”. Insinuando de certa maneira que mesmo que você tivesse algum débito para com justiça a Legião não se preocupava com isso. Aliás, filmes e histórias dos gibis enfatizavam a idéia de que a Legião Estrangeira sempre acolhia marginais e bandidos que estivessem prontos a servi-la bem em quaisquer circusntâncias. “Aliste-se, para tanto basta escrever para o Consulado da França, na cidade tal, rua tal, etc”. É bem verdade que eu não queria romper com meu passado, pois este nem sequer existia, mas, com certeza, a oportunidade de AVENTURA era irresistível tentação para uma mente imaginativa de adolescente interiorano. Tomei a decisão de minha vida, escrevi para o endereço indicado e aguardei ansioso a resposta que veio logo. Num folder bem impresso em quatro idiomas – Francês, Inglês, Espanhol e Português de Portugal – a Legião, para meu desgosto, informava já nas primeiras linhas as condições necessárias para ser aceite nas suas tropas: “Ter idade entre 17 e 40 anos, autorização dos pais se for menor”. Eu tinha quinze anos e nenhuma esperança de conseguir autorização paterna quando completasse dezessete. Claro, existiam outras exigências as quais naquele momento não faziam diferença alguma, que eram: “Seja qual for sua situação civil será contratado como solteiro; Ter aptidão física para servir em qualquer parte do planeta”. É bom lembrar que França tinha interesses coloniais em várias partes do mundo como, Argélia, Guiana, Nova Caledônia, Ilhas Reunião, Antilhas, Indochina etc. Uma curiosa observação: “Documentos pessoais não são obrigatórios, mas serão bem vindos. Em seguida, para deixar claro o espirit de corps que motivava aqueles legionários a manterem-se no topo das forças combatentes como a elite do mundo, a Legião publicava seu regulamento de sete artigos que ainda guardo alguma lembrança: " 1 - Legionário, és um soldado voluntário que servirá a França com honra e lealdade; 2 - Cada legionário é teu irmão seja qual for sua nacionalidade, sua raça, sua religião. Serás sempre solidário com os membros da Legião como se fossem uma família unida; 3 - Respeitarás as tradições, serás obediente às ordens superiores, disciplina e camaradagem serão tua força, a lealdade e a coragem nortearão tua conduta; 4 - Fiel ao seu estado de legionário, vestirás a farda com apuro, teu comportamento sempre correto, teu alojamento sempre limpo; 5 - Serás um soldado de elite, tua arma vale tua vida, cuida sempre da tua forma física; 6 - A missão é sagrada, cumprirás até o fim, acatando as leis da guerra, as convenções internacionais, se for preciso com risco da própria vida; 7 - No combate, agirás sem paixão e sem ódio, respeitarás os inimigos vencidos, nunca abandonarás os mortos nem feridos, nem tua arma.” O folder fazia questão de lembrar que a Legião era a melhor constituida e mais bem treinada tropa do mundo, e mostrava fotos das tropas e equipamentos, entre estes, helicópteros de última geração usados pela cavalaria aerotransportada. A despeito da vontade, e sonho ingênuo de aventuras em desertos de areias escaldantes, batalhas ferozes em selvas úmidas e escuras e desembarque em praias fortemente defendidas num continente longínquo, a vida na cidade pequena impôs uma mudança de planos antes de completar dezoito anos, e o garoto que gostava de ler gibis e tinha imaginação alistou-se na Força Aérea Brasileira. JAIR, Floripa, 20/03/09.

PRÁ NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DO MILHO


No meu texto “A CIVILIZAÇÃO VALE A PENA?” escrevi: "A economia asteca estava baseada primordialmente no milho...”, e mais não disse por que não cabia, o assunto era outro. Contudo, senti necessidade de falar sobre esse alimento tão fundamental para o ser humano. Então, vamos começar por onde o milho começou. O Teosinto é uma gramínea anual como o trigo, o centeio, a cevada, o arroz etc, cespitosa (que forma touceiras) de aspecto semelhante ao milho, do qual é considerada ancestral, forma grandes touceiras, podendo atingir 3 metros de altura e seu perfilhamento é muito agressivo, ou seja, emite rebentos de forma abundante para todos os lados. Adaptada a climas quentes e solos férteis, não crescendo bem em solos arenosos, pobres e secos, é planta nativa das Américas Central e do Sul. O Teosinto, atualmente considerado de mesma espécie e com várias subespécies deu origem ao Milho nosso de cada dia que é uma gramínea da família Poaceae, da tribo Maydeae, do gênero Zea para distinguir desse seu parente silvestre mais próximo. O milho é um cereal essencialmente americano, uma vez que só nosso continente que se encontram os seus parentes selvagens mais próximos, seus ancestrais, e onde foi domesticado pelos aborígines mesoamericanos há mais ou menos 3500 anos. Fora das Américas, não existem fósseis e nem evidências lingüísticas, históricas ou pictóricas de milho ou teosinto, seu ancestral. Atualmente o milho é a planta cultivada que atingiu o mais elevado estágio de domesticação, uma vez que perdeu a capacidade de sobrevivência sem intervenção humana. Ocupa lugar de destaque como principal alimento dos vários povos e civilizações americanos, fato evidenciado pelos relatos históricos. Expandiu-se, até ocupar praticamente todo o continente americano, em conseqüência da seleção do homem e da seleção natural, e, em virtude do descobrimento e colonização das Américas, estendeu-se pelo mundo todo, tornou-se o alimento mais importante do planeta depois do trigo e do arroz. Cristóvão Colombo é considerado o descobridor não só do Novo Continente, a América, mas também de seu mais reputado alimento, o Milho. Rico em lipídios, proteínas, vitaminas A e C e carboidratos, esse cereal branco ou amarelo, protegido por camadas de folhas fibrosas, era há muito tempo a principal fonte de energia consumida pelos índios americanos. O modo mais comum de utilização do milho pelos nativos era como farinha ou fubá. Depois de pilado, o cereal era então fervido e comido como polenta ou ainda, transformado em deliciosas tortilhas e massas comestíveis que faziam a festa dos Astecas, Maias, Incas e demais povos da região meso-americana e andina. Esses povos tinham muitos conhecimentos em astronomia, arquitetura, matemática, irrigação, agricultura, drenagem, artesanato e economia, entre outras. Destaque-se também que souberam se apropriar dos elementos naturais que lhes eram fornecidos nas regiões em que se estabeleceram para não apenas sobreviver, e sim, para viver de forma confortável e até majestosa. Essas tradições foram preservadas até os dias de hoje e esses alimentos derivados do milho continuam sendo muito populares. Tive oportunidade de trabalhar na Bolívia por algum tempo e constatar a grande variedade de comidas e bebidas típicas feitas de, ou que levam milho na feitura. Além das mencionadas tortilhas e polentas, também é comum o consumo do milho cozido temperado apenas com sal - ao quais algumas pessoas gostam de adicionar manteiga - ou ainda assado na grelha - sendo que em algumas regiões coloca-se a espiga no fogo sem que se retire a palha. O que também chamou muito a atenção dos conquistadores espanhóis que dominaram as civilizações americanas foram os mercados públicos onde se vendiam muitos produtos, alguns conhecidos pelos europeus e outros totalmente desconhecidos, como é o caso do próprio milho, do cacau, e, consequentemente, do chocolate, do tomate e de várias espécies de pimentas. Incas, Maias e Astecas ficaram historicamente conhecidos como “civilizações do milho” por sua relação tão intensa e mística com esse cereal. Conta-se que, a despeito da luxuosidade das refeições dos líderes desses povos, o dia a dia era pautado em refeições simples, onde o milho era presença obrigatória. Se não existissem outros motivos como os calendários precisos e a arquitetura para reverenciar os povos pré-colombianos, o milho já seria o bastante. Esse cereal é, juntamente com a batata que também originou-se e foi domesticada no Novo Mundo, o maior e mais importante legado que os tripudiados aborígines americanos deixaram para o resto do planeta. JAIR, Floripa, 19/03/09.

quarta-feira, 18 de março de 2009

KITTY GENOVESE


Lendo a revista Watchmen número 6, excelente HQ dos anos 80 que embora fictícia traz histórias verídicas, relembrei do caso de Catherine Genovese, conhecida por Kitty Genovese. Kitty realmente existiu e seu assassinato marcou profundamente a sociedade americana, criando até a expressão, "ndrome de Genovese” para descrever a indiferença egoísta das pessoas que evitam 'se envolver' nos problemas das outras, por mais graves que estes sejam. Gravidade que às vezes leva à morte, como no caso de Kitty. Passavam alguns minutos das 3 da manhã do dia 13 de março de 1964, a jovem mulher atrás do volante saiu do carro e iniciou a caminhada de 30 metros em direção ao seu apartamento na Rua Austin, 82 no bairro de Queens, Nova Iorque, quando percebeu um desconhecido em seu caminho. Ela mudou de direção e foi rumo à esquina onde havia uma cabine telefônica policial. Subitamente, o homem agarrou-a e ela gritou desesperada. Moradores de apartamentos próximos ao local acenderam as luzes e abriram as janelas, ao todo 38 pessoas. A mulher gritou novamente: "meu Deus, ele me apunhalou! Por favor, me ajudem!". Um homem em uma janela gritou: "Deixe essa menina em paz”. O agressor andou para longe. As luzes dos apartamentos se apagaram e as janelas foram fechadas. A vítima tentou caminhar rumo ao seu apartamento, mas o agressor voltou e a esfaqueou novamente. "Estou morrendo!”, ela chorou. As janelas se abriram novamente. O agressor entrou num carro e foi embora. As janelas se fecharam, mas logo o agressor voltou. Kitty agora havia se arrastado para a porta da frente de um prédio próximo. Ele a encontrou estendida no chão e a esfaqueou novamente, atacou-a sexualmente, desferiu mais algumas facadas matando-a, levou 49 dólares de sua bolsa e foi embora. Ao todo decorreram 45 minutos desde o primeiro ataque até a morte, só então um vizinho da vítima chamou a polícia. Os policiais chegaram dois minutos depois e encontraram seu corpo sem vida. A vítima foi identificada como sendo Catherine Genovese, 28 anos, que estava voltando de seu emprego como gerente de um bar em Hollis, todos os vizinhos a conheciam. Seis dias depois da morte da jovem, a polícia prendeu um suspeito - Winston Moseley, 29 anos, operador de máquinas em comércios que vivia com sua esposa e os dois filhos. Moseley acabou confessando não apenas ter matado Kitty, mas também duas outras mulheres. Disse possuir "um desejo incontrolável de matar". Ele falou aos agentes que vagava pelas ruas à noite em busca de vítimas enquanto sua esposa, Elizabeth, estava no trabalho. "Eu escolhia mulheres para matar porque elas eram mais fáceis e não lutavam", disse Moseley. Primeiro condenado à cadeira elétrica, ele teve sua pena modificada para prisão perpétua. Décadas depois, após fugas e pedidos de condicional, Winston Moseley continua na cadeia. O caso Genovese tornou-se um símbolo da apatia social não apenas para os americanos dos anos 60, mas para toda uma geração consciente de que a aglomeração das grandes cidades favorece a desumanização 'dos outros’, favorece a inércia dos espectadores e acerba a indiferença para com quem não lhe é próximo, porque o espaço urbano pertence a um povo que não tem nada a ver com eles, um povo de drogados, bêbados, miseráveis e criminosos. Quem circula naquele espaço não faz parte de sua comunidade. As pessoas se enclausuram numa cápsula virtual tornando-se espectadoras passivas das mazelas que as rodeiam. A essa atitude foi dado até um nome "bystander effect" (efeito espectador), fenômeno psicológico no qual indivíduos mostram-se nada propensos a ajudar outras pessoas em situações emergenciais quando percebem que há outros presentes no mesmo local, é o jeito eufemístico de dizer, "não tenho nada com isso". Acho que devemos considerar melhor quando se diz que o ser humano é solidário, é generoso, se preocupa com o bem estar alheio, não é isso que a prática demonstra. JAIR. Floripa, 18/03/09.

segunda-feira, 16 de março de 2009

O FALCONÍDEO, O QUELÔNIO E O DRAMATURGO


Falconídeos, como são classificados os gaviões e as águias, são aves chamadas injustamente, de rapina. Já que rapina é, segundo registram os dicionários: roubo feito com violência, extorsão, a classificação, mais uma vez, é uma forma covarde de atribuir aos animais falha exclusivamente dos homens, o que não é novidade, pois o homo sapiens humaniza os outros seres quando os quer transgressores, feios, desleais, néscios, perversos ou deformados. Mas, não é esse o escopo do texto, vamos falar sobre o carancho mesmo. Carancho é como se denomina no sul os gaviões de um modo geral e, em especial, um tipo chamado “Carancho-caramujeiro”, porque se alimenta de caramujos, os quais costuma levar nas garras até certa altura donde os solta sobre pedras para que quebrem e exponham suas carnes, que são um verdadeiro pitéu para seu paladar especializado. Existe uma variedade falconídea no norte da África e nas margens do Mediterrâneo que é chamada de Águia egípcia e se comporta de modo similar ao Carancho-caramujeiro de nossas paragens. Essa águia, que pelo porte está mais para gavião, também leva as presas nas garras e as solta das alturas para que quebrem ao cair. Pois é, além de caramujos, a Águia egípcia alimenta-se de tartarugas terrestres, quelônios abundantes nas ilhas e margens do Mediterrâneo. A história registra que Ésquilo, o primeiro grande autor trágico, nasceu em Elêusis, Grécia no ano de 525 a.C., autor de Os Persas, Os sete contra Tebas, As Suplicantes e Prometeu Acorrentado, ficou extremamente melindrado quando um conterrâneo seu, general Sófocles, foi premiado no festival de Dionísios por uma peça de grande apelo junto ao povo grego. Tão chateado ficou o autor trágico que resolveu se auto-exilar na Sicília, então província grega. Pois estava Ésquilo a deambular pelas planícies da ilha numa bela manhã ensolarada de 456 a.C., talvez, peripateticamente bolando uma nova tragédia teatral que lhe devolvesse a atenção da mídia que Sófocles lhe havia roubado, quando uma Águia egípcia, totalmente alheia ao que passava na mente do dramaturgo, soltou de grande altura a tartaruga que trazia nas garras, com intuito de quebrá-la contra as rochas que afloram naquelas campinas, e o quelônio precipitou-se sobre a cabeça do grego matando-o. Pelo que se sabe este é o único acidente desse tipo já registrado na história da humanidade. Um infeliz encontro entre um carancho, um jabuti e a cabeça de um grego inteligente e criativo privou a humanidade de um dos maiores autores da antiguidade. Enquanto isso, Sófocles, criador de mais de cem peças, entre elas as obras-primas escritas depois da morte de Ésquilo, Antígona, Édipo Rei e Elektra é o dramaturgo grego mais representado no planeta até hoje. Sófocles era uma espécie de, senão discípulo pelos menos seguidor de Ésquilo, e alunos costumam ficar à sombra dos mestres enquanto estes vivem, então vale uma ilação: Teria Sófocles entrado para a história do teatro como o maior autor de todos os tempos se aquela águia tivesse soltado o quelônio um metro distante de Ésquilo? JAIR, Floripa, 16/03/09.

quinta-feira, 12 de março de 2009

A CIVILIZAÇÃO VALE A PENA?


Depois do descobrimento das Américas, quando os espanhóis desembarcaram nas proximidades de onde hoje é o México, encontraram uma civilização mais adiantada e sofisticada culturalmente que os europeus, eram os Astecas. Os Astecas foram uma grande civilização americana pré-colombiana, que floresceu principalmente entre os séculos quinze e dezesseis no território correspondente ao atual México, onde fundaram numa ilha, no centro de um lago formado na cratera de vulcão extinto, a cidade de Tenochtitlán, que hoje é a cidade do México. O império asteca era constituído por uma organização estatal que se sobrepôs militarmente a diversos povos como os toltecas e chichimecas; possuíam uma superioridade cultural e isso justificaria sua hegemonia política sobre as inúmeras comunidades nestas regiões, segundo eles mesmos – equivalente ao Bush justificando invadir o Iraque e o Afeganistão. No período anterior a sua expansão os astecas se encontravam no mesmo estágio cultural de seus vizinhos de outras etnias. Por um processo muito específico, comparável, nos tempos modernos e na civilização ocidental, ao processo que coloca, por exemplo, os Estados Unidos como potência militar e econômica acima das demais nações, tiveram uma expansão rápida e passaram a subjugar, dominar e tributar os povos das redondezas, outrora seus iguais. Eram imperialistas, nada diferente do colonialismo cultural, econômico e exploratório dos tempos atuais. A sociedade era hierarquizada e comandada por um imperador, chefe do exército. A nobreza era também formada por sacerdotes e chefes militares. A sucessão dos imperadores astecas não era hereditária de pai para filho, sendo estes eleitos por um consenso entre os membros da nobreza. A economia asteca estava baseada primordialmente no milho, e as pessoas acreditavam que as colheitas dependiam de provisão regular de sangue por meio dos sacrifícios, costume estranho, mas totalmente de acordo com cultura da época. Contudo, desenvolveram uma medicina adiantada que incluía até operações cirúrgicas cerebrais, eram ótimos astrônomos, ourives, arquitetos, metalúrgicos e seus trabalhos em cantaria de excente qualidade perduram até hoje. Sua civilização teve um fim abrupto com a chegada dos espanhóis no começo do século XVI, em 1519. Os espanhóis dominaram os astecas e tomaram grande parte dos objetos de ouro desta civilização. Não satisfeitos, ainda os escravizaram, forçando-os a trabalharem nas minas de ouro e prata da região. Aconteceu que o imperador Montezuma II considerou o conquistador espanhol a personificação do deus Quetzalcóatl, e não soube avaliar o perigo que seu reino corria. Ele recebeu Fernando Cortez amigavelmente, mas este, de modo covarde, tomou-o como refém. Em 1520 houve uma revolta asteca e Montezuma II foi assassinado. Seu sucessor, Cuauhtémoc, o último governante asteca, resistiu aos invasores, mas em 1521 Cortez sitiou Tenochtitlán e subjugou o império. Povos não-astecas, submetidos à Confederação, se uniram aos espanhóis contra os astecas. Os astecas foram completamente dizimados e sua civilização destruída pelos conquistadores espanhóis, comandados por Fernando Cortez. A pergunta que se impõe é: Como uma civilização muito mais avançada culturalmente, pode ser exterminada por verdadeiros “bárbaros” vindos do além mar? Quais os fatores que possibilitaram essa vitória por parte dos europeus? Nenhum mistério. Simplesmente, a civilização européia por esse tempo já dominava a manufatura do ferro e usava pólvora para fins bélicos, os astecas não. É importante lembrar este aspecto pelo fato dos astecas se terem tornado dominantes por uma expansão militar dentro de uma realidade que não contemplava uso de armas de ferro e pólvora. Por incapazes que fossem os europeus de erigir grandes obras de arquitetura mais complexa; de ostentarem avanços significativos na medicina, em especial nas intervenções cirúrgicas; ou de confeccionar calendários precisos e confiáveis, eles detinham a tecnologia que lhes permitia dominar pela força quaisquer outros povos que fossem menos afeitos às artes bélicas. Como hoje, a força se sobrepôs à civilização. Mal comparando, seria como se o Paquistão (que tem a bomba atômica) invadisse e dominasse o Japão (que não a tem). Um abraço pro gaiteiro! JAIR, Floripa, 12/03/09.