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terça-feira, 7 de setembro de 2010

A Experiência




Lendo um livro em que autora registra sua peregrinação à Índia em busca de uma revelação transcendental que acalmasse suas angústias existenciais, lembrei que essas buscas suscitam muitas experiências que, às vezes, até se traduzem em livros de sucesso como, “Diário de um Mago” de Paulo Coelho, ou os livros de Carlos Castaneda nos anos setenta do século passado. Claro, já li também relatos de pessoas que passam por processos de revelação mística sem os terem procurado, alguma coisa assim fortuita, não intencional mas, extremamente marcante, até traumática por vezes.

Dito isso, quero revelar que já passei por evento inexplicável para minha mente que sofre de completa ignorância sobre fenômenos místicos, mas que me trouxe uma excitação mental nunca antes nem depois experimentada. Estávamos voando na madrugada, num quase completo silêncio rádio, nenhuma aeronave voando nas proximidades naquele momento. O firmamento escuro, sem nuvens, o único som vindo dos motores, ruído hipnótico, constante como um ruído de fundo, a cabine em silêncio também. Olhando pela janela, contemplando a calma da noite, de repente senti minha consciência se fundindo com o todo, passei a fazer parte da imensidão do cosmo, eu podia enxergar tudo até o horizonte, mais que isso, eu era aquilo que via. Para tentar explicar, digo que fui absorvido pelo universo, minha mente via os mínimos detalhes da Terra lá em baixo ao mesmo tempo estava aqui no avião sentindo cada minúcia, cada parafuso, cada rebite da aeronave, cada peça dos motores e dos sistemas; os elétrons que fluíam pelos cabos; os eixos que giravam; o combustível que era sugado dos tanques e, depois de passar por bombas e filtros, era queimado dentro dos motores e, ainda assim, continuava em forma de partículas em turbilhão, depois de saírem pelo tubo de escapamento, se misturando com ar externo. Eu via e sentia tudo. Eu era tudo que existia. O eu-Universo estava consciente e era inteligente, ele comandava tudo, foi arrepiante.

Eu fazia parte do Universo, era o Universo e era eu ao mesmo tempo, dá para entender? Quanto durou? Não sei dizer, talvez poucos segundos ou minutos, contudo, foi a experiência mais estranha que já me aconteceu. Talvez seja isso que alguns chamam de experiência mística e outros de estado alterado de consciência, não sei, contudo, tento explicar como alguma coisa que, naquele momento, aumentou meus níveis cerebrais de serotonina, talvez? Sonho em estado de vigília? O fato é que, se eu fosse dado a acreditar em coisas místicas, em santos e milagres ou mundos paralelos, talvez colocasse essa experiência como uma viagem extracorpórea ou coisa que o valha, não sei. Só registro A Experiência porque suspeito que muitos já passaram por algo parecido e têm receio de relatar para não passarem por místicos alienados ou coisa pior. JAIR, Floripa, 07/09/10.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

VOAR


Por pouco mais de quarenta anos voei como profissão. Por todo esse tempo voei sem muito pensar sobre o assunto, e sem teorizar sobre as razões que levam o homem a desafiar a gravidade, a elevar-se no ar e sentir-se algo como um pássaro desajeitado e barulhento, invadindo o espaço franqueado a nuvens e aves. Aliás, pouquíssimos têm sido os aviadores que se aventuraram pelo caminho de registrar na literatura suas experiências e sensações lá onde a liberdade parece uma coisa palpável e real, e as nuvens são vistas de cima. A aviação, ainda que considerada uma atividade charmosa e com certo mistério, parece, não costuma suscitar o surgimento de profissionais sensíveis dispostos a transformar em livros seus pensamentos e percepções quando observam a paisagem do alto para baixo. Os autores consagrados: Saint Exupery e Richard Back, talvez os aviadores-escritores que mais êxito tiveram nas suas carreiras literárias, são as exceções que confirmam a regra. Não nos esqueçamos que voar é, além de técnica, arte; Além da habilidade necessária para controlar uma máquina complexa, é a sensibilidade e delicadeza de transformar um mero deslocamento rápido em algo prazeroso e estético. Voar como arte é mais do que dominar as manobras e conhecimentos necessários para decolar, deslocar-se em cruzeiro e pousar com segurança. Voar como arte é “vestir” a aeronave como uma roupa sensível que reage às manobras de quem a comanda, e às forças externas que atuam sobre a fuselagem, superfícies das asas e empenagem; é perder o peso e a consistência, tornar-se insubstancial e transparente como aquele elemento que envolve e apóia a aeronave; é sentir-se como uma nuvem, mais até, é diluir-se e se transformar num ente etéreo, confundindo-se com o próprio ar. Desde que o ser humano iniciou seus deslocamentos pelo ar, já voou bilhões de quilômetros, cruzou todos os pontos possíveis do globo sobre florestas, cidades, desertos, mares e pólos. E, mesmo assim, para sua eterna frustração, apesar das bilhões de horas passadas lá em cima, jamais deixou o menor rastro no céu. Quando por lá passamos, deixamos uma pequena turbulência no ar atrás do avião. Mas logo o céu volta a ser liso e macio como se nada o tivesse perturbado, apagando todo e qualquer sinal de nossa passagem, tornando-se mais uma vez deserto e silencioso. O céu ignora o homem e sua vã pretensão de imitar os pássaros. O céu parece dar um recado para o homem: seja humilde, seu lugar é no chão, aqui em cima você é um intruso e como tal será tratado, não poderá deixar rastros por onde passou, não poderá marcar território onde nunca foi convidado, onde é apenas tolerado. Mesmo que tenhamos, por algum tempo, tentado fazer parte daquele elemento, o ar, não nos é dado a faculdade de deixar marcas que atestem nossa passagem por lá, somos perfeitamente desconhecidos pelos céus. Se nos resta algum consolo, é saber que os pássaros e todos os que se atrevem a voar também não deixam rastros. O céu é soberano, os pretensiosos seres que se alçam aos ares nunca terão a felicidade tornar seus os elementos que envolvem e fluem em torno dos corpos. JAIR, Floripa, 21/09/09.