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sexta-feira, 2 de outubro de 2009

VENTO


Mais que massa de ar em movimento é transparência que se desloca, é espírito invisível que se move pressuroso. É fluido etéreo que passeia alegre sobre campinas verdes, escala montanhas, levanta poeira e varre desertos. Enfuna a vela do barco inocente que singra as águas mansas da lagoa azul; sustenta ave de papel colorido do garoto caçador de pipas; refresca o camponês solitário, concentrado no amanho da terra; cria ondulações regulares no pasto do gado preguiçoso. É imanente com traços de eterno; não pede passagem nem se desculpa; ultrapassa artefatos confeccionados pelo homem e tem personalidade (ou seria ventalidade?). Seguro de si, estável e presunçoso não respeita obstruções edificadas em seu caminho, a tudo acomete sem indulgência ou temor. Se condições de umidade, pressão e temperatura lhe forem favoráveis, avoluma-se em massas compactas e espetaculares, as quais o homem nomeia furações, ciclones ou tufões, não importa. Colunas gigantescas e de extensões ciclópicas, deslocam-se com fúria avassaladora a centenas de quilômetros por hora erigindo, sobre a água, vagalhões mortais que danificam navios, afundam barcos mais frágeis e transformam o oceano de chumbo em cadeias de montanhas fluidas e fatais. Na terra seca, avança sem se deter carregando adiante pontes, casas, carros e objetos de fabricação humana; como catadupa infernal, despeja zilhões de galões mortais, num átimo, em espaço mínimo; só respeita montanhas eternas, campinas e vales perenes, pois estes, construções sólidas da natureza, têm caráter permanente e feições que lhes são análogas. Impetuoso no grau máximo varre, literal e metaforicamente, vilas e cidades, mostrando ao homem soberbo sua descomunal potência capaz de esmigalhar tudo e todos que se interponham no seu caminho, quase sempre errático. Se o furacão espraia seu poder destruidor por amplo espaço geográfico e atua por tempo dilatado de vários dias, existe sua versão mais breve, porém muito mais aguda e percuciente, autêntico pacote de violência concentrada: o tornado. Verdadeira verruma colossal e impiedosa, em minutos, corta cicatrizes no flanco da terra, desgalha árvores centenárias, dizima florestas e destrói patrimônios. Causa danos materiais, tira vidas e modifica a paisagem, exibe-se como se fora saltimbanco de má índole, movido de furor assassino. Após tornar patente sua força extraordinária, vai diluindo-se – consonante sua posição geográfica - em siroco, alíseo ou monção, sopros mais moderados que não causam maiores danos. Já agora, tendo cumprido seu destino de força da natureza, atenua-se ainda mais e torna-se fraca brisa, viração, corrente branda de ar. Aragem que acaricia o cabelo da criança distraída na calçada; que eleva levemente a saia rosa da moça alegre que cruza a rua; que seca o suor do atleta que corre no parque; que empurra com suavidade o ciclista afogueado; que balouça com languidez a roupa colorida no varal doméstico; que ondula o trigal maduro na campina distante; que ampara a queda suave da folha outonal; que empurra nuvens de algodão rumo ao horizonte remoto; que sustenta a aeronave tranquila no céu cerúleo. Agora é amigo, é companheiro e camarada. Agora, sabe-se útil, precioso, vital, mais até, fundamental. Adentra, benfazejo, os pulmões e outros órgãos de todos os seres que respiram, e é primordial para sustentar a vida que a natureza criou. Tem consciência plena que se não existisse, a vida no Planeta azul seria uma impossibilidade, a Terra seria uma rocha estéril e fria vagando solitária no espaço insondável. Vento que venta viçoso é vetor vital que vai levando vida ao viúvo vivaz que verseja e ao vetusto velhinho visionário. JAIR, Floripa, 02/10/09.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

DO TEMPO


Há o grande, o maior, o extenso, o enorme, o gigante, o de extraordinária grandeza, o imensurável e o TEMPO; Há o menor, o mínimo, o exíguo, o pequenino, o minúsculo, o microscópico, o infinitesimal e o TEMPO; Há o discernível, o perceptível, o evidente, o óbvio, o visível, o claro, o explícito, o insofismável e o TEMPO; Há o obscuro, o cinzento, o sombrio, o escuro, o atro, o pretume, o negror, a escuridão completa e o TEMPO; Há o duvidoso, o plausível, o discutível, o quase certo, o muito provável, o infalível, o incontestável e o TEMPO; Há o opaco, o claro, o translúcido, o diáfano, o transparente, o apenas distinguível, o invisível e o TEMPO; Há o pirilampo, a lamparina, a vela, a lâmpada, a claridade, o relâmpago, a luz do sol a explosão nuclear e o TEMPO; Há o limitado, o evidente, o imperioso, o subsistente por si só, o inquestionável, o absoluto e o TEMPO; Há o atrasado, o devagar, o lento, o demorado, o quase parado, o imóvel, o absolutamente congelado e o TEMPO; Há o ágil, o móvel, o ligeiro, o rápido, o célere, o velocíssimo, o raio, a velocidade da luz e o TEMPO; Há o hoje, o amanhã, o depois de amanhã, o semana que vem, o próximo ano, o futuramente, o nunca e o TEMPO; Há o simples, o elaborado, o emaranhado, o intrincado, o muito complicado, o diabolicamente complexo e o TEMPO; Há o fugaz, o breve, o sazonal, o contínuo, o perene, o quase perpétuo, o eterno e o TEMPO; Há o exeqüível, o realizável, o possível, o viável, o praticável, o quase compulsório, o obrigatório e o TEMPO; Há o trabalhoso, o oneroso, o árduo, o penoso, o dificultoso, o quase irrealizável, o impossível e o TEMPO; Há a unidade, a dezena, a centena, o milhar, a dezena de milhar, o bilhão, o trilhão, o infinito e o TEMPO; Há o usado, o velho, o arcaico, o antigo, o medieval, o pré-histórico, o paleolítico, o jurássico e o TEMPO; Há o próton, o nêutron, o elétron, o méson, o bárion, o fóton, o lépton, o tríton, o quark e o TEMPO; Há o substantivo, o adjetivo, a conjunção, o pronome, a interjeição, o artigo, o advérbio, o verbo e o TEMPO; Há o reino mineral, o vegetal, o animal, o fungi, o monera, o protista, o vírus, a ameba e o TEMPO; Há o Sol, Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno, Plutão, a Lua e o TEMPO; Há o planeta, o satélite, o asteróide, o meteorito, o cometa, o sistema solar, o quasar, a galáxia e o TEMPO; Há a guerra e a paz, o bem e o mal, a vida e a morte, o certo e o errado, superficial e o profundo, o real e o imaginário, o nada e o tudo e o TEMPO; Há o TEMPO. Somente o tempo É. JAIR, Floripa, 03/07/09.