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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Petróleo


Quando eu tinha por volta de doze ou treze anos, em Palmeira, além de trabalhar para meu pai no “Armazém de Secos e Molhados Arino Silva” costumava, para complementar a mixaria que ganhava com o trabalho, fazer “bicos”. Esclareça-se, fazer bicos consistia em obter dinheiro com alguma coisa que não fosse explicitamente ilegal. Costumava vender sucata conseguida nos terrenos baldios onde as pessoas despejavam suas inutilidades. Pedaços de ferro, cobre, bronze e alumínio eram materiais altamente valiosos que o sucateiro, seu Rodolfo, comprava sem perguntar a origem. Umas panelas velhas, restos de fios elétricos, peças de automóveis usadas descartadas pelas oficinas e outras bugigangas eram o passaporte da piazada para o cinema de domingo à tarde.

Ainda que a atividade de venda de sucata fosse a mais rendosa, não constituía uma fonte permanente de renda, visto que dependia dos rejeitos disponíveis e era muito concorrida, quase toda a piazada pobre se valia desse recurso. Então, como alternativa proveitosa, valia prestar serviços a quem precisasse. Eu sabia de alguns garotos que carregavam sacolas das senhoras que iam as compras, outros transportavam malas dos viajantes que chegavam no trem ou no ônibus e iam para o único hotel da cidade, Hotel Schultz. Também tinha um primo meu, o Amadeu, que costumava “forçar” um pouco na nobre atividade das sucatas, suas panelas amassadas nem sempre eram velhas ou furadas o suficiente para terem sido desprezadas pelas donas de casa, parece que ele se antecipava ao futuro descarte das panelas, se apropriava delas as vendia um pouco antes de serem jogadas fora. Bom para o comércio de panelas. O Amadeu era muito mais criativo que um simples vendedor de caçarolas quase velhas, ele também costumava amassá-las com uma pedra dentro de forma a aumentar-lhes o peso na hora de vendê-las. Só isso? Não! Ainda tem mais. Vez ou outra ele visitava em horas tardias o monte de sucata do seu Rodolfo, recolhia algumas daquelas que havia vendido e as vendia de novo outro dia. Era o sucateiro mais inventivo e próspero da turma.

Pois bem, sempre de olhos e ouvidos atentos a novas oportunidades de ganho, fiquei sabendo pelo Joel, meu primo, que agora havia uma fabriqueta quase clandestina de fluido para freios chamado “Pare” em um barracão velho perto do mercado municipal. A fábrica era propriedade de Carlos Malucelli, seu “Carlito”, que havia se formado em química industrial há muitos anos e exercia cargo de chefia na indústria da família, mas agora resolvera abrir seu próprio negócio. Como empresário matreiro e afeito a expedientes pouco ortodoxos que era, seu novo empreendimento tinha registro legal, recolhia os impostos devidos, emitia notas fiscais, mas explorava mão-de-obra escrava. Para funcionar, pagava uma mixaria por horas de trabalho da gurizada, sem registro de qualquer espécie. Trabalhava-se lá todas as tardes de sábados e algumas vezes a noite dos dias úteis. Por pouco que pagasse era com essa graninha que comprávamos figurinhas, picolés e sorvetes e revistas em quadrinhos na banca do seu Zéquinha. O trabalho consistia em misturar os componentes químicos nas proporções especificadas pelo seu Carlito, mexer a mistura em tambores de 200 litros, depois enlatar nos recipientes de meio litro, tampá-los e encaixotá-lo para venda aos postos de gasolina. Diga-se, o trabalho era quase uma brincadeira, sem supervisão rígida, esta era feita pelo Maíco nosso colega de aulas e vizinho de rua, nós meio que nos divertíamos e ganhávamos uns níqueis.

O terreno onde se situava a fabriqueta, a qual não ostentava qualquer letreiro ou nome que a identificasse, era um lote abandonado com algumas ruínas de casas e um poço tampado bem no meio. Aqui vale um esclarecimento, não havia água encanada na cidade, toda água usada para beber, lavar e cozinhar, vinha de poços cavados no chão até encontrar o lençol freático. O poço devia ter uns dez ou doze metros de profundidade e constava que fora abandonado porque sua água era imprestável para o consumo, tinha cheiro e gosto de óleo. Uma tarde de trabalho sem supervisão, o Joel e eu resolvemos “dar uma olhada” no buraco maldito. Levantamos a tampa e nos assomou um fortíssimo cheiro do que seria um produto petrolífero, algo como uma mistura de óleo e gasolina, aliás, exalação bem parecida com a dos produtos que vínhamos utilizando na fábrica de óleo de freios. Por curiosidade, pegamos uma lata vazia, amarramos num cordão comprido e a descemos até a superfície do líquido lá embaixo, deixamos encher e a trouxemos de volta. O conteúdo da lata parecia ser de gasolina um pouco mais escura que a normal. Aproximamos um fósforo aceso e o líquido inflamou-se. Havíamos descoberto petróleo! Sim, tudo levava a crer que se tratava de petróleo leve, uma variedade nobre que pode ser usada sem refino, era inconcebível ser outra coisa.

Descoberto o petróleo e sabedores que poderíamos ganhar algum com o produto, tratamos de guardar segredo e providenciar meios de vendê-lo para os consumidores. Primeiro, num lance ousado, colhemos uma amostra e pedimos para seu Carlito analisá-la em seu pequeno laboratório na própria fabriqueta. Ele, apesar de ter questionado onde havíamos encontrado aquilo, e nós mentirmos que se tratava de restos encontrados em algumas latas velhas abandonadas no lixo, fez alguns testes e sentenciou que era alguma espécie de derivado de petróleo muito inflamável, talvez usado em lampiões de iluminação.

Desse dia em diante, colhemos o líquido em vasilhas de um litro, meio litro e cinco litros e escondemos em baixo de nossas casas. Depois saíamos com algumas daquelas latas oferecendo em casas que ainda usassem lampiões e a motoristas. Nossos preços eram menores do que os cobrados pelos concorrentes: O comércio que vendia querosene “Jacaré” e as bombas que forneciam gasolina. Passamos a nos sentir uma espécie de árabes clandestinos, jamais revelamos a localização de nosso poço e ganhamos dinheiro para satisfazer as necessidades de dois meninos pobres. As reposições de nossos estoques eram feitas à noite com bastante cuidado para que ninguém percebesse.

Não lembro quanto durou nossa empresa petrolífera, - mais de dois anos, com certeza - só sei que com o tempo o poço acabou secando, não mais fornecendo o produto e tivemos que encerrar nosso lucrativo comércio, acabou-se nossa sociedade e voltamos ao ramo das sucatas. Algum tempo depois eu soube que naquela esquina onde descobrimos o poço, teria existido um posto de gasolina há muitos anos, mas isso não mais me interessava. JAIR, Floripa, 07/01/11.

sábado, 24 de abril de 2010

UMA AVENTURA NA SELVA


J

im das Selvas, personagem dos quadrinhos criado por Don Moore em 1934, era um “Tarzan” que, tal como o original do Edgar Rice Burroughs, vivia nas selvas enfrentando caçadores malvados, exploradores ilegais de pedras preciosas, piratas e contrabandistas ardilosos e astutos. Diferente do outro personagem, Jim não se deslocava pendurado em inverossímeis cipós, tampouco proferia gritos estridentes que provocassem pânico na fauna e assustassem seus inimigos. Também não andava meio pelado, suas roupas eram normais de um explorador de selvas. O nome do personagem era Jim Bradley, “das Selvas” como era conhecido, devia-se as suas andanças pelas matas de Bornéu, Sumatra, Malásia e Bengala. Portanto, ao invés de um herói africano como Tarzan, tínhamos um “mocinho” da Oceania. Estreou na tela grande tendo Johnny Weissmuller no papel de Jim. Tornou-se um sucesso no cinema e cativou a atenção das crianças e jovens nos anos cinquenta. Talvez o fato de Jim ser menos fantasioso que Tarzan tenha contribuído para sua aceitação e popularidade. Ele era palatável por ser “normal”, por não parecer uma anomalia gritante (sem trocadilho) como Tarzan.

Meu primo Joel e eu, que já curtíamos suas peripécias nas revistas, ficamos encantados quando o Cine Teatro Municipal de Palmeira passou a apresentar seus filmes. As tardes de domingo eram aguardadas com alguma ansiedade quando se anunciava que Jim seria exibido naquela semana. O dinheiro para o matinê, quase sempre inexistente, tinha que ser conseguido à custa de alguma atividade durante a semana para que no domingo pudéssemos nos deleitar com perigosas aventuras nas matas quase impenetráveis, cheias de felinos e crocodilos potencialmente letais.

J


Vista aérea geral do bairro onde morávamos

(clique na foto para ampliá-la)


Como podíamos ser considerados piás imaginosos e criativos antevíamos como seria viável reproduzir nosso herói naquelas jornadas. Impressionava-nos em particular ver Jim remando um pequeno barco, num rio de águas mansas ladeado de selva densa e misteriosa. Tínhamos um forte sentimento que era no mínimo nossa obrigação imitar o ídolo lendário e destemido.

Bem, para isso era preciso um rio cercado de selva e um barco, não é mesmo? Pois é, rio, com alguma imaginação, poderia ser encontrado no fim da rua que morávamos. Lá embaixo existia um riacho – que depois vim a saber, chamava-se “Do Monjolo” – o qual era represado formando um laguinho no início e uma porção estreita e sinuosa a montante, ladeado por um matinho bem denso e bonito, na verdade uma nesga de mata atlântica da melhor qualidade adornada com alguns exemplares de araucária e ipês amarelos além de pau-de-bugre e cedro. O lago era nossa área de lazer onde nadávamos no verão e alguns até pescavam lambaris e traíras. Por estar situado na propriedade de uma indústria de madeiras o chamávamos de Tanque dos Querubins, sendo que Cherubim era o sobrenome dos donos da madeireira.



Vista aérea aproximada do fim da Rua Barão
e a mata ciliar onde existiu o "Tanque dos Querubins".
(clique na foto para ampliá-la)


Bem, o “rio” cercado de selva (mata ciliar) já estava disponível, agora faltava o barco. Por sorte morávamos em casas, propriedades de outra madeireira, situadas exatamente na frente das pilhas de tábuas que aquela indústria estocava para, quando exigido, usar na confecção de móveis e outros artefatos.

Uma incursão nas reservas madeirais da “fábrica”, como era conhecida pela gurizada, foi o suficiente para constatar que a matéria prima essencial para confecção do barco estava ali, disponível e dando bobeira. Uma segunda incursão, e trouxemos as tábuas necessárias e as escondemos em baixo do assoalho da casa do Joel.

Com martelos, alguns pregos, serrote, entusiasmo e betume, nós, em pouco tempo, construímos a obra que daria vazão aos sonhos adolescentóides de dois guris cuja fantasia ia além das revistas em quadrinhos e telas de cinema. Fizemos um barco que flutuava e era manobrável, obra prima de armadores mirins detentores de imaginação fértil e alguma habilidade manual.

Finalmente, numa tarde de verão, lá fomos nós ao “Tanque” estrear nossa criação. Primeiro Joel, depois eu, fizemos aventuras rio acima e abaixo no meio da “selva” que, na nossa fantasia assemelhava-se às matas de Bornéu, atrás de cada moita mais densa podia esconder-se um animal perigoso ou um pirata malvado. Sensacional! Não poderia ser melhor, nos sentíamos como incorporando Jim das Selvas. Depois de navegar camuflávamos o barco (na verdade era um bote tão pequeno que comportava apenas um banco) na mata para repetir a façanha outro dia.

Essa “empresa arriscada” durou boa parte do melhor verão de nossas vidas adolescentes, até que, com receio que outros garotos viessem a usar nossa criação escondidos, resolvemos destruí-la a machadadas. Afinal, sonhos e fantasias são intransferíveis. Estava concluída a melhor aventura na selva que jamais imaginamos e não mais havia motivos para manter o barco que havia cumprido sua finalidade com louvor. JAIR, Floripa, 24/04/10.