
Morei durante um ano numa rua aqui de Floripa que tinha um jacaré. Talvez a única da Capital com um bicho destes. O rio Braz, pequeno arroio que drena área pantanosa próxima, foi cortado pela construção da rua de forma a ficar com uma parte isolada entre a rua e o mar formando uma espécie de lago. Foi ali que o jacaré da espécie papo amarelo, separado de seus semelhantes que vivem na parte aberta do rio, tornou-se um ermitão gordo e preguiçoso usufruindo da abundância de tilápias, lambaris, traíras e aves aquáticas do local. O Jacaré-de-papo-amarelo (Caiman latirostris), encontrado no litoral brasileiro desde o extremo norte do país até o Rio Grande do Sul, faz parte da exuberante fauna das florestas tropicais, preferindo áreas de baixada, com suas lagoas, lagos e rios. Sua presença representa, ao contrário do que muitos pensam, uma contribuição eficaz para o aumento da população de peixes nos corpos d'água, já que suas fezes servem de adubo para o desenvolvimento de fitoplancton, que é utilizado como alimento por diversas espécies de peixes. Além de, é claro, atuar como predador de peixes, alimentando-se dos fracos e doentes, deixando os mais aptos sobreviverem. Os jacarés, são uma sub-classe dos répteis, da família alligatoridae, família esta que engloba todos os crocodilos, aligatores, caimans e gaviais num total de 23 espécies catalogadas em todo o mundo, desde os deltas australianos onde encontram-se os magníficos “salt water crocs” (crocodilos de água salgada), até a região pantaneira brasileira, com os enormes e prolíferos “jacarés-paguás”; passando pelos pantanais asiáticos onde habitam os gaviais; e os Everglades da Flórida, berço de caimans e aligatores. Pois é, por qualquer nome que se conheça esse bicho, ele é um vencedor. Escavações arqueológicas mostram que quando dinossauros dominavam o planeta a duzentos milhões de anos, crocodilianos já viviam tranquilos e faceiros nos rios, lagos e pântanos de quase todos os continentes, e, pelo jeito, vão continuar por outros milhões de anos se o homo sapiens não impedir. Quanto ao jacaré da rua que eu morava, não posso culpar ninguém pelo seu desaparecimento. No carnaval de 2008 houve uma grande tempestade que fez o trecho do rio Braz, no qual o jacaré morava, transbordar para o mar. A enchente levou para o oceano milhares de peixes e plantas e, possivelmente, o querido e inofensivo jacaré que só queria viver em paz comendo e tomando banho de sol no acostamento da rua onde nunca mais foi visto. O triste da história é que minha nora, australiana que veio ao Brasil pela primeira vez e não falava palavra em português, conheceu o simpático réptil e, talvez pelo fato de em sua terra os crocodilos serem enormes e terem fama de ferozes, ela adorou um bicho tão mansinho que se deixava observar e ser fotografado. Coincidiu que Laura ainda estava aqui em Floripa por ocasião da enchente e o consequente sumiço do “nosso” jacaré. Assim com nós, ela ficou pesarosa por não mais ver o animal modorrando no seu laguinho particular e, estimulada pelo meu filho (seu marido), pronunciou, com forte sotaque característico do sul australiano, suas primeiras palavras da flor do Lácio: “O jacaré se foi”. JAIR. Floripa, 25/02/09.