
Na antiguidade clássica, tanto gregos quanto romanos já utilizavam instrumentos parecidos com o lápis: eram barrinhas redondas de chumbo que serviam para traçar linhas, desenhar e escrever. O protótipo do lápis poderá ter sido o antigo stylus romano, o qual consistia de um pedaço de metal fino, geralmente chumbo, utilizado para escrever nos pergaminhos. Entre todos os instrumentos de escrita, o lápis é sem dúvida o mais universal, versátil e econômico, produzido aos milhões todos os anos, mesmo na era da Internet. Os primeiros lápis, como são conhecidos hoje, vieram das montanhas de Cumberland (Inglaterra), onde em 1565 foi encontrada a primeira mina de grafite. O grafite da mina inglesa de Cumberland foi de tal forma explorado, que os ingleses passaram a proibir sua exploração sob ameaça de pena de morte. A qualidade do grafite inglês e os lápis com ele produzidos foram desvalorizando-se cada vez mais. Explique-se, o grafite era encaixilhado e colado dentro de pequenas ripas de madeira, cujo formato final era moldado manualmente, formando uma espécie de sanduíche. E somente por possuir o monopólio do mercado é que a Inglaterra conseguiu vender seus lápis de má qualidade por um preço ainda alto. O lápis surge na Alemanha pela primeira vez em 1644 na agenda de um Oficial de Artilharia. Em 1761 na aldeia de Stein, perto de Nuremberg, Kaspar Faber inicia sua própria fábrica de produção de lápis na Alemanha. A partir de 1839 ocorre um aperfeiçoamento do chamado processo de fabricação do grafite, com a adição de argila; A partir de então argila e grafite moídos são misturados até formarem uma pequena vara e depois queimados. Através da mistura de argila com grafite tornou-se então possível fabricar lápis com diferentes graus de dureza. Em 1856 Lothar von Faber adquire uma mina de grafite na Sibéria, não muito distante de Irkutsk, que produzia o melhor grafite da época. Embora a forma e a aparência externa dos lápis tenham sido mantidas iguais até os nossos dias, não é possível comparar os lápis fabricados antigamente com a pureza e seriedade com que os artigos atuais são produzidos. Armand Hammer, (1898 – 1990) mega empreendedor norte americano com interesses múltiplos, tornou-se multimilionário atuando nas áreas de petróleo, produtos farmacêuticos e alimentícios, papelaria, importação de caviar e peles e, acreditem, fabricação de LÁPIS na União Soviética. Hammer já se tornara muito rico nos EUA no início do século, quando então resolveu diversificar sua atuação vendendo produtos farmacêuticos e o excedente da produção de trigo americano para os russos. Em 1920, ele mudou-se para a União Soviética em especial para acompanhar o seu grande negócio de exportação de canetas e lápis e importação de caviar e peles de zibelina. Uma vez lá, verificou que os lápis russos eram de tal forma ruins, de baixa qualidade, que prejudicavam o aprendizado das crianças, o grafite era duro e quebradiço e a madeira da qual eram fabricados era de veios irregulares e muito dura também. Foi aí que resolveu propor ao governo soviético, - que nessa altura ainda era representado por Lenin, - construir uma fábrica de lápis nos moldes das existentes no Ocidente. Uma vez conseguida a concessão, importou dos EUA todo o maquinário, trouxe alguns técnicos e operários especializados e montou a maior fábrica de lápis do planeta. Seus produtos eram de tão boa qualidade, que as fábricas soviéticas se viram quase às moscas, porquanto todas as escolas, repartições governamentais e outros órgãos da burocracia preferiam os lápis Hammer a quaisquer outros. Depois de algum tempo Hammer passou o controle da fábrica para os soviéticos e retornou aos EUA, mas, até hoje Hammer ainda é sinônimo de lápis da Rússia, mais ou menos como algumas pessoas chamam lâmina de barbear de “gilete”, confundindo a marca com o produto. Agora, o gancho que fecha o círculo Hammer - Lápis: no início da corrida espacial os americanos verificaram que as canetas esferográficas comuns não funcionavam bem em condições de gravidade zero e a baixas temperaturas. Para resolver esse problema, os engenheiros contrataram uma empresa especializada (Fischer) para projetar a caneta espacial. Dez anos e US$ 12 milhões depois, estava pronta a caneta que podia ser usada no espaço em qualquer posição, embaixo d’água, em qualquer superfície, inclusive metálica, em temperaturas de até 30 graus negativos e 180 positivos e jamais vazava. Essa caneta não é lenda urbana, eu tenho uma dessas que ganhei de meu filho. Os russos, que tiveram o mesmo problema, optaram por uma solução mais simples: passaram a usar um lápis. Quem diria, esse mesmo singelo lápis que um megacapitalista típico, num momento de inspiração em busca de maiores lucros, havia introduzido na burocracia mais cabulosa do planeta; um produto tão simples e universal, serviu para cutucar o orgulho dos americanos contribuindo fortemente para um vexame frente a seus concorrentes menos imaginosos e mais pobres. São os ossos do capitalismo, eu diria. JAIR, Floripa, 09/08/09.

