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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Agricultura inteligente



O bicho homem depois de vagar pelo Planeta dezenas de milhares anos como caçador-coletor; depois de fundar centenas de núcleos populacionais em todos os continentes habitáveis; depois de dominar o fogo, instalou-se, finalmente, como pastor-lavrador nas cercanias de onde hoje é o Oriente Médio. A cerca de onze mil anos, agora fixado à terra, não mais necessitando deslocar-se para onde o clima ou as facilidades de colheitas e caça o levassem, iniciou o período de domesticação de animais e plantas.

O Homo sapiens tornou-se exímio agricultor e essa atividade fundou a civilização. Sem a domesticação de plantas que atendessem suas necessidades calóricas, sem agricultura que o fixasse à terra, o homem ainda estaria vagando como um primata errante na vastidão do Planeta, ou já se teria extinguido. A civilização tudo deve à agricultura.

Inquestionavelmente o homem é o campeão agrícola de todas as espécies, contudo, quero falar de uma espécie que levou a agricultura inteligente ao patamar mais elevado. Em um episódio extraordinário da evolução as formigas se tornaram agricultoras a 50 milhões de anos. Até hoje elas continuam a prática com grande sucesso e conseguiram evitar muitos problemas que nós sofremos com as pragas.

Formigas que cultivam fungos podem ser encontradas em muitas florestas tropicais em várias partes do mundo. Em algumas espécies uma casta de formigas grandes, chamadas cortadeiras, sai do formigueiro todos os dias a procura de plantas que atendam suas exigências. Geralmente cortam folhas e as levam ao formigueiro, às vezes carregam até vinte vezes o seu próprio peso, são super formigas. No interior da terra elas passam essas folhas para formigas menores encarregadas de cortar em pedaços menores, bem pequenos mesmo. Depois, outra casta de formigas menores ainda, é encarregada de mastigar os pedacinhos de forma a torná-los uma pasta que, espalhada na plantação de fungos, age como fertilizante. O fungo decompõe a pasta e cresce, e as formigas se alimentam de seus nutrientes.

O fungo que cresce no jardim das cortadeiras de folhas tornou-se totalmente dependente de suas criadoras, tal como acontece com o milho em relação ao homem que não germina a não ser plantado por mãos humanas. Os fungos que vivem livres na natureza se reproduzem emitindo esporos que são carregados pelo vento. Os fungos cultivados pelas formigas perderam a capacidade de se reproduzir. Eles permanecem no formigueiro e só se propagam quando uma jovem rainha carrega porções em suas mandíbulas e vai fundar outra colônia.

Essas lavradoras desfrutam de um enorme benefício ao cuidar de seus fungos. O metabolismo das formigas não tem capacidade de digerir as folhas, a celulose é um impedimento, de modo que o grande potencial alimentar que uma floresta representa perde-se para a maioria delas. As cortadeiras deixam que os fungos carreguem o piano, ou seja, eles digerem a parte mais difícil das plantas e as formigas aproveitam os nutrientes que os fungos produzem. E graças a essa parceria as formigas tornaram-se os insetos mais poderosos dos ecossistemas das florestas tropicais, elas destroem até um quinto das plantas de certas florestas.

Os cientistas estudam essa parceria tentando entender como isso começou e como evoluiu. Como todas as 200 espécies de formigas agricultoras são parentes próximas, os cientistas presumem que a origem dessa prática se deva a um única linhagem a qual “inventou” a agricultura.

Desde 1990, Ulrich Mueller e Ted Schultz têm estudado as formigas cortadeiras de todo o mundo com intuito de estabelecer como formigas e fungos evoluíram juntos. Graças ao trabalho de Mueller, agora se sabe que o trabalho das formigas se parece muito com o dos humanos. Nossos ancestrais no México, China, África e Oriente Médio domesticaram um punhado de plantas e animais, uma minúscula fração das espécies selvagens da Terra, exatamente como as formigas fizeram com os milhares de espécies de fungos existentes das quais domesticaram apenas algumas centenas. À medida que as tribos e aglomerados humanos entravam em contato passavam seus conhecimentos e parte de suas colheitas uns aos outros, como esporos de fungos se disseminando. A diferença ente nós e as formigas é que elas descobriram a agricultura “apenas” 50 milhões de anos antes.

Em comum conosco, elas têm que lutar contra o controle de pragas exatamente como um fazendeiro humano faz. No caso do jardim (acho que pomar talvez seja mais adequado) delas, às vezes entram esporos de fungos parasitas que tendem a matar seus fungos domésticos. Muller descobriu que, tal como os humanos, elas usam um fungicida que só ataca o invasor. Algumas delas possuem sobre a própria pele uma bactéria Streptomyces, que ataca apenas o fungo estranho preservando o cultivado, e que pode desenvolver novas formas de fungicida em resposta a qualquer resistência que o fungo parasita crie. Diferente de nós que, para controlarmos pragas, inventamos inseticidas como o DDT o qual acaba criando organismos resistentes a ele, as formigas coletaram bactérias que evoluem juntas com fungo, na medida que estes criam resistência a bactéria também cria novas toxinas que atacam o fungo evoluído. Em evolução isso se chama “corrida armamentista”, propriedade que têm os seres de evoluírem para se defenderem do predador, e que este tem de desenvolver novas armas de ataque.

De qualquer forma, o que as formigas têm a nos ensinar é que, ao usar um organismo vivo como arma para se defender de seres prejudiciais, elas estão usando uma fórmula ecologicamente correta, formula que, por isso, tem duas vantagens absolutamente geniais: 1) não agride a natureza, e; 2) não cria resistência no invasor, de forma que sempre surte efeito, contrário a nossos defensivos que acabam sendo aplicados em doses cada vez mais altas e cada vez menos eficientes. A agricultura delas é o que podemos chamar de agricultura inteligente. JAIR, Floripa, 01/09/10.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Cada um no seu quadrado






No atávico confronto entre as idéias da ciência e os dogmas da religião, com frequência, surge a acusação que os cientistas tiraram Deus das pessoas e não ofereceram nada em troca. As indagações mais racionais que os crentes em uma entidade superior fazem são: Se tudo pode ser explicado pela razão; se tudo pode ser compreendido por mecanismos lógicos de causa e efeito, onde cabem as emoções como nossa capacidade de amar, sentir dor, desespero e solidariedade? A ciência pode fornecer meios que combatam nossas dúvidas existenciais, como a religião o faz? Se não há vida depois da morte, o que a ciência nos oferece? Então, a alma não existindo, o que nos diferencia dos outros animais? Somos apenas um acidente de percurso de uma evolução cega não programada?

Realmente, se encaradas assim sem maiores reflexões, essas perguntas parecem perturbadoras. Se adorarmos a ciência e a colocarmos no altar, ela estará substituindo Deus ou qualquer entidade que represente algo místico que preenche as lacunas onde a ciência não alcança, ou não alcançou ainda. Essa perturbação da ordem, (vamos chamá-la assim) tem dois aspectos relevantes que devemos considerar: Grande maioria, mas grande maioria mesmo, dos homens de ciência acredita numa entidade superior, apenas não mistura suas convicções religiosas com suas pesquisas que adentram os mecanismos que a natureza usa para ser o que é; além disso, nosso cérebro é constituído de dois hemisférios que tem funções distintas, o lado esquerdo desenvolve raciocínio lógico, faz contas e deduções a partir de dados; o lado direito é lírico, emocional e criativo, não está preocupado com resultado da soma dois mais dois, mas gosta de poesia e arte, além de acreditar em coisas místicas.

Assim fica fácil entender que sempre existiu e sempre existirá a dualidade entre querer compreender o que se passa e atribuir o obscuro, o misterioso a algum ente de poderes superiores e não questionáveis. Alguns poucos privilegiados conseguem ser técnicos excelentes e fazer boa poesia, ter sensibilidade para música (meu amigo RRB sabe de quem estou falando) e usar o lado do direito do cérebro tanto quando o esquerdo. Mas nós, bilhões de simples mortais, não temos tal habilidade, portanto, estamos sujeitos a “embolar o meio de campo” e, onde a lógica não nos atender, passamos a bola ao inexplicável da silva a quem damos nome de Deus, ás vezes.

Tenhamos em mente que a ciência é um método de adquirir conhecimento, de descobrir regras e diretivas da natureza, não é um substituto de Deus, não exige veneração nem fé, o que não se coaduna com as teorias e fórmulas não deixa de ser cada vez mais estudado e analisado. Já a religião, desde tempos imemoriais, explora o ignoto e o medo do escuro dos homens, não tenta explicar o inexplicável, apenas gera conforto onde há angústia e traz esperanças aos desesperados. A ciência explica o passível de ser explicado e não se mete na religião, segue paralela às crenças e, quando as confronta, é apenas para aclarar alguma coisa bastante simples, exemplo: o mundo não foi feito em seis dias, não há base que sustente essa proposição.

Não há necessidade de um propósito divino para justificar a busca que ciência faz pelo conhecimento. A ciência sempre será instigante e maravilhosa, e tem a humildade de se saber limitada, incompleta, sempre buscando algo mais, mas nunca supondo que alcançou o zênite. A ciência é mestre em construir modelos que se aplicam à natureza e aumentam o conhecimento que temos dela. A ciência é excepcional em argumentar, fazer perguntas depois tentar respondê-las, nunca se furta a tentar, experimentar e divulgar o que descobriu. A religião faz parte de outro departamento da mesma empresa, não deveria confrontar a ciência, pois estaria “jogando contra” e, desse modo, diminuindo a eficiência da empresa humanidade.

E a alma? E a vida eterna? E as angústias e medos? Ora, esse é o departamento das religiões, e a ciência nada tem a dizer, por enquanto. Como diz aquela música: Cada um no seu quadrado. JAIR, Floripa, 27/08/10.



quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Bóson de Higgs




O inglês Peter Higgs, em 1964, apresentou uma teoria afirmando que o espaço é permeado por um tipo de campo que influencia as partículas, e por trás desse campo está seu bóson. Tal bóson foi alcunhado de partícula de Deus. Alguns físicos teóricos cogitam que essa partícula elementar era o que faltava para explicar a formação do Universo através da união das teorias das quatro forças que dão origem à mecânica universal, a saber: atrações nucleares forte e fraca, magnetismo e gravidade. É interessante notar que antes da descoberta desse bóson, Einstein passou os últimos anos de sua vida procurando em vão a interação dessas quatro forças, desenvolvendo uma teoria a qual deu o nome teoria de tudo. Foi o período menos criativo da mente daquele gênio, e os cientistas que perseguem essa idéia são chamados unionistas, porque querem unir equações das quatro forças em uma só que explicaria tudo. Milhares de experimentos e observações, cálculos aparatosos que ocupam infinitos nano baites de supercomputadores e trilhões de neurônios das cabeças mais privilegiadas do Planeta, estão à caça dessa “coisa” que seria tudo ao mesmo tempo em que é nada. O Super Colisor de Hádrons foi construído visando detectar traços desse fugidio substrato de pó de cocô de micro vírus, e até agora nada.

Obviamente, apenas uns poucos habitantes do Planeta estão habilitados a falar sobre ou entendem essa fugaz “entidade” cuja existência foi apenas calculada matematicamente e cujo comportamento, parece, influi na criação e extinção das demais subpartículas atômicas e, por tabela, determinou a criação do universo. E, claro, não estou incluído nessa diminuta confraria. Não sou uma das poucas pessoas que podem escrever sobre ele, contudo, sou uma das bilhões aptas a falar de outras coisas diferentes do bóson de Higgs.

Posto isso, vejamos o que pode interessar para a imensa maioria da humanidade o esforço bilionário de recursos materiais e intelectuais que se despende em torno de uma coisa cuja existência, se formos bem magnânimos, se formos extremamente liberais, pode ser comparada com a existência da alma humana. O bóson é tão real quando a alma o é, e, a despeito da prova matemática, repito, só uns poucos escolhidos dentro de uma elite diminuta, acreditam na sua realidade, o resto da humanidade se tiver algum interesse nele pode aceitá-lo por motivo de fé, simplesmente. Não há qualquer resquício de possibilidade que nalgum futuro remotamente previsível, essa coisinha invisível sem massa, sem espectro, sem teor e sem sabor venha a fazer parte das conversas de botequim; venha se constituir em tema de escola de samba; venha batizar com seu nome time de futebol varzeano; ou que adentre os lares das pessoas onde serão discutidas suas propriedades e o quanto estas trouxeram de benefício para as pessoas comuns, e o quando a vida no Planeta seria diferente se nada soubéssemos sobre ele. O bóson, a rigor, não cheira nem fede para o resto da humanidade, se ele for detectado pelo Grande Colisor de Hádrons ou for definitivamente descartado, nós, pessoas comuns, nem de longe sofreremos qualquer modificação na nossa vidinha corriqueira. O bóson é o próprio sexo dos anjos.

Vejam bem, não sou contra que se pesquise sobre essa partícula, tampouco partilho a opinião que os recursos empregados nessa busca seriam mais bem destinados na cura do câncer ou na compra de iates e mansões para gente sem poder econômico para fazê-lo, quero apenas registrar minha impressão e meu assombro, nunca na história da humanidade se investiu tanto em onirismo científico deslumbrado. Abraços, JAIR, Floripa, 25/08/10.