
Cerca de dez mil anos antes de Cristo, homens, mulheres e crianças se reuniam no verão com os rostos mascarados e os corpos pintados para espantar os demônios da má colheita. As origens do carnaval têm sido buscadas nas mais antigas celebrações da humanidade, tais como as festas egípcias que homenageavam a deusa Isis e ao touro Apis. Os gregos festejavam com grandiosidade nas festas Lupercais (referente a Luperco, sacerdote do culto a Pã, deus dos pastores entre os romanos) e Saturnais (referente a Saturno, deus do paganismo) a celebração da volta da primavera, que simbolizava o renascer da natureza. Também em Roma, em glória ao deus Saturno, comemoravam-se as Saturnais. Esses festejos eram de tamanha importância que tribunais e escolas fechavam as portas durante o evento, escravos eram alforriados, as pessoas saíam às ruas para dançar. A euforia era geral. Na abertura dessas festas ao deus Saturno, carros buscando semelhança a navios saíam na "avenida", com homens e mulheres nus – prática retomada com muita ênfase pelos carnavalescos brasileiros. Estes eram chamados os carrum navalis. Obviamente que daí saiu a expressão carnevale que deu origem a carnaval. Mas, num ponto todos concordavam, as grandes festas, como o carnaval, estão associadas a fenômenos astronômicos e a ciclos naturais. O carnaval atual se caracteriza por festas, divertimentos públicos, bailes de máscaras e manifestações folclóricas. Na Europa, os mais famosos carnavais foram ou são: os de Paris, Veneza, Munique e Roma, seguidos de Nápoles, Florença e Nice. Não há qualquer dúvida que o carnaval é a mais famosa e, talvez, a maior festa popular do planeta, ressaltando que popular não quer dizer, necessariamente, espontânea, já que os grandes carnavais como o do Rio de Janeiro, são institucionalizados e dependem, em grande parte, do poder público. O carnaval brasileiro é considerado uma das festas populares mais animadas e representativas do mundo. Tem sua origem no entrudo português, onde, no passado, as pessoas jogavam uma nas outras, água, ovos e farinha. O entrudo acontecia num período anterior a quaresma e, apropriado pelo cristianismo desde o século quatro, passou a ter um significado ligado à religião mas, ao longo do tempo, voltou a tornar-se uma manifestação de conotação tipicamente pagã. Este sentido permanece até os dias de hoje no carnaval. O entrudo chegou ao Brasil por volta do século XVII e foi influenciado pelas festas carnavalescas que aconteciam na Europa. Em países como Itália e França, o carnaval ocorria em formas de desfiles urbanos, onde os carnavalescos usavam máscaras e fantasias. Personagens como a colombina, o pierrô e o Rei Momo também foram incorporados ao carnaval brasileiro, embora sejam de origem européia. No Brasil, no final do século XIX, começam a aparecer os primeiros blocos carnavalescos, cordões e os famosos "corsos". Estes últimos tornaram-se mais populares no começo dos séculos XX. As pessoas se fantasiavam, decoravam seus carros e, em grupos, desfilavam pelas ruas das cidades. Está ai a origem dos carros alegóricos, típicos das escolas de samba atuais. No século XX, o carnaval foi crescendo e tornando-se cada vez mais uma festa popular. Esse crescimento ocorreu com a ajuda das marchinhas carnavalescas. As músicas deixavam o carnaval cada vez mais animado. A primeira escola de samba surgiu no Rio de Janeiro e chamava-se Deixa Falar. Foi criada pelo sambista carioca chamado Ismael Silva. Anos mais tarde a Deixa Falar transformou-se na escola de samba Estácio de Sá. A partir dai o carnaval de rua começa a ganhar um novo formato. Começam a surgir novas escolas de samba no Rio de Janeiro e em São Paulo. Organizadas em Ligas de Escolas de Samba, começam os primeiros campeonatos para verificar qual delas era mais bonita e animada. O carnaval de rua manteve suas tradições originais na região nordeste do Brasil. Em cidades como Recife e Olinda, as pessoas saem às ruas durante o carnaval no ritmo do frevo e do maracatu que é uma mistura das culturas indígena, africana e européia. Surgiu em meados do século XVIII e foi criado para formar uma crítica as cortes portuguesas. Para quem pensa que nos Estados Unidos não existe carnaval, lá ele se resume basicamente na celebração do Mardi Grass (terça-feira gorda), vários estados celebram o carnaval. O Estado mais tradicional na comemoração é Luisiana onde, em New Orleans durante o Mardi Grass, desfilam pelas ruas da cidade mais de 50 agremiações. A agremiação mais conhecida é a do Bacchus (que possui gigantescos e originais carros). Na Alemanha a celebração do carnaval acontece tanto nos grandes centros urbanos, quanto na Floresta negra e nos Alpes. A festa mais tradicional é a da cidade de Bonn, que organiza desfiles com pessoas fantasiadas, o diabo fica solto, por esse motivo as pessoas usam máscaras a fim de esconder seus rostos. De qualquer forma, em qualquer lugar ou em qualquer tempo, seja durante o período romano ou no século vinte e um no Brasil, o carnaval é a válvula de escape da panela de pressão da sociedade, é onde as frustrações e ansiedades sublimam-se em suor, música e movimento tornando a vida do pobre e espoliado cidadão comum, - pelo menos nos três dias de festas – mais tolerável, menos agônica e mais esperançosa. Portanto, mesmo passados séculos, pão e circo continuam a ser um santo remédio para as agruras do viver. JAIR, Floripa, 24/02/09.