Mostrando postagens com marcador Botânica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Botânica. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

AS MAIS BELAS FLORES DO PLANETA



Durante alguns anos, quando morei em casa térrea, fui um apaixonado colecionador de orquídeas. Montei um espaço apropriado em meu quintal ao qual dei o nome de “Orquidário Dedo Verde” em homenagem ao livro “O menino do dedo verde”, de Maurice Druon. Li tudo que podia sobre essas fascinantes plantas, visitei orquidários e exposições, frequentei sociedades orquidófilas, comprei, colhi, plantei, reproduzi, importei e cuidei dessas que são as mais belas flores que a natureza já produziu. Confesso que, por um bom tempo, mergulhei de corpo e alma no hobby, fui um orquidófilo dedicado e imerso até o pescoço na botânica e, especialmente, na família Orchidae, que é onde estão classificadas as orquídeas.
A Orchidae é, provavelmente, a maior família das angiosperma. Lembrando que angiospermas são plantas que produzem sementes em um ovário, como as rosas, por exemplo. A ciência já descreveu, até o momento, 25 mil espécies de orquídeas, sendo atribuída aos orquidófilos a produção da metade desse número, por hibridização.

Vanilla subindo na hospedeira

Mas, o que é uma orquídea? É uma planta superior – que possui raízes, caule, folhas, flores e sementes – distribuída por todos os continentes à exceção da Antártida. Possui flores que além de três pétalas geralmente separadas e coloridas, têm três sépalas, também coloridas, que fazem parte do conjunto. E é essa flor, geralmente muito atraente, que define a planta, TODAS as orquídeas têm flores com estas características.

Flores da Vanilla

A variedade de tamanho da planta, as formas e as cores das flores e os habitats onde elas são encontradas, fascinam o homem desde que este descobriu a existência de tão bela criatura. Existem plantas de mais de três metros de altura como a Selenipedium; com vinte metros ou mais como a Vanilla, – de cujas sementes se extrai o produto baunilha usado na culinária e fabricação de doces - a qual forma uma espécie de cipó que se agarra às arvores; e a Ornithocephalus, por exemplo, que não passa de 5 centímetros a planta, com flores de seis milímetros. Em relação ao ambiente que as orquídeas vivem, pode-se classificá-las em três grupos, embora algumas espécies apareçam em mais de um grupo, às vezes: epífitas ou dendrobatas, são as que nascem em árvores; terrestres, no chão, que pode ser areia, humus ou terra; e as rupestres que se desenvolvem em pedras. Todas são necrófitas, ou seja, suas raízes alimentam-se de matéria morta, não procedendo, portanto, o hábito popular de chamá-las “parasitas”, pois estas são uma família de plantas que prejudicam seu hospedeiro alimentando-se de sua seiva.
Dentro desse universo magnífico e grandioso, fiquei fascinado pelas orquídeas exóticas e pelas mini-orquídeas, e a elas dediquei meus estudos mais profundos, meu tempo mais precioso e minhas buscas mais tenazes.


Dockrillia cucumerina, a jóia da corôa de qualquer orquidário
Nas minhas pesquisas livrescas descobri aquela que a maioria dos orquidófilos considera a mais estranha do mundo, e, para meu gáudio, uma das menores também: Dockrillia cucumerina, anteriormente catalogada como Dendobrium cucumerinum, também chamada “orquídea pepino” porque suas “folhas” têm a forma dessa cucurbitácea. Lembrando que as cucurbitáceas são todas as abóboras, melões, melancias, pepinos e semelhantes. Pois bem, essa raridade só vive numa certa porção de floresta tropical no nordeste da Austrália. Que fazer para consegui-la? A solução é viajar para a Austrália, é claro! Foi o que fiz. Aliei visita a meu filho que, por coincidência, morava no nordeste australiano, ao meu desejo de possuir tal excentricidade, viajei para lá e consegui em um orquidário, quatro mudas da cucumerina, foi o ápice de minha busca, foi como encontrar a pedra filosofal para os alquimistas.


A delicadíssima Ornithocephalus iridifolius
Ainda bem que não é só viajando para o outro lado do mundo que se consegue essas rarezas. Uma das mais fascinantes e estrambóticas orquídeas é a que tem o estranho nome de Ornithocephalus iridifolius, porque suas pequenas flores de seis milímetros têm semelhança extraordinária com a cabeça de um passarinho, daí o ornithocephalus do nome. Pois é, a literatura coloca algumas espécies dessa fugidia criatura no sul do Brasil, sem especificar o tipo de floresta, a preferência climática ou a altitude que as plantas são encontradas. Acontece que eu morava no norte da ilha de Santa Catarina onde existe um trecho bem conservado de mata atlântica, local no qual eu fazia caminhadas ecológicas, buscava material para esculturas e apreciava as inúmeras orquídeas que lá abundam. Numa dessas incursões encontrei a iridifolius em toda sua pequenez e beleza, em um galho caído, praticamente no quintal de minha casa. Trouxe para minha coleção duas mudas e deixei lá mais de uma dúzia de exemplares. Colecionar sim, depredar a natureza não.
Como nem tudo acontece como a gente planeja ou deseja, um dia mudei de casa térrea para apartamento e minhas orquídeas tiveram que ser realocadas para o sítio de uma amiga, onde ora se encontram felizes e saudáveis como merecem estar. JAIR, Floripa, 25/02/10.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

O ABACAXI


Fruto é o invólucro que envolve e protege a semente, produto da floração. Os frutos têm origem do ovário das flores. Após a fecundação dos óvulos em seu interior, o ovário cresce, acompanhado de uma alteração de seus tecidos provocada pela influência de hormônios vegetais, que atuam na estrutura, consistência, cores e sabores, dando origem ao fruto. Os frutos mantêm-se íntegros protegendo as sementes até, pelo menos, o momento da maturação. Quando as sementes estão prontas para germinar, os frutos amadurecem, e podem se abrir ou cair ao solo, liberando as sementes, ou tornam-se atrativos para serem ingeridos por animais, que as depositarão após estas passarem por seu aparelho digestivo. Assim, vegetais superiores que se reproduzem por sementes e cumprem todas as etapas de floração, fecundação e desenvolvimento de sementes, produzem frutos, exemplos: coqueiros, laranjeiras, figueiras, jaqueiras, tomateiros, berinjeleiras, caquizeiros, etc. Alguns frutos, entretanto, são chamados de legumes, tais como; pepino, chuchu, tomate, berinjela etc, não há uma linha divisória exata que defina o que é um legume. Já, fruta é uma designação genérica de todos os frutos e inflorescências usadas como alimentação, geralmente “in natura” exemplo: coco, laranja, cereja, manga, morango, abacaxi etc. Lembrando que inflorescência é uma espiga formada de flores completas. Deu para entender? O abacaxi, assim como também o morango, não é um fruto em termos biológicos, não tem as características que o definem como um fruto, não é produzido por uma planta superior que gera sementes. O abacaxi é uma inflorescência de flores extremamente juntas aderidas a um eixo central, e é uma fruta, aliás, certas variedades de abacaxi são excelentes frutas. Não seria uma sandice afirmar que o abacaxi é um cacho de flores. Também é, por estranho que possa parecer, uma bromélia. Sim, meus caros amantes e colecionadores dessas lindas plantas, o abacaxi é uma ilustre espécie da família das bromeliáceas. Embora haja botânicos que situam a origem do vegetal na África e até na Oceania, não há dúvida que o abacaxi é oriundo da América, pois já era cultivado pelos indígenas em extensas regiões do Novo Mundo, antes do descobrimento. Como só existem variedades selvagens aqui nas Américas fica claro que é daqui que o abacaxi se espalhou pelo mundo tropical e semitropical. Origina-se da América do sul e, ao que parece, do sul do Brasil. Provavelmente, as atuais variedades cultivadas descendem de abacaxizeiros selvagens aqui existentes. Não se sabe, todavia, quando, onde e como essa domesticação se verificou, mas, a 4 de novembro de 1493, Colombo e seus marinheiros descobriram o abacaxizeiro na ilhas Guadalupe, nas Pequenas Antilhas. As espécies selvagens de abacaxis e suas variedades principais são: Ananaí-da-amazônia, ananás-branco-do-mato, ananás-vermelho-do-mato, curauá-da-amazônia, existem, também, algumas variedades que dão uma fruta não maior que seis ou sete centímetros e são excelentes para decoração. Todos têm as margens das folhas armadas de espinhos, exceto a última, nas quais, praticamente, só existe um acúleo terminal. Essa fruta não tem casca propriamente, possui uma superfície rugosa que deve ser retirada para consumo. O que pode ser chamada casca do abacaxi é formada pela reunião das brácteas e sépalas das flores que o formam. Logo abaixo da “casca”, inseridos na periferia de depressões em forma de taça, podem ser encontrados restos de pétalas e de estames, enquanto de cada uma dessas depressões aparece um vestígio de estilete. É exatamente esse estilete que pinica a língua de quem não toma o cuidado de retirar a casca da fruta de maneira apropriada. Talvez, pelo fato de o abacaxi possuir essa espécie de casca difícil de retirar, no Brasil é comum designar-se como ABACAXI um problema espinhoso ou complicado de resolver. Quando maduro o abacaxi apresenta sabor muito ácido e muitas vezes adocicado. É rico em vitaminas C", B1, B6, ferro, magnésio e fibras. Devido sua beleza e existência da coroa, o abacaxi é conhecido como rei das frutas. Além da polpa, a casca e o miolo do abacaxi podem ser utilizados para a produção de sucos. Previne dores de garganta e resfriados e é bom para a circulação por conter a enzima bromelina. Servindo também como tempero para amaciar carnes. O abacaxi pode ser consumido in natura, industrializado sob a forma de geléia, vinho, cristalizado, passa, licor. Ao comprá-lo é bom observar se as folhas da coroa não estão secas nem murchas, se o cheiro está bom e não existem manchas, e a melhor forma de comprovar se está bem maduro é puxar uma folha da coroa, esta saindo com facilidade está bom para consumo. O melhor período de safra compreende o mês de dezembro a janeiro. No Brasil, são cultivadas várias espécies, como o abacaxi amarelo, porém a que se destaca é a variedade Pérola, de polpa amarelo-pálida, sabor bastante doce, casca esverdeada, mesmo quando maduro e pouca acidez. Os principais países produtores de abacaxi são os Estados Unidos (no Awai), o Brasil, a Malásia, Formosa, México e as Filipinas. Pois é meus leitores, essa fabulosa fruta tão brasileira não deve faltar à mesa de qualquer pessoa, seja ela preocupada com dieta e alimentação saudável ou não. Bom apetite a todos! JAIR, Floripa, 08/07/09.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

O CAFÉ


Desde que a sociedade moderna, tomada por preocupações quase insanas com a saúde, tornou-se ferrenha patrulheira alimentar ditando o que pode e o que não pode ser consumido, o café tem alternado status de mocinho e bandido quase toda semana, isto é, ora podemos e devemos tomar nosso cafezinho sem dor na consciência, ora corremos sérios riscos se o fizermos. A última notícia é que se pode tomar até seis cafezinhos por dia sem quaisquer problemas, aliás, é até recomendável que se faça. Antes que essa gangorra cafeinística incline-se para o outro lado nos proibindo de degustar a infusão dessa fascinante rubiácea, vamos conhecê-la um pouco. A lenda sobre as origens do café diz que, numa região montanhosa de onde hoje é a Etiópia, no século III d. C., um pastor de cabras, chamado Kaldi, certa noite preocupou-se quando algumas de suas cabras não retornaram ao rebanho. Saiu para procurá-las e encontrou-as saltitando próximo a um arbusto cujos frutos estavam mastigando e que obviamente foi o que lhes deu a estranha energia a qual ele nunca vira antes. Dizem que ele mesmo experimentou os frutos vermelhos meio adocicados e descobriu que eles o enchiam de energia, como aconteceu com as cabras. Entusiasmado, o pastor levou essa maravilha ao mosteiro local, mas as reações dos religiosos não foram favoráveis e ele ateou fogo nos frutos, dizendo serem "obra do demônio". O aroma exalado pelos frutos torrados nas chamas atraiu os monges curiosos para descobrir de onde vinha aquele maravilhoso perfume e os grãos de café foram rastelados das cinzas e recolhidos. O abade mudou de idéia, sugeriu que os grãos fossem esmagados na água para ver que tipo de infusão eles davam, e os religiosos logo descobriram que o preparado os mantinha acordados durante as rezas e períodos de meditação noturnos. Notícias dos poderes da bebida espalharam-se de um monastério a outro e, assim, aos poucos espalharam-se por todo mundo, aliás, por toda a região leste africana. As evidências históricas botânicas sugerem que a planta do café originou-e, realmente, na Etiópia Central, onde ainda hoje é possível encontrar plantas selvagens que crescem nas terras altas do país. Ninguém parece saber exatamente quando e onde o primeiro café foi tomado, mas os registros dizem que isso ocorreu em sua terra nativa em meados do século XV. Também sabemos que foi cultivado no Iêmen (antes conhecido como Arábia, daí o nome da variedade arabica), com a aprovação do governo, aproximadamente na mesma época, e pensa-se que talvez os persas levaram-no para a Etiópia no século VI d.C., período em que invadiram a região. À medida que o café tornou-se cada vez mais popular, salas especiais nas casas dos mais abastados foram reservadas para se tomar a infusão, e estabelecimentos para degustação desta saborosa bebida começaram a aparecer nas cidades. A primeira abriu em Meca, no final do século XV e início do XVI e, embora originalmente fossem lugares de reuniões religiosas, esses amplos saguões onde os clientes se sentavam em esteiras de palha ou colchões sobre o chão, rapidamente tornaram-se centros de música, dança, jogos de xadrez, gamão etc. Às vezes, esses centros populares de diversão eram atacados e destruídos por fanáticos religiosos, e alguns governantes apoiavam a proibição do café e impunham punições aterrorizadoras: aqueles que desobedecessem poderiam ser açoitados, presos dentro de um saco de couro e atirados no Bósforo. Por aí se vê que, além de restrições baseadas em suas supostas propriedades estimulantes, o café também sofria proibições de caráter religioso. No início do século dezoito os portugueses compreenderam que as terras brasileiras tinham todas as condições que convinham a plantação de café. Mas, infelizmente, eles não possuíam nem plantas nem sementes. O oficial luso-brasileiro Francisco de Mello Palheta, em 1727 recebeu a incumbência de ir à Guiana Francesa para tratar de questões fronteiriças como pretexto para trazer sementes de café. Naquela época, assim como sucedeu com os árabes, a produção cafeeira só era permitida em colônias européias, com um alto faturamento comercial, por isso Portugal armou seu plano. Consta que Palheta teve um affair amoroso com a esposa do governador de Caiena e voltou ao Brasil com sementes de café arábica clandestinamente escondidas num vaso de planta presenteado por Madame D’Orvilliers. Hoje o Brasil é um dos maiores produtores do planeta e, por feliz acaso, essa planta que dá uma bebida considerada sensual e estimulante entrou no país graças a uma história galante. Existem dois tipos de café comercialmente importantes: o café arábica e o canephora (robusta). O arábica cresce normalmente em altitudes acima de mil pés, tem um sabor mais refinado e possui cerca de um por cento de cafeína em sua composição. Já a variedade robusta, como o nome indica, é uma espécie mais resistente e floresce em menores altitudes, produzindo cafés com um sabor mais rústico. O país que mais consome café é os Estados Unidos e onde o café encontrou a maior variedade de sabores e expressões foi na Itália. Existem várias técnicas de preparo do pó para se obter um bom cafezinho: filtragem, percolação, prensagem e pressão, mas tudo é passar água quente pelo pó de modo a lhe extrair o sabor. Pelo pó de café deve passar somente água quente, jamais a bebida. A recirculação torna a bebida muito amarga, áspera e desagradável. O café usado (café esgotado, borra) é o pior inimigo do sabor, aroma, da cafeteira e da sua saúde. Jogue-o fora. Nunca o reutilize, sequer misturando-o ao café fresco, isso é um verdadeiro assassinato do sabor. Para garantir a qualidade ideal, o café já usado e a bebida preparada devem ficar sempre separados. Deguste com prazer uma bebida fresca, um café preparado na hora, ou o mais recente possível. A característica da bebida café é a de ir deteriorando-se lentamente – o oxigênio a tudo ataca e deteriora - e, por isso, um café preparado há mais tempo não tem o mesmo sabor agradável de um café fresco. Para os paladares mais variados existe ainda os tipos, solúvel, aromatizado, orgânico, gourmet e descafeinado. Seja você um mero tomador de café como alimento no seu desjejum, ou aficionado que passa boa parte do dia com a xícara na mão, desfrute sem culpa dessa bebida que é única, universal e extraordinária. Bon apetit! JAIR, Floripa, 13/07/09.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

CACHORRO VIRA-LATAS


Ao cão, quando abandonado pelo dono ou apenas sem moradia, costumamos chamá-lo de vira-latas. Mas o que é, realmente, um vira-latas? Na verdade e antes de tudo é um sobrevivente, é o animal que a despeito da fome, do frio, do calor, da chuva, da falta de vacinas e dos cuidados mais elementares, sobrevive, multiplica-se e se perpetua saudável se for deixado a vontade. É o animal que os veterinários costumam classificar como SRD – Sem Raça Definida – mas que tem os melhores requisitos genéticos para sobrevivência sob quaisquer condições, é o cão primordial. Desde que o homem, provavelmente há mais de dez mil anos, domesticou o lobo asiático, procurou desenvolver nos descendentes obtidos a partir das matrizes lupinas, características ou qualidades tais que cumprissem certos requisitos como tamanho, agilidade, força, beleza, inteligência ou resistência, os quais se destinavam a auxiliar o homo sapiens na sua difícil tarefa de sobreviver. Essa manipulação do cão original, o qual, pelas características, poderíamos chamar de vira-latas, originou as centenas de raças que conhecemos. Naturalmente em épocas e locais distintos, plantas as mais diversas e outros animais como o boi, o cavalo, o asno, a galinha, o porco e o peru também foram domesticados e utilizados como alimento, como fonte de matéria prima para vestimentas ou confecção de abrigos ou, ainda, como “ferramenta” nas mais diversas atividades relacionadas com a sobrevivência, construção da civilização ou com a guerra. Mas, afinal, o que é domesticar e como se obtêm espécimes diferenciados e úteis para os fins desejados? Domesticar significa, “adotar” o animal ou vegetal selvagem, criá-lo em condições controladas sob supervisão de modo a torná-lo dependente do ser humano para sobreviver, ao mesmo tempo em que se reproduz até com mais facilidade e fertilidade do que na natureza. Já, para se obter variedades de animais ou vegetais diferenciados e úteis para uso humano, usa-se o cruzamento seletivo. Dos descendentes nascidos de animais ou vegetais domesticados, escolhem-se aqueles indivíduos os quais têm as qualidades que desejamos. Assim, para exemplificar: de várias ninhadas de gatos, escolhemos aqueles que tem pelagem maior, mais abundante, os quais, supostamente, estão melhores aparelhados para enfrentar climas frios. Cruzando-se esses animais peludos, com o tempo, depois de muitas gerações sempre cruzando os mais peludos entre si, obtemos uma nova “raça” de gatos que chamaremos de Angorá, por exemplo. No paleolítico, quando as tribos humanas de caçadores/coletores começaram a fixar-se na terra tornando-se criadores/agricultores o fator domesticação não só esteve presente como foi fundamental para a criação dos primeiros aglomerados que se tornariam vilas e depois cidades, no decorrer. Da domesticação para a seleção genética ou cruzamento seletivo o passo foi quase automático, se impôs que os homens selecionassem os melhores dentre os disponíveis, ou seja, cruzavam-se os cavalos e éguas mais fortes; escolhiam-se para o plantio as sementes maiores das espigas mais robustas; plantavam-se as mudas mais resistentes ao inverno rigoroso; cruzavam-se plantas com características diferentes esperando obter-se uma variedade descendente melhor que os pais, por exemplo. Desses cruzamentos forçados e plantios escolhidos nasciam os rebentos que se tornariam as variedades predominantes e que atendiam melhor as necessidades humanas. E o homo sapiens viu que isso era bom. Será que, a longo prazo, era bom mesmo? Vejamos: O homem, sem saber, ao fazer a escolha de uma ou mais qualidades de uma espécie, estava selecionando os genes responsáveis por essas qualidades e negligenciando outros genes, ou seja, pode ser que ao selecionar a variedade de trigo que tem as sementes maiores e as espigas mais robustas, estará sacrificando a resistência à seca dessa mesma planta; o cavalo mais forte, aquele que puxa o arado o dia todo sem cansar, pode ser suscetível à gripe ou ser infértil; a galinha que põe todos os dias pode ser aquela que não resiste ao frio do inverno; e assim por diante. Na seleção genética não há almoço de graça, “ganha-se” de um lado e perde-se de outros, é como vender a alma ao Diabo. É facilmente compreensível essa assimetria entre as qualidades das espécies artificialmente escolhidas. Durante milhões de anos a natureza “escolheu” através da seleção dos mais aptos, os melhores elementos das espécies, de forma que esses indivíduos passaram seus genes para os descendentes sempre melhorando a linhagem; se um rebento da espécie não resiste ao calor, por exemplo, tende a morrer no verão e, geralmente, não deixa descendentes. Por muitos milhões de anos o frio, o calor, o sol, os ventos, as chuvas, as erupções vulcânicas, os movimentos sísmicos, as marés, a competição entre espécies, os solos áridos e fracos, os solos úberes, os microorganismos nocivos, os insetos, os predadores, as secas, moldaram as espécies existentes, que são as melhores porque estão perfeitamente aptas a viver e se reproduzir nas condições existentes, e não porque produzem a fruta maior e mais suculenta, ou porque têm altura exata para serem colhidas pelas colheitadeiras equipadas com GPS. A natureza dotou suas criações de um “pacote” genético com todas as melhores qualidades possíveis, criou o cachorro vira-latas de todas as criaturas da fauna e da flora. Já, a “melhoria” das espécies feitas pelo homem, que se desenvolveu e permeou a civilização do começo da sociedade até os dias modernos, nada mais é do que a fragmentação do “pacote” criado pela natureza, de modo a aproveitar algumas partes e descartar outras. Resulta que hoje são milhões de novas variedades de animais e vegetais muitíssimo produtivos, mas extremamente “especializados”, seres perfeitamente adaptados a um clima específico, a um solo específico, a um ciclo sazonal específico, a uma geografia específica. Mais ainda, nos anos sessenta do século vinte, o movimento científico “Revolução verde” iniciou o maior esforço mundial no sentido de desenvolver novas variedades adaptadas aos mais diversos climas, com o intuito de “debelar a fome” no planeta. Novas variedades de trigo, aveia, arroz, grão-de-bico, soja, centeio, sorgo, milho, tomate, batata e girassol foram criadas, milhares de cultivares artificiais dessas espécies inundaram as lavouras em todos os continentes. Se acabou com fome em algum lugar deve ser num planeta desconhecido, porque na Terra não foi. Acontece que, seja pela incúria e falta de visão da raça humana, seja porque a temperatura planetal está mudando para obedecer a uma apenas suspeitada oscilação climática natural que acontece a cada dezena de milhares de anos, muitas espécies criadas através da seleção genética estão morrendo, não têm capacidade adaptativa para enfrentar mudanças não programadas, as pequenas variações espúrias que estão ocorrendo no clima são o bastante para exterminar essas variedades ultra produtivas, mas “fracas” geneticamente, criadas pela mão do homem. Nos Estados Unidos, Austrália, Japão, Inglaterra e França já foram registrados inúmeros cultivares que não conseguem produzir, ou tem a produção reduzida por causa das mudanças climáticas e alterações na salinidade do solo. E não adianta desenvolver novas espécies a partir destas, estas não têm “memória” climática de longo alcance, os genes que as tornavam imunes às oscilações milenares de clima, perderam-se em algum ponto de sua história moderna a mercê da manipulação humana. Que fazer então? Procurar o CACHORRO VIRA-LATAS! Procurar aquelas espécies selvagens que deram origem a essas modernas, espécies que têm, na sua carga genética, todas as informações necessárias à sobrevivência de longo alcance em quaisquer condições climáticas e adversas. Existem vários órgãos civis preocupados com a perda definitiva das sementes antigas, botânicos, geneticistas e outros cientistas estão numa corrida dramática em busca de sementes das espécies selvagens em todo o mundo. Sementes que foram conservadas através das gerações pelo mundo afora, passando dos avós para os filhos, destes para os netos, dos vizinhos para outros vizinhos e assim por diante, as vezes por centenas de anos. Os cientistas esperam encontrar e preservar as amostras das sementes que puderem fornecer os traços genéticos necessários à luta contra a mudança do clima, do solo e ao ataque de doenças que causam extermínio. A Noruega inaugurou no arquipélago de Svalbard, no Ártico, aquilo a que chama a “Arca de Noé” do reino vegetal, para preservar a diversidade vegetal do planeta, ameaçada por catástrofes naturais, guerras e alterações climáticas. Escavado na rocha gelada, a mil quilômetros do Pólo Norte, este “cofre” pode guardar sementes congeladas por 200 anos, mesmo no pior cenário de alterações climáticas e se os sistemas mecânicos de refrigeração falharem. Jens Stoltenberg, primeiro-ministro norueguês, disse que esta medida defende “os blocos de construção da civilização” de forças que estão ameaçando a “diversidade da vida que sustenta o nosso planeta”. Mais de cem países já enviaram cem milhões de sementes para Svalbard: arroz, milho, trigo, alface, batatas, grão-de-bico, entre outras espécies. As sementes antigas encontradas nos mais esconsos lugares do planeta estão sendo divididas em três partes: uma vai para o plantio normal para preservação das espécies através da produção de mais sementes; outra é dirigida a laboratórios que estudarão sua herança genética e tentarão aproveitar suas qualidades hibridizando-as a outras variedades modernas, melhorando estas; a última destina-se à “Arca de Noé Botânica”, onde, espera-se que elas permaneçam preservadas por 200 anos, como uma espécie de depósito bancário de emergência, que será usado no caso de perda da diversidade biológica. Na verdade, o homem encontra-se olho-no-olho com o monstro de fauces escancaradas que criou. Uma catástrofe inimaginável que pode dizimar a civilização está para acontecer e o ser humano conta apenas com o CACHORRO VIRA-LATAS para salvá-lo. Isso, que nem falamos ainda das plantas geneticamente modificadas que podem vir a ser outra ameaça num futuro próximo! JAIR, Floripa, 23/04/09.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

VAMOS COMER BANANAS!


Embora alguns portugueses que aportaram no Brasil recém descoberto tenham reportado que observaram índios alimentando-se de bananas, isso deve ser um equívoco, pois, como está registrado, a banana é originária do sul da Ásia e da Indonésia. Indícios arqueológicos e paleoambientais indicam que nas terras altas da Nova Guiné, já se cultivavam bananais, enquanto que na Malásia e Filipinas existem muitas espécies de bananas selvagens, ao passo que no Brasil existe apenas uma variedade da planta chamada pacova que não dá frutos comestíveis, serve tão somente para fins ornamentais. Umas das melhores técnicas para determinar onde uma planta foi domesticada pela primeira vez, é descobrir onde existem seus antepassados selvagens, sendo assim, o Brasil não é bom local candidato a origem das musaceas. A banana é mencionada em documentos escritos, pela primeira vez na história, em textos budistas cerca de 600 aC. Sabe-se que Alexandre, o Grande comeu bananas em 327 aC. Contudo a palavra Banana originou-se na África ocidental para onde a planta foi levada pelos povos árabes que a haviam conhecido na Palestina, onde a banana havia chegado pelas mãos dos conquistadores islâmicos que a trouxeram da Ásia em 650 dC. No século XV, os portugueses que haviam conhecido a banana na África, começaram plantações sistemáticas de bananais nas ilhas atlânticas e no Brasil. A partir daí a musacea adaptou-se ao clima e a geografia brasileira de tal forma que hoje é o fruto mais popular do país e o segundo do planeta, só ficando atrás da maçã, e o Brasil é o terceiro maior produtor da fruta, perdendo apenas para o Equador e para a Índia. Tornou-se tão brasileira a banana, que incorporou-se ao anedotário e folclore do país e daí gerou inúmeros provérbios, ditos e anedotas, como por exemplo: “A preço de banana”, “Dou uma banana para isso”, “República das bananas” e muitos outros. A bananeira é uma planta de caule subterrâneo que se desenvolve no sentido horizontal, e do qual saem folhas que crescem para fora da terra, formando um falso tronco. Ao contrário do que muita gente pensa, a bananeira não é uma árvore apesar do tamanho, trata-se de um arbusto com tronco oculto debaixo da terra. Observe-se que o falso caule da bananeira dá frutos apenas uma vez, daí morre e é substituído por novo caule, repetindo-se o processo anualmente. Dada essa característica de emitir sempre novos rebentos, o bananal torna-se permanente na área, porém com plantas renovadas a cada ciclo. Quando imatura, a banana é uma fruta de cor verde, ao madurar apresenta cor amarela ou, raramente, vermelha. Existem mais de 500 variedades de banana em todo o mundo, contudo, apenas pouco mais de uma dezena é comestível e aproveitada comercialmente. As cinco variedades principais são: banana prata, banana maçã, banana ouro, caturra e banana terra. A banana é um alimento energético, sendo composta basicamente de água e carboidratos, contém pouca proteína e gordura. É rica em sais minerais como sódio, magnésio, fósforo e, especialmente, potássio, sendo de fácil acesso e tornando a refeição ligeira, passou a ser o alimento ideal para os desportistas sujeitos aos grandes desgastes nos esforços físicos. Comparando-a com a maçã, tem o quádruplo das proteínas, o dobro dos hidratos de carbono, três vezes mais fósforo, cinco vezes mais vitamina A e ferro e o dobro das outras vitaminas e minerais. É um fruto rico em vitaminas e uma das mais saudáveis comidas existentes. É uma fruta flexível, grandemente consumida in natura, também pode ser transformada em cachaça, doces, licores, geléias e até vinagres. Além disso, a bananeira tem folhas grandes e caule fibroso que podem servir para cobrir abrigos provisórios, ou como embalagens de boa qualidade, ser utilizados como ataduras de emergência, resultar em certo tipo de papel e na confecção de artesanatos como chapéus, bolsas, cordas, peneiras, objetos de decoração e até no fabrico de móveis sofisticados. O líquido acumulado entre as folhas e o caule, é utilizado para aliviar dores resultantes do ataque das aranhas, vespas, escorpiões e até de cobra. O fruto é uma verdadeira panacéia, pode auxiliar no tratamento de certas enfermidades, tais como: tuberculose, paralisia, reumatismo, artrite, prisão de ventre, diarréia, desidratação, e, ainda, doenças de estômago, rins, fígado, intestinos e nervos, úlceras da pele, dermatites, queimaduras de sol, feridas, fraqueza pulmonar, resfriados, tosse crônica, tosse de fumante, bronquite crônica. De acordo com recentes estudos, a maioria das pessoas que habitualmente sofrem com depressões sentiram-se substancialmente melhor depois de comerem uma banana. No Brasil, o setor bananeiro gera mais de 500.000 empregos diretos. Segundo dados do IBGE, no ano de 2004, a cultura foi a segunda mais produtiva, ficando atrás somente da laranja. Creio que depois de ler este texto, o leitor nunca mais vai olhar a banana com os mesmos olhos, vai reconsiderar seus conceitos bananais para sempre. JAIR, Floripa, 22/04/09.

terça-feira, 21 de abril de 2009

PLANTANDO A MANDIOCA


No dia 22 de abril comemora-se o dia da mandioca. Essa fabulosa planta encontrava-se aqui no Patropi quando as caravelas de Cabral chegaram. Na história da ocupação dos continentes pelo homem paleolítico, vários fatores influenciaram na velocidade e delimitação dos deslocamentos, determinando a densidade populacional das tribos nômades que ocupavam uma nova terra. Clima e geografia do terreno eram fatores importantes para que os humanos resolvessem se estabelecer num local, contudo, os fatores fundamentais eram água, animais e plantas comestíveis disponíveis. De nada adiantava haver ótimo clima com terreno favorável se não houvesse o que comer e beber. Desde que as tribos de homens caçadores-coletores, oriundos da África, iniciaram o nomadismo motivados, talvez, pela busca de lugares mais favoráveis à perpetuação da espécie, a história humana é uma reprodução exata da história dos alimentos. Tão precisa é essa justaposição de histórias que existe até um ramo da ciência chamado etnobotânica que estuda as relações homem/planta em suas diferentes dimensões, que visa resgatar dos grupos humanos o saber quanto aos papéis que as plantas representam para os diferentes ambientes culturais e os significados que os grupos sociais lhes atribuem. Talvez com apenas uma exceção, a Austrália, todos os demais continentes e locais ocupados pelo homem primitivo eram úberes, isto é, possuíam meios abundantes de sobrevivência. Não é por acaso que a civilização humana surgiu primeiro no chamado Crescente Fértil, região da então Mesopotâmia e entorno, hoje Síria, Irã, Iraque, Egito, Jordânia, Israel e parte da Turquia. A Mesopotâmia caracterizava-se, claro, pela abundância de água fornecida pelos rios Tigre e Eufrates e pela existência das primitivas gramíneas que, domesticadas, deram origem ao trigo, ao centeio e a cevada. Provavelmente o Asno é oriundo dessa região, onde foi domesticado contribuindo também para a fixação dos homens primitivos. As tribos primitivas continuaram se deslocando e fixando-se em todos os continentes habitáveis sempre que as condições fossem benévolas, indícios paleontológicos indicam que há vinte mil anos o homem, depois de ocupar o leste da Ásia, atravessou o estreito de Bhering e adentrou as Américas por onde hoje é o Alasca. Vindo para o sul onde o clima era mais favorável, os primitivos foram se fixando e formando nações em áreas nas quais havia alimento na forma de animais e plantas domesticáveis. Portanto, não é surpresa alguma que os impérios Inca e Asteca tenham se desenvolvido no Peru e no México, locais onde havia as plantas que deram origem à batata e ao milho. A equação abundância de alimento disponível + água + clima = civilização, se fechava novamente. A leste da cordilheira dos Andes surgiram inúmeras nações, mais uma vez atraídas pela uberdade das terras. Não é a toa que tornou-se célebre a frase de Caminha, “em se plantado tudo dá”. Havia em abundância frutas tropicais, peixes, aves, mamíferos, e, principalmente, mandioca. A mandioca, Manihot esculenta Crantz, é uma planta perene, arbustiva, pertencente à família das Euforbiáceas. Na sua origem a planta é uma falsa trepadeira, falsa porque as verdadeiras possuem gavinhas, coisa que a mandioca não tem. A parte mais importante da planta está sob a terra, os tubérculos. Rica em fécula, utilizada na alimentação humana e animal ou como matéria prima para diversas indústrias. Originária provavelmente do Brasil, a mandioca era cultivada pelos índios, por ocasião da descoberta do país. No Nordeste, ela é conhecida como macaxeira. No sul, como aipim. Mas tem ainda muitos outros nomes: candinga, castelinha, maniva, mandioca-brava, xagala, mandioca-doce, mandioca-mansa, maniveira, moogo, mucamba, pão-da-américa, tapioca, pão de pobre, macamba, uaipi e pau de farinha. Mandioca, palavra de origem tupi batiza, com mais freqüência, essa planta da qual somos, orgulhosamente, o maior produtor do mundo, trinta por cento da produção do planeta podem ser postos na nossa conta. Lendo os cronistas que andaram pelo Brasil por diferentes épocas e regiões, percebe-se que as técnicas do plantio da mandioca por eles descritas, sofriam pequenas variações, levando-nos a crer que essa quase uniformidade em tais costumes de lidar com a terra e manejo com as mudas denuncia uma origem comum, tanto das diversas variedades da planta como dos povos que as descobriram. A mandioca, depois de conhecida dos portugueses, passou a ser considerada por Portugal um elemento de fundamental importância para o desenvolvimento de suas atividades relacionadas não só às conquistas de novas terras, como ao desenvolvimento do tráfico negreiro. Dessa forma, tal importância recaía no valor nutricional desses tubérculos que permitiam alimentar não só os portugueses que iam se fixando nos pontos da costa africana onde eram instaladas feitorias, como também servia de alimentação dos escravos, tanto nos navios como nos diferentes pontos do Brasil, onde eram negociados e levados por seus compradores para diferentes áreas do país. O componente nutricional mais importante do tubérculo da mandioca é a fécula (amido), cujo teor nas raízes frescas varia de 25 a 35%. Dependendo do vegetal de origem, o amido possui uma denominação: Amido (propriamente dito) - Reservado para o de origem de sementes ou grãos como milho, trigo, arroz. Fécula - Quando extraído de raízes, tubérculos e rizoma. Sagu - O verdadeiro sagu é obtido da parte central ou da medula de certas palmeiras. A fécula, amido da mandioca, é mais conhecida como polvilho ou goma, extraído com a decantação da água de lavagem da mandioca ralada. Vários tipos de farinha são obtidos da mandioca, a farinha branca de mesa, puba, tapioca (transformação do polvilho) e outros, além de bolos, caldos e o tucupi, líquido extraído durante a produção da farinha e polvilho, originariamente típicos da culinária indígena. A mandioca também é usada como forragem na alimentação animal, as folhas, ramas e restos de casca ou os desperdícios industriais do processamento da mandioca dão ótima ração. Através de processos de fermentação e ação enzimática, além de outras reações químicas, as indústrias extraem da mandioca vários produtos químicos dentre os quais o principal é o álcool combustível. Ao contrário dos cereais considerados nobres como o trigo e a cevada, a mandioca não é listada como alimento de importância mundial, no entanto, nós tupiniquins sabemos que sem esse vegetal a história de nosso país provavelmente teria sido muito diferente, e até o anedotário nacional sofreria algum dano, seria mais pobre. Lembrando que a forma cilíndrica do tubérculo torna óbvia sua comparação com o membro masculino, a gaiatice brasileira criou inúmeras anedotas explorando essa conotação. Vejamos uma conhecida piada, que por ser velha não deixou de ser boa: “Você sabe qual a melhor lua para plantar a mandioca?”. A lua-de-mel, é claro! JAIR, Floripa, 21/04/09.

quinta-feira, 19 de março de 2009

PRÁ NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DO MILHO


No meu texto “A CIVILIZAÇÃO VALE A PENA?” escrevi: "A economia asteca estava baseada primordialmente no milho...”, e mais não disse por que não cabia, o assunto era outro. Contudo, senti necessidade de falar sobre esse alimento tão fundamental para o ser humano. Então, vamos começar por onde o milho começou. O Teosinto é uma gramínea anual como o trigo, o centeio, a cevada, o arroz etc, cespitosa (que forma touceiras) de aspecto semelhante ao milho, do qual é considerada ancestral, forma grandes touceiras, podendo atingir 3 metros de altura e seu perfilhamento é muito agressivo, ou seja, emite rebentos de forma abundante para todos os lados. Adaptada a climas quentes e solos férteis, não crescendo bem em solos arenosos, pobres e secos, é planta nativa das Américas Central e do Sul. O Teosinto, atualmente considerado de mesma espécie e com várias subespécies deu origem ao Milho nosso de cada dia que é uma gramínea da família Poaceae, da tribo Maydeae, do gênero Zea para distinguir desse seu parente silvestre mais próximo. O milho é um cereal essencialmente americano, uma vez que só nosso continente que se encontram os seus parentes selvagens mais próximos, seus ancestrais, e onde foi domesticado pelos aborígines mesoamericanos há mais ou menos 3500 anos. Fora das Américas, não existem fósseis e nem evidências lingüísticas, históricas ou pictóricas de milho ou teosinto, seu ancestral. Atualmente o milho é a planta cultivada que atingiu o mais elevado estágio de domesticação, uma vez que perdeu a capacidade de sobrevivência sem intervenção humana. Ocupa lugar de destaque como principal alimento dos vários povos e civilizações americanos, fato evidenciado pelos relatos históricos. Expandiu-se, até ocupar praticamente todo o continente americano, em conseqüência da seleção do homem e da seleção natural, e, em virtude do descobrimento e colonização das Américas, estendeu-se pelo mundo todo, tornou-se o alimento mais importante do planeta depois do trigo e do arroz. Cristóvão Colombo é considerado o descobridor não só do Novo Continente, a América, mas também de seu mais reputado alimento, o Milho. Rico em lipídios, proteínas, vitaminas A e C e carboidratos, esse cereal branco ou amarelo, protegido por camadas de folhas fibrosas, era há muito tempo a principal fonte de energia consumida pelos índios americanos. O modo mais comum de utilização do milho pelos nativos era como farinha ou fubá. Depois de pilado, o cereal era então fervido e comido como polenta ou ainda, transformado em deliciosas tortilhas e massas comestíveis que faziam a festa dos Astecas, Maias, Incas e demais povos da região meso-americana e andina. Esses povos tinham muitos conhecimentos em astronomia, arquitetura, matemática, irrigação, agricultura, drenagem, artesanato e economia, entre outras. Destaque-se também que souberam se apropriar dos elementos naturais que lhes eram fornecidos nas regiões em que se estabeleceram para não apenas sobreviver, e sim, para viver de forma confortável e até majestosa. Essas tradições foram preservadas até os dias de hoje e esses alimentos derivados do milho continuam sendo muito populares. Tive oportunidade de trabalhar na Bolívia por algum tempo e constatar a grande variedade de comidas e bebidas típicas feitas de, ou que levam milho na feitura. Além das mencionadas tortilhas e polentas, também é comum o consumo do milho cozido temperado apenas com sal - ao quais algumas pessoas gostam de adicionar manteiga - ou ainda assado na grelha - sendo que em algumas regiões coloca-se a espiga no fogo sem que se retire a palha. O que também chamou muito a atenção dos conquistadores espanhóis que dominaram as civilizações americanas foram os mercados públicos onde se vendiam muitos produtos, alguns conhecidos pelos europeus e outros totalmente desconhecidos, como é o caso do próprio milho, do cacau, e, consequentemente, do chocolate, do tomate e de várias espécies de pimentas. Incas, Maias e Astecas ficaram historicamente conhecidos como “civilizações do milho” por sua relação tão intensa e mística com esse cereal. Conta-se que, a despeito da luxuosidade das refeições dos líderes desses povos, o dia a dia era pautado em refeições simples, onde o milho era presença obrigatória. Se não existissem outros motivos como os calendários precisos e a arquitetura para reverenciar os povos pré-colombianos, o milho já seria o bastante. Esse cereal é, juntamente com a batata que também originou-se e foi domesticada no Novo Mundo, o maior e mais importante legado que os tripudiados aborígines americanos deixaram para o resto do planeta. JAIR, Floripa, 19/03/09.

quarta-feira, 4 de março de 2009

O PINHEIRO


Árvore - do Lat. arbore - grande vegetal lenhoso, cujos ramos saem a certa altura do tronco. Esta definição, não obstante acadêmica, encerra as três principais características que determinam o que é uma árvore em oposição a outros vegetais: tronco lenhoso significa que quase toda madeira usada na fabricação de artefatos, seja uma simples cadeira ou um grande pagode chinês, é originária de árvores, enquanto arbustos, ervas, algas, gramíneas, cactos e outras plantas não são lenhosos, não fornecem madeira; grande ou de porte elevado, em contraste com outras plantas que, - exceto o bambu que é uma gramínea mas pode ser enorme, e algumas algas do pacífico que também crescem muito em busca de luz solar - podem ser médias, pequenas, minúsculas e até microscópicas, mas nunca grandes; ramos ou galhos saem a certa altura do tronco, é quase uma regra geral, árvores costumam ter uma parte do tronco livre de galhos, diferentemente dos arbustos, por exemplo, que têm rebentos desde o chão na maioria das vezes. Todas as árvores da terra podem ser classificadas, grosso modo, em apenas três categorias: Palmáceas, Folhas largas e Coníferas. Palmáceas são todos os tipos de palmeiras e coqueiros imagináveis, são plantas adaptadas a praticamente todos os climas do planeta. Costumam ter galhos grandes formadas por um eixo no qual estão distribuídas simetricamente as lâminas, que são as folhas propriamente ditas. O tronco distingue-se das demais árvores por não possuir anéis de crescimento, são normalmente cilíndricos, lisos, sem casca e os galhos e frutos ficam, em geral, bem no alto. As palmáceas são extremamente decorativas e paisagísticas, e algumas produzem palmitos, mas isso significa sacrificá-las, já que o palmito nada mais é que o miolo da parte superior do tronco. Outras fornecem frutos como cocos, tâmaras, fruta-pão ou coquinhos. Folhas largas são árvores que, mantidas as características que as define: lenhosas, grandes e com parte do tronco livre de galhos, possuem, ademais, como o nome informa, folhas largas no sentido de abertas, contrário às folhas das coníferas que são fechadas e se parecem com espinhos. São muito lenhosas, quase metade de toda a madeira utilizável na história humana vem dessas árvores, o resto é oriunda das coníferas. Grande maioria das árvores frutíferas são folhas largas, cajueiro, abacateiro, laranjeira, pereira, macieira, mangueira, jaqueira, pessegueiro etc. O baobá, típica árvore meridional africana é uma intrigante e excêntrica representante das folhas largas. A última categoria, Coníferas, tem esse nome por causa de suas folhas que lembram cones ou espinhos. São as árvores mais antigas do planeta, estão aqui a duzentos milhões de anos. Todos os pinheiros, araucárias, cedrinhos, ciprestes e pinus são coníferas. O maior representante das coníferas é a sequóia gigante canadense, chega a ter 130 metros de altura. Dentre as coníferas, encontra-se a Araucária Angustifólia. Araucária é um gênero de árvores coníferas na família Araucariaceae. Existem 19 espécies no gênero, com distribuições altamente separadas na Nova Caledônia (onde treze espécies são endêmicas), Ilha Norfolk, sudeste da Austrália, Nova Guiné, Argentina, Chile e sul do Brasil onde se encontra o Pinheiro-do-Paraná, essa belíssima árvore que é símbolo daquele estado. O Pinheiro-do-Paraná (Araucaria angustifolia) ou pinheiro-brasileiro, também conhecido pelo nome de origem indígena, Curi é a única espécie do gênero encontrada no Brasil. É uma planta dióica, isto é, apresenta gêneros masculinos e femininos em indivíduos separados. O gênero feminino produz frutos chamados pinhas e o masculino possui um estróbilo que poliniza as flores da árvore feminina através do vento. O Pinheiro-do-Paraná, ou simplesmente Pinheiro como é conhecido por lá, é uma árvore simétrica como tendem ser todas as coníferas; em geral, por disputarem a luz do sol com outras árvores na mata fechada, crescem acima do dossel da floresta e apresentam-se com perfil de taça rasa com pé comprido, mas, eventualmente, ao desenvolverem-se em local onde não haja árvores concorrentes como no campo, por exemplo, podem tomar a forma de cone, assim como as árvores de natal. Suas sementes, os pinhões, em formato de pião, eram importantes na alimentação indígena e ainda hoje são iguarias que inspiram muitas receitas. Medem cerca de quinze milímetros de largura na parte mais larga e cerca de oito centímetros de comprimento. As pinhas podem pesar vários quilogramas e atingir o diâmetro de cerca de trinta centímetros e conter até cento e cinquenta pinhões. Os pinheirais fazem parte de um ecossistema chamado floresta Ombrófila (que gosta de chuva) mista, que integra o bioma da Mata Atlântica. A copada majestosa das araucárias, voltadas para o céu a até cinquenta metros de altura, lhes confere um porte majestoso não igualado por nenhuma outra árvore da mata que a circunda. Canelas, imbuias e cedros formam um segundo extrato que cobre sub-bosques de erva-mate e xaxim. A fauna original tinha onças, bugios, cotias, catetos e a incrível e agora que extinta gralha-azul, pássaro que dispersa o pinhão, deliciosa semente do pinheiro, contribuindo para a disseminação das árvores. Antes da colonização, essa mata ocupava mais de metade da região, hoje não resta nem 2% da floresta original. O pinheiro é importante, pois controla a qualidade da fauna e flora do bioma. Seus pinhões servem de alimento para pequenos animais no inverno, porque nesta época do ano quase não existem frutos nem néctares. Seus cones são como uma manjedoura, protegem as plantas menores e retêm a umidade. As demais coníferas, como os pinus que abundam no hemisfério norte, em geral formam grandes florestas monófitas, ou seja, florestas compostas de uma só espécie, o Pinheiro não, ele vive sempre associado a uma mata mista. Ao nascer ele necessita de sombra para sobreviver nos primeiros anos, então cresce e ultrapassa as demais plantas formando ele próprio o dossel que sombreará a floresta. Tive a sorte de passar minha infância e parte da adolescência à sombra dos pinheirais do Paraná, catei pinhões e os comi no “sapêco”, que é a maneira indígena de assá-los, ou amassados feitos "bilé" que é como as famílias pobres, que só possuem fogões à lenha, os comem. Hoje os pinheiros que, pela abundância, conferiram ao Paraná o título de Terra dos Pinheirais, quase desapareceram frente à ganância desenfreada dos madeireiros míopes que enxergam apenas até onde seus machados e serras motorizadas alcançam. De forma geral, quase todos os remanescentes da mata de araucária encontram-se hoje muito fragmentados e dispersos, o que contribui para diminuir ainda mais a variabilidade genética de suas espécies, colocando-as sob verdadeiro risco de extinção. E, apesar dessa situação, as ameaças continuam. A situação é agravada pela exploração ilegal de madeira e pela conversão das florestas em áreas agrícolas e de reflorestamento de espécies exóticas, aumentando ainda mais o isolamento dos remanescentes. Corremos o risco de, no futuro, nos tornarmos uma espécie de Austrália do terceiro mundo, passarmos a ter apenas extensas plantações de eucalipto no lugar das matas de pinheiro originais. É hora de acordarmos para salvar esta que é, talvez, a mais bela e imponente árvore da nossa flora. JAIR, Floripa, 04/03/09.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

TRÊS MARIAS, A FLOR


Quase toda casa, praça, parque público, chácara ou sítio que se preze tem uma ou mais, como elemento botânico decorativo. A Buganvília, também conhecida por Três Marias ou Flor de papel, é uma belíssima falsa trepadeira (falsa porque as verdadeiras trepadeiras possuem gavinhas), da família das Nyctaginaceas cujas flores no verão atraem a atenção de quem passa onde quer que se encontre. A mais comum é a de cor roxa, mas nos anos mais recentes podem facilmente encontrar-se outras cores desenvolvidas por seleção genética por botânicos de diversas partes do mundo. O seu nome provém de Louis Antoine de Bougainville, Conde, capitão de navio, advogado, matemático e explorador, que se juntou à armada francesa por volta de 1760 no Canadá, onde viria a conhecer e a fazer amizade com Philibert Commerson, viajante e botânico francês que viajava a serviço da França e veio a descobrir esta planta no Brasil, precisamente na Ilha de Santa Catarina, onde esteve em 1763 e privou da companhia de Francisco Antonio Cardoso de Menezes e Souza, efêmero governador da então Capitania da Ilha de Santa Catarina. Esta planta, extremamente comum na região, era conhecida por Três Marias por possuir três brácteas fundidas, ou folhas modificadas coloridas, - que lhe dão aquele aspecto tão atraente - normalmente confundidas com pétalas. Ao ser levada por Bugainville para a França, onde passou a ser cultivada em viveiros, a flor teve sua existência ligada ao Conde de tal forma que as pessoas passaram a chamá-la de Bungainville, nome hoje aportuguesado para Bunganvilia. Dos troncos, protegidos por fortes espinhos, ramificam todos os anos novos rebentos que crescem vigorosamente e para os lados de forma desordenada. Estas plantas, por não serem trepadeiras verdadeiras, podem também ser “domesticadas” em forma de arbustos, que se tornam árvores de médio porte, desde que se proceda ao corte das pontas nos rebentos novos à medida que eles crescem. As folhas têm o feitio de um coração e possuem uma cor verde escura. A variedade B. glabra atinge uma altura de três metros ou mais, tem folhas macias, menores e com menos espinhos enquanto que as folhas da B. spectablilis têm uma penugem no lado inferior. As flores verdadeiras são os pequenos tubos amarelos e brancos que se encontram envolvidos nas três brácteas coloridas. A B. glabra é uma trepadeira com troncos menos espinhosos e floresce intermitentemente durante toda a estação quente. A B. spectabilis cresce com grande vigor podendo atingir de seis a nove metros de altura, tornou-se uma espécie popular e ornamental em quase todo o mundo, especialmente nos climas quentes da América do Norte e do Sul, na Europa e no sudoeste asiático. Em alguns casos, pelo seu porte e vigor, algumas podas regulares fazem dos espécimes existentes e quase selvagens magníficos exemplares de decoração paisagística. Ao viajarmos pela Europa e até pela Ásia e vermos essas esplêndidas plantas, normalmente, não temos noção de estarmos diante de planta de origem genuinamente brasileira. Que fique registrado: Buganvília, Três Marias, Flor de Papel ou quaisquer outros nomes que possa ter essa planta, ela é tão BRASILEIRA quanto jabuticaba. JAIR, Floripa, 02/02/09.