A inexorável marcha da civilização compulsou o homem, cada vez mais, a demandar os chamados recursos naturais para atender as necessidades da construção do progresso, seja lá o que isso for. Desde os materiais imediatos e de fácil obtenção como madeira, cipós, folhas, pedras, couro, ossos e terra para construção de abrigos temporários e utensílios domésticos, até minérios, cujos empregos para fabricação de armas e artefatos civis, requeriam certa “tecnologia” que era desenvolvida na medida das necessidades. Materiais encontráveis primeiramente a flor da terra, permitiram que o Homo alcançasse um patamar de sofisticação que, paradoxalmente, exigiu sua incursão através do subsolo cada vez mais profundamente em busca de novos minérios em quantidades cada vez maiores. As entranhas do planetinha azul, pejadas de substâncias metalíferas e de outras denominações, aliadas à engenhosidade humana, determinaram a existência das chamadas minas que, no mais das vezes, são apenas buracos cavados até onde for necessário para se extrair o minério demandado.
Em torno de 1500 a.C. surge o que se convencionou chamar de idade do bronze, que é marcada pelo aparecimento da metalurgia a qual, nessa época, se resumia em fundir o cobre com outros metais (geralmente estanho) para se obter uma liga mais resistente que era empregada principalmente na fabricação de espadas e pontas de lanças. Alguns dos artefatos fabricados em pedra, como os machados ou os furadores, são agora também neste metal, implicando uma maior produção e rentabilidade, funcionando mesmo como símbolos de prestígio e poder. Inaugurada a idade do bronze, esta permitiu um avanço significativo nas conquistas humanas e, em consequência, na marcha do progresso, marcha essa que adquiriu mais ênfase quando, finalmente, o ferro foi obtido e utilizado na substituição do bronze. Agora, espadas de bronze eram superadas por espadas de ferro, e a idade do ferro forçou a perfuração de novas e mais profundas minas. Quem mais perfurasse mais poder econômico, político e militar obtinha, a civilização estava atrelada biunivocamente às minas.
Na era atual é impensável prescindir das minas, prescindir dos minérios que estão entranhados nos diversos níveis de profundeza da crosta terrestre, não há alternativa, carvão, petróleo, ferro, cobre, cobalto, alumínio, tungstênio e outros metais são o esteio da civilização. Claro que a necessidade de metais mais raros e encontráveis a maiores profundidades, obrigou a tecnologia de mineração se sofisticar, mas, a despeito de leis que regulamentam com bastante rigor as atividades mineiras, por si só perigosas, não impedem que empresários não tão escrupulosos, contornem as exigências de segurança e acabem facilitando a ocorrência de acidentes fatais. A China é campeã mundial na categoria, lá mais mineiros morrem por ano do que todas as mortes em minas dos demais países somados. Este televisivo e comentado acidente na mina de San José, no Chile neste ano, entra na categoria dos desastres anunciados, os mineiros estavam trabalhando em condições inseguras por falta de investimento em segurança por parte da mineradora.
Na Austrália a mineração de carvão é uma atividade que mais rende divisas para o país, as minas de lá fornecem o carvão que entrará na fabricação do aço no Japão. Milhares de toneladas de carvão são exportadas diariamente para aquele país, que produz aço para suas montadoras de automóveis, os quais são vendidos para o mundo todo, inclusive para a Austrália. A atividade mineradora no país é muito regulamentada no quesito segurança e as empresas, sob o risco de serem fechadas, obedecem as normas com muito rigor. Meu filho mais novo, Adriano, é mineiro de carvão. Depois de trabalhar com informática numa grande empresa, resolveu tirar a gravata, matriculou-se num curso de mineiração e começou a trabalhar nas minas de carvão, primeiro no interior do país próximo ao outback, agora em antigas minas no litoral de New South Wales, próximo a Sidney. Diga-se, o trabalho em mineração de carvão é um dos mais bem pagos da Austrália, e meu filho trabalha apenas três dias (as vezes, noites) por semana, nada mal portanto.
O Adriano é um mineiro convicto, gosta do que faz e, já que se tornou australiano há oito anos, integrou-se completamente ao espírito das minas, se é que isso existe. Mineiros australianos são uma categoria de trabalhadores extremamente exigidos, não podem beber em dias de trabalho, não podem usar quaisquer tipos de drogas, não podem sair para “noitadas” e são obrigados a manter um estado de higidez rigoroso controlado por exames periódicos de saúde. Decorrente da seriedade com a qual se trata a segurança mineiral, se um mineiro for demitido por justa causa de qualquer mina, jamais será admitido em outra, as empresas não permitem que seus empregados representem algum perigo ou desconforto para a atividade.
Tive a oportunidade de descer 170 metros numa mina, descida precedida de uma aula de segurança de duas horas com prova escrita. Gostei do que vi, a descida se fazia através de veículo próprio e as condições no interior do buraco são de modo a colocar a segurança em primeiro lugar. Desde 1975 não há qualquer acidente fatal nas minas australianas, o que me dá certa tranquilidade mesmo sabendo vez ou outra de acidentes na China e até nos EUA. O mineiro Adriano está indo bem, obrigado! JAIR, Floripa, 13/10/10.










