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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O Mineiro





Adriano.


A inexorável marcha da civilização compulsou o homem, cada vez mais, a demandar os chamados recursos naturais para atender as necessidades da construção do progresso, seja lá o que isso for. Desde os materiais imediatos e de fácil obtenção como madeira, cipós, folhas, pedras, couro, ossos e terra para construção de abrigos temporários e utensílios domésticos, até minérios, cujos empregos para fabricação de armas e artefatos civis, requeriam certa “tecnologia” que era desenvolvida na medida das necessidades. Materiais encontráveis primeiramente a flor da terra, permitiram que o Homo alcançasse um patamar de sofisticação que, paradoxalmente, exigiu sua incursão através do subsolo cada vez mais profundamente em busca de novos minérios em quantidades cada vez maiores. As entranhas do planetinha azul, pejadas de substâncias metalíferas e de outras denominações, aliadas à engenhosidade humana, determinaram a existência das chamadas minas que, no mais das vezes, são apenas buracos cavados até onde for necessário para se extrair o minério demandado.

Em torno de 1500 a.C. surge o que se convencionou chamar de idade do bronze, que é marcada pelo aparecimento da metalurgia a qual, nessa época, se resumia em fundir o cobre com outros metais (geralmente estanho) para se obter uma liga mais resistente que era empregada principalmente na fabricação de espadas e pontas de lanças. Alguns dos artefatos fabricados em pedra, como os machados ou os furadores, são agora também neste metal, implicando uma maior produção e rentabilidade, funcionando mesmo como símbolos de prestígio e poder. Inaugurada a idade do bronze, esta permitiu um avanço significativo nas conquistas humanas e, em consequência, na marcha do progresso, marcha essa que adquiriu mais ênfase quando, finalmente, o ferro foi obtido e utilizado na substituição do bronze. Agora, espadas de bronze eram superadas por espadas de ferro, e a idade do ferro forçou a perfuração de novas e mais profundas minas. Quem mais perfurasse mais poder econômico, político e militar obtinha, a civilização estava atrelada biunivocamente às minas.

Na era atual é impensável prescindir das minas, prescindir dos minérios que estão entranhados nos diversos níveis de profundeza da crosta terrestre, não há alternativa, carvão, petróleo, ferro, cobre, cobalto, alumínio, tungstênio e outros metais são o esteio da civilização. Claro que a necessidade de metais mais raros e encontráveis a maiores profundidades, obrigou a tecnologia de mineração se sofisticar, mas, a despeito de leis que regulamentam com bastante rigor as atividades mineiras, por si só perigosas, não impedem que empresários não tão escrupulosos, contornem as exigências de segurança e acabem facilitando a ocorrência de acidentes fatais. A China é campeã mundial na categoria, lá mais mineiros morrem por ano do que todas as mortes em minas dos demais países somados. Este televisivo e comentado acidente na mina de San José, no Chile neste ano, entra na categoria dos desastres anunciados, os mineiros estavam trabalhando em condições inseguras por falta de investimento em segurança por parte da mineradora.

Na Austrália a mineração de carvão é uma atividade que mais rende divisas para o país, as minas de lá fornecem o carvão que entrará na fabricação do aço no Japão. Milhares de toneladas de carvão são exportadas diariamente para aquele país, que produz aço para suas montadoras de automóveis, os quais são vendidos para o mundo todo, inclusive para a Austrália. A atividade mineradora no país é muito regulamentada no quesito segurança e as empresas, sob o risco de serem fechadas, obedecem as normas com muito rigor. Meu filho mais novo, Adriano, é mineiro de carvão. Depois de trabalhar com informática numa grande empresa, resolveu tirar a gravata, matriculou-se num curso de mineiração e começou a trabalhar nas minas de carvão, primeiro no interior do país próximo ao outback, agora em antigas minas no litoral de New South Wales, próximo a Sidney. Diga-se, o trabalho em mineração de carvão é um dos mais bem pagos da Austrália, e meu filho trabalha apenas três dias (as vezes, noites) por semana, nada mal portanto.

O Adriano é um mineiro convicto, gosta do que faz e, já que se tornou australiano há oito anos, integrou-se completamente ao espírito das minas, se é que isso existe. Mineiros australianos são uma categoria de trabalhadores extremamente exigidos, não podem beber em dias de trabalho, não podem usar quaisquer tipos de drogas, não podem sair para “noitadas” e são obrigados a manter um estado de higidez rigoroso controlado por exames periódicos de saúde. Decorrente da seriedade com a qual se trata a segurança mineiral, se um mineiro for demitido por justa causa de qualquer mina, jamais será admitido em outra, as empresas não permitem que seus empregados representem algum perigo ou desconforto para a atividade.

Tive a oportunidade de descer 170 metros numa mina, descida precedida de uma aula de segurança de duas horas com prova escrita. Gostei do que vi, a descida se fazia através de veículo próprio e as condições no interior do buraco são de modo a colocar a segurança em primeiro lugar. Desde 1975 não há qualquer acidente fatal nas minas australianas, o que me dá certa tranquilidade mesmo sabendo vez ou outra de acidentes na China e até nos EUA. O mineiro Adriano está indo bem, obrigado! JAIR, Floripa, 13/10/10.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O SUPER VIRA-LATAS


Desde que o homem, provavelmente há mais de dez mil anos, domesticou o lobo asiático, convive com seus descendentes seja na forma de raças (selecionadas geneticamente) novas ou da raça original adaptada ao meio humano. O Dingo (Canis lupus dingo), canideo que vive no meio selvagem australiano, provavelmente é um cão doméstico que foi revertido para o estado selvagem há milhares de anos e hoje vive em grande parte independente dos seres humanos, na maioria de sua distribuição. Os Dingos são considerados os únicos grandes mamíferos placentários da Austrália, além dos seres humanos, e parecem semelhantes aos cães domésticos, mas sua adaptação ao meio selvagem é de tal ordem que considerá-los nativos não é estultice. Também sua origem ainda é assunto em aberto e sob muita especulação e debate desde o século 18. No entanto, estudos arqueológicos indicam sua introdução foi relativamente tarde, por volta de 5000 anos atrás, e há uma estreita relação com outros cães domésticos. Uma teoria amplamente aceita diz que dingos evoluíram ou foram criados a partir do lobo asiático em torno 6,000-10,000 anos atrás, teoria também aceita para todos os demais cães domésticos. No entanto análises genéticas indicam uma domesticação muito mais cedo. Dingos têm uma cabeça relativamente grande, um focinho pontudo, e orelhas eretas, mede em torno de 52-60 centímetros de altura nos ombros e o macho adulto chega a pesar 27 quilos. Os machos são normalmente maiores e mais pesados que as fêmeas da mesma idade. Sua pelagem é geralmente amarela, podendo variar de marrom avermelhado até o quase branco. As pernas são cerca de metade do comprimento do corpo e da cabeça juntos. Como todos os cães domésticos, os Dingos tendem para uma comunicação fonética, a a diferença é que eles usam principalmente gritos e choramingos e latem com menos freqüência do que outros cães. Foram registrados, oito classes de sons com 19 variações usadas em ocasiões diferentes. Dingos vivem hoje em todos os tipos de habitats, incluindo a coberto de neve florestas montanhosas do leste da Austrália, secos desertos quentes da Austrália Central, e as zonas úmidas de florestas tropicais do norte da Austrália. Alimentam-se de insetos, répteis, aves e mamíferos que normalmente caçam. Hoje, o Dingo é considerado como parte da fauna nativa da Austrália pelos ambientalistas, bem como os biólogos, especialmente porque já existiam no continente antes da chegada dos europeus, e uma adaptação mútua dos cães ao meio e deste aos cães havia ocorrido. No entanto, há também a opinião contrária, que dingos são apenas outro predador originário da Tailândia. Entretanto, sejam quais forem sua origem, idade de domesticação ou descendência, o que se tem que admitir é que são animais extremamente adaptados a um meio inóspito que não perdoa fraquezas e vacilos. O out back australiano, deserto vasto e hostil, não permite que sobreviva qualquer ser que não seja, pelo menos, particularmente resistente, tenaz e adaptável. A falta de água, a escassez de abrigos e a inclemência do clima selecionam as espécies, deixando que sobrevivam apenas as melhores. Considerando que vira-latas é aquele cão sem raça definida que se adaptou a viver e reproduzir-se com sucesso nas piores condições possíveis, o Dingo pode ser considerado um um super vira-latas. JAIR, Floripa, 12/11/09.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

SINAL DOS TEMPOS



Na Austrália, grandes porções de seu imenso território são desérticas, o chamado Outback. Localizado na Austrália Central é caracterizado por extensas planícies, inclui o Grande Deserto de Gibson, o Grande Deserto de Areia, Grande Deserto de Vitória, Pequeno Deserto de Areia, Deserto Nullarbor Plain Painted, Deserto Pedirka, Deserto Simpsom, Deserto Strzelecki, Deserto Sturt's Stony, Deserto Tanami e Deserto Tirari, é deserto para nenhum tuaregue ou a habitante do Shael africano botar defeito. A maioria dos desertos se encontra no centro e noroeste do país. O tamanho dos desertos combinados chega a 1371000 quilômetros quadrados e ocupam quase 2/3 do continente. Em grande parte dessa região, especialmente na seca porção ocidental, os únicos humanos habitantes da área são aborígines Australianos, muitos dos quais têm tido muito pouco contato com o mundo exterior. Nas regiões mais áridas prevalece uma flora espinhosa conhecida como "scrub". Porém, na região do oeste existem mais de 6.000 variedades de flores, que desabrocham entre os meses de setembro e novembro. A fauna se caracteriza pela existência de dingos, cães selvagens australianos que sobrevivem da caça; dromedários que foram trazidos do Afganistão quando da colonização e se adaptaram à região tornando-se praticamente nativos; algumas espécies de cangurus não muito exigentes quanto à alimentação e água; uma variedade enorme de lagartos e cobras; e, o mais curioso, uma espécie de sapo vive numa zona onde chove apenas uma vez em cada sete anos e tem a capacidade de absorver muita água que mantém em reserva, através de produção de queratina, substância que existe nas unhas e cabelos. A produção de queratina produz uma espécie de embalagem natural, que permite ao sapo conservar a reserva de água durante muitos anos até que chova de novo. Próximo a Alice Springs, bem no meio do continente, - e do Outback por consequência - localiza-se a famosa formação rochosa conhecida como Ayers Rock, ou Uluru, que tem 346 metros de altura e atrai turistas do mundo inteiro. O Uluru é um monólito de arenito vermelho que lhe dá aquela cor característica, aliás, cor predominante em todos os desertos devido à areia vermelha que forma os solos antigos.



Também curiosa é a cidade subterrânea Coober Pedy que é hoje uma das mais diferentes cidades da Austrália. Sua população de 3.500 habitantes é formada por mais de 45 nacionalidades diversas. O estilo de vida calmo e simpático da cidade a tornou um local de tolerância e diversidade cultural. Coober Pedy é mais conhecida por suas habitações. Há várias acomodações subterrâneas que protegem do duro clima de fora (mas há também casas acima do solo, para quem preferir). O visitante pode conhecer as autênticas casas subterrâneas, assim como os museus, lojas de opala, capelas e igrejas e claro, as minas de opala! Pois é, tirante essa imensa região desértica onde predominam espécies curiosas de flora e fauna, e onde a Inglaterra explodiu três bombas atômicas na década de cinquenta, a Austrália é um país desenvolvido, com um povo multi-étnico trabalhador, com ótima distribuição de renda, sem desemprego, com alguns problemas raciais mal resolvidos com os aborígines, mas muito ativo, atrativo e bonito. A maior parte (95%) de sua população de 24 milhões de habitantes concentra-se nas bordas do continente, no litoral, onde a agricultura produz não só para consumo interno, como também para exportação. Indústrias de máquinas pesadas, naval e exploração de minas de carvão, ferro, ouro e diamantes também se situam no litoral. Acontece que o litoral australiano, seja no leste no lado do Pacífico, ou no oeste no oceano Índico, no norte ou no sul, é um mundo diferente do Outback, os habitantes do litoral têm água em abundância, têm florestas tropicais, clima temperado, frio e até neve nos picos mais altos e vidas urbanas sem qualquer aparência bizarra ou conduta exótica. Esta semana, esse mundo “normal” tornou-se uma estranha mistura de clima marciano e ambiente de ficção científica. Ventos de mais de cem quilômetros por hora oriundos do Outback, carregando milhões de toneladas de poeira vermelha dos desertos, invadiram as cidade de Sydney e outras no litoral de Nova Gales do Sul deixando-as com aparência, no mínimo, inusitada, para não dizer esquisita. E para quem consegue ver poesia em crepúsculos e arrebóis, o céu mais maravilhoso depois das auroras boreais e austrais. O ar que envolve as cidades tornou-se vermelho e opaco, as luzes das ruas tiveram que ser acesas de dia e os aeroportos foram fechados, ninguém ficou alheio ou imune à poeira. Há que lembrar que tal fenômeno NUNCA havia acontecido antes, sendo que há setenta anos houve um caso parecido mas de proporções sensivelmente menores. Quando se dá pouca importância aos alertas de aquecimento global e suas consequências; quando os países como China e Estados Unidos, maiores poluidores do Planeta, não se preocupam em diminuir suas emissões de carbono; quando a humanidade continua consumindo níveis elevadíssimos de energia em nome de um tal desenvolvimento que atinge apenas os países já desenvolvidos, parece que a natureza dá o aviso: “vejam o que sou capaz de fazer se vocês, humanos gananciosos e insensíveis, não se conscientizarem dos problemas que estão criando”. Enchentes brutais, secas duradouras, frios intensos, calor em excesso, chuva ácida, neve em época e local errados e ventos secos carregados de poeira deletéria, estão aí para provar que o clima do Planeta está reagindo à incúria do bicho homem que não cuida da casa onde vive; que não se preocupa com a conservação de seu próprio lar; que não olha com responsabilidade de ser pensante e racional para o futuro da sua espécie e dos demais seres que aqui vivem. A resposta da natureza à negligência humana é o Sinal dos Tempos, é o aviso urgente que seremos vítimas de nossa própria incapacidade de gerir os recursos que ela põe à nossa disposição. JAIR, Floripa, 23/09/09.

terça-feira, 9 de junho de 2009

CASA DE MADEIRA



Nasci e fui criado numa casa de madeira sem atrativos, pequena, paredes de tábuas verticais, janelas e portas de madeira maciça pintadas de vermelho, assoalho de tábuas corridas quase brutas, caiada por fora e por dentro, cobertura em duas águas de telhas francesas. A casinha de três quartos, sala e copa/cozinha, tinha uma pequena varanda nos fundos era muito aconchegante, não quente em excesso no verão, nem fria demais no inverno, e constituía o abrigo no qual, normalmente, uma família bem pobre podia morar naquele tempo e lugar. Casas como aquela eram comuns no sul do Paraná onde a abundância de madeira permitia construções bastante duradouras de qualidade razoável a baixo custo. Ainda hoje na região é normal encontrarmos grande quantidade de casas de madeira, modestas nas bem conservadas, que foram construídas há décadas por pessoas de baixo poder aquisitivo. Essas casas ainda são uma opção barata de moradia para pobres e também possibilidade de sofisticação para quem quiser gastar bastante numa casa de paredes duplas, avarandada, grande e confortável, como quase a totalidade das casas de moradia na cidade de Brisbane na Austrália. Nos primórdios o homem vivia em cavernas e reentrâncias de rochas. Era ali que se abrigava das intempéries, se defendia de animais selvagens, dormia e praticava os atos comuns da vida familiar. Há indícios que, assim que saiu dos buracos, a madeira foi a primeira matéria prima a ser utilizada pelo homo sapiens para construção de abrigos mais ou menos permanentes. Em qualquer lugar que fosse possível encontrar com facilidade materiais vegetais aptos para a construção, eles eram aproveitados para serem utilizados sobre qualquer tipo de estrutura de madeira. Deste modo, as escassas exigências de um abrigo para algumas tribos paleolíticas, ficavam satisfeitas com uma simples armação de ramos ou pequenos troncos, que se cobriam com folhas, capim, peles de animais ou cascas de árvores. Troncos e galhos que serviam de apoio e suporte para coberturas simples, foram os precursores das estruturas de madeira atuais cuja evolução técnica foi gradualmente e ao longo dos séculos servindo as exigências do homem de acordo com o clima e outros fatores que influenciavam na construção dos abrigos. Os diversos modos com que se realizavam os encaixes das distintas partes da estrutura de uma casa foram determinados pela qualidade das ferramentas, mais ou menos sofisticadas, que os diversos povos desenvolveram ao longo do tempo. Assim como, a complexidade das construções e a durabilidade dos materiais empregados estavam de acordo com a intenção de maior ou menor permanência no local, em geral determinada pela disponibilidade de alimentos e a inclemência do clima da região. Como atestam as habitações de tribos seminômades ainda remanescentes, em muitos locais a união das peças de madeira era realizada apenas com o auxílio de cordas tecidas com as fibras de folhas e cipós. Estas uniões eram muito resistentes e graças a sua grande flexibilidade, resistiam a ventos fortes e mesmo a vendavais violentos. Na cobertura destas habitações, eram utilizados materiais de origem vegetal, que aos poucos foram substituídos por outros, (tecidos fortes e esteiras feitas com fibras de palmeiras) que mais tarde serviram de suporte a camadas de barro e argila, que, posteriormente, deram origem as telhas, mais transportáveis e de fácil reposição. A grande variedade de casas construídas a base de peças de madeira unidas entre si com fibras vegetais, fala por si mesmo da solidez da sua construção e da sua segurança estrutural, constituindo e talvez desde sempre o método mais eficaz e mais econômico de utilização de materiais naturais que se encontram em toda a parte do mundo. Algumas dessas estruturas como as das casas da Ásia central alcançaram um nível tão grande de desenvolvimento que dificilmente a tecnologia moderna terá algo a acrescentar. Estas construções chegaram até hoje, como testemunho da sua extraordinária tecnologia. Mesmo quando a intenção do homem sedentário, ou a abundância de material lhe impunham construção de algo mais sólido e duradouro como casas de pedra, alvenaria ou de barro, a casa de madeira ainda era uma alternativa a que muitos povos recorriam em função de sua praticidade e rapidez de construção. Assim, ao longo dos séculos, casas construídas com os mais variados materiais conviveram mais ou menos harmoniosamente, apresentando arquiteturas próprias, antagônicas, complementares e até misturadas mas, quase sempre, o que definia se a casa seria de madeira ou de alvenaria, por exemplo, era o poder aquisitivo do proprietário. Madeira para os pobres, materiais mais nobres para os aquinhoados. Há dois problemas para quem mora em casas de madeira: o estigma e as dificuldades de manutenção. As pessoas normalmente vêem a casa de madeira como demérito e sinal de pobreza. Há um preconceito que envolve o assunto. A outra questão é a dificuldade de manutenção das casas, se a manutenção é cara ou difícil as casas deterioram-se sem que os a ocupantes façam algo para mantê-las bem, atraentes e funcionais. No mundo ocidental em que vivemos, onde nos é permitido verificar os desníveis sociais naturais da sociedade capitalista, no qual existe uma maioria de despossuídos, e uns poucos ricos e poderosos, as casas de madeira como aquela na qual nasci, tornaram-se símbolo do operariado que vive de salário mínimo. Não por saudosismo gratuito ou nostalgia indefinida ainda guardo boas lembranças da casinha humilde que passei minha infância. A madeira parece ter vida. Nos veios e nos nós, você lê a história e nobreza dela. Os mais sensíveis, até sentem as vibrações do ambiente onde ela esteve no passado, sentem a alma da árvore que lhe deu origem. Não chego a tanto, mas sinto que minha infância não teria sido a mesma sem aquela casinha simples, teria sido menos alegre e despreocupada por certo, e, talvez, menos interessante. O fato de a moradia ser singela, desprovida de ornatos, "clean" como se diria hoje, influi nos espíritos das pessoas de modo a tornar suas vidas menos complicadas, casa de madeira é um importante componente minimalista, só quem viveu numa delas é que sabe do que estou falando, abraços. JAIR, Canoas, 09/06/09.

sábado, 4 de abril de 2009

NED KELLY


A principal fonte alimentação dos Incas era a batata, a qual era desconhecida no resto do mundo. Em 1536 os espanhóis levaram a batata do Peru para a Espanha onde ela se difundiu para a Europa, tornando-se, a partir do século XVIII, o alimento básico de praticamente todos os países europeus, algo equivalente ao arroz na Ásia e ao feijão-com-arroz nosso de cada dia. Especialmente na Irlanda a batata, já batizada de batata inglesa, era usada em grande quantidade e em todas as formas, principalmente na alimentação das classes mais pobres de camponeses e artesãos. No início da década de 1840, as terras da Irlanda, então possessão da Grã-Bretanha, foram acometidas por um terrível fungo que atacou as plantações de tubérculos. Tratou-se da tristemente célebre praga da batata que provocou um dos maiores surtos de fome da Europa moderna. Um fungo mortífero liquidara com quase todas as plantações, matando pela inanição e doenças, segundo estimativa, quase dois milhões de irlandeses, número significativo para uma nação com apenas oito milhões de habitantes. Os que podiam e tinham dinheiro trataram de migrar para o exterior, entre eles o bisavô do futuro presidente John F. Kennedy, que embarcou para os Estados Unidos. Muitos pobres, agora tornados miseráveis e famélicos, voltaram-se para o roubo e o saque a fim de sobreviverem. Para os agricultores atingidos, a praga da batata assumiu caráter de maldição divina, de séria e obscura transgressão teológica. Supersticiosos, os camponeses pobres e analfabetos, suspeitavam que havia alguma mácula, algum pecado que estariam expiando por terem nascidos gaélicos e católicos ao lado de um nação protestante saxônica, cujos poderes econômicos e políticos lhes eram impostos goelas abaixo. Para aumentar-lhes o infortúnio, as punições não vieram somente do Céu, pois os grandes proprietários, alegando inadimplência dos arrendatários e da arraia miúda de lavradores, os expulsaram das habitações (só em 1845 foram despejados das terras quase oitenta mil camponeses). Nesta época, o Império Britânico vivia sua maior opulência, poder e expansão, era "O Império onde o sol nunca se põe”. Desde 1837 governado pela Rainha Vitória, a qual ficaria no poder por sessenta e quatro anos, tendo nesse tempo elevado a Inglaterra ao posto de maior império do mundo, inaugurou a Era Vitoriana, época na qual o Império consolidou suas colônias ao custo de guerras sangrentas na Índia, Criméa e Afica do Sul. O seu governo era sinônimo de pontualidade, sofisticação e intolerância religiosa, graças ao fato de a soberana ser geniosa, obstinada e ter imposto um estilo de vida e comportamento aos súditos, em todos os cantos do Império. Com colônias nos cinco continentes habitados, a coroa inglesa não tinha pejo em adotar uma política desumana de degredo, cujo objetivo não confessado era povoar a qualquer custo terras longínquas e inóspitas como Austrália, Nova Zelândia, África do Sul etc, para onde a maioria dos cidadãos comuns não iria de vontade própria. As alegadas razões para degredo de cidadãos podiam ser as mais fúteis como o simples roubo de uma galinha, por exemplo. Assim, desde a década de 1770, a Austrália possuía colônias penais na baía de Sidney e na então chamada Colônia de Vitória, para as quais a Inglaterra enviava seus condenados. Foi assim que, John Red Kelly, irlandês de Tipperary, pobre, rústico e católico, - tudo que os ingleses não aturavam - atingido pela fome proveniente da praga da batata, foi condenado a sete anos de prisão por roubar dois porcos de um vizinho e deportado para uma prisão da colônia de Vitória na Austrália. Em Port Phillip District, quando sua sentença expirou em 1848, conheceu a também irlandesa Ellen Quinn de 18 anos, com quem se casou em 18 de novembro de 1850. Edward Ned Kelly, nascido em 1854, era fruto desse casamento. Garoto saudável e ativo, embora semi analfabeto como seus pais, tios e avós, aos doze anos foi condecorado pelo prefeito de Beveridge, por ato de bravura por ter salvo um garoto um pouco mais velho de se afogar num lago das proximidades. Foi agraciado com um cinto cerimonial verde e dourado, o qual passou a usar em todas as ocasiões até sua morte. Estudou só até 1866, ocasião em que seu pai faleceu e ele assumiu o arrimo da mãe, irmãs e irmão. Há que se notar que Ned nasceu e vivia num local de pequenas propriedades rurais onde todos eram irlandeses pobres, local considerado covil de ladrões pelas autoridades inglesas. Nessa Austrália do século XIX, a polícia da colônia de Vitória já sabia quem procurar quando precisava de um culpado para qualquer delito: irlandeses ou descendentes, pobres e sem instrução, nascidos na zona rural. Se a suspeita não se confirmava, o sangue quente dos buliçosos irlandeses, inimigos figadais dos ingleses, que mandavam no governo, se encarregava de torná-la realidade. No ano de 1871, Ned foi preso por assalto e roubo de um cavalo. Tudo indica que ele fosse inocente: mais uma vítima da implicância policial. Segundo carta de Jerilderie, documento de 1879 em que o bandoleiro narra sua versão dos fatos, os primeiros crimes foram cometidos só depois, quando a perseguição não permitia que sua família vivesse em paz. Ned começou roubando cavalos e destilando bebidas alcoólicas caseiras e só ficaria mais ousado a partir de 1878, após a prisão de sua mãe. Ele e seus amigos realizaram assaltos espetaculares a bancos em Euroa e Jerilderie em 1878 e 1879 e, como Robin Hood, distribuíram dinheiro aos familiares dos colonos perseguidos e presos por suposta conivência com os crimes de sua quadrilha. Passou a ser acossado pela polícia inglesa que chegou a “importar” o policial Sr Reardon da África do sul depois que Ned, seu irmão Dan e dois amigos, num dos confrontos com a lei, mataram três policiais durante uma fuga. Foram oferecidas 100 libras para quem o capturasse ou matasse. Nos anos seguintes, o valor atingiu 2.000 libras, o equivalente hoje a aproximadamente 500.000 reais, só para comparar, a polícia do Rio de Janeiro recentemente ofereceu 50.000 reais pela captura do traficante Elias Maluco. Mas Ned não se intimidou e respondeu na mesma moeda: passou a oferecer prêmios pelas cabeças dos chefes da polícia local. O último confronto do bando com seus perseguidores aconteceu em Glenrowan, em 28 de junho de 1880. Entrincherados em um hotel, Ned, seu irmão Dan, Joe Byrne e Steve Hart , demonstrando rara e insuspeitada habilidade metalúrgica, improvisaram eficientes armaduras de ferro que lhes cobriam o peito e a cabeça, mas que deixavam a pernas vulneráveis. O tiroteio durou 12 horas e só acabou com a morte de todos os membros do bando, menos um: Ned Kelly, preso depois de levar 28 tiros nas pernas e enfrentar sozinho cerca de 50 agentes da polícia. Ned foi enforcado em Melbourne em 11 de novembro daquele ano, apesar dos apelos de sua mãe e das 32.000 assinaturas contrárias à sua execução. Cortaram-lhe a cabeça e enterraram seu corpo no pátio da prisão. Até hoje ninguém sabe do paradeiro desses restos mortais, o que aumenta ainda mais o fascínio da lenda de Ned Kelly. Cultuado como herói dos desvalidos, os quais viam nele o paladino defensor dos oprimidos contra os tiranos ingleses, em várias cidades do interior foram erguidas estátuas gigantes em sua homenagem, como esta da foto acima, a qual tive oportunidade de conhecer quando lá estive. Já foram feitos seis filmes contando a saga desse Robin Hood australiano, o mais famoso tendo Mick Jagger e o mais recente Heat Ledger como Ned. JAIR, Floripa, 04/04/09.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

ULURU

Monólito, do dicionário: Obra, monumento ou bloco natural formado de uma pedra só. O Pão de Açúcar no Rio de Janeiro é um exemplo típico de monólito, neste caso, um bloco único de granito. O Uluru é um monólito, tem 338 metros de altura, três quilômetros de extensão e, segundo os geólogos, mais dois mil e quinhentos metros sob a terra, o que o torna o segundo monólito do planeta em tamanho, o primeiro chama-se Monte Augustus, e também se situa na Austrália. Esse colossal monólito é constituído de arenito. Arenitos são rochas sedimentares (formadas por sedimentos que se depositam, geralmente no fundo de um lago) constituídas por areias aglutinadas por um cimento natural, que geralmente caracteriza a rocha, ou seja, trata-se de rochas feitas de areia, daí o nome. O Uluru situa-se no centro norte da Austrália e é o local mais reverenciado pelos aborígines. As cavernas ao redor de Uluru abrigam pinturas sagradas que mostram “The dreaming”, o tempo mágico do conceito aborígine da criação, quando o universo passou a existir. Para os aborígines Anangu, tribo que vive no Parque Nacional Kata Tjuta no qual está situado o monólito, Uluru é um ser vivo que abriga dezenas de seres ancestrais que ainda vivem em lugares especiais nas cavernas e reentrâncias da pedra. Suas atividades são registradas em alguns locais da rocha e muitas das histórias são sagradas e cobertas de segredos. Em 1980 o parlamento australiano “reconheceu” a posse da pedra, que os brancos chamam de Ayers Rock, e do parque aos Anangus, ainda que estes vivessem ali há milhares de anos, e estes o arrendaram ao estado Australiano por 99 anos. Os turistas que visitam o monólito normalmente têm a finalidade de escalar suas vertentes, mas os nativos não enxergam com bons olhos essa atividade, pois lhes parece uma profanação de local tão sagrado e importante para sua cultura. Os Anangu não escalam o bloco rochoso e limitam-se a solicitar aos visitantes que os respeitem, e às suas leis tradicionais. Proibir não faz parte da sua cultura, de forma que pedem, apenas. Apesar dos apelos, quase sempre há inúmeros turistas, como a carreiras de formigas, subindo e descendo o monólito, se lixando para os pedidos dos legítimos proprietários do lugar. O que torna a pedra de uma beleza rara é sua capacidade de refletir cores de acordo com a posição do sol. Sua composição arenítica contém o mineral feldspato e este lhe confere tons de magenta, laranja, vermelho, amarelo e amarronzado de acordo com a reflexão solar, é um espetáculo magnífico apreciar suas mudanças de brilhos, sombras e cores, texturas e formato aparente. Bem, esse maravilhoso monumento está solidamente fincado na paisagem do Out Back desde trezentos milhões de anos e só nos últimos quarenta anos já sofreu mais danos que todos os desgastes naturais do sol, da chuva e dos ventos infringidos durante o resto do tempo. Os visitantes costumam tirar lascas da pedra para levar como souvenir. É de se pensar se o homem, esse maldito dilapidador, não está no mundo apenas para isso: transformar o perene em transitório; estragar em dias o que a natureza levou milhões de anos para construir; destruir tudo e todos de forma a tornar o planeta inabitável em pouco tempo. Esperemos que não! Façamos votos que venha aí uma geração de pessoas conscientes da fragilidade do equilíbrio natural existente entre os seres vivos, - entre eles o homo sapiens, é claro – e o ambiente que os cerca. A harmonia do planeta está em nossas mãos, seremos os agentes de sua destruição ou de sua preservação, depende de nós. JAIR, Floripa, 01/04/09.

quarta-feira, 25 de março de 2009

ABORÍGINES


No post anterior, “TERRAE AUSTRALIS” intencionei mostrar alguma coisa daquele país e, en passant, dei uma pincelada na existência dos aborígines, nome como são conhecidos os nativos australianos. Para começar vamos referir ao evento do “descobrimento”, palavra usual com a qual os navegadores costumam nomear a primeira chegada em uma terra antes desconhecida por eles. O descobridor europeu oficial da Austrália foi o Capitão James Cook, que reivindicou o vasto continente para a coroa do Reino Unido no dia 21 de Agosto de 1770 ao qual chamou Nova Gales do Sul. Entretanto, mesmo desconsiderando a colonização aborígine acontecida há dezenas de milhares de anos, a “descoberta” do Capitão Cook foi apenas uma das chegadas àquele continente, porquanto navegadores portugueses, espanhóis e holandeses em datas anteriores haviam triscado suas bordas sem desembarcarem, porque a terra era muito inóspita e muito longínqua, não valia à pena nem desembarcar quanto menos colonizá-la. Como os demais continentes “descobertos” pelos europeus, a Austrália também não era uma terra vazia de gente, existia um número bastante expressivo (cerca de 300 mil) de nativos embora estes fossem considerados, pelos descobridores, uma raça em extinção, chamando-os de remanescentes do Neolítico, numa evidente demonstração de desprezo e suposta superioridade dos brancos descobridores, frente a esses "primatas". Começo nada auspicioso para aquele povo que havia sobrevivido por cerca de quatrocentos séculos e desenvolvido uma cultura própria a despeito das condições adversas extremas das terras australianas. Na época da chegada dos ingleses o povo indígena estava dividido em 500 grupos, vivendo em bandos como caçadores-coletores e falando 200 tipos de dialetos diferentes. Não detinham conhecimento para confeccionar cerâmica, arcos e flechas, casas ou abrigos elaborados, objetos simples de madeira ou armas, a não ser o bumerangue que era usado principalmente na caça aos cangurus, e o didgeridoo instrumento musical feito de galho oco e que produz um som primevo e único, o qual remete à natureza, ao voo dos pássaros, ao vento e aos ruídos dos insetos e outros animais. Os habitantes originais daquele continente eram tão desprezados pelos europeus que a Constituição do país fazia apenas duas referências a eles: a que os excluía do censo e a que os deixava sob poder dos estados e não do Governo Federal. Visível aí o raciocínio deturpado do legislador, não eram GENTE então não precisavam ser contados como tal; não eram IMPORTANTES, logo, o que os estados decidissem ou não a respeito deles estava correto, não havia necessidade da União defendê-los ou tutorá-los. Diante dessa omissão do estado, os nativos eram caçados a tiros como esporte de fim-de-semana dos colonizadores. Em 1940, usando a lógica: “o mais forte sempre tem razão”, os aborígines foram catequizados e integrados à vida rural e urbana como trabalhadores braçais mal pagos e sem direitos trabalhistas. As crianças eram tiradas dos pais e dadas a famílias brancas com o intuito de promover uma melhor interação delas com a sociedade dita “moderna” e de usá-las com empregados não remunerados (escravos) nos serviços caseiros mais sujos e degradantes. Toda uma geração de nativos se viu forçada a uma convivência não desejada e perdeu sua identidade aborígine sem conseguir outra em troca, já que os brancos continuavam a considerá-los inferiores raciais. A partir de 1967 o cenário da vida do povo aborígine começou a melhorar um pouquinho só. A população australiana votou pela inclusão dos aborígines no censo. Aleluia! Finalmente são GENTE! Agora só lhes falta serem reconhecidos como cidadãos. Em 1969 o geólogo australiano Jim Bowler descobriu o “Mungo Man”, fóssil de um aborígine que teria vivido há 40 mil anos atrás, o que comprovou os habitantes nativos como o povo mais antigo a seguir uma cultura no mundo. Suas línguas e dialetos seriam os mais antigos do planeta, assim como seu sistema de crenças. Que crenças seriam essas? “O Sonhar”, ou “The Dreaming” engloba a base da cultura, filosofia, folclore, leis, rituais e lendas do povo aborígine. Para eles, essa filosofia é uma espécie de bíblia vocal que explica a criação do Universo. Em 1983 o Parlamento australiano reconheceu-lhes o direito à terra já que, para eles esta é sagrada, em conseqüência passaram a receber indenização em forma de pagamentos semanais como uma espécie de compensação pelo uso que os brancos fazem de sua propriedade. No entanto, apesar de já integrados e tendo suas crenças e direitos reconhecidos, os aborígines ainda eram considerados um povo em vias de extinção. Só que para um povo à beira da extinção, os aborígines resistem muito. Continuam rebeldes, são contrários a sistemas hierárquicos e segundo as autoridades australianas, é difícil governá-los. Destituídos de seus valores culturais, afastados de seu modus vivendi e não integrados cultural, econômica e socialmente ao mundo branco que os cerca, muitos acabam se rendendo ao alcoolismo e possuem qualidade de vida muito inferior ao restante da população australiana. A expectativa de vida do povo aborígine chega a ser 20 anos menos que a dos colonizadores brancos. A exemplo do que ocorre com todos os povos subjugados pelo horror da colonização, aliado ao desprezo que os donos do poder dedicam aos povos submetidos ao seu jugo, muitos aborígines são hoje mera atração turística nas ruas de grandes cidades, tocando didgeridoo ou deixando-se fotografar a troco de “golden coins”, moedas de um e dois dólares australianos. O único consolo que ocorre a quem, como eu, torce pela perpetuação de um povo tão tripudiado e sofrido quanto pertinaz e interessante, é saber que no caso de hecatombe nuclear ou desastre de proporções tais que todas as fontes de alimentos desapareçam e a civilização venha a ser exterminada pela fome, os aborígines vão continuar vivos e saudáveis, provavelmente tornar-se-ão os donos do Planeta. JAIR, Floripa, 25/03/09.

segunda-feira, 23 de março de 2009

TERRAE AUSTRALIS


Nada mais previsível e natural que minha atividade de beletrista eventual me compulsasse escrever sobre a Austrália, esse país continente que fascina pela exoticidade da fauna e espanta pela distância aos demais países ditos civilizados, e que tive oportunidade de visitar por três vezes em sua porção territorial leste, nordeste e sudeste. A Austrália é o único país onde, nos tempos modernos, ou seja, quando do “descobrimento”, todos os povos nativos ainda viviam sem qualquer marca da chamada civilização – desprovidos de agricultura, gado bovino, metal, arcos e flechas, construções significativas, aldeias, escrita, tribos centralizadas ou organizações sociais complexas. Ao contrário, os aborígines australianos eram (são) nômades ou caçadores-coletores seminômades organizados em bandos – mais antiga organização social humana, pelo que se sabe através de estudos arqueológicos – e vivendo em abrigos temporários ou cabanas e usando apenas instrumentos de pedra polida, como homens primitivos de quarenta ou cinqüenta mil anos atrás. Durante os últimos treze mil anos, menos mudanças culturais ocorreram na Austrália do que em qualquer outro continente. Esse estágio, aparentemente estacionário dos aborígines, levou um explorador francês, com evidente conotação racista, a dizer: “Eles são a gente mais miserável do mundo, e seres mais próximos das bestas selvagens”. Diga-se, a maior parte dos exploradores europeus que lá chegou por consequência da colonização assim pensava e agia de acordo, isto é, considerava os nativos não humanos, os quais podiam ser (e eram) caçados como se animais selvagens fossem. Dos estimados trezentos mil habitantes originais do país, restavam menos de trinta mil quando, em 1983, o Parlamento australiano os reconheceu, ainda que tardiamente, como seres humanos e, mais ainda, reconheceu-os como proprietários legítimos das terras australianas, de modo que a partir daí, o Estado paga uma indenização a cada aborígine pela ocupação que os brancos fazem de suas propriedades. Mais de quarenta mil anos atrás, sociedades nativas australianas desenvolveram as ferramentas de pedra mais antigas que se conhece e as primeiras embarcações, e isso lhes dava uma dianteira tecnológica frente a outros povos que habitavam a Europa e a Ásia, contudo, estagnaram, permaneceram no estágio da pedra polida, sequer passaram para o arco e flecha. O que teria acontecido com esses promissores povos de modo que não mais conseguiram avançar no sentido da civilização como outras populações o fizeram, de tal forma que os europeus acabaram conquistando a Austrália e não ao contrário? Por que os astralianos não fabricaram ferramentas de metal, não inventaram a escrita nem desenvolveram sociedades politicamente complexas? É, minha gente, a resposta está na aridez do solo, na esterilidade dos ambientes e na imprevisibilidade do clima das terras australianas que são uma realidade cruel onde inexistem plantas e animais domesticáveis, o que limitou a população de caçadores-coletores em trezentos mil habitantes, comparada com milhões na Eurásia, mais de dois terços do país – sua porção central – são desertos hostis onde não existe água e nada cresce, e é impossível criar tecnologia onde nada existe. Por falar em nada, a paisagem na maior parte da Austrália, descontando o Out Back que é deserto puro e inóspito, consta de regiões planas cobertas de enormes florestas secas e bem ralas de eucaliptos – existem mais de duzentas espécies dessa planta, desde pequenos arbustos até aquelas árvores grandonas que conhecemos – cortadas por pequenos córregos (creeks) que permanecem sem água nove ou dez meses por ano, e sofrem enchentes extremamente rápidas e letais na época das chuvas. A paisagem se parece muito com os sertões nordestinos e o serrado do Brasil central, é uma espécie de mistura dos dois sistemas. Se bem que, os agricultores fazendo uso de tecnologia para obter água do subsolo e criatividade, transformam vastas regiões desertas em grandes “plantations” de cana-de-açúcar, girassol e trigo, como bem vi em minhas andanças por lá. Quando se fala daquele país, as primeiras coisas que nos vêm à mente são cangurus e bumerangues, nada mais lógico já que é isso que a propaganda turística explora. Contudo, mesmo lembrando que bumerangues e cangurus são importantes fontes de atração turística, a Austrália possui outros itens que a tornam um país bem colocado no chamado concerto das nações. Maiores reservas de ferro, cobre, alumínio, zinco, carvão, ouro, pedras preciosas como diamantes, safiras e opalas. Aliás, tive oportunidade de conhecer uma região de garimpos. Vale pela curiosidade, fomos a uma cidadezinha apropriadamente chamada Saphire, onde se encontra a maior concentração safiras do planeta. Lá, mediante um pequeno pagamento pode-se garimpar um pouco. O resultado foi um monte de lixo em forma de pedrinhas não aproveitáveis comercialmente e umas cinco ou seis de boa qualidade que puderam ser lapidadas. Mandei lapidá-las aqui no Brasil e guardei como lembrança da minha primeira experiência como garimpeiro. Duas das pedrinhas têm mais de quilate e meio de peso, lembrando que um quilate vale um quinto do grama, ou seja, um grama equivale a cinco quilates. Além das belezas naturais como a maior barreira de corais do planeta, a Austrália e a Nova Zelândia são os únicos países de primeiro mundo do hemisfério sul que têm uma distribuição de renda das melhores, só perdendo para o Canadá. Longe de mim fazer apologia gratuita das virtudes de um país o qual está tão distante tanto física como culturalmente do Brasil varonil como a Terra está da Lua, mas, acontece que tenho um filho e uma nora australianos, e, quem sabe, terei um neto também num futuro próximo, e eu mesmo me sinto como pertencendo um pouco àquela terra. Abraços, JAIR. Floripa, 23/03/09.