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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Canibal



Nem a psiquiatria consegue explicar desvios comportamentais extremos como o canibalismo não motivado por fome letal. É um evento tão radical que foge das definições acadêmicas que a medicina da mente se socorre para enquadrar perversões.
Gustav Frank nasceu em 13 de agosto de 1890, fora dos limites urbanos da cidade de Palmeira, na pequena Vila Pinhões, hoje desaparecida depois que a estrada que liga Paranaguá a Assunção no Paraguai desapropriou suas terras. Oriundo de uma família de médias posses, proprietária de terras nas quais plantava milho, criava porcos e algumas vacas leiteiras, parece que teve uma infância bem comum, embora pelo que consta teve muitas dificuldades na escola e uma relação difícil com pai. Discussões ásperas sobre seu desempenho escolar fizeram com que ele, aos doze anos, fugisse de casa para trabalhar na construção de estradas. Há indícios que sua mãe havia falecido nesta época e ele viu-se desamparado porque tinha uma relação quase doentia de afeto a ela, enquanto ao seu pai nutria apenas temor e desprezo. Não há registro do que ele fez nos treze anos seguintes, mas, imagina-se que não tenha mantido relações com a família. Quando ele tinha 25 anos seu pai faleceu. Deixou a propriedade para seu irmão Karl, e uma quantia em dinheiro a Gustav a qual permitiu a ele comprar uma casa grande, antiga e decrépita em Palmeira.
Gustav alugou uma pequena loja, ao lado de sua nova casa, onde ele vendia alimentos e outros suprimentos para a população pobre do bairro. Com o passar dos anos ele se tornou querido e respeitado pelos quase cinco mil habitantes da cidade. Religioso ao extremo, tornou-se uma espécie de coringa da igreja batista local onde costumava manter o velho órgão em funcionamento adequado e auxiliar em todas as festas e eventos da congregação. Gostava de crianças e era igualmente gentil com conhecidos e estranhos. Aos cinquenta anos, tornou-se uma espécie de papai Noel de cabelos e barba ruivos, era querido de todos. Nunca enriqueceu e nem se tornou famoso, mas tinha bons amigos e, dizia-se, na sua mesa havia sempre comida suficiente para quem o visitasse. Era aparentemente o tipo de pessoa que todos gostariam de ter como vizinho. Podia ser considerado um cidadão acima de qualquer suspeita.
Depois que crises sucessivas fizeram com que fechasse seu pequeno negócio, Gustav passou a vender de porta em porta, cordões de sapato, suspensórios, cintos, sabão caseiro, agulhas de costura e outras miudezas. Uma vez por semana, em malas enormes, levava seu pequeno estoque às localidades de Pugas, Quero-quero, São Luis do Purunã, Porto amazonas e Irati, onde expunha os produtos nos mercados municipais ou em locais públicos de movimento. Logo acrescentou conserva de porco ao seu acervo de produtos. Parece que aos 52 anos, embora vivendo de biscates como se dizia, não morreria de fome, aliás, até engordara.
Mesmo na escassez dos mantimentos mais básicos decorrente da guerra que se desenvolvia na Europa, Gustav continuava a ser gentil e prestimoso como sempre. Aos andarilhos que passavam pedindo de porta em porta, ele fazia questão de dar abrigo e fornecer comida. Era uma espécie de guardião da caridade cristã. E suas conservas de carne de porco tinham uma aceitação elevada entre a população que pouca opção de alimentos dispunha.
Um sinal inquietante de que alguma coisa estava errada surgiu em setembro de 1942, quando um andarilho de apelido Garnizé, saiu correndo do casarão de Frank, sangrando muito com um ferimento na cabeça e gritando em desespero pela rua. Alertado pela gritaria, um vizinho saiu de casa para ver o que se passava. Na rua viu o pedinte coberto de sangue, falando rápido e desordenado que o velho ruivo tentara matá-lo com um machado. O vizinho, que se chamava Gabriel, incrédulo mas preocupado, levou-o à delegacia onde ele reiterou a acusação e foi levado ao hospital onde lhe fizeram um curativo e o baixaram para observação.
Embora descrente da afirmação do mendigo, o delegado pediu que Frank comparecesse ao distrito para confrontar a acusação de tentativa de assassinato. O velho, muito nervoso e falando de maneira atabalhoada, explicou que, como de hábito, havia oferecido hospedagem ao rapaz e que este tentara assaltá-lo e ele havia se defendido com o primeiro objeto que encontrou. Zeloso, o policial mesmo em dúvida sobre qual versão era verdadeira, deteve Frank sob custódia até que investigação mais apurada esclarecesse os fatos. Por volta das onze horas, o policial de plantão passou pela cela de Frank para ver se tudo estava bem. Para seu horror, encontrou o corpo sem vida de Frank balançando nas grades pendurado numa corda feita de lençóis rasgados.
No dia seguinte, os parentes de Frank foram avisados do suicídio e seu casarão foi interditado até que investigação total fosse efetuada. As acusações de Garnizé ainda estavam pendentes. O delegado com sua equipe, em seguida, foi ao casarão do suicida procurar qualquer evidência antes de liberar os pertences de Frank. Ainda que a entrada da casa se fizesse pela sala de visitas onde nada havia de anormal, também na copa, onde existia uma mesa de jantar com seis cadeiras, nada indicava qualquer ilicitude. Porém, ao entrar na cozinha os homens tropeçaram numa verdadeira loja de horrores, um labirinto asqueroso de imundícies acumuladas. Restos de ossos empilhados num canto, crânios em outro, pilhas de roupas e sapatos e prateleiras cheias de vidros de conserva “de porco” prontos para venda. No fogão uma panela grande com pedaços de carne aparentemente humana cozidos. Alguns órgãos humanos sobre a mesa, uns crus outros assados. As cadeiras da cozinha haviam sido revestidas de pele humana, o mesmo material havia sido usado para recobrir abajures e cestas de lixo. A tigela sobre a mesa, de aparência estranha, havia sido feita com o topo de um crânio humano. No quarto de dormir de Frank, as descobertas continuavam além da imaginação. Uma mesa escorada em três tíbias cruzadas a guisa de pés e caveiras sorrindo nas colunas da cabeceira da cama. Debaixo da cama encontrara restos mumificados de orelhas enfiadas num cordão como um colar macabro. Na parede havia uma coleção de máscaras faciais feitas com a pele dos rostos de nove vítimas.
Análises posteriores comprovaram que a carne “de porco” que era vendida por Gustav e tão aceita pela população, na verdade era humana. Parece que, durante anos, Gustav Frank, aquele bom cristão que todos gostavam, havia sido um canibal que vendia carne em conserva de suas vítimas, como se de suíno fosse, e se alimentava das vísceras daqueles sem teto que matava. Ao todo foram computados restos de 32 corpos dentro da casa e enterrados no jardim. Jamais se soube o que levou aquele homem à prática desses horrores. Às autoridades não convinha dar notoriedade àqueles funestos eventos, de modo que optou-se por ocultar da imprensa tudo que se relacionava ao caso. Não havia porque dar divulgação àquelas perversões, mesmo porque quase todo mundo na cidade havia comido carne humana. O que aqui está relatado foi extraído dos autos do inquérito que se instaurou na época.
Pois é, a vida real, por incrível que pareça, costuma ser mais surpreendente que a mais estranha ficção, Hannibal Lecter é apenas uma paródia bisonha do mais medonho canibal registrado na história deste país: Gustav Frank, o qual ficou conhecido como Jack Estripador de Palmeira. JAIR, Floripa, 03/11/11.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Sobre canibalismo


Tabu, do Houaiss: pessoa, animal, prática ou coisa em que é vedado tocar ou referir-se a ela por deter um poder sobrenatural julgado perigoso, impuro ou repugnante. Canibalismo é, essencialmente, tabu.

Por ser tabu, para as pessoas civilizadas a idéia de canibalismo é repulsiva, tanto que, quando alguns indivíduos se veem frente a uma realidade, sem alternativa senão a de comer carne de seus companheiros ou morrer de fome – como aconteceu com um avião uruguaio com 45 ocupantes que caiu na cordilheira do Andes em 1972 – o resto do mundo assiste a isso com horror, mas também com certa dose da fascinação mórbida. Mais ou menos como aquelas pessoas que param para ver um desastre de automóveis onde haja mortos.

O canibalismo é visto como uma das mais bárbaras práticas de tribos primitivas e como prova de sua agressividade selvagem. Portanto quando arqueólogos encontram restos fósseis de nossos ancestrais onde há provas cabais que eles comeram seus semelhantes, é usual as pessoas julgarem que descendemos de seres brutais que almoçavam seus semelhantes para não serem jantados por eles. Pura necedade, porquanto aceitar essa hipótese é ignorar o real significado do canibalismo, além, é claro, o de comer o semelhante para não morrer de fome.

Além dos leões, os humanos são os únicos mamíferos pelo que se observa que em certas ocasiões comem seus iguais. Quando um leão macho assume o controle de um bando, em geral come os filhotes e passa a produzir sua própria prole, empenhando-se para impedir que outros machos fecundem as fêmeas sob seu “comando”. Embora isso possa parecer cruel e carnificina desnecessária porque contraria a conservação do bando, a razão biológica para o comportamento do macho alfa é clara: a geração da prole deve ser de um animal muito poderoso e dominante: ele mesmo. Entretanto, o canibalismo entre humanos – antropofagia – ocorre por razões muito diferentes.

De modo geral, há dois tipos de canibalismo, e a distinção entre eles é fundamental. No primeiro tipo, os membros de uma tribo comem indivíduos de outra, este é o chamado exocanibalismo. Na segunda versão, conhecida como endocanibalismo, os indivíduos comem membros de sua própria tribo. As razões para essas duas formas de antropofagismos são diferentes, mas ambas as práticas ainda são encontradas entre tribos não civilizadas.

No exocanibalismo os vencedores de uma batalha ou de uma guerra costumam comer seus inimigos para exorcizar suas almas que poderiam vir a lhes causar danos ou a suas lavouras. Normalmente é praticado logo após a morte do guerreiro e comem apenas algumas partes consideradas “nobres” de suas carnes, como pedaços de músculos das pernas e dos braços. Em geral apenas os que participaram dos embates é que participam do rito, mulheres, velhos e crianças ficam de fora. Essa prática ainda é observada em algumas tribos da Nova Guiné e se tem notícias que silvícolas da região entre o Brasil e a Colômbia também o fazem.

No caso de endocanibalismo, os mortos são devorados ritualmente por seus parentes para perpetuar suas qualidades e, talvez, manter suas almas vivas através de partes de seus corpos. Na prática, o que se faz é torrar alguns de seus ossos ao fogo, triturar o carvão resultante e colocar o pó numa bebida de milho a qual os parentes devem beber. Como se vê, algo muito mais “light” do que em geral se pensa.

Então, como propõe a História da Infâmia brasileira a qual diz que Dom Pedro Fernandes Sardinha, e outros 90 integrantes de sua comitiva foram devorados pelos terríveis índios Caetés, parece ser um exagero que visava demonizar os índios de modo a justificar quaisquer atrocidades que contra eles se praticasse. Cogitam os estudiosos, a possibilidade de que os três sobreviventes que conseguiram escapar, teriam responsabilizado os caetés com o objetivo de utilizar a falsa acusação da morte do bispo pelas mãos destes para persegui-los até a extinção, a fim de tomar-lhes as terras. História nada edificante, portanto.

Fora esses episódios, algumas vezes a história já descreveu sobreviventes de naufrágios comendo a carne de seus companheiros mortos para não morrer de fome, nada diferente do que aconteceu nos Andes. O canibalismo, pelo que se percebe, não é e nunca foi uma opção de vida, uma forma de obter proteínas em substituição à caça, foi apenas a consequência de situações especialíssimas, ou um rito cultural mais ou menos exótico de algum povo isolado e com costumes estranhos para nós civilizados. JAIR, Floripa, 23/04/11.