Mostrando postagens com marcador Agricultura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Agricultura. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Codornas



Codornas são pássaros da espécie Coturnix da família das galinhas mesmo. Aqui no Brasil costuma-se criar as européias chamadas codornas italianas, cuja carne é deliciosa, e ovos, comidos como aperitivo, têm fama de afrodisíacos. Mas, em nossos campos, principalmente no centro sul do país, elas existem em estado selvagem, cobiçadas presas de caçadores destituídos de consciência ecológica. Pois é, minha Palmeira natal era cercada por campos gerais, grande parte em estado natural, nos quais as codornas encontravam o habitat ideal para se reproduzirem sem maiores transtornos, ou seja, viviam sem serem perturbadas por ninguém ou por criações de gados que pisassem em seus ninhos. Quer dizer, essa condição ideal, embora sendo regra naquele tempo, não livrava as pobres aves das exceções que as transformavam de pássaros livres em jantar de algum palmeirense com uma arma na mão e um cachorro perdigueiro no chão. Inclusive um tio meu que era caçador afamado até que se deu conta que as aves também tinham direito à vida e deixou a caça para sempre.
Como já tive oportunidade de dizer no texto “A Cetra”, nunca matei um pássaro, não tenho na consciência o peso de ter tirado a vida de qualquer avezinha dessas que a natureza criou para voarem e embelezarem os céus ou adornarem as árvores como se fossem frutos coloridos, pulsantes e cantadores. Contudo, o mundo que queremos, ou aquele mundo utópico onde todas as coisas estão nos seus lugares, onde as relações entre os seres que nele vivem não contemplam a extinção de uns para benefício de outros, não existe, o mundo que vivemos é cruel, foge do modelo edênico. As codornas que habitavam os campos que rodeavam Palmeira tornaram-se provas da iniquidade do Homo sapiens, o qual tantas vezes se arroga produto supremo da Entidade que o criou à sua imagem e semelhança. Pobres codornas! Milhões de anos usufruindo de um ambiente em que tudo se ajustava, onde se alimentavam de sementes, frutas e insetos, acasalavam-se e criavam seus filhotes sem alterar o sutil equilíbrio natural que mantém a cadeia alimentar funcionando como uma máquina onde cada peça se ajusta com primor ao todo, sem que haja supremacia de uma sobre outra. Milhões de anos servindo de alimento a guarás e cachorros do mato, sem que isso significasse apreciável declínio de sua população, pelo contrário, a predação mantinha o plantel saudável pela seleção dos mais aptos, estes sobreviviam e deixavam descendentes. Milhões de anos que não as prepararam para a adveniência de seres brutos, ignorantes e malignos que, sem qualquer hesitação, moveram montanhas para causar-lhes males irreversíveis, os quais resultaram na sua quase extinção.
As aves e toda a complexidade biológica do ambiente dos campos conseguiram se manter em constante interação dinâmica até a chegada do Homo, daí em diante impôs-se uma transformação assaz deletéria que, de tudo que existiu, pouca coisa restou. Primeiro foram os lobos guarás e cachorros do mato caçados impiedosamente porque “comiam galinhas” dos criadores; depois foi a caça ilegal que, aliás, num primeiro momento, constituiu-se um fator de equilíbrio, porquanto a eliminação dos predadores havia permitido o crescimento populacional descontrolado das aves; em seguida surgiram no horizonte as máquinas agrícolas que destruíam o ambiente e tornavam impossível a vida das aves em vastas áreas, ainda que restassem nichos nos quais os animais poderiam reproduzir-se com certa tranquilidade; por último, de forma devastadora, vieram os agrotóxicos que envenenavam as águas, o solo, matavam os insetos que serviam de alimento às avezinhas e impediam a formação das cascas de seus ovos. Foi o fim inglório de bichos inofensivos que só queriam viver e deixar que outros vivessem.
Agora vejamos, se a jumentice humana não fosse o que é, poderiam os agricultores da região ter mantido algumas áreas intocadas de modo que as codornas tivessem onde viver. Comedoras vorazes de insetos, elas se constituiriam no fator de controle de pragas eliminando a utilização dos tais agrotóxicos que envenenaram tudo a sua volta. Se a ganância aliada à falta de visão dos humanos não se erigisse na pior característica desse primata imbecil, hoje teríamos codornas saudáveis ajudando no controle de pragas das plantações, o uso de venenos estaria diminuído ou eliminado e até caçadores inconsolados com seu desaparecimento poderiam ter as aves excedentes como alvo de suas espingardas e uma excelente alternativa culinária. A racionalidade que pode gerar um mundo melhor de se viver, onde as espécies possam ocupar seus nichos sem expulsar as demais, parece não ser um atributo dos homens, lamentavelmente. JAIR, Floripa, 16/01/11.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Agricultura inteligente



O bicho homem depois de vagar pelo Planeta dezenas de milhares anos como caçador-coletor; depois de fundar centenas de núcleos populacionais em todos os continentes habitáveis; depois de dominar o fogo, instalou-se, finalmente, como pastor-lavrador nas cercanias de onde hoje é o Oriente Médio. A cerca de onze mil anos, agora fixado à terra, não mais necessitando deslocar-se para onde o clima ou as facilidades de colheitas e caça o levassem, iniciou o período de domesticação de animais e plantas.

O Homo sapiens tornou-se exímio agricultor e essa atividade fundou a civilização. Sem a domesticação de plantas que atendessem suas necessidades calóricas, sem agricultura que o fixasse à terra, o homem ainda estaria vagando como um primata errante na vastidão do Planeta, ou já se teria extinguido. A civilização tudo deve à agricultura.

Inquestionavelmente o homem é o campeão agrícola de todas as espécies, contudo, quero falar de uma espécie que levou a agricultura inteligente ao patamar mais elevado. Em um episódio extraordinário da evolução as formigas se tornaram agricultoras a 50 milhões de anos. Até hoje elas continuam a prática com grande sucesso e conseguiram evitar muitos problemas que nós sofremos com as pragas.

Formigas que cultivam fungos podem ser encontradas em muitas florestas tropicais em várias partes do mundo. Em algumas espécies uma casta de formigas grandes, chamadas cortadeiras, sai do formigueiro todos os dias a procura de plantas que atendam suas exigências. Geralmente cortam folhas e as levam ao formigueiro, às vezes carregam até vinte vezes o seu próprio peso, são super formigas. No interior da terra elas passam essas folhas para formigas menores encarregadas de cortar em pedaços menores, bem pequenos mesmo. Depois, outra casta de formigas menores ainda, é encarregada de mastigar os pedacinhos de forma a torná-los uma pasta que, espalhada na plantação de fungos, age como fertilizante. O fungo decompõe a pasta e cresce, e as formigas se alimentam de seus nutrientes.

O fungo que cresce no jardim das cortadeiras de folhas tornou-se totalmente dependente de suas criadoras, tal como acontece com o milho em relação ao homem que não germina a não ser plantado por mãos humanas. Os fungos que vivem livres na natureza se reproduzem emitindo esporos que são carregados pelo vento. Os fungos cultivados pelas formigas perderam a capacidade de se reproduzir. Eles permanecem no formigueiro e só se propagam quando uma jovem rainha carrega porções em suas mandíbulas e vai fundar outra colônia.

Essas lavradoras desfrutam de um enorme benefício ao cuidar de seus fungos. O metabolismo das formigas não tem capacidade de digerir as folhas, a celulose é um impedimento, de modo que o grande potencial alimentar que uma floresta representa perde-se para a maioria delas. As cortadeiras deixam que os fungos carreguem o piano, ou seja, eles digerem a parte mais difícil das plantas e as formigas aproveitam os nutrientes que os fungos produzem. E graças a essa parceria as formigas tornaram-se os insetos mais poderosos dos ecossistemas das florestas tropicais, elas destroem até um quinto das plantas de certas florestas.

Os cientistas estudam essa parceria tentando entender como isso começou e como evoluiu. Como todas as 200 espécies de formigas agricultoras são parentes próximas, os cientistas presumem que a origem dessa prática se deva a um única linhagem a qual “inventou” a agricultura.

Desde 1990, Ulrich Mueller e Ted Schultz têm estudado as formigas cortadeiras de todo o mundo com intuito de estabelecer como formigas e fungos evoluíram juntos. Graças ao trabalho de Mueller, agora se sabe que o trabalho das formigas se parece muito com o dos humanos. Nossos ancestrais no México, China, África e Oriente Médio domesticaram um punhado de plantas e animais, uma minúscula fração das espécies selvagens da Terra, exatamente como as formigas fizeram com os milhares de espécies de fungos existentes das quais domesticaram apenas algumas centenas. À medida que as tribos e aglomerados humanos entravam em contato passavam seus conhecimentos e parte de suas colheitas uns aos outros, como esporos de fungos se disseminando. A diferença ente nós e as formigas é que elas descobriram a agricultura “apenas” 50 milhões de anos antes.

Em comum conosco, elas têm que lutar contra o controle de pragas exatamente como um fazendeiro humano faz. No caso do jardim (acho que pomar talvez seja mais adequado) delas, às vezes entram esporos de fungos parasitas que tendem a matar seus fungos domésticos. Muller descobriu que, tal como os humanos, elas usam um fungicida que só ataca o invasor. Algumas delas possuem sobre a própria pele uma bactéria Streptomyces, que ataca apenas o fungo estranho preservando o cultivado, e que pode desenvolver novas formas de fungicida em resposta a qualquer resistência que o fungo parasita crie. Diferente de nós que, para controlarmos pragas, inventamos inseticidas como o DDT o qual acaba criando organismos resistentes a ele, as formigas coletaram bactérias que evoluem juntas com fungo, na medida que estes criam resistência a bactéria também cria novas toxinas que atacam o fungo evoluído. Em evolução isso se chama “corrida armamentista”, propriedade que têm os seres de evoluírem para se defenderem do predador, e que este tem de desenvolver novas armas de ataque.

De qualquer forma, o que as formigas têm a nos ensinar é que, ao usar um organismo vivo como arma para se defender de seres prejudiciais, elas estão usando uma fórmula ecologicamente correta, formula que, por isso, tem duas vantagens absolutamente geniais: 1) não agride a natureza, e; 2) não cria resistência no invasor, de forma que sempre surte efeito, contrário a nossos defensivos que acabam sendo aplicados em doses cada vez mais altas e cada vez menos eficientes. A agricultura delas é o que podemos chamar de agricultura inteligente. JAIR, Floripa, 01/09/10.