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segunda-feira, 16 de março de 2009

O FALCONÍDEO, O QUELÔNIO E O DRAMATURGO


Falconídeos, como são classificados os gaviões e as águias, são aves chamadas injustamente, de rapina. Já que rapina é, segundo registram os dicionários: roubo feito com violência, extorsão, a classificação, mais uma vez, é uma forma covarde de atribuir aos animais falha exclusivamente dos homens, o que não é novidade, pois o homo sapiens humaniza os outros seres quando os quer transgressores, feios, desleais, néscios, perversos ou deformados. Mas, não é esse o escopo do texto, vamos falar sobre o carancho mesmo. Carancho é como se denomina no sul os gaviões de um modo geral e, em especial, um tipo chamado “Carancho-caramujeiro”, porque se alimenta de caramujos, os quais costuma levar nas garras até certa altura donde os solta sobre pedras para que quebrem e exponham suas carnes, que são um verdadeiro pitéu para seu paladar especializado. Existe uma variedade falconídea no norte da África e nas margens do Mediterrâneo que é chamada de Águia egípcia e se comporta de modo similar ao Carancho-caramujeiro de nossas paragens. Essa águia, que pelo porte está mais para gavião, também leva as presas nas garras e as solta das alturas para que quebrem ao cair. Pois é, além de caramujos, a Águia egípcia alimenta-se de tartarugas terrestres, quelônios abundantes nas ilhas e margens do Mediterrâneo. A história registra que Ésquilo, o primeiro grande autor trágico, nasceu em Elêusis, Grécia no ano de 525 a.C., autor de Os Persas, Os sete contra Tebas, As Suplicantes e Prometeu Acorrentado, ficou extremamente melindrado quando um conterrâneo seu, general Sófocles, foi premiado no festival de Dionísios por uma peça de grande apelo junto ao povo grego. Tão chateado ficou o autor trágico que resolveu se auto-exilar na Sicília, então província grega. Pois estava Ésquilo a deambular pelas planícies da ilha numa bela manhã ensolarada de 456 a.C., talvez, peripateticamente bolando uma nova tragédia teatral que lhe devolvesse a atenção da mídia que Sófocles lhe havia roubado, quando uma Águia egípcia, totalmente alheia ao que passava na mente do dramaturgo, soltou de grande altura a tartaruga que trazia nas garras, com intuito de quebrá-la contra as rochas que afloram naquelas campinas, e o quelônio precipitou-se sobre a cabeça do grego matando-o. Pelo que se sabe este é o único acidente desse tipo já registrado na história da humanidade. Um infeliz encontro entre um carancho, um jabuti e a cabeça de um grego inteligente e criativo privou a humanidade de um dos maiores autores da antiguidade. Enquanto isso, Sófocles, criador de mais de cem peças, entre elas as obras-primas escritas depois da morte de Ésquilo, Antígona, Édipo Rei e Elektra é o dramaturgo grego mais representado no planeta até hoje. Sófocles era uma espécie de, senão discípulo pelos menos seguidor de Ésquilo, e alunos costumam ficar à sombra dos mestres enquanto estes vivem, então vale uma ilação: Teria Sófocles entrado para a história do teatro como o maior autor de todos os tempos se aquela águia tivesse soltado o quelônio um metro distante de Ésquilo? JAIR, Floripa, 16/03/09.